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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Prepara o teu caixão

Capa da edição em vinil de Beacons of Ancestorship
O título é macabro, eu sei - mas pelo menos não é ordinário nem insultuoso como os de uma certa revista de fotografia online portuguesa que eu conheço. Este título é a tradução literal do de um tema musical de uma das minhas bandas preferidas: os Tortoise.
Prepare Your Coffin é um tema absolutamente sublime. Os Tortoise, banda cujo mentor é John McEntire, dedicam-se a um tipo de música denominado pós-rock. Não gosto de rótulos, e este, em particular, parece prenunciar a morte do rock - o que ainda não aconteceu nem acontecerá tão cedo - e a sua sucessão, mas o que se entende por pós-rock é muito simples - música de carácter experimental, inserida no estilo do que faziam os Kraftwerk, mas tocada com instrumentos orgânicos - guitarras, bateria, baixo. As suas raízes estão naquilo a que chamavam o Krautrock, estilo fortemente influenciado pelos Kraftwerk e tocado por bandas como os Neu! e os Can. Os Tortoise retomaram onde estes grupos pararam, tendo-se constituído como uma banda influente e respeitada. Apesar de o último álbum, Beacons of Ancestorship (que inclui este Prepare Your Coffin) ter muito mais electrónicas que os anteriores - eu tenho, além deste, o Millions Now Living Will Never Die e o TNT -, a linguagem é totalmente coerente com o que os Tortoise sempre fizeram. Ouvir Prepare Your Coffin leva-me de imediato para os tempos dos Can e dos Neu! (o ponto de exclamação não é meu, faz parte do nome da banda).
E perguntará o leitor, apesar de já habituado a algumas incursões minhas fora do terreno da fotografia, a que propósito vem isto. Bom, antes de mais sou um melómano, como alguns já terão reparado. Mais pertinente do que esta minha melomania, porém, é o facto de querer partilhar com os leitores um vídeo que é uma das mais fantásticas homenagens de uma arte a outra: neste caso, uma homenagem da música à fotografia. O vídeo de Prepare Your Coffin é um tributo quase comovente à fotografia: um fotógrafo, equipado com o que parece ser uma câmara analógica, à procura de linhas e enquadramentos perfeitos. No vídeo surgem linhas simples, mas fortes, paisagens a preto-e-branco que encheriam de satisfação qualquer fotógrafo digno desse nome. Não vou dizer que teve influência na minha maneira de fotografar - apesar de o vídeo ser anterior à minha dedicação à fotografia -, porque não é verdade, mas toca-me num ponto sensível e une duas das minhas paixões. Claro que, quando procurei o video no YouTube, estava interessado na música, e não exactamente nas filmagens, mas foi uma surpresa muito recompensadora tê-lo descoberto. Não me passaria pela cabeça escrever um texto sobre um vídeo de música se esta última não me agradasse, mas este vídeo é particularmente bem realizado e apela ao olhar e à sensibilidade do fotógrafo, pelo que entendo ser merecedor da atenção da comunidade fotográfica.
Espero que gostem da música e do vídeo; pessoalmente, entendo que quem não gosta dos Tortoise não merece ocupar o seu lugar na espécie humana e devia ser atado a um pelourinho e o seu corpo deixado à voracidade dos abutres, mas esta coisa dos gostos musicais é algo de muito pessoal. Se não gostarem da música, ao menos deleitem-se com as imagens.

domingo, 29 de julho de 2012

Abstraccionismo. Porque não?

Ultimamente tem-me dado para fazer algumas fotografias que não têm intenção de ilustrar coisa nenhuma; não informam sobre um objecto, não têm um conteúdo ou significado explícitos. São oferecidas à percepção de quem as vir, deixando a estes liberdade de olhar e interpretar a fotografia. São objectos puramente formais, e o único conceitualismo neles presente é o uso do preto-e-branco (nalguns casos, o chiaroscuro).
Não é obrigatório que a fotografia tenha uma significação imediata, ou que a intenção fotográfica se apresente directamente à percepção e que seja óbvia. Pelo menos desde Man Ray que a fotografia é usada, por muitos fotógrafos, como algo desligado da realidade das circunstâncias que rodeiam o objecto fotografado, e a fotografia sempre acompanhou os movimentos estéticos da pintura e de outras artes - a despeito do seu potencial para retratar a realidade tal como ela é. Não há nada de errado em tomar um elemento de um determinado objecto - por ex. a sua forma - e isolá-lo da sua realidade. A criatividade não deve ter nenhum limite, excepto este: não se deve transformar a fotografia em algo que não estava presente no local onde esta foi feita (mas mesmo nisto sou hoje bem mais tolerante do que há apenas uns meses atrás). Esta transformação é a negação da fotografia como meio de capturar uma cena ou um objecto num momento único e irrepetível: é necessário que aqueles existam defronte da lente no momento em que se enquadram e se dispara. Caso contrário estaremos no domínio, não da fotografia, mas das artes gráficas. Sobrepor um fundo com nuvens ou estrelas numa fotografia sem que aqueles elementos estivessem no lugar onde foram fotografados é uma mentira, embora seja cada vez mais usada e aceita graças à popularidade do Photoshop CS.
A abstracção não significa, necessariamente, ruptura com o real. Significa, na maior parte dos casos, uma forma particular de ver os objectos. Mesmo quando se esbate o plano de fundo, está-se a usar a abstracção, desligando o objecto daquilo que o circunda - mas o objecto está, nas circunstâncias particulares de tempo e de lugar em que foi fotografado. É no plano dos conceitos que a abstracção se encontra, não no plano ôntico. É uma maneira de interpretar a realidade, não uma construção irreal (ou uma desconstrução do real): nas minhas fotografias o objecto existe, embora apenas se considere a sua forma, separadamente de elementos como a cor ou a envolvência.
Nas fotografias com que ilustro este texto fotografei folhas boiando num lago, uma formação de microalgas no mesmo lago e a ondulação de um rio; na primeira, usei o enquadramento para abstrair dos limites da mancha de folhas caídas, de maneira a que estes não se tornassem perceptíveis (tentando assim criar uma sensação de uma quantidade e densidade muito superiores às que realmente existiam). Na outra interessaram-me as linhas que dividiam os grupos das microalgas, como que formando caminhos sinuosos, e, na última, fotografei uma pequeníssima porção do rio Douro com uma teleobjectiva. O leitor mais arguto terá reparado que são todas em preto-e-branco, e tal deve-se a ter querido desligar os objectos do elemento cor, concentrando a atenção nas formas e texturas. Devo dizer que não faço a mais pequena ideia se estas fotografias são boas ou más, se são interessantes ou desinteressantes e se quem as vê lhes atribui algum significado. Sei que estão no pólo oposto das snapshots das férias e do cão, que não são lá muito populares no Flickr e que continuo à procura de qualquer coisa que não sei bem o que é. E que nem sempre as referências à realidade têm de ser concretas e literais. Nem em fotografia.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O domínio da técnica

Por vezes penso que a fotografia se está a tornar uma obsessão: dou por mim a pensar nela a toda a hora. Claro que há obsessões piores: se fosse um americano conservador, viveria perseguido pela possibilidade de Barack Obama ser reeleito, e se fosse um fanático do futebol seria assombrado pelos insucessos da minha equipa (ou pelos sucessos das rivais). A cada um as suas obsessões. Ou podia estar constantemente a pensar em dinheiro, como os nossos governantes - o que seria muito mais estúpido do que pensar em coisas agradáveis que nos apaixonam. A verdade é que esta manhã ocorreu-me um pensamento que se demonstrou uma verdadeira revelação, capaz de transformar a conversão de S. Paulo na estrada para Damasco numa insignificância.
O pensamento que me ocorreu foi o seguinte: o domínio da técnica - entendendo-se como tal o controlo da câmara - é o mínimo exigível a um fotógrafo. A um fotógrafo exige-se que exprima ideias e conteúdos de uma forma que seja significante, quer por demonstrar uma visão pessoal de uma cena, quer por ilustrar, de modo inteligível para a percepção, um determinado facto ou acontecimento. Ou ainda por ser a fixação duradoura de um momento único e irrepetível. A técnica é apenas o meio que permite que essa visão do fotógrafo seja capturada nas melhores condições possíveis - sendo que, por «melhores condições possíveis», deve entender-se não apenas a qualidade da imagem, mas especialmente os meios técnicos que ajudam a conferir expressão à fotografia.
Nos extremos desta ideia há duas concepções erradas: a primeira é a de que a técnica é desnecessária, porque o que verdadeiramente conta é o momento emocional da fotografia e este pode ser capturado por qualquer meio. A outra é a do predomínio absoluto da técnica. Como as minhas ideias sobre a matéria são já conhecidas de quem lê este blogue, abstenho-me de as desenvolver, mas não deixo de dizer que cada uma delas, tomada isoladamente, é como um corpo sem alma (ou uma alma sem corpo), embora a primeira esteja mais próxima da verdade do que a segunda. A técnica é um auxiliar fundamental da expressão, mas, quando empregue por si só, redunda em fotografias sem significado.
Devo dizer que esta ideia me ocorreu depois de ver que, nos sites de fotografia, existe uma preocupação de tal ordem com a técnica que há quem se arrogue a qualidade de fotógrafo só porque entende dominar a técnica fotográfica. Já me aconteceu ver uma «galeria» de fotos de um leitor do DPReview em que o tema dominante era... um painel de cortiça!, presumivelmente fotografado com diferentes aberturas e tempos de exposição, ou com diversos valores de sensibilidade ISO. Isto está muito bem para um workshop de técnica fotográfica (eu, quando fiz um exercício de profundidade de campo num workshop, optei por fotografar duas moçoilas na Estação de S. Bento, mas gostos são gostos e os painéis de cortiça de uns são as moçoilas de outros), mas apresentar-se em público com fotografias de painéis de cortiça é, no mínimo, risível. Devo acrescentar, porém, que a pessoa em questão era extremamente opinativa e parecia saber tudo o que há para saber sobre a profundidade de campo - embora fosse daquelas que acham que existe uma «abertura equivalente»...
O que se espera de um fotógrafo é que saiba exprimir a sua intenção e as suas ideias fotográficas; para tanto, dominar a técnica é um requisito essencial, mas não é o mais importante nem prevalece sobre outras considerações. De um pintor espera-se que saiba manejar um pincel e misturar correctamente as cores primárias, mas o que dele verdadeiramente se exige é que saiba apresentar uma mensagem - uma ideia - através da pintura. O pressuposto do domínio da técnica é apenas o requisito básico. Mesmo os pintores que revolucionaram a sua arte pela introdução de novas técnicas, como Seurat, Picasso ou Jackson Pollock, valem pelo significado das suas obras, e não pela técnica considerada isoladamente. Não vejo por que há-de ser a fotografia diferente. Uma fotografia tecnicamente perfeita pode não ter qualquer significado se não tiver um conteúdo - pelo menos uma qualidade estética que a torne apreciada.
O fotógrafo tem de partir do pressuposto de que as suas fotografias são vistas por outras pessoas, e que nem toda a gente procura interpretar as opções técnicas que o fotógrafo incorporou na imagem. Quando vejo uma fotografia, o que procuro nela é a impressão que me causa e interpretar a ideia que o autor quis com ela transmitir. Só depois é que vêm considerações como a distância focal que terá sido empregue, ou se é uma imagem HDR, etc. - mas eu sou um iniciado: os leigos não querem saber da técnica para nada. E é assim mesmo que deve ser, porque uma fotografia é para ser vista, e não analisada. Que um fotógrafo domine a técnica é algo que, de tão primário, não chega sequer a ser objecto de apreciação (excepto, claro, por outros fotógrafos ou por entendidos): é como querer saber se o Sebastian Vettel sabe distinguir o pedal do travão do acelerador. O que importa, na fotografia, é o seu conteúdo. A forma - i. e. a técnica - só é importante enquanto meio de conferir expressão à imagem, e não mais. Pensar o contrário é inverter a ordem natural das coisas.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Negro carregado

Há uma coisa que me começa a causar embirração: parece que, nos dias de hoje, uma fotografia a preto-e-branco só é boa se for muito low-key, muito carregada e contrastada. (Uso aqui o adjectivo «contrastada» de modo incorrecto, porque as pessoas tendem a chamar «contraste» à acentuação dos tons escuros, o que não é exacto: contraste é a diferença entre tons claros e escuros, e acentuá-lo significa clarear os brancos e as altas luzes e escurecer negros e sombras, o que significa que os primeiros se tornam mais proeminentes.)
Uma fotografia a preto-e-branco resulta bem se os tons escuros forem acentuados. Isto confere-lhe uma atmosfera muito própria, um ambiente noir e sofisticado que produz bons efeitos em muitos casos - basta pensar nas fotografias das capas dos álbuns de Jazz que Francis Wolff fez para a Blue Note -, mas não noutros. Quando se usa o preto-e-branco porque se quer acentuar as formas - este é um dos grandes benefícios do preto-e-branco -, carregar os tons escuros em demasia tem por vezes o efeito oposto, destruindo os pormenores subtis que definem o contorno dos objectos. Além disto, se o escurecimento não for usado judiciosamente, o que ficamos é com uma fotografia confusa, pesada e dificilmente inteligível.
E há um problema ainda mais grave. Quando se fotografa com uma câmara digital, o escurecimento das sombras que esta moda fotográfica implica traduz-se em acréscimo de ruído. E não há edição de imagem que lhes valha: as zonas sombreadas serão sempre afectadas por um tom verde profundamente inestético, que, de tão conspícuo, se torna na primeira coisa que salta aos olhos. Por muito que nos tentemos concentrar na imagem - na sua qualidade estética ou no seu conteúdo - aquele verde está lá, com o mesmo apelo estético que uma mancha de lodo num fato de cerimónia, a atrair o olhar como se fosse um íman e a destruir a agradabilidade da fotografia.
Exemplo de chiaroscuro. Espero que não me censurem o blogue...
A maneira de fotografar a preto-e-branco que descrevi acima não é a mesma coisa que o emprego da técnica denominada chiaroscuro (do italiano chiaro [claro] + scuro [escuro]). O chiaroscuro, que é uma técnica nascida com a pintura renascentista, serve para acentuar formas e volumes, e não para definir uma atmosfera ou ambiente. Serve para criar contraste - aqui sim, a expressão é correctamente usada - ao colocar uma figura bem exposta, ou mesmo ligeiramente sobre-exposta, contra um fundo escuro, ou vice-versa. Ora, as fotografias a que me refiro aqui não são chiaroscuro: são fotografias em que se abusa do negro e das sombras. Não é para qualquer um fazer fotografia com a técnica do chiaroscuro: o exemplo que Michael Freeman expõe no seu O Olhar do Fotógrafo (p. 110) é simplesmente patético - e é o Michael Freeman! Por mim, nem me atrevo a penetrar nestes territórios obscuros da fotografia...  Deve ficar claro (não, não é trocadilho) que uma coisa é o low-key, outra é o chiaroscuro. As fotografias sobre as quais estou a escrever correspondem ao primeiro estilo, não ao segundo.
Não subscrevo esta tendência para as fotografias demasiado carregadas. Embora lhes reconheça qualidades estéticas, contribuindo para a criação de uma certa atmosfera, penso que se tem abusado desta tendência. Não há nada de mal, na minha opinião, em introduzir alguma luminosidade nas fotografias a preto-e-branco. Pelo contrário, até pode resultar muito bem. As gradações de tons tornam-se mais evidentes e, esteticamente, a imagem fica mais equilibrada. O olhar concentra-se melhor nas formas, já que os pormenores são mais inteligíveis. Uma fotografia, para agradar esteticamente, precisa de espaço para respirar. As fotografias low-key, quando se exagera nos negros e nas sombras, são sufocantes e claustrofóbicas. O que está muito bem se for essa a intenção: há fotografias low-key que pretendem, deliberadamente, causar incómodo em quem as vê, como as da série Iraquianos, de António Pedrosa, a que me referi no texto de ontem; mas, se não for essa a intenção, tudo o que temos são fotografias escuras, que podem ser facilmente tomadas por imagens grosseiramente sub-expostas.       

sábado, 9 de junho de 2012

Exposição: Cultura Magra

Eu acredito no associativismo. Ele serve para dar às pessoas aquilo que o Estado cada vez mais se demite de prover, apesar dos imperativos constitucionais que o obrigam a tanto: arte, educação, desporto, lazer. Sem as associações, muitos ficariam privados destes bens que, por não terem uma natureza mercantil e serem vistos como uma despesa inútil pelos governantes preocupados em salvar bancos e angariar negócios para os amigos, são ostensivamente ignorados pelo Estado. Sou quase um militante do associativismo, depois de ter conhecido a faceta da abnegação e altruísmo de muitos dirigentes associativos - não todos, que ainda há dias me enviaram um e-mail a perguntar se um determinado clube desportivo podia remunerar os seus directores, mas muitos. Entendi - e ainda não houve nada que me fizesse mudar de opinião - que vale a pena apoiar e defender os que, sinceramente e sem outro fito que não seja o bem-estar dos associados, se dedicam a estas actividades - por vezes com sacrifício dos seus prazeres simples e do seu tempo. Especialmente nestes tempos de constrangimento económico, em que os donos do dinheiro decidiram que era chegada a altura de reavê-lo e as associações sentem cada vez mais dificuldades em prosseguir os seus fins.
Quando o associativismo é objecto de um projecto fotográfico, não pode deixar de merecer o meu (redobrado) entusiasmo; foi por esta razão que apreciei tanto a exposição que está no Centro Português de Fotografia, Cultura Magra, com fotografias de Paulo Alegria feitas em algumas colectividades alentejanas. Recomendo vivamente: as fotografias, além de serem muito interessantes quanto à temática, são também belissimamente  executadas. Nesta exposição podemos ver imagens de associações desportivas, de cultura e recreio, de bombeiros - abrangendo todas as actividades para as quais as colectividades estão inerentemente vocacionadas: o desporto amador, o teatro, a preservação de tradições populares. E outras mais. Não deixem de passar pelo Centro Português de Fotografia, que funciona no Porto, à Cordoaria, na antiga Cadeia da Relação. E, se é de equipamento que gostam, sugiro uma visita ao núcleo museológico.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Duas compras (e um pedido de desculpas aos leitores)

No sábado passado (2012.06.02) comprei e instalei o DxO Optics Pro 7. Fi-lo depois de ter publicado neste blogue dois textos (aqui e aqui) em que dava conta das minhas conclusões e da decisão de não adquirir este programa nem o Lightroom 4, que também experimentara.
Entretanto, ocorreram alguns factores que me levaram a rever a minha decisão. A versão que experimentara quando escrevi aqueles textos ainda não suportava integralmente a minha câmara, pelo que não tirava partido nem da recuperação das altas luzes, nem da redução do ruído. A falta de compensação das altas luzes levava a que as imagens tratadas ficassem geralmente sobre-expostas, nunca recuperando convenientemente o pormenor escondido pelo excesso de exposição. E a E-P1, como todas as câmaras do formato micro 4/3, tem uma tendência preocupante para estourar as altas luzes. O mesmo quanto à redução do ruído: os resultados obtidos foram quase sempre insatisfatórios.
Por outro lado, os procedimentos de edição da imagem do Pro 7 são bastante distintos dos do Lightroom, o que levou a alguns erros de apreciação que não podiam deixar de se repercutir na opinião que formulei. O Pro 7 é um programa que, em certas circunstâncias, não necessita de qualquer intervenção do utilizador, bastando, muitas vezes, abrir a imagem e carregar no botão processar sem necessidade de ajustes pelo fotógrafo. Este grau de automatização produz quase sempre bons resultados, mas só se a câmara e a respectiva lente estiverem previstos e se se fotografar RAW. A minha tendência foi para alterar parâmetros da imagem como o fazia no Lr (e, antes deste, no Olympus Viewer), o que era um erro porque diversas ferramentas do Pro 7 são incompatíveis entre si, e o uso cumulativo de certas ferramentas degrada a imagem em lugar de a melhorar (por ex. alterar a curva de tons interfere nos resultados obtidos automaticamente com a correcção das sombras e das altas luzes, levando a perdas na qualidade da imagem, e não se deve usar o unsharp mask se se tiver usado o contraste local).
Entretanto surgiu a versão 7.5 do Optics Pro, já com suporte integral para a E-P1. Os problemas da versão que experimentei foram eliminados, e o programa é agora mais rápido a carregar e a processar as imagens. Os resultados, ao experimentar esta nova versão, deixaram-me de tal maneira entusiasmado que, depois de muita reflexão - e motivado por um desconto de 33%, o que não deixou de ser relevante -, decidi comprá-lo. Muitos leitores poderão entender que fui incoerente, ou pelo menos leviano na apreciação anterior, pelo que apresento as minhas desculpas a todos. Para compensar, vou publicar uma recensão completa do DxO Pro 7 em dois capítulos.
No dia seguinte fui a Serralves ver como estava a festa non-stop. É evidente que levei a câmara: às 10 da manhã era improvável existirem outros motivos que me levassem a Serralves só para me divertir. E não me enganei: era só eventos para crianças. Não gosto do Serralves em Festa: é frequentado por pessoas que não querem saber nada do que é a Fundação de Serralves - muitas nem sequer entram no Museu - e só vão lá para fruir gratuitamente de um espaço cuja frequência é normalmente paga. Claro que a direcção da Fundação de Serralves sabe disto e usa o evento para promover o Parque de Serralves e o Museu, e devem colher bons resultados deste marketing em termos de reconhecimento e notoriedade. Seja como for, isto leva a que, sempre que Serralves abre ao público, seja enxameado por gente que só vai lá à espera de receber uma T-shirt ou um chapéuzinho de borla, ou ao menos um balão para o catraio. Depois andam o tempo todo irritados pelos jardins, com uma carranca enorme, lamentando-se da falta de diversões e de não lhes terem oferecido aquela T-shirt que, apesar de ser do tamanho XXL, vermelha e com dizeres sem qualquer nexo com os seus gostos, havia de dar imenso jeito e sempre era de borla... Seja como for, eventos como este são sempre um maná de motivos fotográficos: podem ver as fotografias que fiz aqui, com uma selecção das que considero as melhores no meu flickr (hiperligações nas respectivas fotografias do álbum do facebook).
Como as multidões me enfastiam rapidamente, dei por mim numa feira do livro ad hoc a vasculhar livros. Entre eles estava um álbum de uma exposição do grande Gérard Castello Lopes, uma edição luxuosa que me estimulou instantaneamente as glândulas salivares. Afinal de contas, GCL é uma das referências da fotografia portuguesa - embora a importância da sua obra fotográfica tenha transbordado das fronteiras deste país - e considero-o o melhor fotógrafo português de sempre (sem desprimor para fotógrafos como Nélson Garrido, João Silva e tantos outros, porque Portugal é terra de bons fotógrafos). Depois de muitas errâncias e hesitações, acabei por comprar o livro. A propósito, este chama-se Aparições/Apparitions, foi coligido por Jorge Calado e editado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Folhear este álbum é um genuíno encantamento: a fotografia de Gérard Castello Lopes tem uma qualidade estética e artística que a situa no mesmo patamar que a de Henri Cartier-Bresson (que foi uma referência para GCL, o que se nota bem na sua fotografia de rua). Nós, portugueses, que temos tanta dificuldade em reconhecer os méritos dos nossos e do país, devíamos ter sempre presente este exemplo de um português que, apesar de pouco reconhecido intra muros, é um dos grandes fotógrafos do Século XX.   

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A focagem nítida é mesmo necessária?

Desde sempre se procurou aperfeiçoar o material fotográfico, sobretudo as objectivas, para que a imagem fosse cada vez mais nítida e precisa, com contornos bem delineados e nítidos. Este tornou-se no padrão a prosseguir pelos fabricantes, que desde muito cedo fazem destas características argumentos de venda. A fotografia digital veio exacerbar este paradigma, tornando a nitidez da focagem numa exigência absoluta.
Será esta nitidez sempre necessária? Claro que é útil ter uma imagem nítida, e uma fotografia com deficiências na focagem pode até ser vista como uma demonstração de inabilidade do fotógrafo. Uma fotografia sem deficiências de nitidez é uma maravilha de contemplar, e o olhar reage sempre negativamente à desfocagem.
E se a intenção do fotógrafo for mesmo provocar a desfocagem para conferir uma ideia qualquer à fotografia? Não me refiro apenas ao caso óbvio do bokeh, em que a desfocagem do plano de fundo é mais do que uma escolha estética, mas uma necessidade - quer para isolar a figura fotografada, quer por ser uma consequência necessária da profundidade de campo estreita de muitas teleobjectivas - nem ao arrastamento, que não é, em rigor, um problema de focagem, mas ajuda a conferir dinâmica e sensação de velocidade à fotografia. Refiro-me à perda (relativa) de nitidez na focagem.
Uma desfocagem subtil pode contribuir, e muito, para dar expressão à fotografia. Pode ajudar a criar ambiente, o que seria impossível se a imagem fosse mantida nítida. A nitidez absoluta, em certas fotografias, não resulta: torna-as frias e clínicas, dando-lhes um carácter meramente informativo ou documental. Por vezes interessa impregnar a fotografia de ambiente e de sensações subjectivas, como a nostalgia ou a melancolia. Nestes casos uma desfocagem ligeira pode tornar a imagem onírica. E a desfocagem (desde que não seja grosseira ou exagerada) pode resultar muito bem em retratos e fotografias de pessoas. Esta desfocagem, quando bem usada, ajuda a criar uma sensação de intemporalidade, de imagem que sobreviveu através dos tempos - mesmo que tenha sido feita hoje mesmo. Ela dilui os contornos das figuras e, ao fazê-lo, convida a uma leitura atenta da fotografia, levando o espectador a adivinhar significados e a descobrir sensações de uma maneira que não seria possível com fotografias perfeitamente nítidas
A nitidez absoluta nem sempre é desejável. Por vezes um pouco menos de nitidez pode tornar expressiva uma fotografia que, de outro modo, seria banal. Claro que, com equipamento feito para a focagem mais nítida possível, torna-se difícil desfocar uma imagem. Se a intenção for obter uma focagem relativamente suave, o único recurso é a focagem manual. As lentes concebidas para trabalhar com câmaras digitais não têm anéis de focagem com a precisão das lentes manuais, recorrendo ao sistema chamado focus by wire: não têm um ponto inicial e outro final, rodando constantemente, o que dificulta a focagem; já as lentes de focagem manual se prestam a esta técnica, sendo possível obter resultados extremamente satisfatórios com estas objectivas - mesmo que elas sejam montadas em câmaras digitais.
Os resultados das fotografias com menor nitidez na focagem são de tal maneira agradáveis que há pelo menos um fabricante que inclui um filtro artístico, denominado «soft focus», para produzir sem esforço o tipo de efeito a que me tenho vindo a referir. Contudo, como em qualquer outro aspecto técnico da fotografia, é muito mais interessante experimentar obter este efeito usando os meios da câmara manualmente.
Não estou a sugerir que toda a gente desate a fazer fotografias desfocadas - até porque, como já referi, uma imagem destas pode facilmente ser tomada por uma fotografia mal tirada. Apenas recomendo que se experimente. Os resultados podem ser surpreendentes. A nitidez nem sempre é interessante. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Um conselho

Hoje estive em casa de Fernando Aroso, um fotógrafo profissional que conheci há dois anos. Mostrei-lhe as minhas fotografias impressas e, felizmente, obtive opiniões favoráveis - especialmente quanto à do manequim da Rua Miguel Bombarda. 
Depois estive a ver as fotografias dele; fotografias da cidade do Porto, em concreto da Foz e da Ribeira. Fiquei sem palavras, como alguém a quem fosse revelado o Grande Segredo da Vida. Fotografias belíssimas, que retratam paisagens que todos nós já vimos e muitos já fotografaram - mas nunca como o fez Fernando Aroso. Aquelas fotografias tinham alma. Algumas podiam ter ruído (ou grão, as do tempo do analógico), podiam estar inclinadas ou mesmo um pouco desfocadas - mas captavam a essência, o modo de ser da cidade do Porto. Fotografias que causam emoções, que vão ao nosso interior e nos despertam emoções e nos fazem identificarmo-nos com o espírito da cidade de uma maneira que só é acessível aos portuenses ou àqueles que, não o sendo, se apaixonam pela cidade ao ponto de a escolherem para nela viver. Ao pé daquelas fotografias, as minhas - mesmo aquelas em que estive tecnicamente próximo da perfeição - pareciam meramente documentais, sem vida, sem alma, frias e sem interesse.
Esta visita foi uma lição. Aprendi que fui longe demais na minha preocupação com a técnica. A técnica não é o mais importante; o que conta, na fotografia, é ter a capacidade de captar momentos únicos e irrepetíveis e fazê-lo conferindo expressão às imagens. Porque a fotografia é uma arte, e a arte é expressão de algo por modos que a sensibilidade, mais que o intelecto, compreende.
Aprendi também algo que já sabia, mas que sempre me recusei a reconhecer: a fotografia digital não tem alma. Pode ganhá-la pelos motivos ou por certas escolhas do fotógrafo, mas a analógica é mais calorosa, mais humana. Ainda não é isto que me vai fazer correr para comprar uma Olympus OM-2, mas a verdade é que nós, as pessoas, somos imperfeitos, e a fotografia digital persegue a perfeição. Pretender alcançar a perfeição - o recorte das figuras, o pormenor, a limpeza de uma imagem - é um disparate (em que eu me preparava para incorrer). A fotografia digital, quando comparada com a analógica, é fria, tal como o som de um CD em comparação com um bom vinil tocado num gira-discos decente.
Por tudo isto, o meu conselho - o conselho n.º 1, a mãe de todos os conselhos - é este: quando fotografarem, impregnem as vossas fotografias de alma. Procurem que ela exprima algo: um sentir, uma emoção. Claro que a técnica é importante para se conseguir exprimir seja o que for com a fotografia, mas, uma vez dominada, deixem que seja a emoção, e não a razão, a comandar as vossas escolhas. Procurem que a fotografia exprima a emoção que vos percorre ao ver determinada cena, seja ela uma paisagem, um grupo de pessoas ou um simples edifício. Lembrem-se que quem vê uma fotografia não quer saber do ISO, do equilíbrio dos brancos, da medição nem de nenhuma dessas coisas que só são importantes no sentido em que nos ajudam a conferir expressão à imagem; quem vê uma fotografia quer ficar impressionado com ela por ser única e lhes transmitir algo. Tentem encher a vossa fotografia de sentido, porque a fotografia tem de ter um conteúdo; não pode ser só forma.
Nunca se esqueçam disto!

domingo, 6 de maio de 2012

O entusiasmo do principiante

Quando se começa a fotografar, há a tendência para pensar que fazemos fotografias excelentes. Não é verdade. O que fazemos é fotografias que, por excesso de entusiasmo, imaginamos serem muito boas, e podem até parecê-lo aos olhos dos leigos a quem as mostramos (mas atenção, há que descontar a complacência dos que nos são mais chegados). Isto cria frequentemente a ilusão de que já se é um bom fotógrafo, convicção errónea que o número de «gosto» no facebook tende a reforçar.
Com efeito, as fotografias iniciais tendem a ser banais, com erros graves de composição e (ou) de enquadramento e deficiências técnicas que não escapam a um olhar um pouco mais treinado. Este fenómeno foi descrito pelo grande - embora controverso - Garry Winogrand: «Photographers mistake the emotion they feel while taking the photo as a judgment that the photograph is good». O nosso entusiasmo por termos feito aquela fotografia que imaginámos brilhante no momento em que a tirámos pode induzir-nos em erro quanto às suas qualidades. Esta é uma ilusão que devemos evitar a todo o custo.
E como é que a evitamos? De uma maneira muito simples: olhando as nossas próprias fotografias com olhos críticos. Para adquirir esta consciência crítica, por seu turno, é necessário adquirir conhecimentos de fotografia. Um fotógrafo não pode isolar-se, devendo cultivar-se fotograficamente. Deve ter o máximo de contacto com a obra de grandes fotógrafos e aprender tudo o que puder sobre fotografia. Como qualquer arte, a fotografia exige estudo. Muito estudo. Maurizio Pollini não se tornou no melhor pianista vivo sem décadas de estudo e horas e horas de prática diária; por que havia a fotografia de ser diferente?  Estudar a fotografia é essencial; ler livros, conhecer a obra dos mestres, aprender em cursos, conferências e workshops é uma aprendizagem que pode parecer fastidiosa, mas é necessária. 
Sei que, por esta altura, quem ler isto poderá retorquir que esta abordagem é demasiado racional, e que faz perder o impulso de fotografar (o que será agravado com o confronto das suas fotografias com as dos grandes mestres). Nada disso: a minha experiência diz-me que quanto mais se sabe de fotografia, maior é o prazer que se retira de fotografar. 
A observação de fotografias de outros fotógrafos pode ter a consequência de levar a que imite um estilo de um determinado fotógrafo que nos sirva de referência. Outro erro. O principiante deve procurar um estilo e, acima de tudo, ser original. Porque as primeiras fotografias que faz são tudo menos isso: são fotografias que, inconscientemente, tirámos por corresponderem a temas com que estamos familiarizados através da nossa observação, e esta incide, normalmente, sobre os meios de divulgação fotográfica mais comuns - os jornais, as revistas, os websites, etc. Há um caminho a desbravar entre estas duas atitudes: cultivar a originalidade. Só a originalidade permite que uma fotografia se destaque dentre os muitos milhões de fotografias que existem e são diariamente publicadas em todo o lado. Ser original é, acima de tudo, fazer com que a fotografia demonstre a nossa maneira de olhar as coisas, que é muito própria, única e só nossa. Mas mesmo aqui há que ter o máximo cuidado, porque o resultado da busca de originalidade pode ser o de se fazer fotografias estranhas. Há que dominar as técnicas convencionais antes de se ter sucesso na feitura de fotografias originais; apenas depois de dominadas as noções de composição, enquadramento e design que são comuns a todas as fotografias é que devemos procurar o nosso próprio caminho. Por exemplo, fotografar objectos altos nunca resulta se a fotografia for horizontal - o mesmo se podendo dizer do retrato de uma pessoa - e os motivos nunca devem figurar no centro da imagem. Há regras a que não se pode escapar, e nem mesmo os maiores entre os maiores as violam.
Este tipo de conhecimento é essencial. Esta é uma das razões que me leva a não acreditar no autodidactismo, como já referi inúmeras vezes neste blogue. O principiante tem de tomar uma opção: ou quer tornar-se num bom fotógrafo ou quer apenas fotografar casualmente, sem preocupações. No primeiro caso, tem de estar disposto a fazer esforços, porque a fotografia, como qualquer arte, pouco ou nada tem que ver com talento nato: o talento, quando existe, desenvolve-se, e este pode ser um processo longo e cheio de frustrações pelo caminho, mas é essencial percorrê-lo se aquilo que se quer é ser bom - e isto aplica-se, não apenas à fotografia, mas a tudo na vida. Não há recompensas instantâneas, nem êxitos caídos do céu. E devemos, a cada passo, duvidar da qualidade das nossas fotografias e ser exigentes com elas. Devemos ser os primeiros e mais severos críticos das nossas fotografias. Se não quiser seguir este caminho, o principiante não pode aspirar a mais do que meia dúzia de fotografias que, por acaso, até saíram bastante boas. Por acaso, repito. Neste caso não vale a pena estar a maçar-se com saber o que é o equilíbrio dos brancos ou a regra dos terços, nem em saber quais as diferenças entre uma grande-angular e uma teleobjectiva: basta pegar no telemóvel e fotografar. O que não pode é aspirar a ser considerado um bom fotógrafo.
Se, contudo, quiser seguir o primeiro caminho, deve estar preparado para algumas desilusões. Henri Cartier-Bresson disse: «as suas primeiras 10000 fotografias são as piores». O que ele queria dizer é que a fotografia exige muito esforço, estudo, dedicação e anos de prática - quando, evidentemente, é levada a sério. Se um principiante tem aspirações, deve estar preparado para as críticas e encarar a fotografia como algo em permanente evolução. E nunca se deve conformar por ter atingido um determinado patamar de qualidade, antes olhando a fotografia como um aperfeiçoamento contínuo, na consciência de que a sua melhor fotografia é sempre a que vai tirar no dia seguinte.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Agradar a todos

Ansel Adams, Mount Williamson
Quando ando pelo Facebook fico surpreendido com as reacções das pessoas perante as fotografias que ali se publicam ou partilham. De que é que as pessoas gostam? De paisagens que provavelmente acham maravilhosas, mas são completamente inautênticas de tão manipuladas; de imagens que são no seu entender belíssimas, mas que, na realidade, são de uma banalidade confrangedora; ou então de fotografias completamente irreais, ao ponto de já não serem fotografias, mas sim trabalhos gráficos.
Há pouco mais de um ano resolvi publicar na minha página do Facebook algumas fotografias de grandes fotógrafos - os do costume: HCB, Robert Capa, Garry Winogrand et al. Foram quase ignoradas; não houve partilhas, comentários foram poucos. Posso concluir que pouca gente gosta de fotografia: o que gostam é de imagens que apelam superficialmente, mas não têm nada que perdure; imagens que valem pelo impacto estético inicial, mas são, no essencial, frívolas.
Esta apreciação medíocre, que não é mais que um sinal dos tempos que vivemos, leva muitos amadores a fotografar aquilo que as outras pessoas gostam de ver; querem reconhecimento, por isso fazem fotografias que agradem a todos. Em lugar de procurarem exprimir as suas ideias, reduzem a sua fotografia ao mínimo denominador comum por saberem de antemão que vão agradar às multidões.
Eu não. Na verdade, nem sequer me considero um fotógrafo, mas apenas um amador (no sentido, como ouvi uma vez da boca de Júlio Gago a propósito do teatro amador, de alguém que ama - neste caso não o teatro, mas a fotografia). Ou, se sou um fotógrafo, sou-o da mesma maneira que uma pessoa que compra umas canas de pesca e vai para o rio pescar pode ser considerada um pescador. Mas há algo que tento fazer: que as minhas fotografias correspondam aos meus princípios estéticos e que o seu conteúdo - se acaso têm algum - seja uma emanação da minha maneira de ser. Sei bem que ainda tenho muito caminho a percorrer, mas o meu propósito é fazer fotografia que seja uma forma de expressão pessoal. Não quero ter muitos «gosto» no Facebook; é bom quando as minhas fotografias são reconhecidas, claro, mas não é minha intenção agradar a toda a gente. As minhas fotografias têm de começar por agradar, antes de mais, a mim mesmo: este é o primeiro filtro, o crivo por que têm de passar. São inúmeras as fotografias que me recuso a publicar por as julgar banais e desinteressantes, e neste aspecto sou hoje bem menos indulgente o que era há um ano atrás, quando me satisfazia com fotografias que hoje me parecem vulgares. Hoje sou muito mais exigente e selectivo naquilo que publico no Flickr, e procuro não desperdiçar (por assim dizer) fotografias. Quando saio de casa para fotografar, faço-o depois de previamente ter escolhido um tema: fotografia de rua, paisagens, arquitectura, fotografia urbana, etc. (Eu ainda não escolhi um tema a que me queira dedicar em exclusivo, embora já tenha limitado o número de opções.)
Tenho referências sólidas na fotografia, e é para esses mestres que olho, é a sua obra que me inspira - porque preciso de sentir que tenho orientações estéticas e que me integro num estilo. Sei bem que nunca chegarei ao nível dos fotógrafos cuja obra me serve de inspiração - mas, se apontar para o alto, tenho mais possibilidades de acertar num alvo elevado do que se apontar para o chão, para esse território onde se encontram a banalidade e o artifício usado para agradar às multidões. A minha fotografia é uma tentativa - a tentativa de encontrar uma expressão própria. Sei que ainda não a encontrei, mas pelo menos procuro-a, mesmo correndo o risco de não agradar nem ao povo nem aos fotógrafos. O primeiro não compreenderá o que tento fazer, estes últimos apreenderão de imediato as minhas limitações. Mas vale a pena. Estou a percorrer o meu caminho, e não aquele que é o mais óbvio, o mais confortável, aquele que todos os outros seguem. E isto é algo a que não renuncio. Não quero ser exposto, não procuro a consagração nem tornar-me numa referência da fotografia. O que quero é buscar satisfação em fotografar - porque fotografar é um prazer -, e esta, obtenho-a quando as minhas fotografias correspondem aos meus próprios critérios - e não necessariamente aos das multidões. Sei que estou a escolher o caminho mais difícil, mas não me importo. É o que quero seguir.

domingo, 29 de abril de 2012

A fotografia é uma arte? (2)

Sabem aqueles grupos de adolescentes que vemos sentados nas praças das nossas cidades, de lápis de carvão na mão, alternando o olhar entre uma estátua e o caderno de papel Cavalinho? Todos os que se cruzam com eles os admiram. E eu também. Estão a fazer arte, ou a aprender a fazê-la. O mesmo com aqueles jovens que andam pelas ruas com estojos cilíndricos negros a tiracolo e rectângulos de esferovite e K-Line debaixo do braço: são alunos ou estagiários de arquitectura - e a arquitectura, enquanto expressão de uma estética e de um estilo, não pode deixar de ser considerada arte. E todos os transeuntes os olham com respeito, talvez até com orgulho. E eu também. Um dia poderemos, talvez, se a sorte e o talento estiverem do lado deles, ver um edifício maravilhoso concebido por estes jovens de ar sofisticado e rebelde. E o indivíduo sentado num banco de jardim, escrevendo notas num caderno ou num bloco, rodeado de pastas anarquicamente desorganizadas e com uma pilha de livros a seu lado? É um escritor - quem sabe um poeta. É um artista; todos lhe devem respeito e consideração. Eu também. E que dizer dos músicos de rua? Um dia passei pela Rua de Santa Catarina e uma rapariga, uma estrangeira, tocava no seu violino as Suites para violoncelo de J. S. Bach - uma das mais fabulosas criações do génio humano. Parei junto dela, escutando a música que a rapariga de olhos belíssimos executava enquanto os peões lhe atiravam moedas para dentro de uma boina pousada no chão aos seus pés. É muito raro ver pintores na rua, mas, quando estes aparecem, forma-se uma pequena multidão à sua volta, admirando a obra em germinação. É arte em criação, e a arte respeita-se e aplaude-se.
Agora reparem num fotógrafo. Não tem o respeito nem a admiração que o estudante de belas artes ou arquitectura merecem. Ninguém vai querer parar junto dele observando-o, nem muito menos oferecer-lhe dinheiro. Os únicos grupos que se poderão formar à sua volta são os de pessoas ultrajadas por ter ousado fotografar no momento em que estas iam a caminhar na rua, ameaçando-o com a intervenção da autoridade policial. A menos que seja um turista ou estiver a fotografar monumentos que já toda a gente viu em fotografias, o fotógrafo é olhado como um intruso, um canalha que está ali para devassar a privacidade das pessoas. Ou então um mercenário a soldo de uma qualquer revista sensacionalista, ou uma espécie de espião; ou talvez ou um pervertido cujos intuitos são suspeitos e que deve, na dúvida, ser impedido de fotografar. É até, prima facie, merecedor de bastonada quando ousa fazer aquilo que o jornal lhe paga para fazer. De pouco importa qual o propósito com que esse fotógrafo está a usar a câmara: o medo e a psicose em que as pessoas vivem nos dias que correm leva-as a suspeitar dos propósitos do fotógrafo.
Além do episódio que narrei no texto mais lido de sempre deste blogue, que aconteceu na estação do metro da Trindade, já passei por outra circunstância profundamente desagradável: por altura do Carnaval montei o tripé junto a um carrossel, de maneira a fotografá-lo com um efeito de arrastamento, criando a ilusão de uma velocidade vertiginosa. Quando estava a regular a exposição, um sujeito - aparentemente o dono do carrossel, ou empregado deste - proferiu qualquer coisa como olhe que ainda estraga a máquina. Não me deixei intimidar e respondi com toda a raiva que a ameaça (mal) velada me causou: «Não estrago, não!». Se me tivesse deixado acobardar e fosse embora, a rudeza da criatura teria vencido; se eu tivesse permanecido indiferente - o que qualquer pessoa educada tenderia a fazer -, o homenzinho iria tentar provocar um desacato. Depois de ter percebido que eu não tinha medo dele, deixou-me em paz. Ainda bem, porque as fotografias ficaram bastante satisfatórias - salvo aquelas em que o sujeito aparece no enquadramento, olhando-me com ar desafiador. Também já tive de acalmar uma discussão entre um amigo, que me acompanhava numa sessão fotográfica na baixa do Porto, e uma criatura que se achou ofendida por ter sido apanhada no enquadramento da Canon 1000D do meu amigo.
Esta é a realidade, e o confronto desta realidade com a dos artistas a que aludi no primeiro parágrafo tem que ver com o facto de a fotografia ser vista, pela generalidade do público, como tudo o que for concebível, mas nunca como uma arte. É um facto: para a esmagadora maioria das pessoas, a fotografia não é arte. É ilustração. Não merece respeito nem consideração: o fotógrafo é um potencial intruso disposto a roubar a imagem dos pobres transeuntes (como aqueles indígenas que entendiam que a fotografia lhes roubava a alma...) Quem devemos culpar por isto - as pessoas que reagem mal à fotografia? Não. Estas pessoas têm direitos e, felizmente, são cada vez mais conscientes - embora nem sempre bem informadas. A culpa desta desqualificação da fotografia, que a remeteu para a categoria da simples ilustração, tem que ver com o excesso de fotografias. Hoje qualquer pessoa fotografa, e muitos são os fotógrafos que vão longe demais. O exemplo mais evidente é o dos paparazzi - é um lugar-comum -, mas estes não são os únicos culpados. Aliás, mais culpados que os paparazzi são aqueles que lhes pagam. Há muitos outros fotógrafos que abusam e não conhecem os limites - ou, se os conhecem, transpõem-nos sem qualquer hesitação. A generalidade das pessoas tem, por tudo isto, o direito de se sentir saturada de fotografias e de fotógrafos. Reparem que não considero esta atitude meramente compreensível ou desculpável: considero-a legítima. Há verdadeiros tarados a fazer fotografia - ou, mais correctamente, a tirar fotografias - de pessoas (e em particular de crianças) com propósitos dúbios; e estas pessoas não têm qualquer possibilidade de distinguir o verdadeiro fotógrafo de rua, ou aquele que fotografa com fins artísticos, destes indivíduos. Não há nada que os distinga.
E como pode algo que toda a gente faz ser considerado arte? Como pode uma forma de criação que nos surge em painéis publicitários, nas páginas dos jornais e revistas, nos websites e nos blogues - numa palavra, que nos invade incessantemente -, ser considerada arte? A fotografia está de tal maneira banalizada que qualquer pretensão artística se torna risível. 
E, contudo, não deixa de ser uma forma de expressão artística - pelo menos quando é essa a intenção do fotógrafo, e quando este tem a sensibilidade e o domínio técnico necessários. Simplesmente, a fotografia artística é um reduto marginal dentro dessa enorme categoria que é a fotografia. Um Ansel Adams é comparável, do ponto de vista da criação, a um John Constable, Cartier-Bresson é tão grande na sua arte como Monet na pintura. E há contemporâneos que seria injusto excluir da classificação de artistas apenas porque a fotografia está tão vulgarizada. O nosso João Silva, por exemplo. Ou Steve McCurry. Ou tantos outros. Aliás, se a fotografia devesse deixar de ser considerada uma arte por haver tantas fotografias e fotógrafos, porque não fazer o mesmo com a música? Deverá Mozart deixar de ser considerado um artista por causa dos Maroon 5? E, já agora, com a literatura: deve Eça de Queiroz ser removido do Panteão Nacional por causa da Margarida Rebelo Pinto? O mesmo pode ser dito em relação a qualquer outra arte: Tchékov não deixa de ser um dramaturgo por causa do Filipe La Féria, Sean Penn não se confunde com Chuck Norris. Estou convicto que as fotografias feitas hoje com propósitos artísticos sobreviverão à massificação; um dia olharemos para elas como hoje olhamos a obra de Robert Doisneau. Por vezes a proximidade temporal impede-nos de apreciar a verdadeira dimensão de uma fotografia, mas o tempo far-lhe-á justiça. Mesmo que apareça no Facebook, ou a ilustrar textos de blogues. Porque a arte - a verdadeira arte, não os pastiches que nos tentam impingir como sendo-o - tende para a eternidade e sobrevive às modas.       

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quando é que uma fotografia é uma boa fotografia?

Samuel Aranda (Prémio World Press Photo 2011)
O requisito da criação artística como critério de protecção dos direitos morais da fotografia deixou-me a reflectir acerca da diferença entre uma fotografia artística e uma fotografia normal durante muito tempo. O que faz de uma fotografia uma fotografia artística? Quando é que ela se torna numa criação individual, e não num mero documento? A resposta não é fácil: por vezes vemos fotografias feitas com recurso a todas as técnicas fotográficas, mas sem alma; outras vezes vemos fotografias interessantes, mas que falham quando se trata de criar sensações; outras ainda são aquelas fotografias que, tendo um propósito meramente informativo, são contudo brilhantes. A fronteira entre a fotografia artística e a documental é por vezes ténue, e ainda mais difícil se torna apontar precisamente o que eleva uma imagem à categoria de arte.
Henri Cartier-Bresson
Penso que, antes de mais, o que distingue uma boa fotografia é a sua originalidade. Note-se que esta originalidade não significa, necessariamente, que o objecto fotografado seja original: é possível fazer fotografias originais a partir de objectos que toda a gente já viu e outra tanta fotografou. Basta uma perspectiva diferente, uma composição interessante, um enquadramento mais dinâmico, para que a fotografia resulte e possa ser considerada original. Lembremo-nos que, segundo o grande Garry Winogrand, «tudo é fotografável». A questão é que consigamos encontrar um ângulo novo de ver as coisas, algo que interesse e que jogue com a mente de quem vê a fotografia. Aqui ajuda ter noções sólidas de composição e enquadramento: uma fotografia de um objecto tal como ele é, de frente ou de um ângulo demasiado óbvio, pode ser a coisa mais fastidiosa do mundo: é um documento, nada mais. Pode o seu tema ser importante ou esteticamente agradável, mas este facto não é suficiente para fazer a fotografia ascender à categoria de arte. Se quisermos usar um exemplo extremo, a diferença que vai de uma fotografia cujo objecto é demasiado óbvio e outra mais desafiadora para a inteligência de quem vê é a mesma que existe entre erotismo e pornografia: por vezes o mero vislumbre de uma porção de pele é mais estimulante do que a nudez frontal, porque desperta um processo intelectivo - a imaginação. É necessário jogar com os sentidos, e sobretudo com a inteligência e a subtileza de quem vê a fotografia. As fotografias com demasiado impacto visual de que hoje tanto se abusa, como aquelas que vemos carregadas de manipulação e muitas das que são feitas com a técnica HDRI, apenas perduram durante uns momentos; as que necessitam de ser interpretadas, que nos deixam a pensar qual seria a intenção do fotógrafo - o que ele nos quis dizer com a sua fotografia -, são aquelas que perduram. Para fornecer um exemplo óbvio, tomemos a Derrière la Gare de Saint-Lazare: é uma fotografia que nos deixa a pensar e estimula a nossa imaginação - como é que o homenzinho foi ali parar?; que estava ele ali a fazer?; vai cair na poça de água?; vai molhar as calças?; teria encontrado um ponto onde pudesse aterrar sem se molhar?
Philippe Halsman
Para que uma fotografia possa ser considerada uma criação artística, é necessário que ela traduza uma intenção do fotógrafo, e que lhe esteja subjacente uma expressão artística. Tal como qualquer outra arte, não carece de uma mensagem explícita, nem de um propósito interventivo; se estes estiverem presentes, tanto melhor, mas a arte é, acima de tudo, uma representação externa do mundo interior do artista, ou, pelo menos, uma exteriorização da forma como este vê ou interpreta o mundo. É a expressão de uma ideia, de uma maneira de ser e de se relacionar com o objecto e com quem desfruta a criação artística. Ao longo dos últimos séculos, a arte evoluiu da descrição para a criação de sensações no espectador, e a fotografia acompanhou esta tendência que nos levou ao impressionismo e ao surrealismo. Lembremo-nos, por exemplo, do dadaísmo e de Man Ray. A fotografia não tem de ser descritiva, mas deve criar uma ligação entre a imagem, o fotógrafo e o espectador.
Garry Winogrand
A técnica tem influência no processo artístico, mas de nada vale se o objecto for desinteressante ou banal. A técnica pode ser um poderoso auxiliar na transmissão da mensagem da fotografia, mas não se for usada para  valorizar um motivo intrinsecamente desprovido de interesse. Técnicas como o arrastamento, o bokeh ou rodar o zoom no momento do disparo, entre outras, contribuem para tornar a fotografia mais dinâmica e comunicativa. Do mesmo modo, jogar com a medição pontual para criar motivos fortemente contrastados também resulta, tal como o equilíbrio dos brancos pode ser usado para saturar ou dessaturar cores. E não devemos esquecer que a distância focal desempenha um papel importante: não apenas quando se trata de preencher o enquadramento, mas sobretudo pelas características que confere à imagem: as grande-angulares criam diagonais, conferindo tensão dinâmica às linhas verticais, enquanto as teleobjectivas comprimem a perspectiva, aproximando o plano de fundo do objecto. Não sou, sinceramente, daqueles que acreditam que uma fotografia pode ser maravilhosa mesmo se feita com recurso a material inferior, ou com um domínio pobre da técnica: uma fotografia assim é uma fotografia desprovida do seu potencial criativo, e os casos de êxito nascem de um puro acaso. A técnica é tão importante na fotografia como na pintura ou na poesia, artes das quais é indissociável; ela contribui decisivamente para o conteúdo artístico da obra, pelo que não deve ser minorada nem desprezada. Por vezes é nela que reside a distinção entre a fotografia-documento e a fotografia-arte. A técnica, com efeito, ajuda a conferir expressão à fotografia e a afirmar a intenção do fotógrafo. Deve, porém, evitar-se o excesso da técnica, impedindo que esta se sobreponha à intenção fotográfica e à expressão artística.
Edward Weston
Acima de tudo, a boa fotografia é aquela que perdura, pelo seu significado, para além do impacto visual imediato. Como referi acima, a fotografia não tem de ter uma mensagem; não precisa de ser um manifesto para ser considerada arte. Mas deve causar uma impressão duradoura, deixar-nos a pensar nela e em qual a intenção do fotógrafo. Uma fotografia frívola, ou duma estética superficial, pode agradar aos sentidos, mas não provoca uma sensação que se prolongue no tempo, nem obriga a reflectir. Mesmo as cenas de rua mais triviais podem provocar as mais intensas reflexões.
É muito difícil, porque implica o uso de conceitos altamente subjectivos, definir uma fotografia - ou qualquer criação da mente humana - como arte, mas arrisco-me a dizer que é quando a imagem nos leva a abstrair do seu objecto e obriga a procurar significados para além deste que uma fotografia se cumpre enquanto criação artística. E esta é incindível do seu criador, pelo que o requisito da subjectividade - entendida aqui como uma emanação da mente do fotógrafo, com o seu modo de ver o mundo implícito na criação - me parece essencial para definir uma criação artística.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A democratização da fotografia (4)

No topo da cadeia alimentar da fotografia estão os profissionais, com os amadores dedicados no degrau imediatamente inferior. A democratização da fotografia não tem repercussões negativas sobre o seu trabalho - pelo contrário, é um auxiliar inestimável -, e estes fotógrafos seriam tão bons a trabalhar com uma câmara digital como o seriam com uma analógica.
Não há nada que se compare às fotografias de um profissional. Há nelas um equilíbrio entre forma e conteúdo a que apenas os melhores amadores podem aceder. Estas pessoas fazem fotografia para viver; são pagos para fotografar. Contudo, se lhes perguntarem se esta circunstância diminui o seu prazer de fotografar, a resposta é, com toda a probabilidade, um não rotundo, porque o bom profissional quer sempre ir mais longe.
O que surpreende, no discurso do profissional - eu já tive o prazer de privar com alguns -, é a diferença na abordagem de temas como a técnica e o equipamento em relação aos amadores. Para os profissionais, a técnica é algo que dominam de uma forma que nos parece intuitiva (embora na verdade não o seja), e o equipamento não é um motivo de orgulho ou ostentação, mas uma necessidade. Não há nada mais incrível que ver um fotojornalista em ação: é admirável a maneira como se move, como manipula os comandos da câmara sem tirar o olho do visor e, acima de tudo a completa ausência de qualquer pretensiosismo ou ostentação. Por vezes acontece-me cruzar-me com fotógrafos que têm a mania que são muito bons por terem bom equipamento, e a diferença de atitude entre ambos é abissal: estes últimos gostam de ostentar (e eu sou capaz de jurar que muitos me olham com desdém quando trago comigo a E-P1), os primeiros usam câmaras profissionais porque só estas lhes permitem obter o maior desempenho. É a sua ferramenta.
Os problemas que se levantam, em relação aos profissionais, são, antes de mais, o facto de a fotografia digital ter permitido a muitos amadores fazer fotos de enorme qualidade. O adquirente das fotografias poderá sentir-se tentado a comprar fotos de um bom amador (ou mesmo a roubá-las da Internet), em lugar de pagar a um profissional. Quem quiser estabelecer-se na fotografia terá uma feroz concorrência e muitos anos de luta até obter algum sucesso.
O outro problema é o preço do equipamento. As lentes profissionais podem atingir preços da ordem dos €6.000,00. As lentes que os fotorepórteres usam são, em regra, zooms que não cobrem grandes amplitudes em termos de distância focal, mas têm abertura constante, i. e. a mesma abertura máxima em todas as distâncias focais cobertas. Fabricar lentes destas é extremamente caro, e estas teleobjetivas são incrivelmente volumosas e pesadas. Não há outra maneira de as fabricar. É mais ou menos implícito que as suas câmaras são full frame ou médio formato - sendo que, no caso deste último, os preços são multiplicados por dois ou três em relação ao material das DSLR.
Como referi, estas são questões secundárias para o profissional. O que importa é que o equipamento lhes permita efetuar o trabalho com a maior qualidade possível. O importante, para os profissionais, é o conteúdo da imagem, a sua qualidade intrínseca. No caso dos fotojornalistas, até é possível que as suas imagens não resistam ao mais crítico dos olhares no que respeita a certos aspetos técnicos, mas isso é irrelevante: há casos em que não há tempo para fazer melhor. Não é uma questão de limitação dos conhecimentos ou do equipamento. Há fotografias memoráveis tiradas em condições de luz e exposição longe das ideais, mas o importante foi capturar esse momento.
O amador - i. e. o bom amador - pode estar muito próximo do profissional, mas nunca é verdadeiramente posto à prova. Não tem a pressão dos prazos, nem a urgência de captar as melhores imagens no lapso de tempo mais curto possível. Muitos destes amadores, porém, tornar-se-iam profissionais se lhes fosse dada essa oportunidade.
E eu, onde me situo? Francamente não sei. Profissional não sou com certeza - embora, ao que parece, a Olympus me pague para dizer mal das Pentax, como sugeriu um comentarista num texto anterior. Também não sou um dos que acham que podem tirar fotografias melhores que um profissional com material inferior, porque quem diz isso não sabe do que está a falar, e a mim não me podem acusar de falar sem saber de quê. Não sou alguém que pense que um grande equipamento faz um grande fotógrafo, porque já vi fotografias de pessoas dessas e acho que consigo fazer bastante melhor. Estou, penso eu, num limbo, numa categoria na qual só eu caibo: o aspirante a bom amador. Vou-me esforçando, mas sei que dificilmente chegarei ao topo. Faltam-me o tempo, o dinheiro e o talento para tanto. Já fico contente quando alguém marca uma das fotografias que publico no meu Flickr como favorita...     

domingo, 12 de fevereiro de 2012

World Press Photo

Esta é a fotografia vencedora do prémio da World Press Photo. Do fotógrafo espanhol Samuel Aranda. Nem sei que dizer. É maravilhosa. Evoca a Pietà de Michelangelo Buonarroti, mas é, em simultâneo, uma poderosa demonstração do que é o fotojornalismo. Feita no Iémen, numa mesquita convertida em hospital. Tem tudo para se tornar numa das fotografias mais importantes de sempre.

A democratização da fotografia (3)

Foto encontrada em The Online Photographer. Sorry, Mike...
Até agora referi-me aos malefícios da democratização da fotografia, mencionando apenas os aspetos negativos: a deformação das mentes que leva alguns a pensar que são grandes fotógrafos apenas porque se deixam iludir pelo que as câmaras fazem por eles. O advento da fotografia digital trouxe também benefícios, tornando a fotografia acessível a pessoas que, intimidadas pela dificuldade em controlar uma câmara analógica, se abstinham de fotografar momentos importantes das suas vidas. A estes designo por fotógrafos casuais. Têm a particularidade de ser os menos atingidos por neuroses e stress relacionados com equipamentos, técnicas e conteúdos. São, por outras palavras, os mais felizes dos fotógrafos. São também o grupo mais amplo: vemo-los todos os dias, de compacta ou bridge na mão, apenas gozando o prazer de capturar um momento, uma paisagem ou alguém que tem um significado especial; vemo-los nas zonas históricas das nossas cidades e nos jardins públicos, sorrindo felizes e despreocupados, sem que por uma única vez sejam perpassados por preocupações sobre a compensação da exposição, o equilíbrio dos brancos, a medição pontual, a abertura ou a velocidade do disparo.
A verdade deve ser dita: todas as câmaras, com exceção das de nicho como as Leica (as autênticas, não as Panasonic rebatizadas), as médio formato ou as Fujifilm da série X, estão programadas para exposições automáticas que, embora não atinjam os resultados obtidos com o controlo manual, são contudo aceitáveis. Apesar de nunca ter experimentado o modo iAuto da minha E-P1, usei frequentemente o modo P, e os resultados são corretos, embora nem sempre ideais.
Não há nada de mal em tirar fotografias despreocupadamente e em reunir a família e os amigos para partilhar as fotografias de umas férias, de uma festa ou do nascimento de um filho. Pelo contrário, este é até um dos benefícios mais importantes da fotografia. Há qualquer coisa de mágico na maneira como uma imagem pode trazer recordações de momentos do passado, e as pessoas tendem a fotografar aqueles em que se sentem felizes por algo de bom que lhes aconteceu: umas férias, uma viagem, um acontecimento pessoal importante. Claro que, se olharmos criticamente para estas fotografias, vamos encontrar defeitos, quer quanto à técnica, quer quanto à composição e enquadramento - mas isso que importa? Essas questões tornam-se absolutamente secundárias quando confrontadas com o sorriso, ou mesmo o riso e a comoção, que iluminam o rosto destas pessoas ao olhar as fotografias que tiraram. E, com a fotografia digital, podem tirar milhares de fotografias, sendo a única preocupação técnica a de verificar o espaço disponível no cartão de memória e o nível de carga da bateria. Isto é mau? Claro que não! É verdade que muitas dessas fotografias podem falhar - mas isto não acontece até com os profissionais, que fazem dezenas de imagens até atingir aquela que tencionaram?
O que é saudável, nestas pessoas, é que não têm qualquer tipo de pretensão. Fotografar é, para elas, muito mais divertido que para os elementos de qualquer dos outros grupos: é sobretudo mais espontâneo e natural. Os fotógrafos casuais não se sentem compelidos a tirar grandes fotografias, embora estas possam acontecer; podem nunca vir a sentir a satisfação interior extrema de fazer uma fotografia conseguida do ponto de vista estético e técnico, mas a verdade é que não sentem essa necessidade. Por vezes invejo-os.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A democratização da fotografia (2)

Tirada com uma compacta: OK, desde que não a ampliem!
Volto à classificação dos fotógrafos a que me entreguei no texto anterior. Ficou por referir o grupo daqueles que pensam que fazem grandes fotografias - capazes de competir com os profissionais, clamam alguns - com as suas câmaras compactas. Isto é, evidentemente, uma generalização, com os exageros que lhe são inerentes, mas há gente que pensa assim. Em boa verdade, prefiro uma boa fotografia tirada por uma destas pessoas a uma má fotografia tirada com uma Canon 5D por um mau fotógrafo: ao menos a primeira exprime algo. Simplesmente, as pessoas que se arrogam qualidades de fotógrafo com as suas compactas e telemóveis, por regra, não tiram boas fotografias - embora se tenham deixado convencer do contrário.
Mesmo nos casos em que o fotógrafo mal equipado é capaz de boas ideias fotográficas, é importante ter em mente que a fotografia é uma arte visual, não podendo, deste modo, ser desligada do conteúdo estético. Por melhor que seja a ideia exprimida e a intenção do fotógrafo, uma fotografia com excesso de ruído, aberrações cromáticas excessivas, distorções geométricas não propositadas ou cores inexatas e deslavadas é uma má fotografia. Voltando à analogia óbvia com a pintura, vamos imaginar que Vincent van Gogh tinha pintado o Doze Girassóis Numa Jarra com lápis de cera numa folha de cartolina. Penso - embora possa estar enganado - que o quadro não teria o mesmo valor; quando muito, seria um esquisso procurado por quem se interessasse seriamente por documentar a obra do pintor. Por que havia de ser diferente na fotografia? Alguém se convence que Josef Koudelka se teria tornado num fotógrafo de renome se tivesse usado uma daquelas Agfa de encolher, ou uma Lomo? Ou Yann Arthus-Bertrand com uma Samsung de €79,99? Impossível.
O equipamento é importante e necessário, mas apenas pode ajudar a fotografar se o seu utilizador dominar as noções de composição e enquadramento e a técnica fotográfica. Dito isto, qualquer pessoa que entenda que as suas fotografias são excelentes, tendo-as tirado com equipamento inferior, ou é presunçoso ou não sabe o que é uma boa fotografia. Acreditem que esta afirmação não tem nada de arrogante, porque é inteiramente fundada na minha própria experiência. Não tenho o menor pudor em reconhecer que tirei inúmeras imagens de má qualidade, embora na altura estivesse plenamente convencido que eram grandes fotografias. Uma câmara (e, sobretudo, uma lente) inferior é um obstáculo à expressão da ideia do fotógrafo, por melhor que esta seja. Uma câmara, para dar rédea solta às qualidades do fotógrafo, necessita de determinados requisitos técnicos: tem de permitir, antes de mais, o uso de modos de exposição automáticos ou semi-automáticos, de maneira a que o fotógrafo tenha controlo sobre o processo criativo. Caso contrário aquele não estará a fotografar, mas apenas a escolher enquadramentos e a deixar que seja o fotómetro a colher a imagem. A câmara tem também de permitir o uso de lentes adequadas a cada tipo de fotografia e à intenção do fotógrafo. Eu comecei com uma câmara compacta, pelo que tenho conhecimento do assunto que me propus tratar. A compacta impedia-me de fazer as fotografias que queria: era absolutamente inapta para fotografar à noite, e os únicos controlos que me deixava eram os da compensação da exposição, ISO e equilíbrio dos brancos. O que é, convenhamos, muito pouco. E tinha um nível pavoroso de distorção geométrica nas distâncias focais mais curtas, curvando as linhas direitas. É certo que consegui fazer algumas fotografias satisfatórias com ela, mas a qualidade destas dependia excessivamente de condições de luz ideais e do uso de distâncias focais que não produzissem distorção. Quanto aos «modos criativos» destas câmaras, o mínimo que posso afirmar é que não têm qualquer utilidade para um fotógrafo que leve o seu hobby minimamente a sério.
A ideia é a base da criação artística, mas não é tudo. Na literatura, não basta ter uma ideia interessante para um conto ou um romance e transcrevê-la para o papel: é necessário o domínio da língua - em especial da gramática -, o emprego de uma linguagem literária e o conhecimento do processo de criação literária. Tal como na fotografia é importante o domínio da técnica para exprimir uma ideia. Hoje há milhares de pessoas que imaginam que, por terem ideias e as reduzirem a escrito, se tornam escritores. Estas pessoas também incorrem nos vícios dos fotógrafos: ou são presunçosas ou nunca leram os clássicos da literatura (ou, se os leram, nada aprenderam com eles). Neste mundo que promove a mediocridade, é muito fácil alguém passar por artista (hoje em dia parece que basta ter muitos «gosto» naquilo que publicam no Facebook), mas aceder à condição de artista continua a ser a prerrogativa de muito poucos. Por isso não me venham com essa história de que se pode fazer grandes fotografias com uma compacta. Não é verdade.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A democratização da fotografia (1)

Apetece-me desenvolver um pouco a noção de banalização da fotografia trazida pelo advento do digital, assunto que abordei en passant no texto de ontem. Tenho para mim que os fotógrafos se podem dividir em três grandes grupos; por ordem descendente, temos, em primeiro lugar, os profissionais e os amadores dedicados; em segundo lugar, os fotógrafos casuais e, por último, os fotógrafos patéticos. Este último - e é com enorme hesitação que os classifico como «fotógrafos» - compreende dois tipos de pessoas que me irritam até ao tutano: as que pensam que tiram grandes fotografias com uma compacta - melhor que muitos profissionais, dizem alguns - e as que imaginam que tiram grandes fotografias porque têm material muito bom. Com o preço do equipamento a atingir valores extremamente baixos, é fácil, a qualquer pessoa, tirar fotografias. Há milhões de boas fotografias em sites e blogues da Internet, e é fácil, com câmaras que praticamente fazem todo o trabalho pelo fotógrafo, que praticamente se limita a escolher um enquadramento, criar fotografias superficialmente boas.
Permitam-me começar pelo último grupo que referi. Dos que pensam que o equipamento é suficiente para fazer um bom fotógrafo, deixem-me dizer que estão enganados. A fotografia é uma arte; começa num conceito e termina na execução. O fotógrafo deve, antes de mais, ter uma ideia, ou um conceito de fotografia. É importante que saiba o que, e como quer fotografar antes de pensar no equipamento. A ideia precede o domínio da técnica, e o fotógrafo só deve enveredar pelo caminho potencialmente ruinoso da aquisição de equipamento depois de se certificar que tem visão de fotógrafo e mente de fotógrafo. O equipamento apenas serve para dar corpo à ideia. Um bom pintor não é aquele que usa as melhores telas, os melhores pincéis e os óleos mais caros: é o que tem as melhores ideias. A técnica apenas o ajuda a exprimir-se melhor. O que fez de Willem de Kooning um grande pintor não foi o conteúdo cromático nem a abstração da forma: foi a sua intenção ao pintar - mostrar o interior, a subjetividade dos retratados através da distorção da forma externa. Como também o fez, embora de uma maneira diferente e menos apelativa do ponto de vista estético, Lucian Freud. Ou mesmo a nossa Paula Rego. Contudo, há pintores que pensam que, por usar formas distorcidas e cores vibrantes, podem ser tão bons como W. de Kooning, passando-lhes completamente ao lado o facto de a) estarem a produzir pastiches e b) as suas criações serem vazias e artisticamente inúteis. Na fotografia há um nome que se eleva sobre todos os demais: Henri Cartier-Bresson. Muitos não o sabem, mas HCB foi ainda melhor como retratista que como fotógrafo de rua. Porquê? Porque os seus retratos exibiam a mente e a individualidade do retratado. E não foi a sua Leica que as captou: foi o seu olhar e a intuição artística e intelectual, que lhe permitiu interpretar a psique do retratado e trazê-la para o exterior, tornando-a visível através da técnica fotográfica. Isto é algo que não se aprende em workshops, nem é certamente ter uma grande câmara que vai, por si só, conferir esse atributo ao fotógrafo.
Samuel Beckett por Henri Cartier-Bresson
Ainda antes do equipamento, porém, há que considerar as noções de estética e design. O fotógrafo tem de compreender a maneira como os objetos se colocam no enquadramento e como as pessoas vêem uma fotografia. A tendência natural para colocar objetos no centro da imagem e geometricamente alinhados pode corresponder a noções intuitivas, mas raramente contribui para fotografias interessantes. Uma fotografia banal é uma fotografia banal, quer seja tirada com uma Nikon D4 ou com uma Samsung comprada no Minipreço. É importante que o fotógrafo compreenda que a fotografia, como qualquer outra arte, tem de ter um conteúdo, mas tem também de obedecer a regras (embora estas, por o serem, comportem exceções). Simplesmente, as regras existem com um propósito: o de tornar a fotografia inteligível para quem a vê. Porque a fotografia, se apenas tiver o significado o seu autor pensa que ela deve ter, não passa de um exercício fútil de onanismo. A fotografia é para ser vista por terceiros, e as regras de composição e enquadramento servem para tornar a fotografia percetível aos olhos de quem a contempla. Regras como a dos terços ou o isolamento do objeto em relação ao plano de fundo não são arbitrárias: basta pensar na forma como lemos para compreender o porquê de o objeto que o fotógrafo quer destacar tender, por regra, a ser colocado no terço superior esquerdo da fotografia: é por aqui que o olhar começa a percorrer a imagem. Ou na necessidade de não existirem, no enquadramento, objetos que compitam com aquele que se pretende realçar.
Não restem dúvidas que o mais importante, em fotografia, é a expressão artística. A técnica é importante, e o equipamento também, mas ambos são meros auxiliares. Servem para ajudar o fotógrafo a exprimir-se. Não são, deste modo - ou não devem ser, objetivos a prosseguir per se. Técnica sem expressão é um vazio, equipamento sem capacidade de exprimir uma ideia e sem domínio da técnica é nada.
Este texto já vai um pouco longo, pelo que vai ter continuação, na qual que me referirei a um grupo de pessoas a que já pertenci: a das que pensam que são grandes fotógrafos independentemente do equipamento.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

De novo João Silva

A fotografia não é a arte mais amada em Portugal. Aliás, não sei se o meu povo ama alguma arte. (O futebol não pertence a esta categoria.) Daí que seja sempre de louvar que uma reportagem sobre um fotógrafo tenha passado na televisão, e logo no canal público mais visto e a uma hora prime. Senti-me compelido a ver a reportagem de ontem, 30 de janeiro, na RTP1 sobre João Silva, o fotojornalista cuja vida se alterou drasticamente há dois anos, quando pisou uma mina no Afeganistão.
Sei bem que, se não fosse este acidente, a reportagem não teria acontecido, e que o assunto da reportagem foi mais o homem João Silva que o fotógrafo. Com efeito, quem não conhecesse a fotografia de João Silva teria ficado igualmente desconhecedor depois da reportagem. Contudo, não deixou de ser interessante: a reportagem decorreu como uma conversa entre amigos, na qual foi possível aprender algo sobre o homem. Tenho, neste particular, a noção que a expressão fotográfica emana do espírito do fotógrafo (por oposição à sua racionalidade), e que a fotografia diz muito sobre a personalidade, os gostos, a maneira de viver, as ideias e a sensibilidade do fotógrafo - mesmo quando dela apenas se extrai uma intenção estética. Tal como se adivinha a personalidade do escritor nos seus textos ou a do compositor na sua música. Se excetuarmos autores como Jorge Luís Borges, cuja obra é puramente racional, inteiramente despida de qualquer subjetividade (depurada daquilo a que as pessoas com pretensões intelectuais chamam «vivência»), a criação artística é incindível do artista. Conhecer a vida de João Silva foi compreender um pouco melhor a sua fotografia, a qual conheci na exposição a que me referi neste blogue.
Durante a reportagem, apercebi-me um pouco melhor de algo que já resultara patente das fotografias expostas no Centro Português de Fotografia: João Silva tem um sentido composicional que o coloca num nível a que muito poucos fotógrafos podem ascender. É necessário, nos cenários de guerra em que João Silva trabalhou, pensar muito rapidamente acerca da composição e do enquadramento. E as fotografias que vi, bem como as que a reportagem mostrou, demonstram uma capacidade invulgar para tomar decisões quanto à composição em frações de segundo. Da fotografia de João Silva não resulta apenas que este é um fotógrafo rápido e atento e um fotojornalista competentíssimo, mas também que tem um sentido estético fora do comum, uma sensibilidade imensa que faz com que as suas imagens transcendam a qualidade de mero documento para se tornarem em manifestações artísticas.
Também me ocorreu, enquanto via a reportagem, algo que tenho por adquirido há muito: que o equipamento é um mero acessório da criação fotográfica. Nunca, ao contemplar as suas fotografias, me ocorreram pensamentos fúteis como «aqui usou uma grande-angular», ou «aqui usou uma abertura f2.8»: a técnica está presente, e é magistralmente dominada, mas não é mais que uma ancilar da expressão artística. Não vale a pena negar que foi usado o melhor equipamento disponível, nem seria inteligente afirmar que este não contribuiu para a qualidade das imagens e para a sua expressão; simplesmente, este é um aspeto de que qualquer um que tenha um pouco de sensibilidade se abstrai rapidamente ao ver as fotografias de João Silva.
Está completamente fora das minhas cogitações publicar aqui fotografias de João Silva, por uma questão de direitos autorais. Decerto já inseri neste blogue fotografias de diversos fotógrafos, mas sempre assegurando-me que estas haviam já caído no domínio público, ou que os respetivos direitos haviam sido alienados a terceiros. Para ver fotografias de João Silva, sigam esta ligação. Reparem, em particular, na terceira: é um dos momentos em que a fotografia mais se aproximou da perfeição.