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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Que futuro para a Olympus? (Atualizado)

A Business Week publicou um artigo extenso sobre o escândalo Olympus e, em particular, o papel de Michael C. Woodford nos acontecimentos que podem, se tudo correr mal, levar à dissolução da Olympus Corporation. Como se pode deduzir de toda a atenção que este escândalo está a receber, os acontecimentos em torno da Olympus vão muito além do mero interesse pelas câmaras e lentes da sua divisão de imagem: este é, de acordo com alguns, o segundo maior escândalo financeiro de sempre no Japão - e o Japão não é exatamente uma economia pequena e insignificante. É também um bom exemplo da falta de ética e da corrupção nas grandes corporações.
O artigo, em sete partes, pode ser lido seguindo esta hiperligação.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Que futuro para a Olympus?

The Online Photographer é um dos blogues que visito diariamente. É mantido por um norte-americano de nome Mike Johnston, cujos interesses, para além da fotografia, passam também por automóveis e alta fidelidade. Não desdenharia uma boa conversa in persona com ele, iria decerto ser interessante. Além destes interesses comuns, Mike é uma pessoa atenta ao que se passa no mundo e com ideias lúcidas e sãs - o que, atento o nível de sarjeta para que os republicanos atiraram o debate político com o seu ódio por Barack Obama, é algo de assinalável.
Ontem Mike Johnston escreveu um texto notável - onde há até uma analogia com a situação económica da Grécia, embora sem conhecer ainda o plano de resgate aprovado na terça feira - que remete para um artigo da Reuters em que se dá conta do receio que os investidores estrangeiros têm de que os principais credores da Olympus Corporation - alguns dos maiores bancos japoneses - forcem a uma composição do futuro conselho de administração que lhes permita controlar a sociedade. Ora, isto significaria que a empresa ficaria nas mãos dos credores, o que configuraria uma verdadeira liquidação do património. Tal como Mike, não me parece que uma administração influenciada pelos credores vá zelar pelos interesses da empresa - vai, outrossim, atender aos interesses dos credores.
Compreendem agora a analogia com a Grécia? Tal como o país ao qual devemos a nossa civilização ocidental (civilização de que tanto nos orgulhamos, apesar de ter espalhado os males do mercantilismo pelo mundo inteiro) ficou definitivamente nas mãos da Troika, não sendo exagero dizer que perdeu a sua soberania, também a Olympus Corporation vai ser administrada, não pelos acionistas, mas pelos credores. E estes estão interessados no negócio dos endoscópios, cujo mercado a Olympus domina por uns astronómicos 70% do mercado. Tudo o resto, i. e. o áudio e a imagem, serão secundários. A divisão de imagem é particularmente vulnerável, já que, a despeito do sucesso da série Pen, tem acumulado prejuízos. Na verdade, a Olympus Imaging Corporation tem acumulado erros de gestão grosseiros desde os anos 90, altura em que teimosamente se recusou a aderir à focagem automática.
Curiosamente, mesmo o negócio dos endoscópios pode estar em risco. Um conselho de administração dominado pelos bancos poderia determinar a liquidação da Olympus Corporation para que os bancos vissem os seus créditos satisfeitos. Michael C. Woodford, o CEO que foi despedido por ter denunciado o escândalo Olympus, tentou contrariar esta assunção da administração pelos bancos, tendo o apoio de uma corporação denominada Southeastern e outros investidores japoneses e estrangeiros, mas teve de recuar diante da força dos credores. Agora a dissolução da Olympus pode ser irreversível. Os banqueiros estão-se borrifando no legado de Yoshihisa Maitani, nas lentes OM ou na qualidade da E-M5; mesmo que o negócio da endoscopia resista, as demais divisões são descartáveis. Seja o que for que venha a acontecer, a divisão de imagem estará em sério risco no caso de os credores tomarem conta do conselho de administração da Olympus Corporation.
Curiosamente, fala-se com cada vez maior insistência no interesse da Sony em adquirir participações na Olympus Corporation. O mínimo que posso dizer é que, depois de saber o que a Sony fez com a Minolta, estes rumores não me deixam nada tranquilo.      

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O escândalo Olympus ainda não acabou

Ontem soube-se que Tsuyoshi Kikukawa, anterior presidente da Olympus Corporation, Hisashi Mori, membro do conselho de administração, e mais cinco pessoas, entre elas dois banqueiros, foram detidas (ou presas, o que é diferente) com base numa queixa deduzida pela própria Olympus Corp. Não sei quando foi a queixa deduzida, mas foi tudo bastante rápido: o escândalo foi descoberto há quatro meses. As notícias não são claras, não se sabendo se foram detidos para ser ouvidos por um juiz, ou se foram presos preventivamente, mas a ação das autoridades japonesas não deixa de ser notável.
Recordemos o que esteve na origem deste escândalo: em Outubro de 2011, Michael C. Woodford fora nomeado presidente executivo da Olympus Corporation. No dia 14 desse mês, confrontou o conselho de administração, presidido por T. Kikukawa, com alguns negócios estranhos e potencialmente ruinosos: a Olympus, que é, antes de mais, um fabricante de material de diagnóstico médico - é a maior fabricante mundial de aparelhos de endoscopia, com cerca de 70% do mercado -, havia adquirido uma empresa de cremes faciais, outra de lacticínios e uma outra de recipientes plásticos, cuja produção nada tem que ver com a atividade industrial da Olympus. O conselho de administração despediu imediatamente Michael C. Woodford, que posteriormente fez várias denúncias às autoridades japonesas, ao FBI e ao Serious Fraud Office britânico. Uma auditoria descobriu que aquelas compras serviram para, através da manipulação dos valores reais de aquisição, ocultar contabilisticamente perdas que remontavam à década de 90. Em consequência deste escândalo, as ações da Olympus perderam 80% do seu valor e a companhia arriscou-se a ser excluída do Nikkei, não podendo transacionar ações em bolsa se tal se verificasse. Posteriormente, a Olympus Corporation foi condenada no pagamento de uma multa simbólica - não chegou a um milhão de euros - pela bolsa de Tóquio; muitos pensaram que tudo teria terminado aqui - até porque a companhia recuperou algum do valor que perdera - mas estas prisões podem significar um regresso ao estado inicial.
Na verdade, embora não se tivesse provado que houve responsabilidade da empresa pela fraude, a Bolsa de Tóquio manteve a Olympus Corporation sob observação. Estas prisões podem fazer com que a sociedade seja agora excluída do Nikkei, o que seria uma má notícia. É que, se o negócio da endoscopia tem alguma solidez, já as outras divisões - entre elas a de imagem - apresentam perdas substanciais, pelo que já circulam rumores sobre a aquisição da Olympus Imaging Corporation por outra companhia ou a sua possível extinção.
Não seria nenhuma surpresa se isto acontecesse. Com efeito, o negócio das câmaras e lentes apenas representa 15,5% do volume de negócios da Olympus Corporation, sendo deste modo marginal. Em termos contabilísticos, seria um alívio para a companhia desfazer-se de uma divisão que se tem limitado a acumular prejuízos. Os receios de extinção do negócio da fotografia voltaram, e são agora ainda mais reais. Contudo, a única coisa que se pode fazer, neste momento, é especular. Teremos de esperar para ver o que acontece. Eu, que, como ficaram a saber depois da denúncia pública de um comentador ocasional deste blogue, sou pago para fazer publicidade à Olympus neste espaço virtual, estou extremamente preocupado com a perda desta fonte de rendimento - mesmo que a companhia ainda não me tenha pago um cêntimo. Se a Olympus falir, como é que reclamo o meu crédito?
Fora de brincadeiras, seria uma pena se a Olympus estivesse destinada a um fim tão indigno. Seria a perda de uma marca que foi pioneira em muitos aspetos. O mundo da fotografia sobreviveria sem a Olympus (e eu também, embora um pouco mais pobre...), mas perder-se-ia uma das poucas marcas de material fotográfico com alguma individualidade e sentido de inovação.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Olympus E-M5 e eu

Antes de mais, cumpre informar que, de acordo com um leitor ocasional e comentador deste blogue, eu sou pago para elogiar a Olympus e dizer mal das outras marcas neste blogue. Como decerto já se apercebeu toda a gente que leu o que escrevi aqui sobre a Fuji X-Pro1, a Canon 60D, a Nikon D7000, a Leica M9 e a Pentax K-5. O problema é que o tesoureiro da Olympus ainda não me mandou nenhum cheque. Se calhar gastaram o dinheiro todo a comprar aquelas empresas de Tupperwares e cremes faciais para ocultar os prejuízos e agora não têm como me pagar. Ou então ainda ninguém os avisou da existência deste contrato.
Quando a Olympus liquidar os meus honorários, vou finalmente comprar uma câmara nova. Ou não. É que a Olympus OM-D E-M5 (que só não recebe o troféu para a designação de modelo mais estúpida do mundo porque já existe a Pentax KO 1) deixa-me a lutar contra uma certa sensação de ambivalência. Não que seja feia - se dissesse que esta câmara é feia, que adjetivo poderia usar para qualificar a Pentax KO 1? -, mas o seu design tem qualquer coisa de pastiche. É uma câmara que pretende ser a continuação da linha das OM, mas isto não será a tentativa de ressuscitar um cadáver? É que a E-M5 não é uma OM: estas eram analógicas, a OM-D é digital. Como escrevi anteontem, tudo as separa - exceto o fabricante e a semelhança das linhas. A minha ambivalência vem do facto de esta câmara não me parecer tão atraente como a minha - a despeito de considerar a OM-1, em que a E-M5 se inspira, uma das câmaras mais bonitas alguma vez produzidas.
Afora isto, a verdade é que a câmara é bonita. Muito bonita. Ver as suas primeiras imagens, porém, não me causou o mesmo impacto que ver as da Pen E-P1, que me despertaram instantaneamente o desejo de ter uma. Aliás, creio que a E-P1 continua a ser mais elegante que estas pretensas OM digitais. Simplesmente, tenho de me colocar na posição de potencial comprador, o que implica olhar mais às diferenças técnicas entre as câmaras do que à estética e ver em que pode a evolução que a OM-D inequivocamente representa ajudar-me a fazer fotografias melhores.
Antes de mais, esta câmara tem um visor. Aquela bossa acima da lente abriga as entranhas do visor eletrónico VF-2. Convenhamos que o resultado estético é mais interessante que uma E-P2 com o VF-2 montado, mas ao que se diz o visor da E-M5 é ainda melhor que o VF-2, que de resto até tinha boa reputação. E, como referi no texto de domingo, não há nada como fotografar com um visor. É pena que não seja óptico, mas qualquer visor é melhor que usar o ecrã para fotografar.
Depois há o sensor. Eu não entro na guerra de tamanhos, que me lembra obsessões de rapazes pré-adolescentes, mas a verdade é que a OM-D usa um sensor mais evoluído e com melhor desempenho que o da E-P1 em matéria de ruído. Uma câmara com melhores resultados neste particular seria muito bem-vinda.
Se comprasse esta câmara, dificilmente sentiria diferenças quanto à funcionalidade. É certo que perde o comando principal da E-P1, aquela roda à volta do seletor principal - mas ganha um seletor que faz o mesmo, apenas com a forma de um disco montado sobre o painel superior, como as velhas SLR. O cilindrozinho que faz de comando secundário na E-P1 é também substituído por um disco rotativo, mas montado na parte dianteira do painel superior da câmara. É mais retro - os comandos desta câmara evocam as OM originais e a Fuji X100 - e, paradoxalmente, mais DSLR, porque é neste lugar que as reflex têm o seu comando rotativo: junto ao botão do obturador (botão que, no caso da E-M5, é mesmo sobre o comando secundário). O resultado é esta câmara assemelhar-se às câmaras vintage, embora os comandos selecionem funções mais contemporâneas (como a compensação da exposição ou a abertura do diafragma). Com estas modificações, o funcionamento em modo manual pode ser ainda mais divertido do que na E-P1. E teria outra vantagem: dois botões Fn, com os quais poderia personalizar funções de uma maneira que a E-P1 não permite. Por exemplo, gostava de ter comutação de focagem automática para manual e a calibração do equilíbrio dos brancos sem ter de escolher entre uma ou outra, porque a E-P1 só permite fazê-lo com o botão Fn. Ter dois botões para estas funções seria extremamente prático, já que não são poucas as ocasiões em que uso lentes de comando manual e de focagem automática na mesma sessão.
Outra vantagem seria poder usar um punho e uma bateria suplementar, algo a que a E-P1 não teve direito. Além da melhoria ergonómica - poderia fotografar na vertical de uma maneira muito mais cómoda -, teria uma autonomia muito maior, dispensando a compra de uma bateria suplementar. Poderia ter sessões de fotografia muito mais tranquilas, sem o risco de ter de acabá-las mais cedo por ter ficado sem bateria. 
Quanto ao resto, não me interessam o vídeo, o número de fotogramas por segundo nem o ISO 25600 (que deve produzir imagens ótimas para quem queira tirar fotos parecidas com os quadros de Seurat). A focagem automática pode ser muito rápida, mas esta velocidade apenas interessa se conseguir acompanhar objetos em movimento rápido, o que a deteção de contraste nem sempre consegue fazer. O facto de ser resistente à chuva é interessante, mas não o considero decisivo (e de pouco me adiantaria, porque não tenho nenhuma lente que também o seja).
É evidente que ficaria mais bem servido com a E-M5, mas eu não quero nem preciso de ter duas câmaras, nem tenho vontade de desfazer-me da E-P1. Podia encomendar hoje mesmo uma E-M5 na Amazon - embora ficasse completamente teso -, mas não vou fazê-lo. Seria um desperdício. A OM-D é certamente bonita, e não tenho dúvidas que é superior à minha câmara - mas tenho, como já referi por diversas vezes, um fraco pela E-P1. Talvez quando esta der o último suspiro adquira uma OM-D - que, nessa altura, já deverá ir na versão E-M8, com evoluções relativamente à câmara que hoje foi apresentada.
Apesar de tudo, acredito que esta câmara possa ser um sucesso. E, quem sabe, pode até estabelecer o micro 4/3 como o formato de referência entre as câmaras mirrorless e, pelo caminho, restabelecer a reputação da Olympus. Estou ansioso por ver os primeiros testes de imagem. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

O escândalo Olympus

Soube-se na semana passada que Michael C. Woodford desistiu da luta pelo cargo de CEO da Olympus Corporation. Os bancos e accionistas japoneses fizeram-no abandonar a pretensão de ocupar de novo aquele cargo, apoiando o actual conselho de administração, no qual estão alguns dos administradores que aprovaram as práticas fraudulentas que fizeram o escândalo despontar. Embora o conselho esteja depurado dos principais mentores das manipulações contabilísticas, esta notícia mostra um espírito de encobrimento que ninguém esperava que se viesse a manifestar, atendendo à gravidade dos comportamentos denunciados por Woodford e às perdas que a Olympus Corp. sofreu com este escândalo. O normal seria que o conselho de administração fosse exonerado, mas o que aconteceu foi o oposto. Como notou Michael Woodford, no Japão nunca se ouviu uma palavra de crítica aos actos dos anteriores conselhos de administração, e Woodford acabou por ser tomado pelo malfeitor, o odioso whistleblower estrangeiro que arruinou o negócio de uma empresa japonesa.
Sabe-se, agora, que parte do capital da Olympus Corporation vai ser adquirido por um dos grandes grupos japoneses com interesses na área da imagiologia: FujiFilm, Sony ou Panasonic. Estes grupos têm sido reputados, nas notícias, como os salvadores da Olympus, o que não deixa de ser irónico, já que, por ex., a Fuji é uma concorrente directa - embora com um volume de negócios irrisório, quando comparado com a Olympus - no fabrico de material óptico de diagnóstico. A Sony e a Panasonic são também concorrentes na área da fotografia, embora esta não seja tão relevante e apetecível como a do equipamento de diagnóstico.
Que pensar de tudo isto? Antes de mais, é um péssimo exemplo. Se, no ocidente, estamos habituados a práticas fraudulentas nas grandes empresas, estamos também habituados a que o opróbrio caia sobre os autores das fraudes e a que estes sejam exonerados, e à acção das entidades reguladoras; no Japão, aparentemente, os autores das fraudes são protegidos pelos investidores institucionais. Isto é o que de pior pode acontecer num mercado desregulado e, se é certo que isto não poderia acontecer na Europa ou nos Estados Unidos sem que houvesse consequências, certo é que não deixa de ser um mau exemplo para o mundo. Os vigaristas sentirão que podem fazer o que entenderem sem que nada lhes aconteça. A pior faceta do capitalismo selvagem sobrevive e prospera no Japão. Esperemos que não se propague...
Quanto à possível aquisição de capital pela Sony, Fuji ou Panasonic, não me parece que ela corresponda ao imperativo patriótico de ajudar uma empresa conterrânea em dificuldades. Mais me parece uma forma de eliminar a concorrência a partir do interior. O optimismo que cheguei a sentir quanto à continuidade da marca de material fotográfico Olympus desvaneceu por completo com esta notícia. A Fuji é uma companhia a quem a divisão de equipamento de diagnóstico da Olympus interessa, pelo que poderá neutralizar a fatia de mercado da Olympus - mas pode também abandonar a sua própria produção e investir fortemente na Olympus. Só o futuro o dirá. A Sony e a Panasonic estarão, porventura, interessadas em encontrar um novo negócio no equipamento de diagnóstico, mas o que me preocupa, quanto a todas elas, é a subsistência da Olympus Imaging: não me parece que nenhuma delas queira manter no mercado uma marca concorrente - e nós sabemos o que a Sony fez quando adquiriu a Minolta. E não estou a ver a Panasonic abandonar o negócio das câmaras em favor da sua aliada no negócio do micro quatro terços...
O que mais me choca, no meio de toda esta confusão, é a impunidade com que tudo isto acontece. Em lugar de se correr com uma administração «podre até ao tutano» (como foi descrita no relatório dos auditores em Dezembro), esta é protegida pelos bancos e investidores. O tempo dirá com que propósitos. A novela ainda está longe de terminar.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Novidades da Olympus

Hoje, 14 de Dezembro, era o dia que a Tokyo Stock Exchange fixara para que a Olympus Corporation apresentasse o balanço rectificado relativo ao primeiro semestre deste ano. Os resultados demonstrados deveriam reflectir as perdas que haviam sido encobertas através das aquisições e honorários suspeitos, e a Olympus cumpriu. Se não o tivesse feito até hoje, teria sido excluída da cotação, o que teria sido catastrófico. Evitou assim, por agora, a exclusão da bolsa de Tóquio, mas isto não significa que não possa vir a ser excluída se forem detectadas irregularidades graves - mas, pelo menos para já, essa possibilidade está afastada. Resta agora saber o que vai acontecer com o actual conselho de administração, cuja exoneração é necessária para restabelecer a confiança na companhia, e se Michael C. Woodford, o CEO que foi despedido por ter denunciado o escândalo, vai voltar a exercer as funções.
As perdas resultantes do exercício do primeiro semestre de 2011 foram de USD $414.000.000 (já reflectindo as perdas encobertas ao longo dos exercícios anteriores), o que não é uma quantia modesta, mas as acções têm vindo a subir progressivamente: depois de terem perdido 80% do valor nas duas semanas após o despedimento de Michael Woodford, valem agora metade do que valiam antes de o escândalo se tornar conhecido, o que significa que recuperaram cerca de 30%.
Talvez seja por este optimismo moderado que a Olympus lançou uma nova lente para o formato Micro Quatro Terços: a M.Zuiko Digital 12-50 f3.5-6.3. É uma lente que ninguém queria, e que apenas pode fazer sentido se substituir a execrável 14-42. Por um lado, é demasiado lenta na distância focal maior: com uma abertura de 6.3 e um volume tão avantajado - esta lente não é retráctil como a 14-42 -, vai obrigar a usar velocidades de disparo lentas e um tripé sempre que se quiser fotografar a 50mm. Mesmo na distância focal mínima de 12mm, a abertura de 3.5 não é nada de especial. Esperava que esta lente fosse uma versão para Micro Quatro Terços da lente 12-60 f2.8-4.0 que a Olympus fabrica para as DSLR, pelo que fiquei um pouco decepcionado. O facto de ter zoom motorizado não me impressiona, tal como a presença de um modo macro: fazer macro a 20 cm de distância não me parece assim tão interessante. As únicas vantagens são o facto de ser relativamente barata - €400,00 -, ter uma distância focal mínima de ultra grande-angular e ser à prova de água. Esta última característica também não me impressiona por aí além: significa apenas que tem um anel de borracha na baioneta, protegendo o interior da câmara de poeiras e humidade - mas pode prenunciar o lançamento de uma nova câmara da família PEN resistente à água, o que pode ser uma boa notícia: será a «PEN Pro» de que tanto se fala? Não faz sentido lançar uma lente resistente à água para um sistema de câmaras que não o é, pelo que parece que a Olympus está a lançar pistas sobre mais qualquer coisa ao apresentar esta lente. Vamos esperar... 

domingo, 27 de novembro de 2011

A Olympus, outra vez

Michael C. Woodford (foto Getty Images)
Parece que a Olympus está salva - e refiro-me, também (e sobretudo), ao departamento de imagem. As acções começam a recuperar, os sinistros Kikukawa-san e Mori-san renunciaram aos lugares (não executivos) que ocupavam no conselho de administração e, mais interessante, os accionistas fazem exigências para que Michael C. Woodford, o presidente executivo que foi despedido por ter denunciado as práticas fraudulentas, volte a assumir o cargo. 
Segundo alguma informação fidedigna, Michael C. Woodford é filho de um fotógrafo (o que, em princípio, significa que não é insensível aos destinos do departamento de imagem) e, numa entrevista, referiu que o sector de imagem está em crescimento, em parte graças à família PEN, chegando a elogiar a linha actual de produtos Olympus - nomeadamente a E-P3 - e lançando algumas indicações quanto ao caminho que a divisão de imagem seguirá. Aparentemente, o futuro da Olympus Imaging Corporation não está em risco, o que é uma boa notícia. Detestava dar por mim com um saco cheio de equipamento tornado obsoleto pela extinção do fabricante. Aparentemente, deixou de haver motivo para preocupações. 
Agora só falta limpar o nome da Olympus. Para tanto, é imprescindível levar as investigações até ao fim e responsabilizar quem instigou ou executou as trafulhices. Eu, que sou um fervoroso anti-capitalista, fico imensamente satisfeito por ver que um caso de desonestidade nos negócios não ficou sem consequências. Pudesse acontecer o mesmo com todas as vigarices...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Ainda a Olympus

Quem visitar o website da Olympus (www.olympus-global.com) deparar-se-á, durante os próximos dias, com o seguinte comunicado:
Clique para ampliar
Não sei que dizer. Antes de mais, gostava de compreender o motivo por que a Olympus tem, mais do que qualquer outro fabricante de equipamento fotográfico, a capacidade de provocar reacções de consternação e apreensão junto dos seus consumidores, que não deixarão de ser sensíveis a este comunicado e a todos os acontecimentos que o precederam. Acontecesse este escândalo com a Canon ou a Nikon, e decerto as reacções da comunidade fotográfica seriam bem diferentes. Poderia acontecer a revolta pelo comportamento das sucessivas administrações, ou a preocupação pelo provimento de produtos no futuro, mas nunca o medo de se perder uma marca. Se isto acontecesse à Canon, o eventual comprador optaria por uma Nikon, e vice-versa. E o mesmo sucederia com a Panasonic ou a Sony: a reacção perante o desaparecimento das câmaras destas marcas seria a indiferença. Com a Olympus, porém, a angústia é de tal ordem que já se criou um site de apoio à marca!
Isto acontece porque a Olympus é única. Para além dela, só a Leica tem este tipo de estima junto dos consumidores. A Olympus é uma marca que conquista e fideliza os adquirentes dos seus produtos de uma maneira que, à excepção da companhia criada por Ernst Leitz, não tem comparação com qualquer outro fabricante de material fotográfico. Se a marca Olympus desaparecesse, a sua extinção iria provocar consternação e dilemas difíceis de resolver junto de muitos fotógrafos.
Dito isto - e quem elaborou o comunicado acima sabe bem que os consumidores de produtos para fotografia não deixarão de ser sensíveis ao pedido de apoio -, o lançamento deste comunicado é um gesto desesperado perante a situação em que a Olympus Corporation caiu. É um esforço - que pode ser tardio - para preservar a imagem da corporação, procurando tranquilizar investidores, clientes e consumidores, e uma tentativa de demonstrar transparência de métodos e honestidade. A verdade, porém, é que este esforço pode não convencer ninguém. Tsuyoshi Kikukawa e Hisashi Mori continuam no conselho de administração, embora em funções não executivas, e aqui o conselho de administração está perante um dilema: se os expulsar e mover procedimentos judiciais contra eles, a consequência será a saída da bolsa de Tóquio, cujas regras impõem o delisting das sociedades cujos administradores tenham cometido crimes relacionados com as suas funções durante o seu exercício; se os mantiver, perde a credibilidade, de nada adiantando comunicados como este (ou mais lancinantes ainda...).
É, evidentemente, louvável que a nova administração executiva queira descobrir toda a verdade quanto ao escândalo Olympus, e que revele publicamente, como se propõe, todos os factos que vierem a ser determinados em inquéritos e auditorias, mas não há qualquer espécie de contrição nesta atitude: é a única via que pode levar à sobrevivência da corporação. Só demonstrando esta vontade de descobrir a verdade é que a sociedade pode reaver a confiança, e hoje sabemos que as relações que se estabelecem no meio financeiro se baseiam no princípio da confiança. Foi a quebra desta que levou à crise que o mundo neste momento atravessa, com as consequências que todos conhecemos. O conselho executivo da Olympus não faz mais que a sua obrigação quando colabora com a descoberta da verdade.
Por outro lado, este comunicado pretende ser um dique que obste à debandada dos clientes e consumidores. E, de facto, este é um mau momento para que isso aconteça. É como pisar as mãos de quem se agarra à beira de um precipício. Há motivos de sobra para que os consumidores, clientes e investidores virem as costas à Olympus, mas, ao mesmo tempo, há razões ponderosas para que se mantenham.
Eu, por mim, não tenho pena nenhuma de milionários que se dedicaram à prática de fraudes - mas tenho receio de que se perca a única das marcas japonesas de equipamento fotográfico que consegue verdadeiramente conquistar os seus clientes. Seria lamentável que a marca Olympus desaparecesse. Se as coisas correrem mal, ao menos que seja adquirida por um fabricante independente que lhe dê continuidade. Se for parar às mãos da Panasonic, como se especula nos meios fotográficos, vai ter a mesma sorte que a National e a Technics.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

E agora, Olympus?

O escândalo Olympus começa finalmente a ser esclarecido, e as últimas revelações são particularmente chocantes: descobriu-se que o pagamento de mais de seiscentos milhões de dólares a empresas de consultoria antes da aquisição da Gyrus por 1,9 mil milhões, bem como as aquisições de três empresas japonesas por um custo cerca de 70% superior ao seu valor real, serviram para encobrir perdas que a Olympus Corporation vinha acumulando desde os anos 90. Uma auditoria interna, chefiada por um juiz desembargador aposentado, divulgou hoje estes números, o que teve como consequência imediata a demissão de antigos auditores e de um tal Hishasi Mori, que era, com Tsuyoshi Kikukawa, um dos membros do conselho de administração cuja exoneração foi sugerida por Michael C. Woodford, o CEO da Olympus Corp. que foi despedido em 14 de Outubro. Com a divulgação destas notícias, as acções da Olympus caíram para perto do limiar que uma sociedade anónima tem de atingir para ser cotada na bolsa de Tóquio, o que significa que, se esta tendência continuar, a Olympus Corp. pode ser excluída do Nikkei.
A exclusão das transacções em bolsa pode vir a ter uma consequência óbvia - a insolvência da Olympus. Esta é uma hipótese cada vez mais provável. Mas as repercussões deste escândalo são ainda imprevisíveis: o Japão, cuja economia fora já severamente prejudicada pelas catástrofes do início deste ano - e também pelas cheias na Tailândia, uma vez que muitas empresas japonesas deslocaram a produção para este país -, está a ser seriamente afectada por este escândalo, minando a confiança dos investidores por um efeito de contágio cuja extensão ainda mal se começou a sentir. 
Quem diria que um fabricante de câmaras e lentes (e logo aquele que eu preferi...) ia estar na origem de uma crise que pode ter repercussões mundiais?
Na verdade, a Olympus não é apenas um fabricante de material fotográfico. A Olympus é um gigante da imagiologia médica que domina 75% do mercado mundial, e a divisão de fotografia representa apenas 16% do volume de negócios da Olympus Corporation. E tem ainda um negócio importante de áudio, e outro de instrumentos industriais de medição. Perante isto, ver a Olympus como um mero fabricante de câmaras e lentes não passa de um disparate. Este volume relativo da Olympus Imaging Corporation significa, por outro lado, que a marca Olympus pode desaparecer. O mais natural, com esta perda de confiança dos investidores - que se estão absolutamente nas tintas para a herança espiritual de Yoshihisa Maitani, para as lentes OM e para as PEN -, é que a Olympus Corporation venha a ser liquidada e as suas divisões lucrativas adquiridas por outras corporações. E a Olympus Imaging Corporation não é exactamente o sector mais lucrativo - pelo contrário, tem acumulado prejuízos ano após ano -, pelo que a sua aquisição poderá não suscitar o interesse dos investidores. Pelo que, a confirmar-se este raciocínio, a Olympus - o fabricante de material fotográfico - pode desaparecer. Há alguns motivos para ter confiança: as exonerações de Kikukawa e Mori podem ser um sinal de renovação e de vontade de pôr fim a práticas fraudulentas, que seria reforçado se Michael C. Woodford viesse a ser novamente designado presidente executivo, restabelecendo assim a confiança dos investidores. Pode acontecer que a companhia regresse à actividade normal, e que a divisão de fotografia não esteja em risco, mas isto parece muito pouco provável. O mercado costuma ser implacável com casos de fraude, especialmente quando atingem dimensões como este. 
Devo, pois, preparar-me para o eventual desaparecimento da marca Olympus; o mais provável é que ninguém tenha interesse em deter uma marca tão fortemente associada a um escândalo com estas proporções, e que os engenheiros altamente especializados venham a ser contratados pelas rivais. E, como sempre acontece nestes casos, avolumarem-se os números do desemprego. E nem sequer menciono as consequências que a insolvência da Olympus Corporation terá para a economia japonesa, nem as suas possíveis repercussões na economia mundial. Afinal de contas, o crash de 2008 começou com a insolvência de duas pequenas imobiliárias americanas, a Freddie Mac e a Fanny Mae, que não se comparavam, em dimensão, ao gigante que é a Olympus Corporation...  

sábado, 22 de outubro de 2011

Que se passa com a Olympus? (nova actualização e uma adenda a despropósito...)


Começo a sentir-me embaraçado por ter uma Olympus. E não é só a câmara: é o adaptador, são as lentes... até as tampas das lentes transportam a marca da vergonha, lembrando-me em permanência a asneira de ter dado dinheiro a ganhar àqueles yakuzas
Mas a verdade é que as fotos que este material produz são tão boas que o Olympusgate fica facilmente esquecido diante da beleza das imagens que capto. Hoje estive nos jardins da Bonjóia, exercitando a profundidade de campo com a OM 50mm/f1.4. Os resultados obtidos com esta lente chegam a ser maravilhosos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Que se passa com a Olympus? (actualização)

A desvalorização das acções da Olympus Corp. já vai em 40%. Desde Sexta-feira, data do despedimento de Michael C. Woodford, que o valor não pára de cair. Não sei o que pode acontecer se isto continuar; o mais provável é que as acções vão parar às mãos de especuladores sem escrúpulos e que a Olympus acabe nas mãos de um grupo económico que não nutra qualquer respeito pela história da marca. O capitalismo é isto mesmo: a única coisa sagrada é o dinheiro. 
Não é apenas pela probabilidade forte de desaparecer uma das marcas de material fotográfico mais estimadas em todo o mundo que a notícia tem corrido desta maneira, a ponto de encher páginas no Financial Times e no Bloomberg. De acordo com os analistas, este escândalo está a abalar a credibilidade das corporações japonesas, que já tinham a reputação de opacas e fechadas. Mais ainda, é a própria reputação do Japão que sai prejudicada.
Eu não sei quem tem razão. Continuo a não saber, e provavelmente só daqui a muitos anos se saberá a verdade sobre o que está a acontecer. O que é seguro, no momento em que escrevo, é o seguinte (*):
a) A Olympus Corp. pagou 36% do valor do negócio a duas empresas de consultoria - uma delas com sede nas Ilhas Caimão, que desapareceu logo de seguida - antes da aquisição da Gyrus;
b) A Olympus Corp. adquiriu três pequenas empresas - uma delas fabrica recipientes do género dos Tupperware! - por 773.000.000 USD, que sofreram uma desvalorização (impairment charge) de 586.000.000 USD logo após o último pagamento. Estas empresas são inúteis para as actividades da Olympus;
c) Três dias antes de ser despedido, Michael C. Woodford escrevera uma carta ao actual presidente executivo, Tsuyoshi Kikukawa, na qual expunha estes negócios e exigia a destituição de Kikukawa e de um vice-presidente do conselho de administração de apelido Mori;
d) Kikukawa-san mentiu quanto aos honorários pagos às consultoras aquando do negócio da Gyrus, tendo admitido o pagamento de apenas cerca de metade do valor realmente pago.
Certamente mais factos vão ser descobertos, especialmente se o Serious Fraud Office descobrir movimentações ilícitas de dinheiro. Para mim tudo isto é um choque: não que imaginasse que os executivos da Olympus fossem amantes da fotografia que se dedicassem ao negócio para dar a possibilidade aos fotógrafos de adquirir excelente material, mas por mais esta prova da enorme desonestidade e corrupção que existe nos meios financeiros - sejam eles norte-americanos, portugueses ou japoneses. O mundo atingiu um grau de amoralidade tal na prossecução do lucro que já não subsiste qualquer espécie de ética ou escrúpulo na mente de certos administradores.
Outro pensamento chocante é a possibilidade de a Olympus, uma das marcas de equipamento fotográfico com maior factor de estima junto dos seus consumidores, poder estar a despoletar uma crise financeira de consequências imprevisíveis. Não é bem aquele lugar-comum do bater de asas da borboleta na China - é mais o disparo de um obturador no Japão que pode provocar uma catástrofe financeira no mundo todo. Como se o mundo precisasse de mais uma crise financeira!
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(*) Fonte: Financial Times

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Que se passa com a Olympus? (Continuação)

Naquela altura era tudo sorrisos...
O folhetim Olympus Corporation promete desenvolver-se. Agora descobriu-se que a companhia pagou qualquer coisa como quinhentos milhões de euros em honorários a consultores antes da aquisição da Gyrus ACMI, empresa britânica que agora pertence ao grupo Olympus. Esta quantia é cerca do dobro do que o actual presidente executivo, Kikukawa-san, admitiu apenas há alguns dias. Tudo leva a crer, deste modo, que Michael C. Woodford tinha razão ao advertir o conselho de administração e pedir a exoneração de Kikukawa e de outro vice-presidente, e parece agora plausível que Woodford tenha sido afastado por saber demais. O conselho de administração invoca, para consubstanciar os conflitos culturais a que aludira, o facto de Michael Woodford ter o hábito de tomar decisões sem ouvir o conselho de administração e de comunicar directamente com os empregados, ignorando a cadeia hierárquica. Ainda bem que o fazia, pois de outro modo seria impossível tomar decisões.
Por outro lado, o modo como Woodford foi tratado depois do afastamento foi humilhante: minutos depois da deliberação de despedi-lo, informaram-no que já não tinha direito a automóvel da empresa, pelo que deveria tomar um autocarro para o aeroporto, obrigaram-no a entregar o apartamento e exigiram-lhe o cartão de crédito. Aviltante. Não sabia que a mentalidade empresarial japonesa era assim. Corrijo: espero que este tipo de atitude não seja característico das empresas japonesas.
Entretanto, Michael C. Woodford entregou os elementos que tinha em seu poder ao Serious Fraud Office, no Reino Unido, para que as transacções da Olympus fossem investigadas. Este expediente é de eficácia duvidosa, uma vez que me parece improvável que o SFO tenha poderes de acção contra os membros do conselho de administração da Olympus Corporation, cuja sede é em Tóquio, mas sempre poderemos ficar a saber melhor o que se está a passar.
Diante de tudo isto, quase sinto vergonha de ter uma Olympus. Pensar que parte do que gastei com material fotográfico da marca pode ter sido usado em negócios escuros! Claro que os cérebros que conceberam a E-P1 não têm culpa nenhuma, e, na verdade, a Olympus Imaging Corporation pesa apenas 16% no volume de negócios da Olympus Corporation - mas, mesmo assim, custa-me ver este escândalo a acontecer. Até à semana passada, esperava que a Olympus não vendesse a divisão de imagem; agora parece-me que essa venda era o melhor que podia acontecer à marca Olympus.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Que se passa com a Olympus?

É muito raro ver uma empresa de fotografia ser notícia e, quando tal acontece, raramente é pelos produtos que lança. Na Sexta-feira, 14 de Outubro, Michael C. Woodford, CEO (presidente executivo) da Olympus Corporation - o primeiro não japonês a desempenhar essas funções - foi despedido. Os membros do Conselho de Administração deliberaram destituí-lo sem sequer o ouvir. Disseram-lhe para apanhar um autocarro para o aeroporto, segundo o próprio. Para o seu lugar foi designado Tsuyoshi Kikukawa, que acumulará o cargo com o de presidente do conselho de administração.
A história por trás do despedimento de Woodford é confusa e de contornos obscuros. Aparentemente, Michael C. Woodford escrevera uma carta a Kikukawa na qual denunciava algumas aquisições potencialmente ruinosas e totalmente desnecessárias, o que terá feito o conselho de administração reagir despedindo Woodford. Contudo, o conselho de administração publicou uma nota invocando um conflito de culturas entre Woodford e o conselho, sugerindo que os seus métodos eram incompatíveis com a política da empresa. A verdade é que, nos oito meses em que Michael C. Woodford exerceu o cargo, os resultados líquidos da Olympus Europa GmbH se tornaram positivos, mas alguns especularam que a referência à diferença de culturas significava que Woodford se preparava para enveredar por uma política, tipicamente ocidental, de downsizing e despedimentos colectivos, à qual os membros do conselho de administração - todos eles japoneses - se opunham. Esta tese não tem fundamento em qualquer publicação ou declaração entretanto patenteada, embora seja plausível: afinal de contas, a Olympus alienara, ainda há pouco tempo - embora antes de Michael C. Woodford ter tomado o cargo de CEO - o importante negócio de imagiologia clínica.
Michael C. Woodford
Contudo, não é esta a versão de Woodford: segundo ele, a administração enveredara por uma política de aquisições incompreensível, e o despedimento foi a retaliação por ter exposto os negócios. Como se sugerisse que havia interesses ocultos por trás das referidas aquisições.
Não sei quem diz a verdade, uma vez que ambas as versões são plausíveis. Sei que as acções da Olympus Co. desceram 24% entre Sexta-feira e hoje, e que o escândalo tem recebido mais atenções na imprensa mundial do que o lançamento das novas PEN. O que significa que anda nas bocas do mundo pelos piores motivos possíveis, e isto não costuma ser prenúncio de coisas boas. Espero que esta história seja tirada a limpo: assim como as diferentes versões de Woodford e do conselho de administração parecem plausíveis (embora antagónicas), também não me custa admitir que Michael Woodford tenha resolvido vingar-se do despedimento através do lançamento de suspeitas infundadas (o que patentearia baixeza de carácter), tal como não me parece impossível aceitar que os membros do conselho de administração tenham despedido Michael C. Woodford por ter exposto negócios escuros (o que significaria que o conselho de administração pode ser um gang de delinquentes, quem sabe uma espécie de yakuza). Simplesmente, esta última hipótese seria demonstrativa de estupidez, uma vez que seria mais que previsível que Woodford denunciasse o que sabia quando fosse despedido. 
Francamente, não sei que pensar. Sei que a Olympus tem cometido inúmeros erros ao longo da sua história, e as aquisições desastrosas seriam apenas mais um acréscimo ao rol. Espero que isto não afecte a continuidade da subsidiária Olympus Imaging Corporation, porque seria uma pena que os erros dos administradores levassem ao fim de uma marca com quase cem anos. Seria também lamentável que a Olympus terminasse envolta em tamanha sordidez.
Mais sobre o olympusgate aqui:
http://video.ft.com/v/1223228352001/Ex-Olympus-boss-alerts-UK-authorities
http://www.bloomberg.com/quote/7733:JP
http://www.agenciafinanceira.iol.pt/mercados/olympus-accoes-bolsa-toquio-asia-mercado-accionista/1289881-1727.html
http://www.nytimes.com/2011/10/15/business/global/in-rare-move-olympus-fires-its-chief.html
http://graphics8.nytimes.com/packages/pdf/business/20111018/letter-text.pdf