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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O ISO 100 não acabou

Tal como informei, o ISO 100 vai continuar. Simplesmente, paralelamente a ele vou manter um outro blog, o Número f, porque atingi o limite de publicação de imagens aqui no Blogger. Tentei criar um blog novo aqui neste espaço, mas o limite vale para o Blogger, e não apenas para um blog, pelo que resolvi transferir-me para o Wordpress. Ainda não aprendi todas as funcionalidades deste último, e o interface parece-me bem mais antipático e complicado, mas não quis deixar de escrever sobre fotografia de um ponto de vista estritamente amador, com o espírito humilde de partilha dos conhecimentos que vou adquirindo - e não o de escrever do alto de uma cátedra, o que de resto não me seria legítimo. Blogs e sites doutrinais já há muitos, mas acredito - sei - que estou a preencher um espaço ainda muito pouco explorado, e que recebi alguma simpatia pelo que vou escrevendo.
Por tudo isto - e aproveitando para agradecer de novo a todos os leitores que me têm seguido -, espero que o Número f seja visitado e lido como o foi o ISO 100 até agora. Não queria ficar com a sensação de que estou a começar tudo de novo, pelo que me parece importante manter o ISO 100 activo, sendo o Número f a continuação do primeiro. Não deixem de visitar o blog novo, pois ainda há muitas temáticas importantes a abordar neste hobby fantástico que é a fotografia.

domingo, 12 de agosto de 2012

Número f

O ISO 100 esgotou o limite de publicação de imagens. Não sabia, mas tinha uma quota de 1 GB de imagens a publicar, que chegou hoje ao fim. Substituir as imagens de maior resolução por outras era um trabalho para o qual não teria tempo, pelo que decidi criar um blog novo para que seja a continuação do ISO 100. Porque respeito os leitores e seguidores do ISO 100 (que atingiu esta semana 300 mensagens e 20 000 visualizações), e para não privar ninguém de ler os artigos que escrevi aqui - e eu posso dizer, sem falsa modéstia, que muitas pessoas consideram os meus textos úteis e interessantes -, vou manter o ISO 100 no ciberespaço. O Número f será a continuação do ISO 100, e é assim que quero que os leitores e seguidores o vejam. Tenho pena de não ser possível continuar o ISO 100 na forma actual, mas seria impensável escrever textos sobre fotografia sem que fossem acompanhados por ilustrações e, como referi, é praticamente impossível substituir as centenas de imagens que publiquei por outras de baixa resolução (o que seria um mero paliativo que apenas adiaria esta minha decisão por algum tempo).
O ISO 100 vai passar a ter textos estranhos: ligações para o que publicar no Número f. Espero não perder os meus leitores e seguidores, os quais convido a transferirem-se para o novo blog. E espero, evidentemente, que os leitores continuem comigo e sigam o Número f com o mesmo interesse com que seguiram o ISO 100. O Número f será em tudo igual ao ISO 100 - um blogue de um principiante da fotografia para outros principiantes. Não haverá alterações nas suas temáticas, sobretudo por respeito a quem acompanhou este blog. Também não é, como já disse, o adeus ao ISO 100: é uma sucessão, ou uma transição, que espero seja o mais suave possível.
Até já. Vemo-nos no Número f.

Completamente fora do tópico

Anton Bruckner
Como Jorge Sampaio poderia ter dito, há vida para além da fotografia. Claro que este é um blogue sobre fotografia, mas tal não me impede de escrever sobre assuntos fora deste tópico, porque tenho vários outros interesses na minha vida.
Um deles é a música. Ainda na Sexta-feira publiquei aqui um texto acerca de um vídeo musical - que, apesar de tudo, tem uma conexão estreita com a fotografia -, mas os meus interesses musicais transcendem as fronteiras da música popular (à falta de um adjectivo mais específico), seja ela pós-rock, pop, electrónica ou alternativa. Há o Jazz, também - sou um consumidor ávido de Thelonious Monk, John Coltrane, Sonny Rollins, Miles Davis, Wynton Kelly e outros gigantes do bebop -, mas a forma musical suprema é a clássica. «Clássica» é um adjectivo impróprio, porque é usado para definir uma época específica da música em que pontificaram compositores como Haydn e Mozart, mas é de longe preferível a «música erudita», que lhe confere um carácter exclusivista e, digamos, um pouco pedante. Dentro da música clássica há um compositor que venero acima de todos: o austríaco Josef Anton Bruckner Jr., ou, singelamente, Anton Bruckner. Ao escrever isto, sei que os idólatras de Beethoven se vão sentir escandalizados, mas este é o meu gosto. Beethoven é, evidentemente, o compositor mais importante de sempre, e o mais prolífico: apenas deixou por compor um concerto para violoncelo; mas a música de Beethoven é fortemente limitada pelo facto de não ter dominado a técnica da fuga, pelo que muitas das suas composições são variações sobre uma ou duas frases musicais, parecendo nunca abrir completamente as asas e voar rumo ao infinito, pairando permanentemente em círculos (embora, evidentemente, a uma altitude que muito poucos atingiram). Se acham que estou a ser ultrajante, ignorante ou desrespeitoso, ouçam o primeiro andamento da 2.ª Sonata para violoncelo - recomendo, em particular, a execução de Sviatoslav Richter e Mstislav Rostropovitch - e verão que isto é verdade. De resto, a 7.ª de Beethoven - em especial o Allegretto - é das minhas composições favoritas desde há muito tempo.
Em contrapartida, Anton Bruckner distinguiu-se como organista; a sua reputação era de tal ordem que, quando ele e César Franck se encontraram em Paris, este insistiu em beijar as mãos daquele que reputava ser um organista divino. As peças para órgão baseiam-se largamente na técnica da fuga, e Bruckner inspirou-se nas composições para este instrumento para escrever as suas sinfonias. E é também, como recentemente me confirmou o Sr. Carlos, baixo no Coro da Sé, o mestre da polifonia. A questão que Bruckner levanta, e o impede de ser considerado tão influente como um Beethoven, é a de ter escrito relativamente poucas composições: além das nove sinfonias - não por acaso tantas como as de Beethoven, que de resto Bruckner venerava -, escreveu o Te Deum, missas, motetes e um quarteto e um quinteto para cordas. E pouco mais, pelo menos do que está documentado.
Para a relativa impopularidade de Bruckner contribuíram também vários outros factores. Antes de mais, a sua personalidade. Bruckner era aquilo a que poderíamos chamar, sem insulto, um labrego - embora um labrego cheio de génio -, o que não o ajudou a conquistar fama numa Viena elegante, sofisticada e cosmopolita. (Bruckner nasceu em Ansfelden, no norte da Áustria, em 4 de Setembro de 1824, mas viveu em Viena durante a sua fase mais prolífica e até ao fim da sua vida.) E era um católico devoto e um celibatário, um homem de gostos simples e vida espartana - a sua forma de vestir despertava o sarcasmo dos vienenses -, o que o tornava deveras impopular. Sofreu, ao longo da maior parte da sua carreira, os escárnios de uma comunidade musical conservadora e refractária à evolução, que idolatrava Brahms e tinha como maior influência o crítico Eduard Hanslick. E a música de Bruckner, que na sua fase mais tardia e mais prolífica, em que avultam as nove sinfonias, recebeu a influência da obra de Richard Wagner, era demasiado incompreensível para a comunidade musical vienense. Bruckner podia ser um rústico, mas a sua música, salvo alguns apontamentos nos scherzi das suas sinfonias, era tudo menos rústica. 
É preciso ter em mente que, nessa segunda metade do Século XIX, havia uma divisão profunda entre os amantes da tradição romântico-clássica, nascida com Beethoven e personificada por Johannes Brahms, e os seguidores da inovação do romântico tardio iniciada por Richard Wagner. Esta rivalidade, e o domínio destes dois compositores - que reduziam todos os outros a irrelevâncias -, levou a uma divisão profunda. Optar pelo lado de Wagner, como o fez Anton Bruckner, era anátema nessa sociedade conservadora e de mentes estreitas que era a de Viena, cidade onde estava o coração das artes no Século XIX.
Eugen Jochum
De toda a obra sinfónica de Anton Bruckner, há sinfonias que ganham mais relevo que as outras. Eu tenho, para além de uma gravação da 9.ª Sinfonia por Harnoncourt com a Filarmónica de Viena (v. adiante), uma caixa de CDs com a integral das sinfonias de Bruckner, incluindo a Sinfonia «Zero» (Nullte), que Bruckner compôs mas rejeitou por a entender de qualidade insuficiente. À excepção da Nullte, as nove sinfonias dessa caixa de CDs são interpretadas pela Staatskapelle Dresden sob a direcção do magnífico Eugen Jochum.  Não houve nenhum andamento das nove sinfonias que eu não tivesse escutado com atenção - mas não atribuo o mesmo valor a todas. A 2.ª, 3.ª, 5.ª, 7.ª, 8.ª e 9.ª são, de longe, as mais relevantes e importantes, e é nas três últimas que o génio de Anton Bruckner atinge toda a sua majestade. A 7.ª começa com uma das melodias mais belas que alguma vez foi composta, com o tema musical mais longo que Bruckner escreveu seguido de uma longa fuga (os andamentos das suas sinfonias duram entre quinze e vinte e oito minutos, conforme o maestro e a sua interpretação), fuga que culmina num tema inspirado na música sacra que é um dos momentos mais sublimes da música bruckneriana. O Adagio da 7.ª é um dos andamentos mais majestosos jamais compostos, e a interpretação de Eugen Jochum é, possivelmente, das melhores que foram gravadas, juntamente com a de Wilhelm Furtwängler. A 8.ª sinfonia é ainda melhor - o Scherzo e o Finale da 7.ª desequilibram um pouco a grandeza obtida com o Allegro Moderato e o Adagio -,  sendo o Finale uma das composições mais poderosas e telúricas existentes - em particular o Gran Finale, em Dó Maior, que é de uma grandeza e poder incomparáveis.
Depois há a 9.ª, a sinfonia incompleta que Anton Bruckner não teve tempo de acabar - em parte pela sua preocupação obsessiva em rever as sinfonias anteriores. O primeiro andamento é uma peça que imagino ter sido um choque para a Viena brahmsiana e para Eduard Hanslick: prefigura as composições de Gustav Mahler e Richard Strauss. O Scherzo é também estranho, algo nunca ouvido até então, uma composição de uma energia e força sem quaisquer pontos de comparação. À medida que Bruckner ia avançando na idade, as suas composições tornavam-se mais fortes e telúricas, ancoradas à terra por percussões e contrabaixos enérgicos e com uma abundância de metais que lhes conferiam uma força enorme - e, em simultâneo, uma grandeza e elevação que são o produto de uma mente devota, impregnada de elevação divina e de temor a Deus. Mesmo um agnóstico como eu se vê compelido a reconhecer, nas sinfonias de Bruckner - mas também no Te Deum e nas missas, obviamente -, esta inspiração, este desejo incansável de glorificar Deus.
Esta última característica da produção sinfónica de Anton Bruckner é especialmente audível no Adagio da 9.ª Sinfonia. A Nona foi por Bruckner dedicada a Deus Todo-Poderoso, e o último andamento é a expressão dos sentimentos de Anton Bruckner diante da morte e da eternidade. Não tenho dúvidas - a despeito de não ser um religioso - em considerar que o Adagio da 9.ª Sinfonia de Bruckner é o momento maior da música sinfónica. O clímax deste andamento (aos 22m40s deste vídeo), que é antecedido por uma progressão ascendente que evoca a ascensão ao Paraíso, é um dos pontos mais altos, não da música clássica, mas de toda a cultura europeia, considerada no seu conjunto e em toda a sua história. É difícil descrever o que nos percorre quando se escuta todo aquele poder, aquela força tremenda, aquela beleza que nos deixa esmagados e comovidos. Nada, na música dita clássica, se compara a este clímax; diante dele, o Finale da 9.ª de Beethoven assume um carácter ligeiro, fácil e inexpressivo. Não me interpretem mal: a 9.ª de Beethoven deve orgulhar qualquer um por poder dizer que pertence à mesma espécie (a humana) que Ludwig van Beethoven - mas é aquela peça que estamos fartos de ouvir, interpretada por criancinhas com os seus pífaros desafinados e assassinada por qualquer agrupamento musical com pretensões eruditas. E é o hino da União Europeia, essa instituição cada vez mais odiosa. Uma verdadeira overdose que impede a minha apreciação plena. O Adagio da 9.ª de Bruckner, em contrapartida, é a obra-prima não reconhecida, condenada a ser conhecida e apreciada apenas por um núcleo mais ou menos restrito de pessoas com conhecimentos que vão para além das produções discográficas mais extensamente divulgadas.
As interpretações da 9.ª Sinfonia tendem a ser muito distintas em carácter; sendo uma sinfonia inacabada, foi editada por vários discípulos e estudiosos, existindo as edições de Ferdinand Löwe, Orel, Nowak e Benjamin Cohrs. E cada maestro parece ter os seus pontos de vista quanto ao ritmo - ou, se quisermos, a velocidade das interpretações. Hans Knappertsbusch segue a edição Löwe, considerada demasiado literal e pouco fiel às intenções de Bruckner; Eugen Jochum, brilhante em tudo o mais, tem interpretações algo inexpressivas do Scherzo e do Adagio da 9.ª Recomendo-o, contudo, para todas as outras sinfonias, em especial a 7.ª e a 8.ª Quanto à 9.ª, as melhores interpretações que conheço - e não conheço todas - são as de Günter Wand, Georg Tintner (um dia o mundo há-de prestar a devida homenagem a este grande maestro que, sendo judeu, foi um dos que melhor soube transmitir a religiosidade das sinfonias de Bruckner) e, sobretudo, Nikolaus Harnoncourt. Esta (editada pela RCA em CD e SACD e tocada pela Filarmónica de Viena) é uma interpretação moderna e poderosa que recomendo vivamente.
Por fim, não deixem de ler a biografia que Werner Wolff escreveu em 1942, com o título Anton Bruckner, Rustic Genius (que pode ser descarregada aqui). É um texto muito interessante que ajuda a compreender a obra de Bruckner enquanto emanação da pessoa de nome Josef Anton Bruckner Jr.      

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Prepara o teu caixão

Capa da edição em vinil de Beacons of Ancestorship
O título é macabro, eu sei - mas pelo menos não é ordinário nem insultuoso como os de uma certa revista de fotografia online portuguesa que eu conheço. Este título é a tradução literal do de um tema musical de uma das minhas bandas preferidas: os Tortoise.
Prepare Your Coffin é um tema absolutamente sublime. Os Tortoise, banda cujo mentor é John McEntire, dedicam-se a um tipo de música denominado pós-rock. Não gosto de rótulos, e este, em particular, parece prenunciar a morte do rock - o que ainda não aconteceu nem acontecerá tão cedo - e a sua sucessão, mas o que se entende por pós-rock é muito simples - música de carácter experimental, inserida no estilo do que faziam os Kraftwerk, mas tocada com instrumentos orgânicos - guitarras, bateria, baixo. As suas raízes estão naquilo a que chamavam o Krautrock, estilo fortemente influenciado pelos Kraftwerk e tocado por bandas como os Neu! e os Can. Os Tortoise retomaram onde estes grupos pararam, tendo-se constituído como uma banda influente e respeitada. Apesar de o último álbum, Beacons of Ancestorship (que inclui este Prepare Your Coffin) ter muito mais electrónicas que os anteriores - eu tenho, além deste, o Millions Now Living Will Never Die e o TNT -, a linguagem é totalmente coerente com o que os Tortoise sempre fizeram. Ouvir Prepare Your Coffin leva-me de imediato para os tempos dos Can e dos Neu! (o ponto de exclamação não é meu, faz parte do nome da banda).
E perguntará o leitor, apesar de já habituado a algumas incursões minhas fora do terreno da fotografia, a que propósito vem isto. Bom, antes de mais sou um melómano, como alguns já terão reparado. Mais pertinente do que esta minha melomania, porém, é o facto de querer partilhar com os leitores um vídeo que é uma das mais fantásticas homenagens de uma arte a outra: neste caso, uma homenagem da música à fotografia. O vídeo de Prepare Your Coffin é um tributo quase comovente à fotografia: um fotógrafo, equipado com o que parece ser uma câmara analógica, à procura de linhas e enquadramentos perfeitos. No vídeo surgem linhas simples, mas fortes, paisagens a preto-e-branco que encheriam de satisfação qualquer fotógrafo digno desse nome. Não vou dizer que teve influência na minha maneira de fotografar - apesar de o vídeo ser anterior à minha dedicação à fotografia -, porque não é verdade, mas toca-me num ponto sensível e une duas das minhas paixões. Claro que, quando procurei o video no YouTube, estava interessado na música, e não exactamente nas filmagens, mas foi uma surpresa muito recompensadora tê-lo descoberto. Não me passaria pela cabeça escrever um texto sobre um vídeo de música se esta última não me agradasse, mas este vídeo é particularmente bem realizado e apela ao olhar e à sensibilidade do fotógrafo, pelo que entendo ser merecedor da atenção da comunidade fotográfica.
Espero que gostem da música e do vídeo; pessoalmente, entendo que quem não gosta dos Tortoise não merece ocupar o seu lugar na espécie humana e devia ser atado a um pelourinho e o seu corpo deixado à voracidade dos abutres, mas esta coisa dos gostos musicais é algo de muito pessoal. Se não gostarem da música, ao menos deleitem-se com as imagens.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Indulgência

Está a acontecer-me algo que, muito provavelmente, é uma singularidade minha: cada vez faço menos fotografias. Mesmo que fotografe durante mais dias da semana - na semana passada fotografei na Quinta e na Sexta, no Sábado e no Domingo, quando o normal é fazê-lo apenas aos fins-de-semana -, é raro fazer mais de trinta fotografias por dia, mesmo em sessões longas. Estou cada vez mais exigente com os motivos e, se olho para uma cena qualquer que me pareça interessante, não a fotografo se não me parecer que vai dar uma boa fotografia; sei que, ao virar da esquina, me vai aparecer algo ainda melhor. E penso muito mais no enquadramento, na luz e no interesse do motivo do que fazia há apenas um ano atrás. Uso a câmara com a parcimónia que usaria se tivesse uma máquina analógica, em que o número de fotogramas é limitado. Claro que sei que esta limitação não existe, e também não é para poupar a câmara que o faço; se fizer sete mil fotografias num ano, a câmara pode durar-me mais de dez anos, pelo que não é a longevidade que me preocupa. O que me preocupa, agora, é fazer fotografias que tenham interesse, quer pelos motivos, quer pela técnica. Penso, por exemplo, se determinado motivo daria uma fotografia que pudesse mandar imprimir, porque - já o disse mais que uma vez - entendo que o destino último de uma fotografia é a impressão.
Em contrapartida, noto que edito quase todas as fotografias que faço. Quando edito uma fotografia, tal significa que ela me parece suficientemente boa. Quando não é, apago-a. Algumas, deixo-as em Raw, reservando-as para uma futura edição no caso de conseguir torná-las melhores. Isto significa que fico satisfeito com a maioria das fotografias que faço, mas esta satisfação pode ser uma ilusão. Posso, de facto, estar a ser indulgente e acreditar que já atingi um nível de qualidade que faz com que todas - ou quase - as minhas fotografias sejam boas. Este tipo de indulgência é algo em que não quero incorrer, por pressentir que pode levar à estagnação, mas é algo em que muitos bons profissionais por vezes caem.
Antes que alguém pense que me quis comparar a um profissional quando escrevi a última frase (ou mesmo que me considero superior a eles), deixem-me exprimir-me melhor. Por vezes vejo, nas redes sociais, fotografias de profissionais que não são nada conseguidas. Interpreto este facto como autocomplacência, como se os autores das fotografias pensassem que, por serem profissionais consagrados, todas as suas fotografias são excelentes. Há dias vi uma fotografia de um profissional que é patrocinado por uma determinada marca de equipamento fotográfico no Facebook, e fiquei chocado: a fotografia - uma paisagem normalíssima, com um monte e um rio ao cair da noite e um barquinho a compor o enquadramento - era péssima. O equilíbrio dos brancos estava errado, a imagem era unidimensional, o enquadramento era sofrível, a nitidez fraca e o ruído destruidor. O tipo de fotografia que eu teria feito há um ano e apagado quando a visse no computador, mas o referido profissional não teve problemas em publicá-la na Internet. Curiosamente, muita gente gostou da fotografia - apesar de, em termos puramente estéticos, não ser mais que sofrível. Que terá passado pela cabeça do profissional para publicar aquilo? Não consigo abster-me de pensar que o fotógrafo terá pensado que as pessoas iam gostar por ser uma fotografia dele, do visionário que faz críticas de fotografias publicadas pelos leitores na página da marca que o patrocina às Quartas de tarde. (Será que não havia também um pouco de graxa naqueles «gosto» todos?)
Se narrei este exemplo é porque não quero que isto aconteça comigo. Quero pensar na aprendizagem da fotografia como um processo contínuo e infindável, sem nunca me dar por satisfeito com os resultados que obtiver num dado período. No dia em que me deixar convencer que as minhas fotografias são muito boas, vou estagnar e transformar-me num produtor em série de imagens banais. E isso eu não quero, tal como não quero que as pessoas gostem das minhas fotografias por serem minhas: quero que gostem das minhas fotografias por elas terem algo a dizer. E esta é a parte mais difícil da aprendizagem: a técnica não requer tanta aprendizagem como a forma de tornar as fotografias interessantes para quem as vê, porque esta última implica pormo-nos no lugar de quem vê - o que não é tão simples como parece.
Espero, por tudo isto, não estar a cair numa indulgência enganosa. Cada vez a frase de Imogen Cunningham me faz mais sentido: «a minha melhor fotografia é a que vou fazer amanhã». E esse amanhã é sempre amanhã, por muito que pareça que finalmente chegou.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Superstições

Os leitores mais atentos sabem que fui um audiófilo. Durante anos procurei o melhor som possível dentro do meu orçamento e em condições acústicas adversas, tendo chegado a resultados satisfatórios (mas longe de perfeitos: ainda hoje tenho uma série de aberrações sonoras que só poderia eliminar se mudasse de ambiente acústico). O meu sistema é essencialmente o mesmo há doze anos: nunca senti necessidade - nem tive posses - para o evoluir, pelo que é uma verdadeira montra de arqueologia áudio. As únicas evoluções desde 2003 foram as aquisições de uma cabeça Ortofon 2M Blue para o meu gira-discos e um rádio Tivoli Audio Model One, ambas em 2009. Segue uma lista do meu equipamento.
  • Fontes: Gira-discos Rega Planar 3 com cabeça Ortofon 2M Blue, leitor de CD Rega Planet (o original), sintonizador/rádio Tivoli Audio Model One (ligado ao amplificador integrado com um adaptador, para ouvir rádio em stereo);
  • Amplificação: amplificador integrado Primare A20 MkII, pré-amplificador phono Musical Fidelity X-LP;
  • Colunas: ProAc Tablette 50, em cima de uns suportes baratos da Standesign;
  • Cabos: Todos Kimber Kable, excepto os de alimentação.
  • Mesas: um suporte de parede para o gira-discos e um móvel para as electrónicas, feitos por mim com painéis de contraplacado feitos de encomenda no «Freitas dos Contraplacados» em Frazão, Paços de Ferreira. 
Mais tarde descobri a fotografia, e desde então o meu sistema passa a maior parte do tempo desligado. É muito mais educativo, divertido e interessante andar à caça de boas fotografias do que sentar no vértice de um triângulo equilátero formado por mim e pelas colunas a ouvir música sem a apreciar, substituindo a fruição musical por considerações obsessivas do género: «como é que hei-de eliminar a ressonância dos graves?».
Esta alusão à alta fidelidade pode parecer algo deslocada, mas se a faço é porque encontro muitos pontos em comum entre a fotografia e a alta fidelidade enquanto hobbies. E nem sempre estas analogias acontecem pelos melhores motivos.
Uma característica que muitos audiófilos e fotógrafos amadores partilham é a crença na superioridade do digital. É uma convicção errónea na maior parte dos casos, nascida de uma confusão entre qualidade e comodidade (que são conceitos diferentes). Muitos deixam-se enganar por números: os megapixéis dos fotógrafos são os bits dos audiófilos. A qualidade - sonora e de imagem - é algo que não se exprime apenas em algarismos, tendo mais que ver com a percepção subjectiva do que com gráficos. Claro que, para conceber um bom amplificador ou uma boa lente, é necessário saber muito de ciência e tecnologia - mas essa é uma tarefa que deve ser deixada aos técnicos, não aos utilizadores. Contudo, fotógrafos e audiófilos perdem horas e horas das suas vidas debatendo os ISO e os megapixéis das suas câmaras e os bits e o upsampling dos DAC actuais. (DAC = Digital to Analogue Converter) Esta sobreposição de questões técnicas à apreciação subjectiva é comungada por audiófilos e fotógrafos amadores, e em muitos casos redunda em disparates que têm mais que ver com falta de conhecimentos técnicos do que com opiniões devidamente fundadas: são convicções adquiridas em fóruns e com a leitura de artigos de gente que sabe tão pouco como eles.
Um exemplo, na audiofilia, é a bicablagem das colunas de som: a maioria dos fabricantes inclui fichas de alimentação separadas para o tweeter e o woofer. Muitos imaginam ouvir uma melhoria na qualidade sonora quando usam fios eléctricos separados para os dois altifalantes. Eu também o fiz, até descobrir que o efeito da bicablagem é nulo. Hoje uso apenas um dos terminais de cada coluna para as ligar ao amplificador. Contudo, este é um argumento de vendas que os fabricantes usam para aumentar os seus lucros, usando argumentos pseudo-científicos que, de tão néscios, são equiparáveis a superstições.
O mesmo acontece na fotografia. Muitos deixam-se convencer que uma câmara é tanto melhor quantos mais pixéis tiver, quando a gama dinâmica é muito mais importante do que a resolução expressa em números de pixéis. E a treta do ISO, essa, mais vale não me pronunciar sobre ela. (Para quê, se já o fiz tantas vezes?)
Além disto, os audiófilos e alguns fotógrafos amadores ajudam, com as suas superstições induzidas por marketing enganador, a sustentar uma corja de charlatães que vendem fio eléctrico a €1.000,00 o metro ou tripés que custam mais do que o dobro do valor que mencionei. O negócio dos acessórios esotéricos é uma vigarice em que muitos alinham alegremente, graças a uma capacidade de auto-sugestão que os leva a julgarem ver ou ouvir melhorias na qualidade da imagem ou do som onde estas não existem, procurando justificar a aquisição de coisas que não fazem sentido nenhum, mas são caríssimas.
Outra característica comum é a atracção pelo tamanho. Para audiófilos e fotógrafos amadores néscios, o argumento do tamanho é tudo. As colunas têm de ser grandes, os amplificadores têm de ser monoblocos que requerem duas pessoas para os levantarem; e as câmaras só são boas se, além de serem grandes, tiverem um sensor enorme nas suas entranhas. Uma vez disseram-me que um sujeito tinha umas Wilson Audio WATT/Puppy 7 (v. imagem do topo) num quarto de 12m2. O sujeito devia ter todo o género de problemas acústicos que a interacção entre a energia sonora e os limites físicos da sala podem causar - mas tinha umas WATT/Puppy! Tal qual os amadores que compram uma Canon 5D para fazer fotografias dentro de casa, ao gato ou a painéis de cortiça, como já vi...
Tudo isto significa que as pessoas que descrevi não são amantes das artes da música e da fotografia: são tarados da técnica. O problema é que nem sequer percebem muito da técnica. Limitam-se a balbuciar umas coisas sem nexo como o «palco sonoro» ou a «abertura equivalente», conforme os casos, sem se aperceberem que não estão a fazer sentido.
É evidente que há gente inteligente no áudio e na fotografia. Estes riem-se a bandeiras despregadas dos mitos e superstições que enevoam as mentes de alguns audiófilos e fotógrafos amadores. Se os audiófilos disserem a um técnico de som que deram €1.000,00 por fio eléctrico para ligar as colunas ao amplificador, o mais provável é que se sintam vexados pelos escárnios do técnico (que sabe infinitamente mais que eles sobre som). Do mesmo modo, quando certos fotógrafos amadores estiverem diante de um fotógrafo profissional, devem evitar qualquer alusão à «abertura equivalente»: vão envergonhar-se a si mesmos...
Ludwig Wittgenstein escreveu: «Sobre aquilo que sabemos, devemos falar abertamente; sobre o que não sabemos, devemos manter-nos calados». É uma máxima que procuro seguir, mas há muitos que não o fazem e preferem falar do que não sabem.   

domingo, 5 de agosto de 2012

Eu e a Foto Digital

Durante muito tempo fui um apoiante da Foto Digital (http://fotodigital-online.com/). Era o único website português com interesse para um amador que, como eu, quer aprender tudo o que há para aprender sobre fotografia. Durante muito tempo troquei e-mails com o seu administrador, José Antunes, sempre com o cuidado de não ser maçador e de ser construtivo, e sem intenção de o aborrecer com perguntas do género «que abertura é que se usa para fotografar assim ou assado?», ou «que câmara é que me aconselha?». Nunca o fiz, mas verdade seja dita que recebi sempre conselhos úteis, tendo chegado a imaginar que, se viesse a conhecer J. A. pessoalmente, para além da sua projecção virtual na Internet, poderia tornar-me seu amigo - real, e não virtual como são, na sua maioria, os «amigos» do Facebook e dessa praga absurda que são as «redes sociais».
Contudo, notei que, desde há algum tempo, os artigos da Foto Digital se tornaram profundamente desagradáveis de ler, sempre impregnados de ataques e alusões depreciativas a quem tem gostos, preferências ou opções diferentes das do seu autor. Estes artigos demonstram um profundo desprezo, que por vezes chega à injúria, por quem não comunga das opções e não usa equipamento da mesma marca e características que o do seu autor, e o estilo tem vindo a degradar-se constantemente: cada vez mais desbragado e cheio de expressões vernaculares (ainda que disfarçadas por reticências), cada vez mais como se fossem solilóquios e as impressões causadas nos leitores de nada interessassem.
Sei que J. A. é constantemente criticado por alguns leitores. Alguns deles vieram mostrar as suas carantonhas feias aqui no ISO 100, graças a um texto intitulado Novidades da Indústria Fotográfica para o qual J. A. estabeleceu uma hiperligação na Foto Digital (nos tempos em que se dignava responder aos meus e-mails). Os comentários a este texto são esclarecedores quanto àquilo que J. A. tem de suportar por manter um site de fotografia e exprimir opiniões pessoais, mas a verdade é que o administrador da Foto Digital não devia ter enveredado por alusões e ataques constantes nas suas páginas - por mais que os detractores o mereçam. Enquanto formador, aprendi, nos cursos de aperfeiçoamento, que a melhor maneira de lidar com um formando indisciplinado é ignorá-lo ou, se o seu comportamento perturbar as sessões para além do suportável, incutir-lhe respeito pelos colegas, elucidando-o que os outros formandos querem ouvir o que o formador tem a dizer. Apesar de, por vezes, introduzir um ou outro sarcasmo nos meus textos, e de os comentários mais ferozes não deixarem de levar resposta, o que procuro fazer neste blogue é ignorar os ataques e insultos e escrever o que tenho a dizer. Por que não pode J. A. fazer o mesmo, quando é certo que tem muitos mais leitores do que eu - e, por acréscimo, mais responsabilidades?
O website da Foto Digital foi mantido, em parte, com os contributos de alguns leitores - estimo que poucos -, que, mediante a sua contribuição, recebiam o estatuto de «Amigos da FD» e tinham uma secção reservada a eles, a que acediam com um nome de utilizador e uma palavra-passe. Sem uma palavra de satisfação, sem uma explicação ou aviso de qualquer espécie, J. A. eliminou essa secção. Eu não sou mesquinho; não vou exigir que o administrador de um site mantenha a referida secção online por ter contribuído, como se fosse o utente de um serviço público que exigisse todo o género de mordomias do prestador apenas porque pagou. Nada disso: o que o encerramento dessa secção (sem uma explicação que a precedesse) demonstra é um profundo desrespeito pelos leitores. E isto é algo que não estou disposto a tolerar. Posso suportar a sobranceria de alguém que se arroga saber tudo sobre fotografia e ostensivamente humilha quem sabe menos do que ele, posso compreender a amargura de quem quer manter um site de fotografia português e recebe permanentemente críticas e insultos, posso aceitar as opiniões de alguém que entende que o equipamento fabricado pelas marcas da sua preferência é o melhor e tudo o resto é refugo e que os artigos exprimam a preferência pelas marcas que apoiam o website; o que não aceito é a falta de respeito demonstrada por este gesto. O site é do seu administrador, e este pode fazer dele o que muito bem entender; o que não pode é faltar ao respeito aos leitores que de boa fé o apoiaram. Não pode insultar quem não partilha as suas preferências, não pode usar vernáculo nem pode permitir-se a prepotência de amesquinhar e desprezar quem o apoiou. Também é certo que não pode obrigar ninguém a visitar o seu site, mas a verdade é só uma: receber dinheiro dos apoiantes e depois retirar a secção que lhes é dedicada é algo que pode ser muito mal interpretado. Lembra, no limite, aqueles peditórios falsos feitos por pessoas que fazem tudo do dinheiro recebido menos aplicá-lo para os fins anunciados. Não vou exigir o dinheiro de volta, porque não quero baixar o nível - mas sinto-me lesado e desrespeitado. E não devo ser o único.
J. A. assumiu uma atitude de indiferença perante as reacções e consequências daquilo que escreve. Trata os leitores como se todos eles fossem seus inimigos, escreve mais para ele mesmo que para os leitores e dispara em todas as direcções, sem sequer perceber que muitas vezes está a atingir quem o estima(va). Tenho pena que tenha escolhido agir deste modo, porque aprendi muito com ele e estou-lhe grato, mas a verdade é que retiro muito mais prazer de ler os artigos de Michael Johnston no The Online Photographer, ainda que sejam escritos em inglês dos Estados Unidos. Mike é um cavalheiro, uma pessoa educadíssima, de um sentido de humor subtil - embora mordaz - e de uma tolerância notável diante das opiniões alheias. E ser assim não significa que prescinda da frontalidade, que exprime sempre com elevação. Os seus textos são educativos e divertidos de ler, nunca me tendo apercebido de ataques pessoais ou de actos e expressões que demonstrassem desrespeito pelos leitores. E, como seria de esperar, sabe muito de fotografia. Acresce que não pede dinheiro aos leitores.
Que pena não haver um website assim em português de Portugal!      

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Poluição visual

Uma das piores coisas que pode acontecer quando se fotografa é a existência de objectos que interferem visualmente com a imagem. São objectos que não podem ser retirados do enquadramento e prejudicam a harmonia estética da fotografia. Todos nós já nos demos conta deles: a fotografia maravilhosa que fizemos do rio sem que reparássemos nos cabos de alta tensão que o atravessa de uma margem à outra, por exemplo. Ou o automóvel estacionado mesmo no lugar onde queríamos fazer a fotografia de um monumento importante - normalmente um Ford Fiesta cinzento metalizado, ou um Citroën Saxo azul, ou qualquer desses carrinhos que o cidadão da classe média compra e insiste em estacionar à porta do lugar onde se dirigiu.
Um crop do tal painel. Lindo, não é?
Isto vem a propósito de umas fotografias que falharam por causa de um cartaz em particular. Em Vila Nova de Gaia, na encosta acima do «Cais do Cavaco» (nem me vou dar ao trabalho de indagar o porquê deste nome...), há um painel publicitário gigantesco, iluminado por não menos que catorze holofotes. Suponho que a intenção é que a publicidade seja bem visível do lado do Porto. Esse painel anuncia, à data em que escrevo, um daqueles festivais de Verão que agora surgem como cogumelos, mas com a particularidade de já ter acontecido há quase um mês. Alguém anda a pagar para anunciar um festival que já foi, e a câmara de Gaia e a EDP permitem um desperdício verdadeiramente obsceno de energia eléctrica para publicitar um evento do passado. Quase tão mau como isto, porém, é o facto de o painel desfear uma zona que é particularmente bonita (pelo menos à noite). É impossível deixar de olhar para aquela monstruosidade. Em matéria fotográfica, temos uma mancha azul no meio das sombras e da iluminação pública amarela alaranjada. Um desastre estético que nem a correcção de manchas ou a clonagem dos programas de edição conseguem disfarçar.
Já agora, o referido festival foi patrocinado pela TMN, do grupo Portugal Telecom, a electricidade é fornecida pela EDP e as taxas pela afixação são receita do Município de Vila Nova de Gaia. É assim que é gerido o nosso dinheiro.
Há outras fontes de poluição visual para além da publicidade (e nem sempre esta é nociva para a fotografia, como o demonstram as boas fotografias nocturnas de Tóquio ou Nova Iorque). Já aludi aos automóveis e às linhas de alta tensão, e o que referi em relação a estes últimos também se aplica a cabos e linhas telefónicas. Mas há muitas mais. O caos estético que é a urbanização em Portugal é outro manancial de poluição visual. Quando tento fotografar ruas da Zona Histórica do Porto, encontro sempre coberturas de plástico sobre as janelas, marquises completamente fora do contexto, cores misturadas sem critério, caixotes do lixo a transbordar, antenas parabólicas e outros elementos poluidores que obstam à harmonia visual. Uma vez levei uma amiga estrangeira a passear pelo alto Minho; ela ficou escandalizada com as casas construídas à face da estrada e a desordem urbanística das vilas e aldeias. Os barracões e estabelecimentos junto à berma das estradas são verdadeiras aberrações, causando confusão e desconforto visual. Só Ponte de Lima escapa a esta bandalheira generalizada. Eu não gostaria de viver num país projectado por Albert Speer, mas a balbúrdia que são as nossas cidades, vilas e aldeias, além de ser esteticamente desagradável, é uma inimiga poderosa da fotografia.
Há pouco a fazer para evitar estas fontes de poluição visual (que me abstenho de enumerar exaustivamente). O melhor é tentar compor a fotografia de maneira a integrá-las harmoniosamente no enquadramento, jogando com eventuais linhas que elas formem e com os volumes. Uma boa solução pode ser fotografar a preto-e-branco, o que atenua o choque visual provocado por contrastes de cor violentos. Na impossibilidade de integrar os elementos poluidores na composição, há sempre o cropping (cortar a fotografia para excluir as fontes de poluição), mas o resultado pode não ser o melhor. O mesmo quanto às ferramentas de edição: a clonagem pode não dar o resultado esperado, sendo preferível usar a correcção de manchas; mas mesmo esta ferramenta pode estragar mais do que compõe. Por vezes o melhor é mesmo desistir de fotografar aquele lugar; afinal de contas, se está assim tão poluído, não é merecedor de ser fotografado.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Da falta que um automóvel faz

Ontem teria gostado de fazer uma enorme sessão fotográfica, mas não pude. Estou sem automóvel há mais de uma semana. Está para reparar porque, no dia 28 de Junho, um indivíduo completamente embriagado decidiu atravessar a rua à minha frente, imprevistamente e sem sequer olhar. Tudo o que pude fazer foi desviar-me com uma guinada brusca, mas isto teve apenas como consequência não ter atingido o homem em cheio, antes tocando-lhe de raspão com o lado direito do carro. A despeito de o sinistrado ser minúsculo - media cerca de 1,60m, não mais -, a devastação causada no carro foi considerável: o retrovisor direito foi pulverizado, amassou-me o guarda-lamas do mesmo lado e ainda conseguiu as proezas de meter um farol de nevoeiro para dentro da carroçaria, perfurando com isto o reservatório do líquido de limpeza do pára-brisas, e fazer uma mossa no pilar A (aquele entre o pára-brisas e a janela do passageiro). E eu nem sequer ia a grande velocidade!
Se vos parece que estou a ser completamente insensível quanto ao estado em que o atropelado ficou, desenganem-se: parei imediatamente o automóvel e saí para me inteirar do seu estado. Encontrei-o deitado de bruços no asfalto, com uma mistura de sangue e saliva saindo-lhe da boca. Cheguei a pensar que tinha morrido, o que me deixou num estado para cuja descrição não existem adjectivos na língua portuguesa, mas dez minutos após o atropelamento a vítima levantou-se sem ajuda. E, quando na manhã seguinte fui ao hospital para saber do seu estado de saúde, descobri que já tinha recebido alta! Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo... 
Resultado: a despeito de não ter tido qualquer culpa, vou ter de suportar a despesa com a reparação do carro (o meu seguro é contra terceiros), porque o Fundo de Garantia Automóvel não funciona em casos de atropelamento. A minha seguradora vai provavelmente pagar as despesas hospitalares do borracho e, em consequência, agravar-me o prémio. Mover uma acção contra o responsável pelo acidente? Fora de questão. É, provavelmente, um daqueles madraços que dão má reputação ao Rendimento Social de Inserção. E não estaria a salvo de encontrar um juiz idiota - também os há... - que julgaria em favor do pobrezinho do peão, tão vulnerável e indefeso, e contra o malvado do automobilista (mesmo que o primeiro estivesse completamente bêbado, tivesse atravessado a faixa de rodagem sem tomar precauções e a despeito do facto de existir uma passadeira a menos de 50 metros do local). E já nem falo na taxa de justiça e custas judiciais, que provavelmente teria de suportar na íntegra.
O automóvel - e não o tripé, como alguém erroneamente afirmou - é que é o melhor amigo do fotógrafo. Sem ele, as minhas fotografias seriam circunscritas aos limites da minha freguesia de Lordelo do Ouro, Porto; apesar de ser uma freguesia particularmente fotogénica, fotografar sempre as mesmas coisas causa tédio. O fotógrafo precisa de viajar, mesmo que as viagens sejam curtas. Apesar de haver muitos fotógrafos - nomeadamente os de rua - que encontram sempre motivos interessantes em espaços confinados, outros, como eu, gostam de variar e de encontrar lugares diferentes. Gosto, por exemplo, de encontrar praias que sejam ideais para fazer aquelas fotografias com arrastamento das ondas do mar, praias essas que, além de darem belíssimas fotografias, me providenciam momentos únicos de paz e relaxamento. No ano passado, no dia em que decorreu um ano sobre o meu tirocínio fotográfico, fui a Amarante, onde fiz fotografias nocturnas da ponte e da igreja de S. Gonçalo que me deixaram incrivelmente satisfeito; este ano não fiz uma única fotografia no dia que marcou o meu segundo ano como amador da fotografia. Foi apenas uma efeméride, eu sei, mas mesmo assim foi triste e frustrante.
Quanto ao peão, o leitor decerto me desculpará por não conseguir exprimir qualquer simpatia por ele. Uma testemunha do acidente afirmou-me, na semana passada, que aquele continua a apanhar bebedeiras diariamente, o que significa que não aprendeu nada. E é natural que continue a desafiar os condutores atravessando-se à frente destes, como fez comigo. E que dirija alguns impropérios contra mim junto dos seus companheiros de carraspanas...

terça-feira, 31 de julho de 2012

Dois anos a fotografar

Quando acordei nesta manhã de 31 de Julho de 2012, senti-me de imediato envolto numa sensação de estranheza, desilusão e amargura: não tinha nenhuma mensagem de felicitações à minha espera; nenhuma carta, nenhum telegrama, nenhuma mensagem de correio electrónico. Nem sequer um simples SMS. Quando saí de casa, a minha desilusão cresceu e tornou-se tristeza: não havia cerimónias, fanfarras, nem confetti voando no ar ou majorettes desfilando em uniformes com mini-saia. Nada de hastear de bandeiras, discursos oficiais, medalhas ou condecorações. Nem sequer um rodapé nos jornais ou na televisão; ouvi, com ansiedade incontida, os noticiários da rádio, e nada - nem uma palavra. 
Diria, pois, que esta efeméride passou largamente despercebida do público. Talvez - especulei - o facto de ela só a mim dizer respeito, e só para mim ter algum significado, tenha contribuído para que a data de hoje fosse um dia como qualquer outro para o cidadão comum. Daqui resulta, provavelmente, o facto de não ter havido qualquer espécie de reconhecimento público ou festejo. O que é, devo dizê-lo, profundamente injusto.
Uma das fotografias do dia 31 de Julho de 2010
No caso de alguém ainda não ter percebido - e há sempre quem não consiga entender o que está a ler e leve tudo ao pé da letra, especialmente na blogosfera -, estou apenas a brincar. Estou a ver se levo a minha imaginação um bocadinho mais longe, na esperança de entreter um pouco os leitores. E a exercitar a escrita: é que gosto tanto de escrever como de fotografar. Com a diferença fundamental de a escrita não requerer equipamentos sofisticados e caros.
A verdade é que comecei a fotografar há dois anos. Foi no dia 31 de Julho de 2010, um sábado, que comprei a minha primeira câmara, a Canon PowerShot A3150is. Já escrevi o suficiente sobre as minhas efemérides fotográficas aqui e aqui, pelo que não vou maçar ninguém com descrições daquilo a que, se acaso tivesse gosto por lugares-comuns, chamaria «o meu percurso»; o que me interessa é saber o que consegui ao longo destes últimos dois anos - para além de me ter tornado num tarado da fotografia.
A minha primeira câmara
Quando olho para as minhas fotografias antigas (se é que este é o adjectivo correcto para designar fotografias com apenas dois anos), não me sinto particularmente embaraçado, mas também não me encho de orgulho; não esperava fazer fotografias espectaculares desde o primeiro dia, porque tive sempre a consciência de que a estrada da aprendizagem era longa, sinuosa e cheia de dificuldades; nem olho para as primeiras fotografias com complacência, porque nunca me abstenho de ser crítico. As minhas primeiras fotografias são muito fraquinhas em praticamente todos os aspectos, mas nalgumas delas penso que consegui exprimir algumas das ideias que me levaram a querer fotografar. E isto era o mais importante. Não comecei a fotografar por ser aliciante exibir-me na rua com equipamento fotográfico, nem para me obcecar com questões técnicas; foi para transformar em imagens o que os meus olhos viam e me parecia merecedor de ser capturado. Quando comecei tinha já algumas noções de design - conhecia algumas regras de composição, como a regra dos terços -, mas não sabia mais nada de fotografia. O que me levou a querer suprir essa lacuna do conhecimento da forma mais ampla e rápida possível, e a transmitir os conhecimentos que dei por adquiridos e consolidados - que é para isto que este blogue serve.
Também já narrei aqui as limitações da minha primeira câmara, que me levaram a adquirir o meu equipamento actual. Este último deixa-me satisfeito e, a despeito de algumas limitações, não sinto necessidade de mudar. Preciso apenas de uma ultra grande-angular, da ordem dos 12mm, para que o meu equipamento fique verdadeiramente completo, mas o que me interessa, neste momento, é fazer fotografias interessantes. Agora que o equipamento deixou de ser uma limitação, não tenho desculpas para fotografias banais ou desinteressantes. É nos conteúdos, mais do que nas técnicas, que quero evoluir.
As fotografias que faço hoje, essas, não me ficaria bem adjectivá-las; algumas satisfazem-me, outras não. Recebem muitas vezes reacções positivas, mas estas deixam-me sempre na dúvida se são sinceras ou se os juízos são proferidos por simples simpatia ou cortesia. Sinto sempre que posso fazer melhor, e vem-me com muita frequência à mente a frase de Imogen Cunningham: «a minha melhor fotografia é a que vou fazer amanhã».
As únicas coisas que sei ao certo, ao fim destes dois anos, é que me envolvi no hobby mais interessante do planeta, e que quero continuar a fotografar e a aprender. Porque a estrada a que me referi mais acima, além de ser longa, sinuosa e cheia de dificuldades, não tem fim - nem saberia bem percorrê-la se o tivesse.

domingo, 29 de julho de 2012

Abstraccionismo. Porque não?

Ultimamente tem-me dado para fazer algumas fotografias que não têm intenção de ilustrar coisa nenhuma; não informam sobre um objecto, não têm um conteúdo ou significado explícitos. São oferecidas à percepção de quem as vir, deixando a estes liberdade de olhar e interpretar a fotografia. São objectos puramente formais, e o único conceitualismo neles presente é o uso do preto-e-branco (nalguns casos, o chiaroscuro).
Não é obrigatório que a fotografia tenha uma significação imediata, ou que a intenção fotográfica se apresente directamente à percepção e que seja óbvia. Pelo menos desde Man Ray que a fotografia é usada, por muitos fotógrafos, como algo desligado da realidade das circunstâncias que rodeiam o objecto fotografado, e a fotografia sempre acompanhou os movimentos estéticos da pintura e de outras artes - a despeito do seu potencial para retratar a realidade tal como ela é. Não há nada de errado em tomar um elemento de um determinado objecto - por ex. a sua forma - e isolá-lo da sua realidade. A criatividade não deve ter nenhum limite, excepto este: não se deve transformar a fotografia em algo que não estava presente no local onde esta foi feita (mas mesmo nisto sou hoje bem mais tolerante do que há apenas uns meses atrás). Esta transformação é a negação da fotografia como meio de capturar uma cena ou um objecto num momento único e irrepetível: é necessário que aqueles existam defronte da lente no momento em que se enquadram e se dispara. Caso contrário estaremos no domínio, não da fotografia, mas das artes gráficas. Sobrepor um fundo com nuvens ou estrelas numa fotografia sem que aqueles elementos estivessem no lugar onde foram fotografados é uma mentira, embora seja cada vez mais usada e aceita graças à popularidade do Photoshop CS.
A abstracção não significa, necessariamente, ruptura com o real. Significa, na maior parte dos casos, uma forma particular de ver os objectos. Mesmo quando se esbate o plano de fundo, está-se a usar a abstracção, desligando o objecto daquilo que o circunda - mas o objecto está, nas circunstâncias particulares de tempo e de lugar em que foi fotografado. É no plano dos conceitos que a abstracção se encontra, não no plano ôntico. É uma maneira de interpretar a realidade, não uma construção irreal (ou uma desconstrução do real): nas minhas fotografias o objecto existe, embora apenas se considere a sua forma, separadamente de elementos como a cor ou a envolvência.
Nas fotografias com que ilustro este texto fotografei folhas boiando num lago, uma formação de microalgas no mesmo lago e a ondulação de um rio; na primeira, usei o enquadramento para abstrair dos limites da mancha de folhas caídas, de maneira a que estes não se tornassem perceptíveis (tentando assim criar uma sensação de uma quantidade e densidade muito superiores às que realmente existiam). Na outra interessaram-me as linhas que dividiam os grupos das microalgas, como que formando caminhos sinuosos, e, na última, fotografei uma pequeníssima porção do rio Douro com uma teleobjectiva. O leitor mais arguto terá reparado que são todas em preto-e-branco, e tal deve-se a ter querido desligar os objectos do elemento cor, concentrando a atenção nas formas e texturas. Devo dizer que não faço a mais pequena ideia se estas fotografias são boas ou más, se são interessantes ou desinteressantes e se quem as vê lhes atribui algum significado. Sei que estão no pólo oposto das snapshots das férias e do cão, que não são lá muito populares no Flickr e que continuo à procura de qualquer coisa que não sei bem o que é. E que nem sempre as referências à realidade têm de ser concretas e literais. Nem em fotografia.

sábado, 28 de julho de 2012

ISO, ruído, flash e tripé (uma adenda)

Só estou aqui a escrever porque a RTP decidiu que é muito mais importante transmitir um jogo de voleibol de praia feminino entre a Suíça e a Grécia do que a qualificação da ginástica artística masculina, em que participa um português, o Manuel Campos (Joca), que, por sinal, conheço desde que ele era ainda uma criança. Foi a primeira vez que um ginasta português se apurou para os jogos olímpicos, mas a RTP, aparentemente, parte do pressuposto inerme de que os portugueses gostam é de jogos com bola - mesmo que seja voleibol de praia feminino. Este é o serviço público a que temos direito.
Lamentações à parte, o que me levou a escrever hoje foi a necessidade de reforçar algo a que aludi no texto de ontem: todas as câmaras, mesmo as melhores, produzem ruído. E este manifesta-se desde muito cedo: por maior que seja o valor ISO anunciado, o ruído começa a deteriorar a qualidade da imagem, mesmo em câmaras como as Nikon D4 e D800, ou a Canon 5D Mk III, a partir de ISO 800. Em qualquer das câmaras mencionadas estão montados sensores full frame, pelo que esta não é apenas uma questão de área; aliás, as Leica M8 e M9 têm sensores full frame e o ruído que produzem é de um standard que as deixa abaixo de câmaras com sensores 4/3. Algumas câmaras disfarçam melhor este fenómeno que outras quando se fotografa em JPEG, mas em Raw, sem a intervenção do processador, a verdade é revelada sob uma luz particularmente cruel.
Não falo de cor. Quem duvidar do que digo pode confirmar aqui e entreter-se um pouco com a comparação entre as câmaras que mencionei atrás e a Pentax 645D, uma câmara médio formato. Só esta última consegue obter imagens relativamente limpas a ISO 800 - mas a sua gama de sensibilidades termina, curiosamente, nos 1600.
Aliás, este último facto levanta uma outra questão: serão sensibilidades ISO da ordem das dezenas ou centenas de milhar verdadeiramente necessárias? Se uma câmara médio formato não vai além de 1600, não é certamente porque o fabricante não sabe fazer melhor. Diria, mesmo sendo praticamente um leigo, que é uma opção deliberada para evitar a deterioração da qualidade da imagem causada pelo acréscimo de ruído que as sensibilidades elevadas necessariamente implicam. Contudo, existe a tendência de engodar o consumidor mal informado com valores ISO astronómicos (e também com muitos megapixéis), como se estes fossem absolutamente fundamentais. Não são. Quantos fotógrafos amadores precisam de velocidades de disparo muito altas em condições de fraca luminosidade? Nenhuns! Só os profissionais é que têm esta necessidade, e mesmo assim só em casos extremos. Diria que adquirir uma câmara porque esta anuncia um valor ISO da ordem dos 102400 é tão estúpido como comprar um automóvel que marca 240 km/h no velocímetro, apesar de o seu motor de 1200 cm3 produzir 75 hp. 
O meu conselho? Não se importem com os valores ISO anunciados no momento de adquirir uma câmara. Preocupem-se mais com o nível de ruído que a câmara produz a ISO 100 ou 200, porque é aqui que se vê o desempenho da câmara em termos de ruído.
Agora deixem-me ir ver como é que o Joquinha se safou...     

terça-feira, 24 de julho de 2012

Do fanatismo

O lançamento da Canon EOS M foi acompanhado por muitos milhares de pessoas - como seria de esperar de uma câmara que é a primeira do seu género de uma marca tão importante como é a Canon. As reacções que suscitou, que podem ser lidas na Internet, têm a particularidade de trazer a público um dos piores defeitos da espécie humana - o fanatismo.
Eu dou-me muito mal com fanatismos. Discussões entre portistas e benfiquistas fazem-me fugir, tal como os argumentos trocados entre fanáticos de Fernando Alonso e de Lewis Hamilton. Levando isto para uma escala planetária, sinto vergonha de ver os argumentos que liberais e conservadores esgrimem a propósito das eleições presidenciais americanas, e ver o fanatismo religioso, esse atavismo da Idade Média, florescer no Século XXI, é algo que a minha compreensão não consegue abranger.
Do mesmo modo, não concebo nem sinto qualquer simpatia por fanatismos em torno de marcas de equipamento fotográfico. É ridículo, e de uma futilidade inconcebível, que se sinta um fervor apaixonado pela Canon, Nikon, Olympus, Pentax ou Panasonic. Contudo, e a despeito de podermos estar a incensar accionistas e CEOs corruptos, gananciosos e desprezíveis quando idolatramos uma marca de equipamento fotográfico, este existe; milhares de fanáticos insultam-se e rebaixam-se diariamente na Internet, trocando argumentos irracionais e infantis para justificar a pretensa superioridade da sua marca de eleição sobre todas as outras. Os canonistas vociferam contra a Nikon, os Nikonianos lançam pedras (verbais) aos canonistas, os olympianos e pentaxistas desdenham aquilo a que chamam «Canikon» e recebem em troca outras verberações.
A irracionalidade atinge dimensões tais que aquilo que há três anos eram defeitos redibitórios são hoje virtudes justificadas por argumentos falaciosos. Quando a Olympus E-P1 foi lançada, em Junho de 2009, foi ridicularizada pelos fanáticos de outras marcas - incluindo, obviamente, os canonistas - por não ter flash nem visor incorporados; agora que a Canon lançou uma câmara mirrorless sem visor nem flash, esta ausência é considerada uma opção «inteligente»! Repito: isto é ridículo. O fanatismo rebaixa os fanáticos a um estatuto primitivo, fá-los fazer figura de parvos em público e priva-os de qualquer respeito ou simpatia que os outros pudessem nutrir por eles. Ontem senti-me desgostoso por ver gente que sempre admirei e respeitei comportar-se pior do que o pior dos fanáticos para tentar justificar uma câmara indefensável como a Canon EOS M, e isto criou em mim uma consciência aguda e crítica dos perigos do fanatismo.
Uma câmara é apenas uma câmara. É o veículo, o instrumento que nos permite exprimir a criatividade fotográfica. Compreendo que se seja um apaixonado da fotografia e se procure mergulhar durante horas na Internet em busca de informação sobre Ansel Adams, Steve McCurry, Helmut Newton ou Annie Leibovitz, que se adquiram livros sobre fotografia e que, de um modo geral, se viva imerso na fotografia; compreendo, também, que se queira explorar até ao limite as capacidades do equipamento, e hoje sou muito mais aberto à edição de imagem do que há um ano; compreendo, deste modo, que se despendam horas sem fim modificando curvas de tons, adicionando contraste local ou alterando os valores das altas luzes e das sombras para tornar as fotografias melhores. O que não posso, de modo algum, compreender é que se usem argumentos infantis para justificar as opções de um fabricante de equipamento, ou para afirmar a pretensa superioridade de uma dada câmara sobre as suas rivais.
Não sou fanático. Adquiri a minha câmara por gostar das suas linhas, e não por ser uma Olympus. Comprei-a depois de me assegurar que a sua qualidade de imagem era elevada, e estava perfeitamente consciente dos seus defeitos e limitações. Estes não me pareceram obstáculos ao uso que iria fazer dela, pelo que não impediram a minha aquisição. Sei que a minha câmara tem defeitos: a falta de um visor, ou de um dispositivo para montar um visor electrónico, é um deles; pior ainda, porém, são o ruído e a tendência para estourar as altas luzes. Contudo, prefiro extrair a melhor qualidade possível da minha E-P1 a obcecar-me com a compra de uma câmara nova que não apresente estes problemas. Se não fosse o facto de ter cinco lentes para o formato micro 4/3, olharia para outras marcas no momento de comprar uma câmara nova (momento que espero estar ainda bem longe). O que é verdadeiramente importante é que o meu equipamento me sirva para fazer as fotografias que quero, mesmo que tenha de contornar os problemas da câmara com recurso a meios exteriores à própria câmara - o que faço com o uso do melhor e mais sofisticado software de edição de imagem que conheço. Nunca me atreveria a insultar os que têm câmaras de outras marcas, como muitos fazem, a despeito de ser muitas vezes atingido pela sobranceria dos fanáticos com os seus comentários ignorantes sobre a inferioridade teórica de um sensor pequeno. (As discussões sobre tamanhos de sensores são tão disparatadas como as comparações que os rapazes púberes fazem da sua genitália; nisto, como na fotografia, o que importa é o que se faz com o material que Deus - ou a Pixmania... - nos deu.)
Por vezes, quando fotografo, sou confrontado com os olhares desdenhosos de gente que traz ao pescoço DSLRs topo-de-gama (ou nem isso...) da Canon e Nikon. Não me afecta. É até possível que essas pessoas sejam fotógrafos perfeitamente medíocres, sem um conteúdo que se aproveite nas suas fotografias e sem perseguirem uma ideia ou um conceito pessoal de fotografia; estarão, porventura, mais preocupados em fotografar com valores ISO astronómicos ou em fazer múltiplas fotografias de um objecto desinteressante usando várias opções técnicas. É com eles. Por mim, prefiro fazer fotografias, e não testar o equipamento. (O que noto, por seu turno, é que os bons fotógrafos que conheço não têm nenhum gosto particular em ostentar o seu equipamento: apenas usam o melhor material que podem comprar, porque só esse corresponde aos seus critérios de qualidade.)
Este texto foi escrito enquanto ouvia música tranquilizadora (o maravilhoso álbum Twist Again, dos americanos Bodies of Water, que eu não sou adepto de música new age nem de Kenny G...), para tentar evitar que as minhas considerações sobre os fanatismos se tornassem demasiado amargas ou exaltadas e atingir alguém em particular com as minhas palavras. Porque o fanatismo dos fanboys, a sobranceria dos possuidores de DSLRs em relação a quem tem equipamento que consideram inferior, e a infantilidade e frivolidade dos amantes da tecnologia fotográfica produzem-me, por vezes, reacções viscerais. E eu não quero ser igual a essa gente. O que eu quero é fotografar; quero exprimir em imagens a maneira como vejo as coisas, os meus ideais estéticos e os meus conceitos de fotografia. O resto é acessório. O equipamento é necessário, mas é apenas um conjunto de elementos mecânicos, electrónicos e ópticos; não é nada que mereça que nos rebaixemos e nos comportemos como criaturas tolas, intolerantes, sobranceiras e irracionais.      

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Monitores

Quem faz fotografia digital deve ter o maior cuidado na escolha do monitor. Não pela qualidade em si, ou por tornar mais agradável a visualização - embora este seja um factor a tomar em consideração -, mas sobretudo para evitar erros de apreciação das fotografias, em especial durante a edição.
Um mau monitor pode induzir em erro de mais que uma maneira. Se a sua resolução for insuficiente, podemos ser tentados a interpretar a má qualidade da imagem como serrilhado (moiré) e estragar a fotografia, por excesso de edição, à custa deste erro de apreciação. Isto é particularmente notório quando se usam programas de edição de imagem avançados e o monitor tem um número reduzido de dpi (dots per inch, ou pontos por polegada). Neste caso o serrilhado vai tornar-se notório, mas tal não significa, necessariamente, que seja uma deficiência da imagem: é o efeito da escassa contagem dos pontos e do seu tamanho relativamente ao ecrã.
O outro erro de percepção refere-se às cores. Os monitores necessitam de calibração da cor, uma vez que nem todos são capazes de uma qualidade da imagem que apresente as cores tal como elas devem ser. Esta não é uma questão de gosto pessoal, mas de precisão na apresentação das cores. Cada cor é constituída por cores primárias (amarelo, ciano e magenta ou vermelho, verde e azul), e o excesso de uma destas afecta decisivamente a tonalidade.
Para dizer as coisas sem papas na língua, devo referir que a motivação para escrever este artigo veio da fraquíssima qualidade dos monitores HP a que tenho acesso. Mesmo sendo verdade que são muito básicos, estes monitores têm deficiências que arruínam por completo a experiência de ver fotografias. Na sua calibração normal, os azuis sofrem de uma tonalidade arroxeada, os vermelhos são deslavados e a imagem é, em geral, demasiado contrastada. E a regulação das definições do ecrã, acessíveis através dos menus do próprio monitor, não ajudam em nada. Quanto ao serrilhado, este é visível mesmo nos caracteres dos programas de texto: as letras são fragmentárias e tendem a ser apresentadas com formas mais quadradas do que deveriam. Curiosamente, os monitores pequenos, como os dos computadores portáteis, são geralmente isentos destes defeitos. Ao contrário do que acontece nos sensores das câmaras, a concentração maior de pixéis é benéfica, porque suaviza os contornos, mas tal não significa que estejamos a ver a verdadeira resolução da imagem. Uma fotografia que nos parece ideal num computador portátil pode apresentar defeitos quando vista num monitor de alta resolução.
A boa notícia é que o monitor pode ser calibrado. Há um aparelho, o Spyder (2 ou 3), que analisa a imagem e a corrige. A má notícia é que este aparelho, que provavelmente será usado uma vez por ano, é muito caro. Nunca experimentei este calibrador, mas diz quem sabe que os resultados são muito bons. Quanto às minúcias da calibração, remeto para este artigo do imaging resource, que já me fez ver que o monitor do meu Asus não está, afinal, tão bem calibrado como pensava... Em todo o caso, e na falta de um aparelho como o Spyder, não há como escolher a resolução máxima possível, quer no aspecto do ecrã, quer na cor.
Já escrevi, por diversas vezes, que as fotografias são para ser vistas por outras pessoas. E nós podemos estar convencidos que as nossas fotografias estão com uma qualidade decente, por ser assim que as vemos nos nossos monitores, e terem deficiências gritantes quando vistas noutros monitores. Ou podemos estar a cometer erros com a edição da imagem por julgarmos que a imagem do monitor é a ideal.
Seja como for, evitem os monitores HP.  

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Fora do tema: o Relvas

Em tempos tive um blogue de política. Aliás, tive dois, embora o primeiro fosse anónimo, não sei bem porquê. Este ano decidi que queria blogar para me divertir e escrever sobre assuntos que me apaixonam, pelo que acabei com o meu outro blogue, o Queremos Mentiras Novas. A fotografia apaixona-me, a política não - embora me considere um cidadão razoavelmente atento e consciente. O facto de dedicar o meu tempo na blogosfera à fotografia não significa que me tenha exonerado da realidade que me circunda, e por vezes surgem temas que me obrigam a pronunciar-me sobre eles.
A licenciatura do Relvas é um destes temas. Devo dizer que não me sinto agastado por o Relvas não ser licenciado: há gente de enorme valor que nunca se licenciou. O Relvas, porém, não só não tem valor como mentiu e obteve a sua falsa licenciatura através de cunhas e, presumivelmente, trocas de favores.
E por que me revolto eu com esta história indecorosa? Porque eu sou licenciado, mas um licenciado a sério. Foi com muito sacrifício que me licenciei por aquela que é uma das faculdades mais difíceis e exigentes do país - a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Quando me refiro ao sacrifício, tal não significa que me tenha sido particularmente difícil fazer o curso: concluí-o com média de 13 - o que, não sendo brilhante, já é muito bom, de acordo com os elevados critérios coimbrões - e em cinco anos, que era o tempo estritamente necessário. (Eu sou um «pré-Bolonha».) Os sacrifícios a que me refiro foram as muitas horas de estudo, a ausência de casa e a renúncia a muitas horas que podiam ter sido vividas de uma maneira bem mais descontraída e que despendi mergulhado em sebentas, manuais e apontamentos. Ainda maior, porém, foi o enorme sacrifício económico que os meus pais fizeram para que eu me licenciasse, sacrifício que tem a minha eterna gratidão e nunca serei capaz de recompensar.
O facto de o Relvas se apresentar como licenciado é um insulto a todos os que, como eu, trabalharam arduamente para se licenciar - em particular num momento em que uma licenciatura é um meio particularmente eficaz de aceder à condição de desempregado. Seja como for, não é fácil, para alguém com um mínimo de decência, ver que despendeu horas e horas de estudo e de sacrifícios para se licenciar, e vir alguém como o Relvas arrogar-se a condição falsa de «Dr.» Não pela pseudo-licenciatura em si, repito, mas pela fraude e pela mentira. É como se víssemos que os nossos esforços foram em vão e que mais valia não termos estudado e termos, em lugar de ingressar na faculdade, investido numa carreira política e subido através da intriga, da cunha, dos favores e dos laços com uma sociedade secreta da treta. É o triunfo do oportunismo sobre o mérito.
Por estas razões, ver alguém como o Relvas apresentar-se como licenciado quando apenas concluiu uma cadeira - e mesmo isto é duvidoso - de um curso de faz-de-conta da extinta Universidade Livre (que era uma espelunca onde qualquer um se licenciava, desde que pagasse as propinas), é algo que me revolta profundamente. Se o Relvas fosse um cidadão como outro qualquer, era capaz de perdoar a sua tola pretensão de ter um canudo quando nada fez para o merecer e arrogar-se um título académico que não tem, mas o Relvas é o Relvas, nem mais nem menos que a criatura mais odiosa da política portuguesa. Sobre ele escrevi isto no meu primeiro blogue, em 2005:
«Há, no PSD, uma estrela em ascensão: o secretário geral, um tal Relvas. A criatura consegue a proeza de deixar adivinhar o que vai dizer antes de abrir a boca, porque o arzinho presunçoso e enfatuado que ostenta é o sinal de que vai sair qualquer coisa de provocatório e odioso. E, quando o Relvas abre a boca, é só para confirmar o que se suspeitava – ele não é dos que deixam entrar a mosca!
«O Relvas é mais um exemplo da mediocridade confrangedora que tomou conta daquele partido. A sua retórica é uma nulidade do ponto de vista político e, intelectualmente, chega a ser néscia. O que lhe falta em inteligência é compensado com perfídia: tem sempre a provocação gratuita, o insulto sibilino e a atoarda intriguista na ponta da língua, e nem sequer se dá ao trabalho de medir as distâncias quando insulta os adversários. A arrogância de criaturas como o Relvas é insuportável - especialmente agora, que sente que o seu tempo de ribalta está a terminar.»
Isto foi escrito muito antes de saber da fraude que lhe permitiu apresentar-se como «Dr.», do caso das secretas e da chantagem sobre a jornalista do Público, mas convenhamos que não perdeu actualidade. A criatura é de tal maneira ridícula que até o Dr. Alberto João Jardim se ri dele, como quando elaborou sarcasmos sobre a falsa licenciatura do Relvas em frente das câmaras das televisões. Aliás, mesmo dentro do PSD há muitos que se sentem profundamente embaraçados com a presença do Relvas e estão mortinhos por vê-lo pelas costas - o que é natural, porque o PSD não se resume a gente sem qualidades -, mas o Relvas não lhes vai fazer esse favor: vai manter-se no poleiro até que o Dr. Passos Coelho o ponha onde ele merece estar - no olho da rua. Porque é um ser inteiramente desprovido de decência e de ética.
Um dos meus sobrinhos sintetizou toda a consideração que o Relvas merece do povo português: «Nós nem sequer devíamos ter conhecimento da existência desta criatura» - pretendendo, com esta frase, exprimir a sua perplexidade por alguém como o Relvas se ter tornado numa figura pública. No dia em que muitos portugueses se manifestam para exigir a demissão do Relvas, eu quero dizer que estou com eles.

domingo, 8 de julho de 2012

Fora do tema: passeando pela cidade

Talvez por ter uma natureza pessimista, o meu olhar é quase sempre atraído para o que está errado. Quando ando pela minha cidade - o Porto, para quem ainda não sabe -, especialmente pelo seu centro histórico, o que vejo é uma cidade quase abandonada: ruas sujas, conspurcadas, com casas em ruínas que ameaçam cair a todo o momento; casas sustentadas com vigas ou barrotes, casas miseráveis com toldos improvisados de plástico, marquises completamente deslocadas, pinturas aberrantes. E a sujidade, omnipresente, que se patenteia no lixo e nos excrementos que empestam o ar. E muitos, muitos tapumes e portas e janelas emparedadas, manifestações de uma deserção dos portuenses para fora da periferia da cidade. Quando andei na escola primária (era assim que então se chamava, hoje é 1.º e 2.º ciclo), aprendi que o Porto tinha trezentos mil habitantes; hoje tem cento e oitenta e cinco mil. Os 115 000 que faltam foram para Matosinhos, Senhora da Hora, Rio Tinto, Ermesinde ou S. Mamede.
Depois há as zonas mais recentes, que a construção sem qualquer planeamento tornou em lugares feios e inóspitos. Constrói-se sem qualquer consideração estética ou de harmonia, cada um construindo ou ampliando de acordo com os seus gostos e conveniências. E temos bairros sociais, verdadeiros ghettos que, em lugar de promover a miscigenação entre a população, condenam os seus habitantes a uma mentalidade mesquinha e grosseira e são um ninho de traficância e marginalidade - sempre ao som de música brasileira, porque o espírito, ali, é o da favela, e com ruas ornadas de jovens traficantes passeando ronceiramente ao volante dos seus Audis kitados com faróis à Lexus, de janelas abertas vomitando mais música brasileira. O habitat dos Léos e das Brunas, condenados a não conhecer o mundo para além dos limites do bairro de que se orgulham e onde casarão e terão os seus filhos, que ali viverão, casarão e darão netos aos Léos e às Brunas.
Este é o resultado de décadas de negligência - não apenas dos autarcas, mas dos próprios habitantes. A reabilitação urbana limita-se a ser um varrer do lixo para debaixo do tapete: pavimentam-se as ruas, reconstrói-se uma ou outra casa, mas as demais mantém-se em ruínas. Tudo é feito caso a caso, de acordo com as conveniências dos construtores e com os subornos aos funcionários das câmaras. Não há qualquer esforço de harmonização estética, deixando-se que cada um faça o que entende com as casas onde habita.
Há zonas, na minha cidade, das quais o Município simplesmente desistiu: a encosta sobranceira à Avenida Paiva Couceiro, ao fundo da Rua de S. Vítor, está transformada numa ruína, num gigantesco depósito de entulho; aliás, toda a zona entre o largo Actor Dias e a Rua do Barão de Nova Sintra está um verdadeiro nojo que deveria envergonhar qualquer pessoa que por ali passasse. E há muitas, muitas outras áreas no mesmo estado, zonas áridas, inóspitas e abandonadas. À inércia da câmara municipal junta-se a ausência completa de civismo dos locais, contribuindo para uma degradação que não sei se tem solução.
Em contrapartida, a Avenida da Boavista, no segmento entre o Castelo do Queijo e a Avenida Antunes Guimarães, está um verdadeiro primor. Porquê? Por causa do WTCC (para quem não sabe, estas são as iniciais de World Touring Car Championship). É que o presidente da câmara é um entusiasta do automobilismo. E temos uma ciclovia fantástica que quase ninguém usa porque os ciclistas preferem afugentar os peões que caminham nos passeios da Beira Rio. E o crime contra a cidade cometido por Rui Rio, Siza Vieira e Souto de Moura, que transformaram a Avenida dos Aliados num terreiro árido e feio. Obras de fachada que em nada contribuem para a qualidade de vida dos portuenses. Aliás, os únicos portuenses com qualidade de vida são os habitantes dos condomínios privados, que apenas se podem queixar do estado lamentável dos pavimentos, do estacionamento cada vez mais anárquico e da proximidade dos bairros sociais das Brunas e dos Léos.
É uma pena que o Porto esteja num destroço. Porque é uma cidade fantástica para se ver e para viver. Uma cidade que, por paradoxo, está cada vez mais cosmopolita, culta e sofisticada, onde a vida pulsa com uma intensidade crescente - mas não graças aos poderes públicos: se esta evolução existe é porque os portuenses, especialmente os jovens, se estão a libertar cada vez mais do estigma da parolice com que a capital macrocéfala nos quis, sem sucesso, rotular. Amo o Porto: amar uma cidade é aceitá-la, e não fingir que os defeitos não existem ou tentar escondê-los da vista de todos. E eu amo-a e aceito-a. E quero-lhe bem - por isso me custa tanto ver o êxodo permanente para a periferia e a degradação que devora o coração da cidade como um cancro.
Que tem isto que ver com fotografia? Nada - e tudo. O Porto é uma cidade fantástica para fotografar. Pena é que cada vez mais convide à estilização do preto-e-branco do que à crueza objectiva da cor, porque esta revela os podres da cidade com demasiado despudor.

sábado, 7 de julho de 2012

Respeitar o passado

Ontem decidi caminhar, actividade que tenho praticado esparsamente nos últimos tempos. Fui de casa até Miragaia, porque queria fazer fotografia de rua nas arcadas de Miragaia, depois subi até à Praça da República e fui à Rua de Santa Catarina, passando pela Rua dos Mártires da Liberdade. (As fotografias das arcadas não ficaram grande coisa, mas o leitor pode avaliá-las no meu Flickr.) Uma caminhada em que devo ter completado dez quilómetros.
Descobri que na Rua dos Mártires da Liberdade, por onde cortei caminho para chegar até à Praça da República (tinha de resolver um assunto profissional na Rua de Santa Catarina, no quarteirão entre as ruas Gonçalo Cristóvão e Guedes de Azevedo), há duas lojas de material fotográfico: uma, Câmaras & Companhia, comercializa material fotográfico antigo e novo; a outra, Máquinas de Outros Tempos, especializa-se, como o nome sugere, em material usado. Na primeira dessas lojas pude ver ao vivo, pela primeira vez, a famosa antecessora da minha câmara, a Olympus Pen F. Na outra andei à procura de lentes usadas, mas infelizmente não encontrei nenhuma que satisfizesse as minhas necessidades: experimentei uma Pentax fisheye, mas a distância focal equivalente, quando montada na E-P1, é de 34mm, o que impede a distorção característica das fisheye ao endireitar as linhas.
As visitas a estas lojas induziram-me mais respeito pelo passado. Embora a minha escolha seja a fotografia digital, não deixo de sentir o maior respeito por quem opta pela fotografia analógica. Não me sinto tentado a comprar uma câmara analógica - que seria sempre uma Olympus OM, pela razão simples de já ter três objectivas desse sistema - por duas razões: a primeira, de ordem bastante comezinha, é a despesa e as limitações do formato: os rolos não são tão baratos como isso, o número de fotografias que poderia fazer seria limitado (o que decerto me obrigaria a fotografar melhor) e, a estes problemas, acresceria a despesa com a revelação e a espera pelas fotografias.
De resto, demoraria certamente muito tempo a obter resultados satisfatórios. Fotografar com filme obriga a ter um conhecimento preciso da lei da reciprocidade e a saber jogar com a abertura e o tempo de exposição para obter exposições correctas - embora seja certo que as câmaras analógicas mais recentes têm um fotómetro, que indica a exposição correcta. Neste aspecto a fotografia digital é muito mais cómoda e prática: vejo os resultados imediatamente e, se quiser, posso consultar o histograma para saber se a fotografia está correctamente exposta.
Nada disto significa, como disse, que não respeite quem se dedica à fotografia analógica. O material antigo não é necessariamente sucata: as câmaras analógicas duram muito mais do que as digitais, são geralmente mais bem construídas e têm um apelo estético superior (só as Olympus Pen E-P3 e OM-D, as Leica M e as Fuji X100 e X-Pro 1 constituem, actualmente, excepções a esta regra: a E-P1 já não se fabrica há dois anos...). E uma lente antiga, quando em bom estado, pode ser usada com bons resultados cinquenta anos depois de ter sido fabricada. Aliás, as lentes usadas, salvo em alguns aspectos em que são incompatíveis com o domínio digital, são uma excelente opção para quem não pode ou não quer gastar fortunas com objectivas novas, desde que se supere o receio de focar manualmente.
O facto de estas lojas existirem levou-me a especular se não haverá um revivalismo em tudo semelhante ao que existe na indústria discográfica, com o ressurgimento do vinil. Se o houver, parece-me natural, e interpreto-o como uma reacção à ditadura digital em que vivemos, na qual o material fotográfico é cada vez mais temporário e ficou reduzido a uma condição de bens perecíveis. Muitos preferem a segurança de ter bens duradouros, que podem estimar, em lugar de bens que estão destinados a durar alguns anos. De resto, ainda não dou por adquirido que a fotografia digital seja melhor: é certamente mais prática e cómoda, mas tal não significa, necessariamente, mais qualidade. Tal como o som de um CD, por mais upsampling que seja usado, permanece abaixo do que se consegue obter com um bom vinil tocado num gira-discos decente. Há pessoas que preferem a qualidade, em lugar de se deixarem prender nas malhas do consumismo que caracteriza, cada vez mais, os tempos que vivemos. E esta atitude, porque em parte a partilho, merece-me o maior respeito.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Em defesa dos fotógrafos profissionais

Por vezes, quando navego pelos comentários a artigos publicados em websites de fotografia, encontro opiniões que postulam (prevêem, predizem) o fim da fotografia profissional. Pessoas deslumbradas com os 41 MP do Nokia PureView 808, ou mesmo com a qualidade de imagem do iPhone, vêem nesta evolução o fim das câmaras fotográficas. Uma coisa leva à outra, e ei-los perorando acerca da desnecessidade de fotógrafos profissionais, já que qualquer um, com um bom telemóvel na mão, é capaz de fotografias fantásticas. Tudo isto é uma ilusão, e direi em breve porque penso assim, mas a verdade é que já vão havendo editores de publicações que vêem na proliferação de fotografias de qualidade aceitável na Internet uma forma de poupar dinheiro ainda mais engenhosa do que aquela que as nossas administrações regionais de saúde encontraram para poupar dinheiro com enfermeiros: em lugar de pagar a um fotógrafo profissional, encarregam um desktop publisher de recolher fotografias da Internet. Esta última circunstância, embora não vá acabar com os fotógrafos profissionais - há sempre jornais e revistas ditas de referência que são exigentes quanto à qualidade das fotografias, e não estou a ver o Público a resolver o contrato com o Enric Vives-Rubio -, pode contudo constituir uma fonte de privações e empobrecimento para muitos dos que se dedicam à fotografia e retiram dela o seu sustento. Mas isto não é mais do que um sinal dos tempos que atravessamos e de uma evolução perversa que leva ao sacrifício da qualidade em favor de uma poupança que, bem vistas as coisas, é ilusória, e de um abaixamento da exigência de qualidade das audiências. Porque haverá sempre lugar para a fotografia profissional e para a qualidade.
As opiniões a que me referi no início são formadas por pessoas que, quer por serem muito jovens e terem ainda noções muito rudimentares sobre fotografia, quer por serem pouco exigentes, quer ainda por simplesmente não saberem do que estão a falar, não sabem distinguir uma boa fotografia de uma fotografia mediana. Entendem que uma fotografia serve meramente para fornecer uma informação visual, daí que não seja necessário mais do que apontar e disparar para obter o efeito pretendido, mas isto é esquecer que a fotografia - mesmo aquela que surge nos órgãos de informação - é muito mais do que um mero meio de informação. E - o que é absolutamente crucial - esquecem que, assim como há regras para fazer fotografias, também as há para ver fotografias. E a apreciação de uma fotografia é algo universal: todos, sejamos ou não conhecedores de fotografia, sabemos identificar uma má fotografia, a qual produz uma sensação de desconforto visual e intelectivo (ainda que não sejamos versados em fotografia). O público não é tão ignorante e inexigente como alguns querem que pensemos. Por outro lado, por serem tão iludidos pela aparente qualidade fotográfica dos novos telemóveis, aqueles opinadores esquecem que o equipamento é apenas parte da história. Não são os 41 MP do Nokia 808 que vão substituir um olhar treinado e uma aptidão forjada durante muitos anos de prática e de estudo - já disse aqui, por várias vezes, que uma pessoa tem de estudar para ser um bom fotógrafo -, nem é verdade que as fotografias feitas por um telemóvel sejam tão boas como aparentam. Um telemóvel é completamente inútil para fotografar um evento dentro de portas com iluminação ténue, como por ex. um casamento. Os níveis de ruído e a inaptidão para regular manualmente a sensibilidade, o tempo de disparo e a abertura precludem o uso de um telemóvel nestas circunstâncias. E este é apenas um exemplo entre muitos. Futebol e Fórmula 1 com um telemóvel? Ridículo!
Também eu me iludi quando comecei a fotografar. Tal como os que venho referindo, também imaginava que uma câmara compacta era tudo quanto bastava para fazer grandes fotografias: afinal de contas, quando estamos diante de imagens digitais, tudo se resume à resolução e ao pixéis, sendo a câmara indiferente... Nada mais errado, evidentemente, mas a verdade é que, quando se começa, não se sabe nada. A realidade mostrou, no meu caso particular, ser bem diferente do que especulava há apenas dois anos atrás, quando imaginava não haver diferenças entre uma 1D e a minha compacta, com a qual poderia fazer fotografias como um pro... que ilusão patética. Mas suponho que é preciso passar por esta fase.
Não, nada substitui uma boa fotografia. E, já agora, um bom fotógrafo. E, contudo, acredito que há muitos fotógrafos profissionais que se ressentem de um volume de trabalho menor por causa dos iPhones e dos contadores de botões nas editoras. Como sou um profissional independente, sei bem o que isto é - mas acredito que um dia esta loucura da austeridade imposta pela chanceler Merkel e pelas agências de rating vai acabar e tudo vai voltar ao normal, e vamos todos poder apreciar fotografias de qualidade nos nossos jornais e revistas e contratar bons fotógrafos para os nossos casamentos, baptizados e comunhões (ou bar mitzvahs, que este não é um blogue religioso ou excludente). Ou se calhar não...