terça-feira, 29 de maio de 2012

«Canon ou Nikon?»

Quando fui buscar as minhas impressões novas, a conversa com a pessoa que me atendeu resvalou para a edição de imagem e ganhou um novo interlocutor - um informático que, pressurosamente, me quis mostrar um plug-in dos Photoshop denominado PT Lens (que é bestial, mas o DxO Pro 7 faz o mesmo sem necessidade de plug-ins). Como o informático queria realmente convencer-me dos méritos da aplicação, chamou-me para junto do computador para fazer uma demonstração prática; quando tratou de escolher as configurações, perguntou-me com a maior das naturalidades: «Canon ou Nikon?»
Para aquela pessoa, era uma impossibilidade lógica eu ter uma câmara que não fosse uma Canon ou uma Nikon. Toda a gente tem uma Canon ou uma Nikon! Senti-me como um alienígena, uma avis rara que aterrasse de repente num mundo homogeneizado e bipolarizado, semelhante a um sistema democrático ocidental em que apenas dois partidos mais ou menos iguais alternam no poder. Ultrapassado o breve complexo de inferioridade e o sentimento de alienação que me percorreram a psique durante dois ou três segundos, respondi que nem uma nem outra.
Há vários efeitos nocivos neste duopólio a que muitos chamam «Canikon». O primeiro deles é que, à custa de falta de concorrência, a indústria fotográfica pouco ou nada evoluiu entre 2003 e 2009 (ano em que foi lançada a primeira mirrorless a sério, a Olympus E-P1). Tornou-se convicção geral que as únicas câmaras capazes de uma alta qualidade de imagem eram as DSLRs, cujo mercado era (é) dominado por estes dois mastodontes. O sistema DSLR está de tal maneira tetanizado que as evoluções são de carácter meramente marginal, e, num certo sentido, pouco relevantes: a introdução do vídeo - que não tem qualquer tipo de interesse para o fotógrafo dedicado -, os ecrãs rotativos, etc. A única coisa verdadeiramente importante que aconteceu às SLRs desde a sua concepção foi a passagem para o domínio digital. A Canon e a Nikon limitam-se a renovar os seus modelos ciclicamente, introduzindo pequenas evoluções no que são, essencialmente, as câmaras da geração anterior - mais megapixel, menos megapixel. A única coisa excitante que aconteceu no império Canikon foi a introdução da Nikon D800, neste mesmo ano, com uns mastodônticos 36 megapixéis (o que, ao que se diz, se repercute no nível de ruído por deteriorar, como aliás era previsível, a relação sinal/ruído).
As DSLR, cujo mercado a Canon e a Nikon hegemonizam, são câmaras capazes de alta qualidade de imagem, e são a única escolha possível para os fotojornalistas, mas não são as únicas câmaras de qualidade. Aliás, se entrarmos num estúdio de grande porte, verificamos que as câmaras aí usadas não são DSLRs, mas câmaras de médio formato (Mamiya, Hasselblad, etc.) De resto, as DSLRs começam a ser ameaçadas a montante e a jusante. No segmento mais baixo, estão sob a ameaça de câmaras mirrorless cada vez mais evoluídas e com vantagens substanciais em relação às reflex no peso, transportabilidade e flexibilidade. Para fazer fotografia de rua, por exemplo (ou qualquer outra modalidade que exija discrição), o uso de uma DSLR é um obstáculo. No escalão superior, têm sido feitos esforços para produzir câmaras de médio formato mais portáteis do que as monstruosas Hasselblad. Há a Leica S2 - cujo preço é absolutamente delirante - e, sobretudo, a Pentax 645D. Não são para fotojornalistas, certamente, mas têm uma qualidade de imagem inerentemente superior à das DSLR profissionais.
Outro problema que a estagnação do segmento das DSLR trouxe foi a indigência com que as câmaras da Canon ou da Nikon são construídas. Meus caros amigos: mesmo as Olympus do formato micro 4/3 dão lições de qualidade de construção às reflex da Canon e da Nikon. Há algumas semanas aconteceu-me mexer numa câmara do segmento médio/superior de um destes fabricantes. O barulho do obturador - cujo botão é, evidentemente, de plástico - denuncia uma qualidade de construção que é superada por muitas compactas. É uma orgia de plástico - e do mais fatela que existe à superfície da terra. Há baldes e alguidares feitos com plásticos melhores. E já nem falo da questão da obsolescência programada, que tem por efeito que estas câmaras sejam feitas para durar não mais que 4 ou 5 anos.
O domínio da Canon e da Nikon tem ainda o efeito perverso de pôr na sombra outras grandes câmaras DSLR, tão boas ou melhores que as Canikon: as Pentax e as Sigma. A Pentax K-5 é por muitos considerada a melhor reflex da sua categoria (compete com a Canon 60D e a Nikon D7000), mas... não é uma Canikon. E a Sigma usa a tecnologia mais inteligente que conheço: o sensor Foveon. Mas o amador, para não se sentir embaraçado em frente dos seus amigos e dos informáticos de lojas de material fotográfico por não ter uma Canon ou uma Nikon, ignora estas câmaras, o que é uma enorme injustiça. (Note-se que não me refiro aqui às reflex da Olympus, porque têm um handicap notório em relação à concorrência no seu sensor 4/3, nem às da Sony, porque esta foi a marca que matou a minha predilecta Minolta...)
Há outra consequência nociva, mas esta só afecta quem frequenta fóruns de fotografia: a Canon e a Nikon têm fãs verdadeiramente ferozes que passam o tempo a insultarem-se uns aos outros e a usar argumentos ridículos para afirmar a superioridade da sua marca predilecta em relação ao modelo equivalente da outra. Se pensam que os tipos das claques do Porto e do Benfica são umas bestas, leiam os comentários aos artigos sobre lançamentos de câmaras da Canon ou da Nikon no DPReview. Vão ficar surpreendidos!
O meu vaticínio é que, dentro de alguns anos, apenas as reflex profissionais e semi-profissionais, com sensor full frame, farão sentido. Os profissionais com trabalhos mais exigentes, como os repórteres ou os fotógrafos de casamentos, continuarão a necessitar de câmaras como estas, mas o segmento inferior será tomado pelas mirrorless, para as quais os sensores APS-C terão migrado, enquanto os estúdios e os profissionais para quem os valores ISO muito elevados não são uma preocupação usarão câmaras de médio formato como a Pentax 645D. Como isto constituirá uma redução substancial na quota de mercado, o duo Canikon virar-se-á para as mirrorless - mas não com o perfeito disparate que é a série 1 da Nikon. Não é preciso ser o Professor Mambo para prever isto.  

9 comentários:

Anónimo disse...

desculpa mas tudo o que é feito hoje em dia, seja Canon, Nikon ou Olympus não é feito para durar muito tempo...Marca nenhuma tem interesse em fazer algo «indestrutível». Tudo,hoje em dia, tem um prazo.
Há uma questão que se esqueceu de abordar, a dimensão. Nem toda a gente quer uma máquina pequena( as Pentax Q são ridículas ,como é que se maneja aquilo??). Por muito boa que seja a 4/3 eu irei sempre para a DSLR.

OLM

Manuel Vilar de Macedo disse...

Não me esqueci da dimensão:
«No segmento mais baixo, [as DSLR] estão sob a ameaça de câmaras mirrorless cada vez mais evoluídas e com vantagens substanciais em relação às reflex no peso, transportabilidade e flexibilidade.»
As 4/3 não são as únicas mirrorless, e é possível que não sejam as melhores - mas são as que têm mais e melhores objectivas.
Quanto à duração, tem razão. Só as Leica e as médio formato é que são feitas para durar nos dias de hoje. É um assunto a que já me referi, porque não comecei o blogue ontem. E este até tem um motor de busca e tudo... cmps

Anónimo disse...

Sigo o seu blog com alguma atenção, e já reparei que tem um ódio de estimação às DSLR, e usa argumentos apaixonados que são meias verdades.
Eu concordo consigo quando diz que as mirrorless estão cá para ficar. Tem a grande vantagem na sua dimensão é bem mais práctica seja pela dimensão do corpo seja o das próprias lentes, não tenho tanta certeza em relação ao Micro 4/3, mas se calhar até chega.
A nível da velocidade de focagem e a velocidade "que a informação chega ao olho" ainda estão muito longe das DSLR fundamental para um fotojornalista uma das razões porque ainda usam DSLR e que tem de tirar aquela foto naquele momento, é por isso que não vê nenhum foto jornalista com uma mirrorless.

Mas as mirrorless tem o seu segmento, alguém que viaja e fotografa paisagens encontra nas mirrorless grandes vantagens.

Quanto à evolução das DSLR, discordo consigo totalmente, a evolução tem sido enorme ao nível da quantidade de ruído e pode verificar que os megapixels não aumentaram assim tanto nos ultimos 2/3 anos ao contrário da qualidade da imagem que tem evoluído bastante. A focagem, a estabilização de imagem são factores que tem evoluído imenso no últimos anos.

Há espaço para todas, cada uma no seu segmento. Aliás até acho que as compactas estão mais ameaçadas pelos camâras dos telemóveis do que propriamente as DSLR pelas mirrorless.
Também me parece que muita gente que tem uma DSLR hoje, provavelmete uma mirrorless servia-lhes melhor.

Fica-lhe até um pouco mal, pensar que é mais inteligente do que todos os outros profissionais que tem muito anos de fotografia e que estes não sabem muito bem o que necessitam e o melhor material que lhes serve.

Cumprimentos.
LM

Manuel Vilar de Macedo disse...

LM:
Publiquei o seu comentário sem ler o último parágrafo, no qual, por assim dizer, borra a pintura toda. Não sou um profissional - nem sequer me considero um fotógrafo -, não penso que sou mais inteligente que ninguém nem tenho pretensões de dizer seja a quem for o que deve usar e comprar. Nem me parece que seja dessa maneira que a maioria dos leitores interpreta o que escrevo. Não compreendo, deste modo, a leviandade com que se permite formular essas conclusões.
Não tenho nenhum «ódio de estimação» contra seja o que for (com a possível excepção da Pentax K-01, admito...). Se se tivesse dado à maçada de ler textos anteriores em vez de me julgar e às minhas ideias por um único texto, teria concluído que esse ódio só existe na sua mente. As «meias verdades» que me imputa são fundadas numa observação atenta e na interpretação de tendências e estatísticas que não são apenas as da loja de material fotográfico de que sou cliente.
Pode não concordar com o que escrevo. Ainda bem. Já viu o que o mundo seria se todos pensássemos da mesma maneira? No caso da fotografia, todos teríamos uma Canon ou uma Nikon!

Anónimo disse...

Até concordo consigo num ponto, o mundo não é preto e branco, neste caso não Canon e Nikon felizmente há outras "cores", eu percebo que até se torne um pouco irritante quando parece que só há estas marcas, estamos juntos nisto.

Mas o que critico no seu post é que quem lê fica com a impressão que a Canon/Nikon e as DSLR são horriveis e são as responsáveis por um atraso na fotografia.
O que na minha opinião não corresponde à verdade e no meu último parágrafo vai no sentido de lhe fazer se há tantos profissionais a usar DSLR (geralmente Canon e Nikon), alguma vantagem lhes traz.
O que não estou de acordo consigo é no futuro ou falta dele das DSLR. Mas até estamos de acordo em algumas coisas, nomeadamente no "one size does not fit all", o que na minha opinião não exclude nem DSLR, nem as 4/3 nem as médio formato. Já as compactas podem sentir ameaçadas pelos telemóveis.

LM

Manuel Vilar de Macedo disse...

Continua a interpretar mal.
«O meu vaticínio é que, dentro de alguns anos, apenas as reflex profissionais e semi-profissionais, com sensor full frame, farão sentido. Os profissionais com trabalhos mais exigentes, como os repórteres ou os fotógrafos de casamentos, continuarão a necessitar de câmaras como estas, mas o segmento inferior será tomado pelas mirrorless, para as quais os sensores APS-C terão migrado, enquanto os estúdios e os profissionais para quem os valores ISO muito elevados não são uma preocupação usarão câmaras de médio formato como a Pentax 645D.»
Agora que leu outra vez, diga-me lá de onde é que deduz que a Canon e Nikon são «horríveis»?
Por favor pare de me imputar coisas que eu não disse.

Ricardo Rubião disse...

Olá, como vai? Encontrei seu blog por acaso, quando vinha a procurar por mais alguma informação sobre a OM-D.
O problema é que caio em um emaranhado de modelos. Optei por esta camera, por ela ter vários recursos que me agradam, se não fossem dois aspectos cruciais: 1°: A Olympus não dispõe de assistência técnica descente no Brasil; 2°: Como você mesmo diz, o futuro da Olympus na área de imagens é incerta.
Pensei em comprar uma Pana GX1, mas depois de comparar as fotos com uma D7000, parece que ela ficou para trás. Eu gostaria muito de uma câmera em que eu poderia carregar para todos os lados dentro da mochila, nos passeios de mountain bike e motociclismo. Gostaria de uma opinião sua, para que, futuramente eu não me arrependa, por comprar um modelo (D7000) que já está a dois anos no mercado e parece ser um mastodonte, ou outro (GX1), que não tem uma definição descente, nem em seu LCD, e nem na resolução.
Ricardo Rubião.

Manuel Vilar de Macedo disse...

Compre a Nikon.

Anónimo disse...

Plenamente de acordo com o conceito canika. Há máquinas que marcam toda a diferença e estão aqui publicitadas. O problema é só uma questão de mercado.