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terça-feira, 22 de maio de 2012

Um conselho

Hoje estive em casa de Fernando Aroso, um fotógrafo profissional que conheci há dois anos. Mostrei-lhe as minhas fotografias impressas e, felizmente, obtive opiniões favoráveis - especialmente quanto à do manequim da Rua Miguel Bombarda. 
Depois estive a ver as fotografias dele; fotografias da cidade do Porto, em concreto da Foz e da Ribeira. Fiquei sem palavras, como alguém a quem fosse revelado o Grande Segredo da Vida. Fotografias belíssimas, que retratam paisagens que todos nós já vimos e muitos já fotografaram - mas nunca como o fez Fernando Aroso. Aquelas fotografias tinham alma. Algumas podiam ter ruído (ou grão, as do tempo do analógico), podiam estar inclinadas ou mesmo um pouco desfocadas - mas captavam a essência, o modo de ser da cidade do Porto. Fotografias que causam emoções, que vão ao nosso interior e nos despertam emoções e nos fazem identificarmo-nos com o espírito da cidade de uma maneira que só é acessível aos portuenses ou àqueles que, não o sendo, se apaixonam pela cidade ao ponto de a escolherem para nela viver. Ao pé daquelas fotografias, as minhas - mesmo aquelas em que estive tecnicamente próximo da perfeição - pareciam meramente documentais, sem vida, sem alma, frias e sem interesse.
Esta visita foi uma lição. Aprendi que fui longe demais na minha preocupação com a técnica. A técnica não é o mais importante; o que conta, na fotografia, é ter a capacidade de captar momentos únicos e irrepetíveis e fazê-lo conferindo expressão às imagens. Porque a fotografia é uma arte, e a arte é expressão de algo por modos que a sensibilidade, mais que o intelecto, compreende.
Aprendi também algo que já sabia, mas que sempre me recusei a reconhecer: a fotografia digital não tem alma. Pode ganhá-la pelos motivos ou por certas escolhas do fotógrafo, mas a analógica é mais calorosa, mais humana. Ainda não é isto que me vai fazer correr para comprar uma Olympus OM-2, mas a verdade é que nós, as pessoas, somos imperfeitos, e a fotografia digital persegue a perfeição. Pretender alcançar a perfeição - o recorte das figuras, o pormenor, a limpeza de uma imagem - é um disparate (em que eu me preparava para incorrer). A fotografia digital, quando comparada com a analógica, é fria, tal como o som de um CD em comparação com um bom vinil tocado num gira-discos decente.
Por tudo isto, o meu conselho - o conselho n.º 1, a mãe de todos os conselhos - é este: quando fotografarem, impregnem as vossas fotografias de alma. Procurem que ela exprima algo: um sentir, uma emoção. Claro que a técnica é importante para se conseguir exprimir seja o que for com a fotografia, mas, uma vez dominada, deixem que seja a emoção, e não a razão, a comandar as vossas escolhas. Procurem que a fotografia exprima a emoção que vos percorre ao ver determinada cena, seja ela uma paisagem, um grupo de pessoas ou um simples edifício. Lembrem-se que quem vê uma fotografia não quer saber do ISO, do equilíbrio dos brancos, da medição nem de nenhuma dessas coisas que só são importantes no sentido em que nos ajudam a conferir expressão à imagem; quem vê uma fotografia quer ficar impressionado com ela por ser única e lhes transmitir algo. Tentem encher a vossa fotografia de sentido, porque a fotografia tem de ter um conteúdo; não pode ser só forma.
Nunca se esqueçam disto!

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Fernando Aroso

Quando, em Junho do ano passado, escrevi um texto sobre Fernando Aroso, era para ser uma homenagem mais ou menos anónima; pensei, até, que aquela mensagem tivesse sido esquecida e permanecesse soterrada sob a poeira do tempo. Contudo, ao consultar as estatísticas do blogue nos últimos dois dias, verifiquei ter havido um volume muito grande de visualizações da respectiva página. Interroguei-me porquê: afinal de contas, era um texto com quase um ano...
Hoje soube qual a razão dessa popularidade serôdia: o texto foi descoberto por alguém próximo de Fernando Aroso, ou talvez mesmo pelo próprio. Foi curioso (e, ao mesmo tempo, um pouco embaraçoso: ser tímido tem estas consequências) descobrir este renovado interesse no meu texto, porque considero Fernando Aroso um verdadeiro mentor. Foi por causa dele que decidi fazer fotografia. É alguém muito importante para mim, mas é-o sobretudo para a minha cidade e para a fotografia portuguesa. 
Devo sentir-me satisfeito se ajudei, ainda que em modesta medida, a divulgar este que é um dos nomes mais relevantes da fotografia nacional e um dos cidadãos do Porto a quem o justo reconhecimento tarda em chegar. Fica aqui o meu agradecimento a todos os leitores do blogue que consultaram o texto em questão, e a Fernando Aroso - porque sem ele não fotografaria. Nem o ISO 100 existiria.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Rui Palha, fotógrafo de rua

Reincido no elogio. Vim há pouco do Facebook, no qual acabei de assistir aos insultos mais execráveis e rasteiros que vi na Internet, com os quais alguém se permitiu atingir uma pessoa que é minha amiga - e uma amiga que não o é apenas na Internet, mas na vida real. Como disse anteriormente, hoje em dia é mais fácil insultar que elogiar, e as pessoas parecem mais bem preparadas para receber a crítica e o insulto do que o cumprimento e o elogio: este último tende, como também já referi, a ser confundido com adulação, mas não é esse o meu propósito. Entendo que quem tem valor merece ser reconhecido e destacado, porque de contrário corremos o risco de mergulhar no lodaçal da mediocridade. Ademais, e como disse Manuel Laranjeira há mais de um século - sem que as coisas tenham mudado muito entretanto -, vivemos num país «...onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos». E a fotografia de Rui Palha é a inteligência aplicada à arte fotográfica. Há, pois, que reconhecer mérito a quem o tem. O que não é o mesmo que adular, coisa da qual não tenho necessidade nem intento e, de resto, me repugna.
Rui Palha é um dos fotógrafos mais imaginativos e criativos cuja obra conheço. Tem uma predilecção pela fotografia a preto-e-branco, que usa na fotografia de rua, género que aprecio acima de qualquer outro (se procurarem os textos sobre as minhas referências, verão que os fotógrafos de rua ocupam lugares proeminentes). O que primeiro cativa, na obra fotográfica de Rui Palha, é a sua mestria técnica, em particular na escolha da composição e do enquadramento. Esta, contudo, não mais é que o veículo que atrai o olhar para a originalidade dos motivos escolhidos. Há, sem dúvida, uma forte inspiração de Rui Palha na fotografia de Henri Cartier-Bresson, bem patente em algumas das suas fotografias - mas quem é o fotógrafo de rua que se preze que não se inspirou no nome maior entre os maiores da fotografia? -, mas não é imitação: é homenagem. Há também, como marca da fotografia de Rui Palha, o forte sentido geométrico que, invariavelmente, domina as suas composições - jogando com sombras, linhas, enquadramentos e contrastes para criar imagens de uma dinâmica que quase chega a ser vertiginosa. Analisando - se é possível analisar algo quando estamos completamente envolvidos no conteúdo das fotografias e deliciados com a sua contemplação - as imagens de Rui Palha, diria que são os contrastes que mais vivamente as caracterizam: contrastes entre luz e sombra, rectas e curvas, movimento e estático. São estes contrastes que lhe conferem uma qualidade plástica que eleva a fotografia de Rui Palha a um nível superior. Rui Palha tem a capacidade, por mim invejada, de capturar um momento fugidio e passageiro conferindo-lhe uma composição que está muito perto de perfeita, reconhecendo de imediato o facto em si e os elementos gráficos da imagem que lhe vão conferir contexto.
Se tivesse de resumir a fotografia de rua de Rui Palha a um único adjectivo, seria este: surpreendente. As suas fotografias causam surpresa e admiração pela qualidade estética, pelo insólito dos episódios capturados e pela - repito-o - originalidade. Rui Palha é um fotógrafo bem conhecido da comunidade fotográfica portuguesa, e as suas fotografias são também reputadas lá fora; dispensava talvez, por redundantes, estes elogios, mas não posso deixar de os exprimir. Embora não conheça pessoalmente Rui Palha, sei o suficiente para dizer que ele é um fotógrafo que pensa a fotografia - o que é, no meu entender, uma característica importante, em particular nestes tempos em que a banalização e os artifícios da manipulação de imagens tendem a destituir a fotografia do seu estatuto de arte. Tal como Fernando Aroso, o homem que me impeliu a fotografar, Carlos Machado, que me ensinou o que eu não sabia sobre a câmara, e José Antunes, cuja dedicação à fotografia, neste país perdido e confuso, recebe o meu mais veemente aplauso, também Rui Palha é inteiramente merecedor do meu reconhecimento. Pertence ao punhado de fotógrafos que, pelo valor da sua obra, não pode ficar ignorado.
A fotografia de Rui Palha pode ser vista aqui:
www.ruipalha.com
http://www.flickr.com/photos/ruipalha/

domingo, 11 de março de 2012

Sem paciência

Hoje foi um daqueles dias frustrantes. Fui fazer fotografias para a praia da Agudela, e nada resultou como queria: escolhi a lente errada, o local errado, os enquadramentos errados e a maré errada. Só estou a escrever porque decidi escrever um texto por dia neste blogue.
A única consolação foi descobrir a obra de um grande fotógrafo de nome Richard Avedon. Gosto da fotografia de rua a preto-e-branco que ele fez, de alguns retratos e pouco mais; o resto faz-me lembrar Helmut Newton e Annie Leibowitz: fútil, e por vezes gratuito.
Agora vou ter uma semana de trabalho árduo pela frente, contando os dias até que o fim-de-semana chegue. Vou ficar à espera que chegue a encomenda que fiz no sábado: uma base de couro para dar (ainda) mais estilo à minha E-P1. Não é nada verdadeiramente essencial, mas vou comprá-la porque sim. Às vezes apetece comprar coisas porque sim - embora, se bem me conheço, possa vir a lamentar o dispêndio no futuro. Não é uma compra fútil porque faço muita fotografia de rua, e com isto evito o contacto das mãos com a câmara, mas também não é nada de estritamente necessário. Neste momento, as minhas necessidades resumem-se a uma grande-angular que se comporte melhor do que a 17mm. Li algures que a Olympus patenteou há pouco uma nova lente pancake de 17mm/f2.8. Se corrigir os problemas da actual 17mm, compro-a sem pensar duas vezes.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dois esclarecimentos

O meu texto sobre o Carlos Machado, publicado anteontem, e o de hoje sobre os testes DxOMark, carecem de alguns desenvolvimentos que, por as postagens terem sido escritas ao correr da pena, ficaram de fora. Aqui vão.
Quanto ao primeiro texto, o Carlos Machado agradeceu-mo (via Facebook), tendo embora ressalvado que lhe parecia algo exagerado. Aceito que o texto poderá, numa leitura apressada, parecer algo excessivo nos elogios, mas a verdade é que vivemos num país onde, infelizmente, é mais fácil insultar e criticar do que elogiar. Aqui em Portugal, o elogio é visto como algo estranho e tende a ser interpretado como alguma forma de lisonja, ou talvez mesmo de bajulação. Ora, eu não sigo esta tendência: entendo que o mérito deve ser reconhecido e aplaudido. Contudo, se tiver de criticar (desde que me pareça haver justificação para o fazer), também critico. E, por vezes, de forma corrosiva, como quem leu o meu texto sobre a Pentax KO 1 sabe. Ora, parece-me evidente que o Carlos Machado não está no mesmo patamar que um Koudelka ou um João Silva (nem o contrário pode ser inferido do meu texto), mas a verdade é que ele publicou uma fotografia na sua página do Facebook, feita durante um funeral de pescadores na Póvoa de Varzim, que é - sem lisonja ou exagero - das melhores fotografias que alguma vez vi. E eu já vi fotografias dos melhores entre os melhores. Foi esta fotografia, e a impressão que ela me causou, que me levou a escrever aquele texto. Como referi, o mérito merece ser estimulado e apoiado - mesmo correndo o risco de parecer excessivamente lisonjeiro -, especialmente num país onde as opiniões destrutivas são, por sistema, mais amplificadas que as positivas. Algo de muito errado se passa quando estamos mais bem preparados para enfrentar uma crítica ou responder a um insulto do que para aceitar um elogio.
Quanto ao comparativo da DxOMark, faltou referir que os testes de câmaras publicados neste website incidem sobre o desempenho do sensor. De fora ficam outros critérios que interessam à qualidade da imagem, como o processamento feito pelo software da câmara, o controlo da exposição ou a velocidade da focagem automática. Parece-me importante fazer este reparo, porque entendo que o sensor, embora importante, não é o único factor que contribui para a qualidade de uma câmara, mas aquele facto que não altera as conclusões que formulei com base na comparação entre a minha câmara e os modelos que lhe sucederam. Mesmo quanto à focagem automática, porquanto a actualização do firmware que levou a E-P1 para a versão 1.4 melhorou substancialmente o desempenho da câmara neste particular. Pelo que continuo a acreditar que a E-P1 é hoje uma câmara tão boa quanto o era em Abril de 2010, altura em que recebeu o firmware 1.4, e que a E-P3 não representa nenhum avanço, sendo a sua aquisição um desperdício de dinheiro dificilmente justificável. (Já o mesmo não poderei dizer quanto à OM-D E-M5, que parece estar num outro patamar.) O sentido daquele texto foi, essencialmente, o de alertar para o erro que é menosprezar um produto apenas porque este não é o mais recente, e reforçar a minha convicção de que nem sempre aquilo que nos é apresentado como uma evolução significa uma melhoria na qualidade.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Carlos Machado, fotógrafo profissional

Carlos Machado a f1.4
Hoje não vou escrever sobre técnica nem equipamentos, nem manifestar opiniões acerca do hobby mais interessante do mundo. Não: hoje vou escrever sobre um fotógrafo profissional que tive o prazer de conhecer, e que se tornou rapidamente numa das minhas referências.
Carlos Machado é um fotojornalista. É também formador no Instituto Português de Fotografia. Foi ele quem ministrou o workshop que frequentei no Instituto Português de Fotografia em Novembro do ano passado. Tudo o que não sabia ou ainda não dominava, aprendi ali: o panning, a medição pontual, a calibração do equilíbrio dos brancos, entre outras técnicas ministradas no workshop de técnica fotográfica. Acho justo, deste modo, mencioná-lo neste blogue. Eu sou assim; tenho a humildade suficiente para prestar o tributo devido a todos aqueles com quem aprendo, seja qual for a área do conhecimento ensinada. 
Se o Carlos Machado apenas soubesse de técnica fotográfica, porém, talvez não me sentisse obrigado a manifestar o meu reconhecimento; e, se não fosse uma pessoa excelente - totalmente despretensioso (o que não é o mesmo que ser inconsciente do seu valor), acessível e sempre pronto a ensinar e a ajudar -, decerto este texto não existiria. Pois o Carlos Machado é tudo isto - e é também um fotógrafo extraordinário cujas fotografias são verdadeiras provas de talento. Talvez dos melhores que existem em Portugal - e provavelmente a pedir meças a muitos estrangeiros. E um excelente mestre. Daí que seja duplamente, triplamente, merecedor destas palavras, que são escritas sem qualquer outro intuito que não seja o de manifestar o meu apreço (e são, evidentemente, extensivas ao Instituto Português de Fotografia, que também as merece).
Já tive oportunidade de me referir aqui ao workshop do IPF - por duas vezes -, e recomendo-o sem reservas a quem quiser aprender ou aperfeiçoar a técnica fotográfica. Uma fotografia que apenas seja boa no aspecto técnico é uma fotografia vazia, decerto - mas uma fotografia de um objecto interessante que denote uma técnica deficiente é apenas uma fotografia medíocre. E não é preciso ser um génio, nem gastar muito tempo, para entender uma câmara e aquilo que ela põe ao nosso dispor para que possamos fazer fotografias ainda melhores. Por isso, meus caros amigos proprietários de boas câmaras, fiquem atentos ao calendário das iniciativas do IPF e inscrevam-se no próximo workshop. E não me venham com a desculpa de que é caro, pois é muito mais barato que uma lente, um flash ou um tripé e faz muito mais pela vossa fotografia do que estes equipamentos.
Como todos os profissionais da fotografia, o Carlos Machado é extremamente (conscien)cioso dos seus direitos autorais; daí que, em lugar de publicar aqui as suas fotografias, convide o leitor a visitar a sua página no Facebook, onde aquelas podem ser vistas: 


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

De novo João Silva

A fotografia não é a arte mais amada em Portugal. Aliás, não sei se o meu povo ama alguma arte. (O futebol não pertence a esta categoria.) Daí que seja sempre de louvar que uma reportagem sobre um fotógrafo tenha passado na televisão, e logo no canal público mais visto e a uma hora prime. Senti-me compelido a ver a reportagem de ontem, 30 de janeiro, na RTP1 sobre João Silva, o fotojornalista cuja vida se alterou drasticamente há dois anos, quando pisou uma mina no Afeganistão.
Sei bem que, se não fosse este acidente, a reportagem não teria acontecido, e que o assunto da reportagem foi mais o homem João Silva que o fotógrafo. Com efeito, quem não conhecesse a fotografia de João Silva teria ficado igualmente desconhecedor depois da reportagem. Contudo, não deixou de ser interessante: a reportagem decorreu como uma conversa entre amigos, na qual foi possível aprender algo sobre o homem. Tenho, neste particular, a noção que a expressão fotográfica emana do espírito do fotógrafo (por oposição à sua racionalidade), e que a fotografia diz muito sobre a personalidade, os gostos, a maneira de viver, as ideias e a sensibilidade do fotógrafo - mesmo quando dela apenas se extrai uma intenção estética. Tal como se adivinha a personalidade do escritor nos seus textos ou a do compositor na sua música. Se excetuarmos autores como Jorge Luís Borges, cuja obra é puramente racional, inteiramente despida de qualquer subjetividade (depurada daquilo a que as pessoas com pretensões intelectuais chamam «vivência»), a criação artística é incindível do artista. Conhecer a vida de João Silva foi compreender um pouco melhor a sua fotografia, a qual conheci na exposição a que me referi neste blogue.
Durante a reportagem, apercebi-me um pouco melhor de algo que já resultara patente das fotografias expostas no Centro Português de Fotografia: João Silva tem um sentido composicional que o coloca num nível a que muito poucos fotógrafos podem ascender. É necessário, nos cenários de guerra em que João Silva trabalhou, pensar muito rapidamente acerca da composição e do enquadramento. E as fotografias que vi, bem como as que a reportagem mostrou, demonstram uma capacidade invulgar para tomar decisões quanto à composição em frações de segundo. Da fotografia de João Silva não resulta apenas que este é um fotógrafo rápido e atento e um fotojornalista competentíssimo, mas também que tem um sentido estético fora do comum, uma sensibilidade imensa que faz com que as suas imagens transcendam a qualidade de mero documento para se tornarem em manifestações artísticas.
Também me ocorreu, enquanto via a reportagem, algo que tenho por adquirido há muito: que o equipamento é um mero acessório da criação fotográfica. Nunca, ao contemplar as suas fotografias, me ocorreram pensamentos fúteis como «aqui usou uma grande-angular», ou «aqui usou uma abertura f2.8»: a técnica está presente, e é magistralmente dominada, mas não é mais que uma ancilar da expressão artística. Não vale a pena negar que foi usado o melhor equipamento disponível, nem seria inteligente afirmar que este não contribuiu para a qualidade das imagens e para a sua expressão; simplesmente, este é um aspeto de que qualquer um que tenha um pouco de sensibilidade se abstrai rapidamente ao ver as fotografias de João Silva.
Está completamente fora das minhas cogitações publicar aqui fotografias de João Silva, por uma questão de direitos autorais. Decerto já inseri neste blogue fotografias de diversos fotógrafos, mas sempre assegurando-me que estas haviam já caído no domínio público, ou que os respetivos direitos haviam sido alienados a terceiros. Para ver fotografias de João Silva, sigam esta ligação. Reparem, em particular, na terceira: é um dos momentos em que a fotografia mais se aproximou da perfeição.

sábado, 14 de janeiro de 2012

João Silva

Hoje fui ver mais uma exposição ao Centro Português de Fotografia, mas não era uma exposição qualquer. Era do fotojornalista João Silva.
Este fotógrafo de nacionalidade sul-africana e portuguesa era membro do The Bang Bang Club, juntamente com Kevin Carter. A fotografia deste grupo era intervencionista: todos estavam convictos que as suas fotografias serviam um propósito, fosse denunciar a desumanidade do apartheid ou a fome no Sudão. E todos eles eram grandes fotógrafos. Em reportagem no Afeganistão, ao serviço do The New York Times, João Silva teve um acidente que o fez perder as duas pernas. Nem este infortúnio o fez perder o amor pela fotografia: munido de próteses, procurou recuperar o andar e voltou a fotografar. Porque a fotografia é assim mesmo: algo que nos faz mover para além do que julgávamos possível.
As fotografias expostas não mostravam apenas o lado intervencionista da fotografia de João Silva. O que vi no Centro Português de Fotografia foi imagens maravilhosamente compostas, mesmo quando os objectos eram tão exigentes como um disparo de bazooka. Trabalhos de composição, note-se bem, muitas vezes obtidos sob as condições mais exigentes - por vezes debaixo de fogo, outras vezes em circunstâncias em que mal se tem tempo para disparar o botão do obturador. Só um grande fotógrafo pode fazer fotografias como aquelas. Outro aspecto excelente da fotografia de João Silva é a cor. A cor é um elemento dominante nas imagens do Afeganistão que estão expostas no CPF. Cores vibrantes, magnificamente combinadas. Acima de tudo, a fotografia de João Silva é um relato visual da condição humana - daquela condição que André Malraux tão bem descreveu num dos melhores livros jamais escritos. A riqueza da forma é ultrapassada, na fotografia de João Silva, pela profundeza do conteúdo. 
Saí do CPF com vontade de voltar e rever outra e mais outra vez aquelas fotografias extraordinárias - mas também com o sentimento de revolta por aquela guerra estúpida e inútil ter limitado a carreira de um dos melhores fotógrafos do mundo. Não deixem que estas fotografias vos passem ao lado: vão ver esta exposição.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Eve Arnold (1912-2012)

Soube anteontem da morte de Eve Arnold. Aliás (infelizmente), soube anteontem que Eve Arnold havia existido. O que apenas serve para demonstrar a minha ignorância, que nem a relativamente curta experiência de fotógrafo amador justifica. Isto significa que passei ao lado da obra de uma grande fotógrafa e de uma grande mulher - a primeira a integrar a agência Magnum, dos meus ídolos Henri Cartier-Bresson e Josef Koudelka. É dela a frase: «O fotógrafo é que é o instrumento, e não a câmara».
Podem ver a página de homenagem a Eve Arnold no website da Magnum.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A FotoDigital e eu

José Antunes é um fotógrafo que tomou em mãos uma missão: manter um site português de fotografia na Internet. Como possivelmente seria de esperar num país onde os programas especiais de passagem de ano das televisões mais vistas são galas de concursos rascas, não é nada fácil a tarefa a que José Antunes se propôs.
Repare-se que não há exactamente falta de sites sobre fotografia: do Digital Photography Review até aos inúmeros blogues, passando pelos sites de rumores sobre as últimas novidades em fotografia, o que não falta é informação; o problema é que esta existe em todas as línguas menos em português (pelo menos em português de Portugal, porque o Brasil tem uma abundância considerável de sites e blogues de fotografia).
Aqui em Portugal parece ser difícil alguém dedicar-se à fotografia. Noto, por vezes, que quando monto o tripé para fotografar, algumas pessoas olham para mim como se fosse algum lunático (ou então pensam que sou um agrimensor que vai montar um teodolito...). Este blogue, embora tenha a desculpa de ser recente, tem mais gente a sacar imagens do que a consultar os textos, e os consultantes, na sua maioria, são brasileiros. Numa palavra: a fotografia não é muito popular em Portugal. Como tudo o que não se integra nos gostos das multidões, está condenada a ser residual e de nicho e a ser olhada como uma excentricidade, ou uma perda de tempo e de dinheiro (pois se todos podem tirar fotografias fantásticas com os seus telemóveis...)
É por isto que simpatizo com o projecto de José Antunes. Precisamente por ter a coragem de cultivar uma arte num país que tende para a bestificação. É este o motivo que me leva a apoiar a FotoDigital, apesar de sentir que esta revista online podia ser ainda mais informativa e ter mais conteúdos para iniciados - mas aqui estamos perante um ciclo vicioso, porque sem apoios o site não pode expandir-se e oferecer mais. E já muito faz J. Antunes. Quem dá o que pode a mais não é obrigado.
Por tudo isto, não tenho dúvidas em recomendar este site. E vou ainda mais longe: exorto todos os que têm um gosto genuíno por fotografia a que o divulguem, apoiem e se tornem Amigos da FD.

sábado, 2 de julho de 2011

De volta às minhas referências

Agora que desabafei a minha frustração pelos vícios da minha câmara, interrompendo a sequência de textos sobre fotógrafos que me marcaram (não vou ser pretensioso ao ponto de dizer que me influenciaram), penso ser justo dar lugar a fotógrafos que, sendo excelentes, não tiveram sobre mim o efeito de me despertar o gosto pela fotografia, ou pelo menos por certos estilos de fotografia. Há um que devo citar pela sua genialidade e pelas afinidades ideológicas que nos unem (sem que ele saiba que este minúsculo átomo sequer existe...): Sebastião Salgado. A sua fotografia é uma aventura em si mesma: os sítios onde esteve, as situações que presenciou e, sobretudo, as pessoas que fotografou, fazem dele um nome quase intimidatório perante a grandiosidade da sua obra e a eloquência da mensagem que transmite através da sua fotografia. Ninguém fotografou pessoas como ele; ninguém descreveu a condição humana, através da fotografia, como Sebastião Salgado.
 
Depois há um sem-número de grandes fotógrafos que, embora não sendo referências - de novo, no sentido que não me impeliram a fotografar -, merecem ser mencionados: Walker Evans, Yann Arthus-Bertrand (a foto imediatamente abaixo é dele), Robert Capa, Gérard Castello Lopes, Robert Doisneau e muitos outros que contribuíram para que a fotografia fosse elevada ao estatuto de arte. E há, evidentemente, três outros nomes que, embora me tenham estimulado, não posso, em bom rigor, considerar referências (embora talvez um dia a história lhes faça a justiça que não fiz): refiro-me a Michael Freeman, Joel Santos (de cujos livros colhi importantes ensinamentos) e, por fim, José Antunes, que não podia deixar de mencionar pela atenção que tem sempre reservada para mim e, sobretudo, por persistir em cultivar a fotografia num país onde tudo o que extrapole do futebol e do espectáculo foleiro é inviável.
Sendo eu o Manuel Vilar de Macedo, não seria de esperar que ficassem por mencionar alguns fotógrafos que detesto - uns pela sua superficialidade, outros pela gratuitidade da provocação (que não é mais que outra forma de superficialidade, já que nada resta que se mantenha na mente depois de ver as suas fotos): Annie Leibowitz, Bill Cunningham, Robert Mapplethorpe e Helmut Newton. Não há, em nenhum deles, nada que faça pensar, que nos leve a discutir as suas fotografias. Todos eles são de uma frivolidade gélida. As provocações a que me referi são como um impropério proferido por um condutor alarve: ao fim de dez segundos já esqueceu. Nada há neles para além do vazio que tomou conta desta sociedade absurda em que vivemos.
 Depois há o caso Leni Riefenstahl. Não sei onde a colocar: as suas fotografias são esteticamente perfeitas, e a sua vida é inspiradora em inúmeros aspectos, mas será possível pensar em Leni Riefenstahl sem se associar de imediato o III Reich e Adolf Hitler?

quinta-feira, 30 de junho de 2011

As minhas referências, parte 5

Garry Winogrand
Devo dizer que tive dúvidas em colocar Garry Winogrand entre as minhas referências. Afinal de contas, o meu conhecimento da sua obra não é assim tão vasto, e o meu primeiro contacto com ela não foi o mais ortodoxo. Na verdade, nunca tinha ouvido falar nele até ler o capítulo acerca da intenção no livro de Michael Freeman O Olhar do Fotógrafo. E as referências deste estão longe de ser elogiosas: «evidente falta de capacidade ou de objectivo preciso». Claro que, com base neste dogma, poderia dizer, numa conversa sobre fotografia, que Garry Winogrand era um mau fotógrafo - mesmo sem ter visto nenhuma das suas fotografias -, porque já estaria suficientemente documentado com o argumento da autoridade de Michael Freeman. O comentário de Freeman teve o efeito oposto, levando-me a procurar conhecer a obra de Winogrand para compreender a razão daquelas palavras tão depreciativas, e acabei por descobrir algumas das fotografias mais interessantes que se fizeram no século passado!
 Concedo que, ao contrário de HCB, que procurou dar conteúdo artístico aos instantâneos da vida organizando-os e ordenando-os no rectângulo do visor da sua Leica, Garry Winogrand (que também usava Leicas...) parece não ter outro propósito que não seja o de fotografar. Mas será isso tão mau? Não me acontece a mim, usando a expressão de Garry W., fotografar só para ver como é que aquilo que se me depara fica quando fotografado?
E, mesmo admitindo que esta é uma obra sem intencionalidade (não é), será que é menos válida por isso? Merecerá Winogrand que se fale de «falta de capacidade» a propósito das suas fotografias?
Em meu entender, nenhuma das respostas a estas perguntas é positiva. Algumas das fotografias de Garry Winogrand denotam mestria técnica (lembrem-se de que me estou a referir a um fotógrafo que usava câmaras analógicas e de manuseamento manual) e excelente noção de composição: é o caso da fotografia no topo deste artigo, e da que se segue:
Concedo que muitas das fotografias de Winogrand quebram regras elementares do design: não se deve cortar os pés das pessoas fotografadas, deve obedecer-se à regra dos terços, etc. Mas o facto de muitas das fotos de GW terem estes problemas será incapacidade, ou será transgressão? Não traduzirão estas falhas a sede de fotografar motivos que pareciam merecedores de ser retidos no rolo?
É precisamente pela sua avidez de fotografar, e por fazê-lo sem preocupações técnicas excessivas, que Garry Winogrand é uma das minhas referências. Esta ausência de preocupações técnicas (que na verdade é apenas aparente) tem outro significado: a prevalência do conteúdo sobre a forma. Não, Michael Freeman: a obra fotográfica de Garry Winogrand não está viciada por falta de objectivo preciso. O seu objectivo era fotografar. Pode parecer pouco, mas é muito. Muito.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

As minhas referências, parte 4

Ansel Adams
Que dizer do homem que fez a fotografia perfeita (acima)? Que dizer do fotógrafo que criou as regras da fotografia paisagística, estabelecendo padrões que ainda hoje são seguidos (v. g. a divisão simétrica pela linha do horizonte quando há reflexos)? Ansel Adams foi tão importante para a fotografia paisagística como Henri Cartier-Bresson para a de rua. Ambos foram pioneiros, visionários que revolucionaram a fotografia. Há uma fotografia antes e depois de HCB, mas há também uma fotografia paisagística antes e depois de Adams. A diferença é que este último, por ter dedicado o essencial da sua obra à fotografia paisagística, tem um âmbito menos extenso que HCB (que, aliás, o precede cronologicamente, embora apenas por alguns anos).
Reparem no enquadramento desta fotografia: há aqui um enquadramento dentro do enquadramento. Eu gosto de tirar fotografias com enquadramentos dentro de enquadramentos sempre que me surge algum motivo interessante. E Ansel Adams foi um pioneiro na sua utilização. Mas, no caso particular desta foto, há ainda a sobreposição de um motivo ao outro, criando um efeito semelhante a uma sombra. Nada menos que genial. Ninguém fazia fotografia assim antes de Ansel Adams!
Hoje em dia, qualquer fotografia bem tirada de uma paisagem se rege pelos princípios que Adams estabeleceu nos anos 40 do Século XX. O que diz tudo sobre a sua importância. A fotografia de paisagem não tem o mesmo conteúdo da fotografia de rua; não há nela uma mensagem, nada que transcenda a pura fruição estética; em regra, não há caras, gestos ou expressões de pessoas (e nós já vimos que as pessoas gostam de ver pessoas nas fotografias). Mas terá ela menos valor e importância? Em meu entender, não. A fotografia de paisagem tem um grau de rigor e exigência técnica que a separa da fotografia de rua, a qual privilegia a espontaneidade. A diferença entre ambos os estilos é a mesma que separa a perspicácia da contemplação. E ambas são necessárias.

terça-feira, 28 de junho de 2011

As minhas referências, parte 3

Henri Cartier-Bresson

Só por motivos cronológicos ou de proximidade é que Henri Cartier-Bresson não surge à cabeça das minhas referências. Como referi, Josef Koudelka foi o fotógrafo que me fez perceber a fotografia como forma de arte, e Fernando Aroso foi quem me impeliu a fotografar; mas HCB é, muito justamente, o maior fotógrafo de todos os tempos.
 Para se entender o que quero dizer com uma afirmação tão rotunda, deixem-me exemplificar: há alguns meses, publiquei a fotografia acima, conhecida por Derrière la Gare de St. Lazare, na minha página do Facebook. Numa conversa com um dos meus sobrinhos, este referiu-me que não compreendia por que eu a considerava uma das melhores fotografias de sempre. Arguiu que não via nada de especial na fotografia e, depois de uma mais ou menos longa troca de argumentos, disse-lhe: «Já reparaste há quanto tempo estamos a discuti-la»? Ele olhou-me, mas não respondeu: compreendeu de imediato a importância da Gare de St. Lazare.
Com efeito, as fotografias de HCB não são daquelas coisas sublimes, carregadas de manipulação no Photoshop, que atraem imediatamente pela sua espectacularidade, mas que são, em última análise, frívolas e desinteressantes, perdendo o interesse após cinco segundos de contemplação: é antes um tipo de fotografia que convida a pensar. Não a meditar, na acepção esotérico-parola com que agora se usa a expressão, mas a raciocinar e filosofar. Não pelo seu conteúdo intrínseco ou pela mensagem, como as de Koudelka ou Sebastião Salgado, mas por serem instantâneos da vida - pela perspicácia do fotógrafo e, sobretudo, pela sua capacidade de ordenar, dentro do limite do rectângulo que é o espaço da fotografia, o que à primeira vista pareceria caótico. Com HCB, a fotografia tornou-se no acto de trazer ordem ao caos. Foi com ele que nasceram as noções de composição e enquadramento que ainda hoje são usadas na fotografia. Nenhum fotógrafo que tenha um pouco de respeito por si mesmo pode negar a influência de HCB na sua obra.
A actividade de HCB não se limitou à fotografia de rua: ele foi o motor da Magnum, pela qual passaram todos os grandes fotógrafos das gerações que se sucederam à de HCB. Só este facto teria enchido a sua vida de significado, mas para além da Magnum, há uma obra de tal maneira importante que continuará a afectar e a influenciar o mundo da fotografia durante décadas. Daí que não seja exagero nenhum afirmar que Henri Cartier-Bresson foi o maior fotógrafo de sempre.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

As minhas referências, parte 2


Josef Koudelka
Os que me conhecem sabem que gosto de fotografia de rua e de preto-e-branco. Poderiam, a partir destas premissas, concluir que a minha grande referência (excluindo Fernando Aroso, pelas razões que expliquei ontem) seria HCB, mas na verdade o fotógrafo que mais contribuiu para me despertar o interesse pela fotografia foi Josef Koudelka. Há quase duas décadas atrás, um amigo ofereceu-me uma antologia deste fotógrafo checo, mas na altura a ideia que se formava na minha mente, ao contemplar uma boa fotografia, era - não vale a pena sequer tentar, porque nunca serei capaz. (Hoje continuo a pensar que nunca serei um grande fotógrafo, mas pelo menos vou tentando tirar as melhores fotografias que posso e sei.)
O que me fascinou em Josef K. não foi a perfeição formal - que existe -, nem o mostrar das formas e texturas que o preto e branco permite: foi o facto de ele fotografar a vida de gente real e convertê-la em fotos - ou, se preferirem, em arte. Tinha descoberto, embora sem me aperceber, a essência da fotografia de rua. Mais tarde vim a saber da sua actividade política, da sua faceta de homem livre que documentou a repressão da Primavera de Praga com algumas das fotografias mais expressivas - e, simultaneamente, perfeitas de um ponto de vista técnico - que já tinha visto. Koudelka é o mestre absoluto da composição e do enquadramento; outros parecerão mais cuidadosos nestes aspectos da fotografia, mas na fotografia de rua não há muito tempo para pensar: não se pode montar um tripé e regular o disparador automático num estilo de fotografia que se pretende espontâneo e natural. Conseguir compor e enquadrar nessas condições é algo que só os melhores entre os melhores conseguem.
 Não é meu propósito fazer aqui uma biografia de Koudelka: outros fizeram-no bem melhor do que eu poderia fazer. O que quero, com este texto, é exprimir a sorte que tenho em ser alguém com capacidade de apreciar a fotografia de um homem que soube sempre encher as suas imagens de conteúdo, de um fotógrafo capaz de transmitir a sua mensagem através da forma de arte que escolheu.

domingo, 26 de junho de 2011

As minhas referências, parte 1

Fernando Aroso

Já citei neste blogue os maiores fotógrafos do mundo, pessoas como Michael Freeman, Yann Arthus-Bertrand ou Ansel Adams. Pode parecer estranho que cite alguém que quase ninguém conhece como a minha principal referência na fotografia, mas se seguirem este texto compreenderão porquê.
Eu sou uma espécie de factotum da Federação das Colectividades do Distrito do Porto. Em 2010, esta organização de que sou vice-presidente da direcção organizou o seu 2.º Fórum Distrital do Teatro Amador, e fiquei incumbido de vários aspectos organizatórios, o que incluiu fazer o cartaz do evento. Como o fórum se fez no ano do centenário do nascimento de António Pedro e com a colaboração do Teatro Experimental do Porto, elaborei um cartaz com uma fotografia de António Pedro e enviei-o, para apreciação, aos meus colegas da direcção e a Júlio Gago, então presidente da direcção do CCT-TEP. Este respondeu-me que a fotografia que incluíra no cartaz havia sido feita por Fernando Aroso e que não poderia usá-la sem o consentimento do autor.
Como queria mesmo que o cartaz incluísse uma boa fotografia de António Pedro, telefonei a Fernando Aroso, que se prontificou a receber-me no dia seguinte, em sua casa, na Rua de Entreparedes, bem perto da Praça da Batalha. Vim a descobrir aquele que é o fotógrafo com a obra mais espantosa que conheço entre os portugueses, com a possível excepção de Gérard Castello Lopes. No preto-e-branco, está num patamar muito próximo de artistas como Koudelka ou Cartier-Bresson; na cor, é o igual de um Yann Arthus-Bertrand. Mas o que mais me impressionou foi a sua enorme simpatia e amabilidade, satisfazendo a minha curiosidade de diletante com um orgulho comovente numa obra cujo valor sabe reconhecer - sem arrogâncias, sem falsas modéstias e sem aquele acanhamento que destrói o talento de tantos. Durante aquele tempo, propôs, como contrapartida do uso da fotografia de António Pedro, ajudar-me a compor o cartaz, cujo resultado final foi o que se pode ver na imagem que encima este texto. Quase seria escusado dizer que foi o melhor de todos os cartazes que fiz para a Federação das Colectividades do Distrito do Porto.
Espantosamente, Fernando Aroso é um homem que, aos 89 anos, domina o Adobe Photoshop e usa o computador com uma familiaridade que envergonharia muitos jovens. Para ele, a fotografia digital não é uma bête noire - é um auxiliar utilíssimo da sua arte. Tinha todo o direito de ser um fotógrafo conservador que não acreditasse nos instrumentos da fotografia moderna, mas é um fotógrafo que ainda hoje utiliza a sua Nikon D60 e retoca as fotografias no Photoshop. É, aliás, um fotógrafo atento ao pormenor e rigoroso na composição: só me deixou usar a fotografia no cartaz mediante o compromisso de que apagaria umas sombras indesejadas e a soleira de uma porta cuja extremidade aparecia sobre o lado direito da fotografia!
Foi uma experiência inesquecível: saí de sua casa ao fim de três horas (quando apenas tinha lá ido para saber se ele consentia em que usasse uma fotografia de sua autoria num cartaz...) com a plena consciência de que acabara de conhecer um dos grandes cidadãos do Porto e um dos maiores fotógrafos portugueses. Foi ele quem despertou em mim a vontade de fotografar; se hoje nutro interesse pela fotografia, devo-o a ele. Se não fosse Fernando Aroso, não me teria tornado fotógrafo amador (se me é permitida a pretensão de me qualificar assim). Daí que figure em primeiro lugar entre as minhas referências.
Como referi, Fernando Aroso é um homem extremamente cioso da sua obra, sendo raro autorizar o uso das suas fotografias por terceiros. O que tenho de respeitar, pelo que não incluo aqui nenhuma das suas fotografias. Fernando Aroso foi, durante muitos anos, uma espécie de fotógrafo oficial do TEP: podem encontrar algumas das suas fotografias no website do TEP, dentre as quais destaco, pela composição, pelo enquadramento e pela tensão dramática que soube captar, a que fez da peça Antígona. (Que pode ser vista nesta hiperligação.) A sua obra, porém, é extremamente extensa, não se circunscrevendo à actividade desenvolvida com o TEP: a sua colecção de fotos do Douro vinhateiro, por exemplo, contém algumas das melhores fotografias que vi na minha vida.
Fernando Aroso não pode permanecer anónimo: é urgente que se faça justiça à sua obra.