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sábado, 11 de agosto de 2012

Mortos, quentes e encravados

Mais um título enigmático. O que quero referir hoje é o facto de, por vezes, poderem surgir pontos luminosos na imagem - pontos brancos ou coloridos, que são vermelhos, azuis ou verdes neste último caso (os vermelhos são os mais conspícuos). Já certamente aconteceu a muitos fotógrafos, especialmente em fotografias com exposições longas - em particular de cenas nocturnas -, abrir a imagem no programa de edição e reparar que aquela está completamente coberta por pequenos pontos brancos ou coloridos.
Estes pontos são pixéis que não fizeram aquilo que lhes era pedido - captar a luz correctamente -, e devem-se exclusivamente a problemas do sensor. O fotógrafo escusa de mandar limpá-lo, porque não são grãos de poeira; tão-pouco é pó acumulado sobre o vidro da lente, e certamente não são partículas suspensas na atmosfera (como estupidamente cheguei a especular). Também não se deve culpar o programa de edição de imagem, porque este não é o responsável pelo problema. O que acontece é que o sensor é constituído por vários milhões de células electrónicas de tamanho microscópico que, por meio de descargas eléctricas, se tornam sensíveis à luz e a captam. Algumas destas células deixam, por qualquer motivo, de funcionar, ou pelo menos de o fazer correctamente. Como as células estão dispostas num arranjo dito filtro Bayer, captando as cores primárias verde, vermelho e azul (RGB) (*), alguns pixéis surgem na imagem com a cor primária que lhes cabia captar, em lugar da cor real do objecto. São os pixéis encravados, ou fixos, conforme queiramos traduzir o adjectivo stuck.
Os pixéis mortos são provocados por fotossensores que deixaram de funcionar e manifestam-se como pontos negros na imagem. Isto é algo que acontece naturalmente com o desgaste do material, mas também é certo que muitos dos fotossensores deixam de funcionar logo após o fabrico do sensor, sendo montados no corpo da câmara assim mesmo. Muitos escapam ao controlo de qualidade, já que a sua dimensão microscópica faz com que passem despercebidos.
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Depois há aqueles que, numa má tradução literal de hot, denominei pixéis «quentes». Estes são o resultado do aquecimento do sensor durante exposições longas - daí o nome - e manifestam-se como pontos brancos que invadem a imagem e são particularmente visíveis nas áreas de sombras (v. a imagem imediatamente acima, que é um crop da fotografia do topo).
Sejam quais forem os pixéis defeituosos, estes arruínam por completo o prazer de ter feito as fotografias por eles afectadas. As manchas geradas podem ser removidas na pós-produção, mas o seu número elevado leva a que esta seja uma tarefa fastidiosa. A solução para evitar o aparecimento de pontos brilhantes e de pixéis mortos é o mapeamento de pixéis. Esta tarefa implica a entrega da câmara a um técnico, o que pode significar ficar sem fotografar durante algum tempo, mas algumas marcas permitem que o mapeamento seja feito pelo utilizador através de uma função incorporada nos menus. Alguns modelos fazem este mapeamento automaticamente. No meu caso particular, o mapeamento deve ser feito uma vez por ano. Quando se mapeia o sensor, o problema dos pixéis mortos e fixos é resolvido através de algoritmos pelos quais os pixéis que circundam os defeituosos interpolam o espaço ocupado pelos pixéis defeituosos.
O problema dos pixéis quentes resolve-se accionando a redução do ruído da câmara. Apesar de esta ser uma prática que os fabricantes de software de processamento da imagem desaconselham, a sua acção pode ser a única forma de contrariar os efeitos destes pixéis que se manifestam em exposições longas. A redução do ruído produz uma imagem dupla que é sobreposta à imagem colhida pelo sensor - o que efectivamente dobra o tempo de exposição - e mascara, quer o ruído propriamente dito, quer os pixéis defeituosos. A redução do ruído na câmara interfere negativamente com a do programa de edição, uma vez que contribui para o esbatimento dos pormenores afectados pelo ruído, mas penso que esta questão pode ser contornada através de um uso judicioso da redução do ruído na pós-produção. É que esta última pode ser ineficaz no tratamento dos pixéis defeituosos, já que este problema não é, tecnicamente, similar ao ruído, pelo que o software pode não o corrigir.
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(*) Nem todos os sensores usam o filtro Bayer. Os sensores Foveon usam uma disposição diferente, com três filtros de cor sobrepostos (correspondendo a cada uma das cores primárias), em lugar de combinar os captores das cores primárias num único filtro. Contudo, a esmagadora maioria dos sensores usa o sistema Bayer - que, é importante referir, nada tem que ver com a Aspirina.  

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Superstições

Os leitores mais atentos sabem que fui um audiófilo. Durante anos procurei o melhor som possível dentro do meu orçamento e em condições acústicas adversas, tendo chegado a resultados satisfatórios (mas longe de perfeitos: ainda hoje tenho uma série de aberrações sonoras que só poderia eliminar se mudasse de ambiente acústico). O meu sistema é essencialmente o mesmo há doze anos: nunca senti necessidade - nem tive posses - para o evoluir, pelo que é uma verdadeira montra de arqueologia áudio. As únicas evoluções desde 2003 foram as aquisições de uma cabeça Ortofon 2M Blue para o meu gira-discos e um rádio Tivoli Audio Model One, ambas em 2009. Segue uma lista do meu equipamento.
  • Fontes: Gira-discos Rega Planar 3 com cabeça Ortofon 2M Blue, leitor de CD Rega Planet (o original), sintonizador/rádio Tivoli Audio Model One (ligado ao amplificador integrado com um adaptador, para ouvir rádio em stereo);
  • Amplificação: amplificador integrado Primare A20 MkII, pré-amplificador phono Musical Fidelity X-LP;
  • Colunas: ProAc Tablette 50, em cima de uns suportes baratos da Standesign;
  • Cabos: Todos Kimber Kable, excepto os de alimentação.
  • Mesas: um suporte de parede para o gira-discos e um móvel para as electrónicas, feitos por mim com painéis de contraplacado feitos de encomenda no «Freitas dos Contraplacados» em Frazão, Paços de Ferreira. 
Mais tarde descobri a fotografia, e desde então o meu sistema passa a maior parte do tempo desligado. É muito mais educativo, divertido e interessante andar à caça de boas fotografias do que sentar no vértice de um triângulo equilátero formado por mim e pelas colunas a ouvir música sem a apreciar, substituindo a fruição musical por considerações obsessivas do género: «como é que hei-de eliminar a ressonância dos graves?».
Esta alusão à alta fidelidade pode parecer algo deslocada, mas se a faço é porque encontro muitos pontos em comum entre a fotografia e a alta fidelidade enquanto hobbies. E nem sempre estas analogias acontecem pelos melhores motivos.
Uma característica que muitos audiófilos e fotógrafos amadores partilham é a crença na superioridade do digital. É uma convicção errónea na maior parte dos casos, nascida de uma confusão entre qualidade e comodidade (que são conceitos diferentes). Muitos deixam-se enganar por números: os megapixéis dos fotógrafos são os bits dos audiófilos. A qualidade - sonora e de imagem - é algo que não se exprime apenas em algarismos, tendo mais que ver com a percepção subjectiva do que com gráficos. Claro que, para conceber um bom amplificador ou uma boa lente, é necessário saber muito de ciência e tecnologia - mas essa é uma tarefa que deve ser deixada aos técnicos, não aos utilizadores. Contudo, fotógrafos e audiófilos perdem horas e horas das suas vidas debatendo os ISO e os megapixéis das suas câmaras e os bits e o upsampling dos DAC actuais. (DAC = Digital to Analogue Converter) Esta sobreposição de questões técnicas à apreciação subjectiva é comungada por audiófilos e fotógrafos amadores, e em muitos casos redunda em disparates que têm mais que ver com falta de conhecimentos técnicos do que com opiniões devidamente fundadas: são convicções adquiridas em fóruns e com a leitura de artigos de gente que sabe tão pouco como eles.
Um exemplo, na audiofilia, é a bicablagem das colunas de som: a maioria dos fabricantes inclui fichas de alimentação separadas para o tweeter e o woofer. Muitos imaginam ouvir uma melhoria na qualidade sonora quando usam fios eléctricos separados para os dois altifalantes. Eu também o fiz, até descobrir que o efeito da bicablagem é nulo. Hoje uso apenas um dos terminais de cada coluna para as ligar ao amplificador. Contudo, este é um argumento de vendas que os fabricantes usam para aumentar os seus lucros, usando argumentos pseudo-científicos que, de tão néscios, são equiparáveis a superstições.
O mesmo acontece na fotografia. Muitos deixam-se convencer que uma câmara é tanto melhor quantos mais pixéis tiver, quando a gama dinâmica é muito mais importante do que a resolução expressa em números de pixéis. E a treta do ISO, essa, mais vale não me pronunciar sobre ela. (Para quê, se já o fiz tantas vezes?)
Além disto, os audiófilos e alguns fotógrafos amadores ajudam, com as suas superstições induzidas por marketing enganador, a sustentar uma corja de charlatães que vendem fio eléctrico a €1.000,00 o metro ou tripés que custam mais do que o dobro do valor que mencionei. O negócio dos acessórios esotéricos é uma vigarice em que muitos alinham alegremente, graças a uma capacidade de auto-sugestão que os leva a julgarem ver ou ouvir melhorias na qualidade da imagem ou do som onde estas não existem, procurando justificar a aquisição de coisas que não fazem sentido nenhum, mas são caríssimas.
Outra característica comum é a atracção pelo tamanho. Para audiófilos e fotógrafos amadores néscios, o argumento do tamanho é tudo. As colunas têm de ser grandes, os amplificadores têm de ser monoblocos que requerem duas pessoas para os levantarem; e as câmaras só são boas se, além de serem grandes, tiverem um sensor enorme nas suas entranhas. Uma vez disseram-me que um sujeito tinha umas Wilson Audio WATT/Puppy 7 (v. imagem do topo) num quarto de 12m2. O sujeito devia ter todo o género de problemas acústicos que a interacção entre a energia sonora e os limites físicos da sala podem causar - mas tinha umas WATT/Puppy! Tal qual os amadores que compram uma Canon 5D para fazer fotografias dentro de casa, ao gato ou a painéis de cortiça, como já vi...
Tudo isto significa que as pessoas que descrevi não são amantes das artes da música e da fotografia: são tarados da técnica. O problema é que nem sequer percebem muito da técnica. Limitam-se a balbuciar umas coisas sem nexo como o «palco sonoro» ou a «abertura equivalente», conforme os casos, sem se aperceberem que não estão a fazer sentido.
É evidente que há gente inteligente no áudio e na fotografia. Estes riem-se a bandeiras despregadas dos mitos e superstições que enevoam as mentes de alguns audiófilos e fotógrafos amadores. Se os audiófilos disserem a um técnico de som que deram €1.000,00 por fio eléctrico para ligar as colunas ao amplificador, o mais provável é que se sintam vexados pelos escárnios do técnico (que sabe infinitamente mais que eles sobre som). Do mesmo modo, quando certos fotógrafos amadores estiverem diante de um fotógrafo profissional, devem evitar qualquer alusão à «abertura equivalente»: vão envergonhar-se a si mesmos...
Ludwig Wittgenstein escreveu: «Sobre aquilo que sabemos, devemos falar abertamente; sobre o que não sabemos, devemos manter-nos calados». É uma máxima que procuro seguir, mas há muitos que não o fazem e preferem falar do que não sabem.   

terça-feira, 10 de julho de 2012

Um formato universal?

Por vezes surgem, no meio fotográfico, lamentos por não haver um formato de sensor predominante, como havia (e há, porque a Nikon ainda faz duas câmaras analógicas reflex) o formato 35 mm na fotografia analógica. Hoje, para além dos sensores das compactas - que são uma irrelevância em matéria de qualidade da imagem - e do médio formato, o panorama é o seguinte: a Canon faz câmaras com sensores APS-C, que são ligeiramente menores que os da concorrência, APS-H - um formato específico, entre o APS-C e o full frame - e full frame; a Nikon tem o sensor CX da série 1, o APS-C fabricado pela Sony (DX) e o full frame FX; a Sony faz sensores APS-C para as suas câmaras, e ainda para a Nikon e Pentax, e a Olympus e a Panasonic insistem nos sensores 4/3 (sendo o sensor da Olympus OM-D E-M5 fabricado pela Sony); a Fujifilm e a Sigma alinham pelo APS-C, com a mesma área que os Sony, mas a última tem também o sensor Foveon, cuja área está entre o 4/3 e o APS-C. Com esta variedade, e sem que existam sinais sensíveis de uniformização, parece seguro dizer-se que o formato «universal» não vai acontecer.
Seria porventura bom que um dos formatos prevalecesse; tal permitiria que a indústria fotográfica avançasse numa só direcção, o que levaria a um desenvolvimento semelhante àquele que as câmaras de 35 mm tinham nos anos 70 e início dos 80. As especificidades técnicas de cada formato seriam eliminadas, o que levaria a uma evolução substancial e a um cenário de concorrência perfeita que não deixaria de ser benéfico para todos os fabricantes - e, sobretudo, para os consumidores.
Contudo, a verdade é que mesmo no tempo da fotografia analógica existia o 135, o 110 e outros formatos mais ou menos atípicos, como o half-frame das Olympus Pen. E, mesmo que um formato de sensor prevalecesse - e o que me parece mais plausível de o fazer seria o APS-C da Sony -, os fabricantes continuariam, como sempre o fizeram, a ter os seus próprios sistemas de montagem das lentes, continuando a oferecer lentes que não podem ser montadas em câmaras de outros fabricantes.
No momento actual, o formato mais abundante é o APS-C; A Nikon, Sony, Pentax, Fujifilm e a Sigma usam todas sensores com a mesma área. Contudo, daqui não se pode inferir que se está a caminho da «universalização» (em sentido impróprio) que existia com o filme de 35 mm, já que cada fabricante aplica as suas próprias tecnologias, e a concorrência da Canon e do 4/3 não dá sinais de se aproximar e de querer o estabelecimento de um padrão. Tudo isto se torna ainda mais complicado com o advento das mirrorless, que, pelas suas dimensões, beneficiam de sensores pequenos.
Se há um sensor que merece tornar-se prevalente, é o full frame. A Leica já provou que não é impossível fabricar câmaras de tamanho conveniente com sensores full frame, embora as objectivas para este formato tenham o inconveniente de ser muito volumosas, tornando-se mais confortável usá-las em câmaras com a ergonomia das actuais DSLR - o que preclude a sua aplicação em corpos compactos como os das mirrorless. E isto obsta à sua universalização, porque os fabricantes vão apostar cada vez mais nestas câmaras. O que é pena, porque hoje há um sensor full frame capaz de uma resolução equiparável ao médio formato - o sensor das Nikon D800 e D800E. O ideal seria uma câmara pequena com este sensor, mas sem os preços das Leica. Será que isto alguma vez vai acontecer?
Por outro lado, é verdade que as grandes evoluções na fotografia aconteceram quando se reduziu o formato - dos médio e grande formato para o 35 mm, e deste para o APS-C. Mesmo sendo certo que essas evoluções foram acompanhadas por uma redução na resolução, o certo é que os progressos que se verificaram aproximaram os formatos recentes dos padrões de qualidade de imagem dos precedentes. Não quero apostar, porque já me enganei a fazer previsões, mas talvez o futuro esteja no formato APS-C, com resoluções na ordem das três dezenas de megapixéis. Vamos ver...

domingo, 1 de julho de 2012

«Novo hardware encontrado»

Aconteceu o que era mais ou menos de esperar quando se fotografa RAW: o disco rígido do meu computador ficou cheio. Não ficou sem espaço, mas a barra que surge na visualização das propriedades ficou vermelha, avisando que estava quase a atingir o limite da sua capacidade.
Este é um dos grandes inconvenientes de fotografar RAW. Apesar de o meu computador ser uma máquina ainda bastante actual - pelo menos tão actual quanto um computador com três anos pode ser (e era uma bomba quando o comprei!) -, não há capacidade de armazenamento que resista quando se acumulam ficheiros com 16MB ou mais. Pior ainda quando os ficheiros são convertidos em imagens JPEG cujo tamanho médio anda pelos 5-6MB.
Isto deixou-me a pensar. Afinal de contas, tinha 37,2 gigabytes ocupados com fotografias - só as feitas com a Olympus, as da Canon ocupavam cerca de 4 gigas. É muito gigabyte: mais concretamente, era um terço da capacidade do disco rígido do computador, que tem uma capacidade de 116 GB. Levou-me a pensar na necessidade de tantas fotografias: não seria um enorme exagero? Praticamente deixei de fotografar em JPEG, porque o número de ferramentas de edição de imagem do DxO Pro 7 (e com o Lightroom seria a mesma coisa) é substancialmente maior quando se tratam ficheiros RAW, o que permite correcções mais eficientes. Porquê? E para quê? O meu lado prático, que nem sempre consigo calar, está sempre a lembrar-me que não sou nenhum profissional da fotografia, pelo que tudo isto é completamente desproporcionado, mas no fim a resposta àqueles porquês é sempre porque sim. Porque gosto tanto de fotografar e de fotografia que os meios que emprego - desde que razoáveis, sensatos e justificados - acabam sempre por valer a pena.  
Cheguei a um ponto em que só me restavam duas opções: ou deitava fora fotografias ou comprava um disco externo. Seleccionar imagens para eliminar seria um trabalho incrivelmente fastidioso: com 6659 fotografias feitas com a E-P1 e as cerca de 1700 com a Canon (das quais não me consigo desfazer, não sei porquê), demoraria tanto tempo a seleccionar fotografias para eliminar que ficaria cansado só de pensar nessa possibilidade. Optei pela solução mais simples - e também mais dispendiosa - e comprei um disco externo, um Western Digital My Book Essential de 2 Terabytes. A sua aquisição, que foi precedida de pesquisas exaustivas (como quase todas as minhs compras), levou-me a renunciar aos meus princípios e adquirir um bem de consumo num estabelecimento cuja publicidade, que passa antes das notícias da TSF, parece ter sido concebida por estagiários recrutados numa CERCI - mas a verdade é que comprei o disco com um desconto de trinta euros. O que não é mau, especialmente se pensar que me custou tanto como um disco de 1 Tera a preço normal.
O disco é interessante porque não é muito grande, e também não é feio: é revestido de acrílico preto, o que o torna discreto e elegante. Mas o mais importante é saber como funciona. Numa palavra: bem. Embora não saiba muito bem como avaliar algo que serve para armazenar ficheiros, posso dizer que, depois de ter armazenado todas as minhas fotografias, já processei algumas a partir do disco externo, só para experimentar. Não notei qualquer diferença no processamento, o que significa que o novo hardware não veio prejudicar o computador, nem o desempenho do programa de processamento de imagem. Trabalhar as imagens armazenadas no disco externo é igual ao que fazia quando as fotografias estavam no disco rígido do computador, o que era o mínimo que podia esperar. O que melhorou, e muito, foi o funcionamento do computador: ficou consideravelmente mais rápido depois de se ver livre de um terço da sua capacidade de armazenamento. O que, como não o uso só para fotografia, é um benefício absolutamente inestimável. Quanto à fotografia, os ficheiros de imagem não chegam a ocupar 1% do disco externo - o que significa que nunca mais vou ter de me preocupar com a capacidade de armazenamento. E, se o computador tiver algum problema, as minhas fotografias ficam devidamente salvaguardadas. O que é ainda melhor.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Passado e futuro da fotografia

L'Atelier de l'Artiste, daguerreótipo de Louis Daguerre (1837)
Se eu afirmasse aqui que uma fotografia - ou, mais exactamente, um daguerreótipo -, feita há cento e setenta anos, tinha mais resolução que qualquer fotografia digital dos nossos dias, sem fundamentar essa afirmação, muitos provavelmente pensariam que eu tinha ensandecido de vez e que estava a publicar textos a partir de uma cela de paredes acolchoadas no Rilhafoles. Daí que faça uma remissão para este artigo interessantíssimo que encontrei no Pixiq, para fundamentar o que acabei de escrever. Talvez assim acreditem em mim.
Antes de mais, convém esclarecer que um daguerreótipo é uma forma de criar uma imagem pela captação de luz inventada por Louis Daguerre no segundo quartel do Século XIX. A luz reflectida pelos objectos era fixada em placas de cobre revestidas por uma solução de prata. A imagem era tornada visível através do uso de vapor de mercúrio, o que causava problemas de saúde nos fotógrafos (ou, mais propriamente, daguerreotipistas). O daguerreótipo é, deste modo, o pai da fotografia.
De regresso ao artigo publicado no Pixiq, é interessante ver que um daguerreótipo contém muito mais informação que uma imagem digital. Devo dizer, usando um raciocínio analógico (em mais que um sentido), que o conceito de as antigas tecnologias serem superiores às digitais que lhes sucederam não me é novo: há doze anos que substituí o leitor de CD por um gira-discos como fonte principal nas minhas audições musicais. Daí que não tenha sido um choque aprender esta realidade. Aliás, isto é a repercussão de algo que é evidente se pensarmos um pouco: a diminuição da qualidade em favor da produção em massa. Temos bens mais baratos, com compromisso da qualidade.
Significará isto que devemos trocar as nossas câmaras digitais por camerae obscurae, como as usadas para fazer daguerreótipos? Decerto que não. O que devemos fazer é esperar pelos novos desenvolvimentos da fotografia digital. Uma resolução como a do daguerreótipo referido no artigo da Pixiq não estará nunca ao alcance de câmaras digitais servidas por sensores convencionais, uma vez que estes, por maiores que sejam, têm uma limitação no número de pixéis, que dificilmente poderá ir para além da centena de MPs. Qualquer imagem, mesmo feita com uma Mamiya com um back digital da Leaf, tem serrilhado quando ampliada para além de 400%. Há que pensar de outra maneira, lateralmente, e foi isto mesmo que fizeram na DARPA, a agência de pesquisa do Departamento de Defesa norte-americano.
Com efeito, esta agência desenvolveu e mostrou uma câmara, a AWARE-2, que atinge os gigapixéis. Decerto que esta tecnologia ainda requer muito desenvolvimento para que possa produzir imagens de qualidade - esta está limitada, no protótipo mostrado, pelo uso de uma lente de plástico -, e terá de ser desenvolvida para reduzir as câmaras a a proporções práticas: o protótipo parece uma fonte de alimentação arrefecida a ar, como as dos computadores desktop, que tivesse sido monstruosamente ampliada, mas este pode ser o caminho para a obtenção de níveis de resolução superiores.
O que nos mostra que a fotografia digital ainda está na sua infância. Um dia - provavelmente muito em breve - os sensores CCD e CMOS serão coisas do passado, substituídas por uma abordagem mais orgânica, que imite a natureza. Afinal de contas, os melhores instrumentos ópticos existentes são os olhos. Quando a tecnologia conseguir este grau de perfeição, teremos as resoluções com que muitos fotógrafos sonham.
Claro que nada disto pode esconder uma realidade triste: esta câmara que a DARPA desenvolveu serve, sobretudo, para aperfeiçoar a intromissão na vida privada de cada um. Esta tecnologia terá a sua aplicação em funções de vigilância, de maneira a poder devassar-nos com mais eficiência. Mas, se saírem daqui benefícios para a fotografia, penso que os fabricantes de equipamento devem estar atentos.    

quarta-feira, 13 de junho de 2012

E se...?

E se eu estivesse completamente errado quanto ao futuro das câmaras digitais quando vaticinei que as médio formato iam tornar-se mais pequenas e versáteis, atacando o segmento superior das DSLR? E se este ano tiver sido um ano charneira para as câmaras digitais, por ter sido lançada a câmara que pode moldar o futuro? 
E se esta câmara for uma das melhores de sempre?
A câmara a que me refiro é a Nikon D800E. É a irmã gémea da D800, e nenhuma delas é o topo da gama Nikon; acima delas está a profissional D4 (embora quase possa apostar que muitos profissionais vão preferir a D800E a esta última). As Nikon 800 têm corpos idênticos, os mesmos processadores e partilham o sensor fabricado pela Sony. Este é um sensor full frame (36 X 24 mm) que tem a maior contagem de megapixéis dentro deste formato: nada mais nada menos que 36,3 MP. A diferença entre a D800 e a D800E está na diferente disposição do filtro anti-moiré - ou anti-aliasing - nesta última (v. imagem abaixo). Este filtro serve para evitar a aberração óptica conhecida por moiré (serrilhado), que se verifica quando uma imagem digital é vista em tamanhos diminutos, mas produz os seus resultados introduzindo uma ligeira perda de nitidez nas bordas do objecto de modo a suavizar o aspecto daquelas - o que se repercute, evidentemente, na resolução. O «cancelamento» (termo da Nikon, não meu) do efeito deste filtro aumenta a resolução, com a contrapartida de tornar as imagens mais vulneráveis ao aparecimento do moiré (v. aqui) e de cores falsas.
Este número astronómico de pixéis teve uma consequência curiosa - tornou obsoletos alguns programas de edição de imagem, incapazes de lidar com uma resolução tão alta. Alguns tiveram de ser evoluídos especialmente para ir ao encontro da resolução da Nikon 800E. Mais importante, porém, é que estes 36 MP colocam a câmara no território das câmaras de médio formato. Estas câmaras estão por regra dentro de estúdios, dado o seu volume mastodôntico (as excepções são a Pentax 645D e a Leica S2, que, além de maiores, são mais caras que a Nikon D800E). Isto significa que podemos ter aqui uma câmara quase com o mesmo nível de resolução que as médio formato (que têm uma resolução à volta dos 40 MP), mas com uma versatilidade acrescida.
O único problema que um sensor com este nível de resolução poderia apresentar (para além da possibilidade de encher o disco rígido de um computador normal três ou quatro vezes mais rapidamente...) seria o nível de ruído aparente nas imagens. A relação sinal-ruído é, teoricamente, mais desfavorável do que a de uma câmara como a Canon 5D MkIII - há mais pixéis para a mesma área -, e a verdade é que o desempenho desta última com valores ISO elevados é melhor, mas os problemas de ruído da Nikon começam a ISO 6400, valor a partir do qual a Canon ganha vantagem. Simplesmente, essa vantagem não é esmagadora. De resto, uma sensibilidade como esta é insusceptivel de ser usada nas situações mais comuns. ISO 6400 é um valor extremamente elevado, mesmo se atendermos à tendência de alguns amadores para fotografar à noite segurando a câmara com as mãos, usando sensibilidades ISO altíssimas como se fossem um substituto do flash. Pelo que esta não é uma verdadeira limitação. ISO 6400 é uma exorbitância!
É possível que a Nikon D800E prefigure o futuro das câmaras digitais. É até plausível que um fotógrafo profissional só veja vantagens no seu uso em relação a uma câmara profissional, que é maior, mais pesada, mais cara e tem menor resolução. Resta saber o que fará a concorrência - entendendo-se como tal a Canon - perante uma câmara que pode vir a mudar a face da história da indústria fotográfica. A sua resolução é simplesmente incrível; contudo, há ainda um pequeno pormenor que importa corrigir - o surgimento de cores falsas (especialmente em RAW), consequência inevitável da disposição especial dos filtros anti-moiré desta câmara. Se este problema for corrigido - embora um bom programa de processamento de imagem remova facilmente esta aberração: no DxO Pro 7 basta carregar numa quadrícula -, esta pode ser a câmara do futuro: uma profissional a preço de uma câmara para entusiastas, com uma resolução equiparável a uma Hasselblad. Que tal?

domingo, 3 de junho de 2012

Obsolescência programada

Todos sabemos que os bens que adquirimos hoje em dia são concebidos para durar pouco. Esta é uma consequência óbvia de uma sociedade apodada, com toda a propriedade, «de consumo», e é o resultado de um ciclo vicioso: para manter níveis de produção elevados, de maneira a manter os lucros das empresas, há que criar necessidades novas junto dos consumidores; estes, ao adquirir os bens, forçam à redução do preço, o que se repercute na qualidade. É por esta razão que, se espreitarmos o painel inferior da nossa câmara, é forte a probabilidade de vermos um selo dizendo made in China, ou made in Thailand. E é também esta a razão pela qual a câmara começou a dar alguns problemas ao fim de dois ou três anos.
Claro que nem tudo é mau nesta espiral consumista: os preços baixos permitem-nos adquirir bens que, há alguns anos atrás, nos seriam inacessíveis. Simplesmente, isto tem um preço bem mais caro do que aquele que pagámos pelo mesmo bem: este é feito para durar pouco, pelo que ao fim de algum tempo terá de ser substituído. O que, bem vistas as coisas, resulta na anulação da poupança que efectuámos. Se comprarmos um bem (um corpo Leica, por ex.) por €5.000,00, há a forte probabilidade de nos durar, digamos, vinte anos; se comprarmos um corpo de uma reflex por €1000 e o tivermos de substituir ao fim de quatro anos, teremos gasto os mesmos €5.000,00 ao longo do mesmo período. Pelo que a poupança feita com o baixo preço é meramente ilusória.
Além disto, os preços são tremendamente inflacionados. Mesmo quando são aparentemente baixos, os bens de carácter tecnológico lançados para o mercado têm preços que visam amortecer os custos de investigação e desenvolvimento, o que significa que mais tarde, quando estes custos estiverem compensados, os mesmos bens custarão uma mera fracção do preço inicial. Muitos adquirentes iniciais sentir-se-ão chocados por ver que um computador portátil que lhes custou €800,00 está à venda, um ano mais tarde, por metade do preço.
Outros problemas que esta sociedade de consumo levanta são de natureza ética - desde a repulsa pelas condições de trabalho nos países do outsourcing como a China, o Vietname ou a Tailândia, até à cupidez sem limites dos especuladores e CEOs que nos trouxe à crise que vivemos, mas isto extrapolaria em muito o âmbito deste blogue (embora eu considere que o fotógrafo deve ser um cidadão consciente e tão alerta para estas questões como o é para os enquadramentos inesperados que descobre quando está a fotografar). Ora, a indústria fotográfica não escapa a esta lógica da obsolescência programada. Esta manifesta-se, sobretudo, na duração do obturador, que é, na melhor das hipóteses, de 140 000 fotogramas (Nikon D3). O obturador da nova Olympus E-M5 dura 100 000 disparos «garantidos». 100 000 fotos é uma enormidade para um amador - eu fiz cerca de 7500 no primeiro ano com a minha E-P1 -, mas não para um profissional ou semi-profissional. Substituir o obturador é tão caro que ninguém vai querer fazê-lo em caso de avaria, preferindo comprar uma câmara nova que terá mais megapixéis, melhor gama dinâmica, menos ruído e outras inovações que tornarão a câmara anterior numa peça arqueológica - mesmo que tenha sido comprada há dois anos e fosse uma câmara de ponta quando era nova.
Estes são os engodos dos fabricantes para que continuemos a alimentar a maquinaria que mantém a sociedade de consumo em movimento. Infelizmente, não há muito que possamos fazer para contrariar este statu quo - pelo menos enquanto não construirmos uma consciência colectiva que nos leve a reagir contra os vícios desta sociedade. Adquirir uma câmara e lentes fabricadas em países onde se respeitam os direitos humanos e laborais, com padrões de qualidade e durabilidade elevados, sai caro. É a lei da oferta e da procura em funcionamento. Claro que, se não houvesse tanta gente a comprar câmaras fatelas, as boas câmaras seriam mais baratas porque haveria mais gente a comprá-las, mas a democratização da fotografia, que leva os fabricantes a produzir câmaras com especificações avançadas por preços que seriam impossíveis há dez anos atrás, não é nada de mau ou reprovável: é a realidade que se esconde por trás desta ilusão que merece a nossa objecção.  
O vídeo que pode ser visto seguindo esta hiperligação é, possívelmente, o mais equilibrado, objectivo e factual de todos os que encontrei acerca da temática da obsolescência programada. Uns são demasiado superficiais, outros são feitos para ser compreendidos por imbecis, e os restantes enveredam por «teorias da conspiração» que lhes retiram todo o crédito. Espero que a visualização não leve os entusiastas a ir a correr a lojas de segunda mão para comprarem uma Leica III ou uma Nikon F...

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Figura de urso

Fotografia por Andrew Kane
Na sequência do texto de ontem, que resultou de muita reflexão sobre o rumo que estava a dar à minha fotografia, lembrei-me de um episódio que vou relatar. Foi anunciada há poucos dias uma nova objectiva para o formato micro 4/3, um zoom de abertura constante de f2.8 que, por custar €1.000,00, se torna absolutamente redibitório. O artigo em que li sobre esta nova lente foi comentado por muita gente, incluindo alguns que vieram dar o seu contributo científico. Um destes entendia - e estava perfeitamente convicto da sua razão, pela maneira como se dirigia a quem o contrariava - que uma dada abertura da objectiva variava conforme a área do sensor da câmara em que a lente fosse montada. Assim, uma lente que montada numa câmara com sensor de 24 X 16 mm (full frame) teria uma abertura máxima de f2.8, veria este valor reduzido para f5.6 quando montada numa câmara com sensor 4/3. Isto é um disparate: é como pretender que a acuidade visual de alguém varia conforme o tamanho do cérebro. Mas há quem vá mais longe e diga que também o ISO é multiplicado nos sensores de área menor que 24 X 16. A verdade é que apenas a distância focal é multiplicada por um determinado coeficiente - 1,5, 1,58, 2, etc. Os outros factores não são alterados de acordo com a área do sensor.
Claro que o primeiro comentarista tinha explicações muito científicas e, como não deve ter mais nada que fazer na sua vida, entreteve-se a publicar mais comentários insistindo nas suas teses. Para o fim já estava a escrever que a área do sensor não afectava a profundidade de campo, o que é um disparate ainda maior do que o primeiro - mas há quem entenda que, se repetir um disparate muitas vezes com convicção, este acaba por se tornar verdade, de pouco importando toda a evidência em contrário. Pensei: «este gajo percebe mesmo de fotografia!» A curiosidade levou-me à galeria de fotografias que o indivíduo publicou naquele site. Esperava fotografias HDR, ou com profundidades de campo muito reduzidas - ou com o uso de qualquer outra técnica que aplicasse os conhecimentos teóricos exibidos. Em vez disso encontrei oito fotografias (que podiam ter sido tiradas com uma compacta) de um gato posando sobre o chão alcatifado de uma casa!
Percebem agora qual a sequência deste texto em relação ao anterior? Não há pior figura do que a de pessoas como esta, que se alardeiam vastos conhecimentos de tecnologia fotográfica e não sabem fazer fotografias. Há aqui uma inversão total de valores: para o dono do gato (que, por sinal, era bonito, mas não tanto como o meu Sousa), é mais importante saber (?) tudo sobre a tecnologia fotográfica do que fazer boas fotografias. É a isto que eu chamo fazer figura de urso: ser um ignorante com a mania de que sabe muito, e depois expor-se ao ridículo à frente de milhares de pessoas.
Não quero incorrer nisto. A fotografia - a captação de um momento único e irrepetível - vem primeiro, a técnica vem depois. E é auxiliar da primeira: existe para ajudar a fazer fotografias melhores. A fotografia não é nem pode ser um mero instrumento para aferir as especificações técnicas de uma câmara ou de uma lente.
E agora um momento nonsense. Já que se fala de ursos, não deixem de visitar este artigo (ver aqui) sobre um urso que atacou ferozmente uma Nikon D4 no parque de Yellowstone: a história é interessante, mas não tanto como alguns comentários cheios de trocadilhos que se seguiram. Estes sim, merecem ser lidos...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A minha câmara ideal

Se pudesse ter uma câmara feita à medida, só para mim, seria uma DSLR pequena e transportável, como a Olympus Pen FT d'antanho, mas digital. Digital porque não quero ter incerteza nos resultados nem despesa com revelações, e quero ter o nível de controlo que as câmaras digitais e a edição da imagem me dão. Esta câmara não seria uma mirrorless: teria um sistema engenhoso de espelho e porroprisma, como a Olympus E-330 ou a Pen FT, para conduzir a luz a um visor óptico, e teria o sensor Foveon da Sigma SD1. Porque este é o sensor mais genial, e também o de maior resolução e o mais neutro e preciso na captação de cores. O processador podia ser o mesmo da SD1, ou então o TruePic VI das Olympus E-P3 e E-M5.
E seria totalmente despida de distracções, como os modos «criativos» das compactas, a detecção de olhos, os filtros artísticos e outras palermices que de nada servem a quem quer ter o controlo da imagem. Evidentemente, não teria vídeo. Para que é que as câmaras digitais têm vídeo? Quem gosta de vídeo deve comprar uma câmara de vídeo! Em contrapartida, teria os modos de exposição avançados, o célebre PASM. Talvez dispensasse o modo P, agora que praticamente não o uso por descobrir que tenho melhores resultados, na fotografia de rua (única circunstância em que usava o modo P), usando a prioridade à abertura. Evidentemente, teria controlo da medição e do equilíbrio dos brancos e fotografaria em formato raw e em JPEG. E talvez em DNG. Teria um visor óptico TTL, mas não teria flash incorporado, e teria um valor ISO baixo. O limite seria de 800 ou 1600, porque não preciso de mais. O que precisava era que o ruído de fundo (noise floor) fosse intrinsecamente baixo. Não me interessam valores ISO da ordem das centenas de milhar; interessa-me não ter nenhum ruído a ISO 100.
Por outras palavras: seria uma câmara minimalista, completamente orientada para a fotografia e capaz de imagens da mais alta qualidade. É evidente que esta seria uma câmara cara, porque a sua procura seria reduzida - possivelmente só teria um comprador: eu... - e seria impossível realizar economias de escala. Quanto às lentes, podia ter uma baioneta Canon: deste modo teria uma verdadeira cornucópia de boas lentes ao meu dispor: Canon, evidentemente, mas também Sigma, Tokina e Tamron.
E o corpo? Este estaria algures entre a Fujifilm X-Pro 1 e a Leica M9. Mais elegante do que a primeira - e menos descaradamente «pequena Leica» - e mais compacta que a segunda. Os leitores mais atentos terão reparado que seria uma falsa rangefinder, porque, apesar de ter os princípios ópticos de uma DSLR, o visor situar-se-ia no lado superior esquerdo do painel traseiro. A minha câmara - eu não teria dinheiro para a comprar, mas decerto oferecer-me-iam uma ou duas por ter sido o seu conceptor... seria feita de metal branco, evidentemente, e revestida de couro preto. Bonita e elegante como eram as câmaras do início dos anos 70, antes das obsessões ergonómicas que redundaram nas linhas derretidas das DSLR actuais.
Sonhos...

Velocidade furiosa

Por vezes o fotógrafo iniciado pode ser acometido de grande perplexidade diante do jargão fotográfico. Já nem falo do facto de, para efeitos de equilíbrio dos brancos, o vermelho ser uma cor fria e o azul pálido uma cor quente, ou de a abertura maior ser referenciada por um número menor do que uma abertura estreita - porque estas aparentes incongruências têm uma explicação. A perplexidade manifestar-se-á quando lêem ou ouvem falar de lentes rápidas. Como é que uma lente pode ser considerada rápida? O que é isso de uma lente rápida?
Uma lente rápida é uma lente com um bom valor de abertura máxima (que, como sabemos, é representada por um número f baixo). Uma lente 1.4 é mais rápida que uma lente 2.0 e esta é mais rápida que uma lente 3.5. O facto de se referir certas lentes como rápidas, lentas ou assim-assim tem que ver com o facto de uma lente capaz de grandes aberturas permitir o uso de velocidades do obturador bastante altas. Ainda ontem me referi à relação de reciprocidade entre a abertura e a velocidade do obturador: quanto mais baixa for a primeira, mais elevada pode ser a outra. Com uma lente na abertura f1.4 é possível obter velocidades de disparo da ordem dos 1/1000 sob céu nublado. É isto que se entende por rapidez da lente.
Voigtländer Nokton 25mm: abertura máxima de f0.9!



A rapidez de uma lente é uma característica importante. Com uma lente rápida é possível usar velocidades de disparo elevadas em condições de luz abaixo das ideais sem ter de recorrer a um tripé, ao flash ou a sensibilidades ISO muito altas. Por outras palavras, é possível fotografar, nessas condições de luz, sem que as fotografias fiquem tremidas quando seguramos a câmara com as mãos. A outra vantagem das aberturas amplas é o estreitamento da profundidade de campo, que facilita a obtenção do bokeh e a focagem selectiva. A desvantagem é que, quando se usam estas lentes na abertura máxima, as imagens podem ficar algo baças, com cores planas, mas este é um problema que só se manifesta com aberturas da ordem dos f1.4 ou f1.8. Reduzir um pouco a abertura resolve o problema.
Há lentes que, pela sua natureza, são mais lentas que outras: os zooms, especialmente os de grandes distância focal, pertencem a esta categoria. Tecnicamente, é possível fabricar zooms rápidos, mas são de tal maneira caros que a sua aquisição se torna proibitiva. E são grandes e pesados, pelo que uma das grandes vantagens das lentes rápidas - dispensar o tripé - desaparece por completo. Daqui resulta que a maioria dos zoom disponíveis tenha aberturas máximas que podem ser consideradas medíocres, da ordem dos f4 ou f4.5.
Hoje há uma verdadeira mania das lentes rápidas, e o valor da abertura máxima é usado como argumento de venda por muitos fabricantes. A rapidez, contudo, é apenas uma das qualidades de uma lente. Há lentes que, não sendo tão rápidas, são contudo excelentes, não devendo ser ignoradas. Um exemplo que posso dar é o da OM 28mm/f3.5: esta lente tem uma nitidez e uma apresentação das cores de tal ordem que se torna fácil esquecer que a sua abertura máxima é apenas f3.5. Não é uma lente diminuída por ser menos rápida que outras. Tudo depende da utilização que se lhe quiser dar: esta não é a lente que uso quando quero diminuir a profundidade de campo - é uma grande-angular, embora se comporte como uma standard montada na minha câmara, e as grande-angulares são concebidas para manter todos os planos focados -, nem é a ideal para fotografar com pouca luz - mas, dentro da sua gama de utilização, é uma objectiva absolutamente excepcional. Nem sequer a posso comparar com a minha outra OM, a rapidíssima 50mm/f1.4, porque a utilização que dou a ambas é completamente diferente.
Nada disto contradiz o facto de a rapidez ser uma característica desejável numa lente. Apenas reitero que a rapidez não é a única qualidade a procurar quando se escolhe uma objectiva. Há lentes, como as SLR Magic e as Lensbaby Toy Lens, que têm aberturas enormes, mas têm tão pouca nitidez que não chegam a ser mais do que a denominação deste último modelo sugere: brinquedos. Uma OM com uma abertura máxima de f3.5 ou f4 é infinitamente melhor. A minha recomendação é que se use o critério da velocidade com um grão de sal e não se use como factor exclusivo de escolha de uma objectiva - embora, repito, seja uma característica que se deve procurar.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um artigo que vale a pena ler

Encontrei este artigo na Internet. Já me tinha referido aqui aos DxO Labs, a propósito do desempenho do sensor da minha câmara quando medido lado-a-lado com as suas sucessoras, a E-P2 e a E-P3, pelo que estes laboratórios já não me eram estranhos, mas fiquei impressionado com o rigor e a exigência dos testes da DxO Mark. O texto é extenso, mas vale a pena ler. Ainda por cima, espicaçou-me a curiosidade quanto ao programa de edição de imagem dos DxO Labs, o DxO Optics Pro 7, um programa que, apesar de apenas processar imagens raw, reconhece automaticamente a câmara, encontra os seus defeitos e corrige-os sem intervenção do utilizador (que pode, contudo, corrigir manualmente a imagem). Uma alternativa ao básico Olympus Viewer - ou mesmo ao Adobe Lightroom? Não quero manipular a imagem, tornando-a irreal - mas, se puder melhorar as minhas fotografias muito para além do que um programa básico permite, porque não mudar?

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O sensor Foveon

Não tenho por regra escrever sobre questões tecnológicas, por duas razões. A primeira é que elas só são importantes se contribuírem para uma melhoria na qualidade da imagem; a segunda é a minha falta de aptidão - os meus saberes estão no campo das humanidades, não das ciências. O que não significa que as tecnologias sejam de menosprezar.
Na terça-feira o Digital Photography Review publicou uma análise crítica de uma câmara cheia de singularidades: a Sigma SD1. Entre outras particularidades e idiossincrasias que a distinguem, esta câmara tem um sensor de uma tecnologia que me parece extremamente interessante: o sensor Foveon. As explicações sobre este captor de luz podem ser lidas com mais precisão aqui, mas pelo que entendi o Foveon, ao contrário dos sensores Bayer comuns a quase todas as câmaras (a Fujifilm tem um sensor inovador na X-Pro 1, mas baseia-se no sistema Bayer), que dispõem os pixéis numa única camada, sendo a luz filtrada e dividida para que apenas alguns pixéís «leiam» cada uma das cores primárias, o sensor da Sigma SD1 tem três camadas, dispostas com base na capacidade de penetração da luz no silicone, correspondendo cada uma às cores vermelha, verde e azul. Daí que a Foveon, companhia que inicialmente desenvolveu esta tecnologia (o sensor da SD1 difere do original por ser maior, com a área de um APS-C), denomine esta tecnologia «X3». Este sensor, por ter três camadas - uma para cada cor primária, como vimos -, tem uma resolução de 15 MP X 3 (15 MP por cada camada), o que resulta numa resolução teórica de 45 MP, mas a sua resolução potencial é de 30 MP. O que já é um número impressionante, convenhamos.
Este sensor Foveon tem ainda a singularidade de dispensar o filtro anti-moiré, ou antialiasing: os sensores Bayer, para evitar a aberração conhecida por moiré, usam um filtro que introduz uma suavização artificial da imagem de maneira a que a aberração não se note, mas esta filtragem, como parece evidente, reduz a resolução.
Como ficou mais ou menos explícito no primeiro parágrafo, se estou a escrever sobre esta câmara e este sensor não é porque esteja particularmente interessado na sua aquisição, nem em versar aspectos tecnológicos que estão para além dos meus conhecimentos, mas porque esta tecnologia me parece cheia de potencial para um purista da fotografia. A câmara, que inicialmente foi proposta com o preço absolutamente obsceno de USD $6,900 e custa agora €2.100,00 (só o corpo), é interessante, mas tem especificações que fazem rir os fanboys da Canon e da Nikon: não tem visualização directa no ecrã, não tem vídeo (o que merece o meu aplauso) e o sensor, do tamanho de um APS-C, produz um nível de ruído muito elevado a sensibilidades ISO acima dos 800. (Não excluo que muito deste ruído seja causado por uma relação sinal/ruído muito pobre, atento o número de megapixéis disposto num sensor que, apesar das três camadas, é essencialmente um APS-C nas suas dimensões.)
Simplesmente, quando se abstrai destas desvantagens - se é que realmente o são -, o que fica é, pura e simplesmente, a melhor resolução de todas as câmaras do seu segmento. As imagens obtidas com a Sigma SD1, especialmente em raw, são de cortar a respiração. Imagens de texturas finas, que são o pesadelo de qualquer sensor Bayer por causa do moiré, surgem com uma definição absolutamente impressionante, e a quantidade e qualidade dos pormenores subtis captados é espantosa. 
E, se a resolução é fantástica, é na apresentação das cores que a Sigma brilha mais intensamente: as imagens comparativas mostram cores que, inicialmente, parecem severamente dessaturadas, ou mesmo mortiças; quando observamos com atenção, porém, e comparamos as imagens com as das suas rivais, vemos que estas últimas é que estão erradas. Com efeito, as cores da SD1 são neutras, e não mortiças. São cores absolutamente precisas. As outras câmaras produzem cores que, em comparação com a SD1, parecem artificiais, excessivamente saturadas e com uma ausência completa de naturalidade. As outras câmaras são concebidas para agradar numa apreciação superficial e imediata; a Sigma SD1 conta a verdade acerca das cores. Não é uma câmara para agradar às multidões, mas a um número relativamente restrito de puristas que procuram a maior qualidade e fidelidade possíveis numa câmara digital - mesmo com o sacrifício de alguns adereços que a procura impôs ao mercado fotográfico, como o vídeo.
Se estou a escrever este artigo é por estar inteiramente convicto que esta tecnologia é uma enorme evolução na qualidade da imagem. Esta câmara não é para os tarados do ISO que se babam sobre o teclado quando lêem que uma câmara é capaz de sensibilidades da ordem das centenas de milhares, mas é excelente para quem procura a maior qualidade da imagem possível. A neutralidade das cores facilita o trabalho de edição das imagens, porque é mais fácil saturá-las que o inverso; contudo, ver as imagens produzidas por esta câmara (aqui) demonstra que a precisão das cores produz resultados imensamente satisfatórios, mesmo sem qualquer trabalho de pós-produção. E a resolução, com a total ausência de aberrações, tem o potencial de criar imagens de um realismo que não está ao alcance da tecnologia Bayer. O futuro da fotografia digital pode muito bem passar por aqui.

quinta-feira, 29 de março de 2012

O cúmulo da preguiça

É com a câmara que isto se faz, não com o Photoshop!
Hoje entretive-me a ler um artigo no DPReview acerca do Photoshop CS6 Blur Gallery, um software do Photoshop CS6 que permite produzir um fundo esbatido a partir de uma imagem completamente nítida. Depois de o ler, fiquei com uma dúvida - a quem é que isto serve? Não compreendo como pode alguém que se arroga a qualidade de «fotógrafo» saber da existência deste software sem esboçar um esgar desdenhoso. Como é que alguém pode ser tão preguiçoso, ou tão inepto, ao ponto de não saber nem querer aprender como se reduz a profundidade de campo para produzir fundos esbatidos? É tão simples que me parece inconcebível haver quem precise daquele utensílio informático. Não vou ao ponto de dizer que só um idiota o usará (não quero ter mais comentários de gente ressabiada, ainda hoje recebi mais um), mas o potencial utilizador daquilo só pode ser alguém que prefere a complicação à simplicidade, o irreal ao natural e o artificial ao autêntico. Não será um idiota, mas é certamente alguém com concepções muito estranhas acerca de fotografia.
Já o disse aqui por várias vezes: obter aquilo a que se chama o bokeh é desconcertantemente simples. Claro que exige alguns requisitos técnicos, mas se eu consigo, qualquer um consegue. Basta ter uma lente com uma distância focal razoável - digamos a partir dos 70mm, mas quanto maior, melhor -, com uma boa abertura, na ordem dos f2.0 ou superior (a f1.4 as coisas começam a tornar-se seriamente interessantes). Claro que uma lente destas pode ser cara, mas não necessariamente: a Canon e a Nikon têm lentes 50mm/f1.8 extremamente baratas e de grande qualidade. 
Preenchidos que estejam estes requisitos, é só escolher a abertura máxima, aproximar a lente do objecto que se quer manter em foco e disparar. A focagem automática faz o resto. Não vejo o que tem isto de complicado. aliás, nem é condição necessária ter focagem automática: as lentes manuais são tão ou mais capazes de produzir este efeito quanto as lentes contemporâneas de focagem automática. No meu caso, tenho uma lente que é especialmente apta para este tipo de fotografia: a minha venerada Olympus OM G.Zuiko Auto-S 50mm/f1.4, obviamente de focagem manual. Fotografar com esta lente é um prazer. Ver, no ecrã da câmara, a maneira como o fundo se vai esbatendo, reduzindo-se a manchas coloridas, enquanto o objecto vai ganhando nitidez à medida que rodo o anel de focagem, é uma experiência única, de uma beleza incomparável. Nada substitui esta experiência: consigo envolver-me por completo no acto de fotografar. É muito diferente estar no terreno e regular a câmara ou estar de frente ao monitor a usar pincéis virtuais ou manipular camadas. E muito mais divertido.
Esta é a imagem que ilustra o artigo da DPReview. Completamente irrealista.
Além de ser uma experiência estéril, o Blur Gallery produz resultados esteticamente desagradáveis. Pode ser interessante para quem cultive noções superficiais de beleza, mas a verdade é que a imagem manipulada torna-se irreal, inautêntica e artificial, sendo a manipulação demasiado notória. Enfim - uma experiência estéril que tem o potencial de privar o utilizador de aprender a técnica fotográfica (que, como vimos, até não é assim tão difícil). Daí que o meu conselho seja que o eventual interessado neste software poupe o seu dinheiro e amealhe mais um pouco para adquirir uma lente com boa abertura. A menos, claro, que seja demasiado preguiçoso para aprender uma técnica tão simples como esta.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dois esclarecimentos

O meu texto sobre o Carlos Machado, publicado anteontem, e o de hoje sobre os testes DxOMark, carecem de alguns desenvolvimentos que, por as postagens terem sido escritas ao correr da pena, ficaram de fora. Aqui vão.
Quanto ao primeiro texto, o Carlos Machado agradeceu-mo (via Facebook), tendo embora ressalvado que lhe parecia algo exagerado. Aceito que o texto poderá, numa leitura apressada, parecer algo excessivo nos elogios, mas a verdade é que vivemos num país onde, infelizmente, é mais fácil insultar e criticar do que elogiar. Aqui em Portugal, o elogio é visto como algo estranho e tende a ser interpretado como alguma forma de lisonja, ou talvez mesmo de bajulação. Ora, eu não sigo esta tendência: entendo que o mérito deve ser reconhecido e aplaudido. Contudo, se tiver de criticar (desde que me pareça haver justificação para o fazer), também critico. E, por vezes, de forma corrosiva, como quem leu o meu texto sobre a Pentax KO 1 sabe. Ora, parece-me evidente que o Carlos Machado não está no mesmo patamar que um Koudelka ou um João Silva (nem o contrário pode ser inferido do meu texto), mas a verdade é que ele publicou uma fotografia na sua página do Facebook, feita durante um funeral de pescadores na Póvoa de Varzim, que é - sem lisonja ou exagero - das melhores fotografias que alguma vez vi. E eu já vi fotografias dos melhores entre os melhores. Foi esta fotografia, e a impressão que ela me causou, que me levou a escrever aquele texto. Como referi, o mérito merece ser estimulado e apoiado - mesmo correndo o risco de parecer excessivamente lisonjeiro -, especialmente num país onde as opiniões destrutivas são, por sistema, mais amplificadas que as positivas. Algo de muito errado se passa quando estamos mais bem preparados para enfrentar uma crítica ou responder a um insulto do que para aceitar um elogio.
Quanto ao comparativo da DxOMark, faltou referir que os testes de câmaras publicados neste website incidem sobre o desempenho do sensor. De fora ficam outros critérios que interessam à qualidade da imagem, como o processamento feito pelo software da câmara, o controlo da exposição ou a velocidade da focagem automática. Parece-me importante fazer este reparo, porque entendo que o sensor, embora importante, não é o único factor que contribui para a qualidade de uma câmara, mas aquele facto que não altera as conclusões que formulei com base na comparação entre a minha câmara e os modelos que lhe sucederam. Mesmo quanto à focagem automática, porquanto a actualização do firmware que levou a E-P1 para a versão 1.4 melhorou substancialmente o desempenho da câmara neste particular. Pelo que continuo a acreditar que a E-P1 é hoje uma câmara tão boa quanto o era em Abril de 2010, altura em que recebeu o firmware 1.4, e que a E-P3 não representa nenhum avanço, sendo a sua aquisição um desperdício de dinheiro dificilmente justificável. (Já o mesmo não poderei dizer quanto à OM-D E-M5, que parece estar num outro patamar.) O sentido daquele texto foi, essencialmente, o de alertar para o erro que é menosprezar um produto apenas porque este não é o mais recente, e reforçar a minha convicção de que nem sempre aquilo que nos é apresentado como uma evolução significa uma melhoria na qualidade.

O que é isso da «obsolescência»?

Toda a gente que se interessa por equipamento sabe o que são os (ou já ouviu falar dos) DxO Labs. E, em particular, conhece os testes DxOMark. Estes testes são a referência absoluta, em virtude da sua metodologia, para muitos especialistas em fotografia. Embora não seja um frequentador assíduo do website da DxO, hoje deu-me para visitá-lo, atraído pela curiosidade de saber como se comporta uma determinada lente, neste caso a nova Olympus 12-50mm f3.5/6.3. Já calculava, depois de uma péssima experiência com a detestável zoom 14-42mm, que a classificação fosse menos que boa, mas ainda é pior do que esperava: à beira do péssimo. Eu cá gosto é de primes, por isso esta classificação não teve qualquer influência em mim porque nunca me passou pela cabeça comprar essa lente.
A curiosidade levou-me a ver testes de outras lentes - estou a considerar, se a vida me correr muito bem, comprar a Panasonic-Leica 25mm/f1.4 -, e a ir daí para as câmaras: fui dar comigo a uma análise à Olympus E-P3, e descobri uma página onde se podem comparar até três câmaras. Deu-me a curiosidade para comparar a E-P3 com a predecessora E-P2 - para descobrir que a E-P3 não é superior aos modelos que a precederam. Escolhi a comparação com a E-P2 por imaginar que a E-P1, já não sendo produzida, não figuraria nas listas da DxOMark, mas enganei-me. Ainda está lá. Comparei as três EPs lado a lado e - surpresa das surpresas! - a E-P1, que tem virtualmente o mesmo desempenho que a E-P2 (como seria de esperar), supera a E-P3!
Se pensam que estou a mentir, podem ver o comparativo aqui. A E-P1 supera a E-P3 em cor e gama dinâmica, e o seu desempenho com sensibilidades ISO elevadas é melhor do que o da E-P2 (e igual ao da E-P3).
Qual é, então, a vantagem de comprar uma câmara como a E-P3 (ou mesmo a E-P2) em lugar da E-P1? A possibilidade de montar um visor electrónico. Nada mais. A E-P3 tem um flash integrado, mas é tão fraquinho que não tem grande utilidade: quem quiser fazer um uso sério do flash tem sempre de comprar um flash externo. Contudo, a E-P3 foi publicitada (e difundida pelos websites e blogues da especialidade) como um salto enorme em qualidade. Este comparativo demonstra que, no que verdadeiramente conta - a qualidade da imagem -, a E-P1 (que já foi «descontinuada» há dois anos) ainda é uma belíssima câmara.
O que significa que, visor electrónico à parte, a E-P1 é uma excelente câmara. O resto é marketing enganoso. Quando a E-P1 foi lançada, toda a gente clamou que não prestava porque - ó sacrilégio!, ó infâmia! - não tinha flash nem visor. E a Olympus, prontamente, substituiu-a pela E-P2, que permite a montagem de um visor electrónico - mas continou a faltar o flash, pelo que a E-P2 cedeu tranquilamente o seu lugar à E-P3. E os consumidores, atordoados pelo pecado de uma câmara sem flash integrado, correram a substituir as suas E-P1 e E-P2 pelo novo modelo - sem que a tal despesa (a E-P3 é estupidamente cara) corresponda qualquer melhoria sensível na qualidade da imagem. E esta é - ou devia ser - o critério n.º 1 na escolha de uma câmara. Em consequência, a E-P1 é hoje considerada obsoleta. Estou convencido que se passou o mesmo com as OM, e a verdade é que hoje as OM-1 são as mais caras e mais procuradas das OM no mercado das câmaras usadas. Este não é um fenómeno novo, a diferença está no volume de vendas. O conceito de obsolescência é, como se vê, muito relativo: neste caso é uma invenção do marketing que nos induz a consumir cada vez mais e mais cegamente.
É preciso ser muito criterioso na escolha de uma câmara - ou de outro produto qualquer. A novidade não pode ser um critério que se baste a si mesmo e justifique a aquisição de um produto. Por vezes, aquilo que nos é anunciado como the next big thing não apresenta mais que evoluções marginais em relação ao modelo precedente (como quem tem material da Apple sabe muito bem). Por vezes pode acontecer que não exista evolução nenhuma e seja tudo uma questão de adereços. Pode, até, acontecer que o novo produto seja, na verdade, pior que aquele que o antecedeu. O consumidor prudente deve ponderar muito bem a sua aquisição e resistir à tentação de se deixar influenciar pelo marketing. A E-P3 não é melhor do que a E-P1: o que tem é mais extras que, contudo, em nada contribuem para a qualidade da imagem. O mesmo se diga, por exemplo, quanto às Canon e as 550 e 600D, cujas diferenças estão na disposição de alguns botões. Ou as Nikon D3 e D4, que têm o mesmo desempenho apesar dos mais pixéis desta última.  Consumidores, abram os olhos!

I shout at times that nothing stays
Nothing lasts and damned to change
Though then I read a book, a line
Which says we sleep in blind sublime...

(Peter Murphy, Blind Sublime

sexta-feira, 2 de março de 2012

Novidades da indústria fotográfica: o que os consumidores querem

Foto: Digital Photography Review (www.dpreview.com)
A Canon e a Nikon já não sabem que mais hão-de inventar para reanimar a sua gama de DSLRs: enquanto uma - Canon - consegue ser mais conservadora que qualquer dos candidatos a candidatos à presidência dos EUA do Partido Republicano, a outra decidiu entrar na guerra dos megapixéis.
A Canon lançou hoje, 2 de Março, a Canon EOS 5D Mark III. O seu sensor full frame tem 22 megapixéis, o que é substancialmente mais que os 18 MP da profissional 1D X. Há três semanas, a Nikon lançou a 800D, com a contagem a subir para 36 MP. Curiosamente, a Canon está a ser criticada, nos fóruns e comentários a artigos nos websites de fotografia, por ter aumentado apenas um ao número de megapixéis do sensor da 5D Mark II, enquanto muitos foristas e comentaristas criticam a Nikon por ter tantos megapixéis!
Em que ficamos? O número de megapixéis é importante, mas não se for excessivo. Pôr demasiados MP num sensor significa pixéis mais pequenos, o que diminui o desempenho com sensibilidades ISO elevadas e prejudica a resolução. Não é apenas o número de pixéis que conta na resolução do sensor: é, sobretudo a relação sinal-ruído, que se deteriora quando o número de pixéis aumenta sem que lhe corresponda um aumento da área do fotosensor. Recorrendo a um exemplo simplista: se metermos 50 bolas de ténis numa caixa de 1m quadrado, elas podem caber mais ou menos confortavelmente; se tentarmos meter 100, as bolas só caberão se forem comprimidas. Daí que os objectores do novo sensor da Nikon tenham razão por recear que o desempenho do novo sensor seja menos que óptimo, e que a Canon, embora querendo dar aos consumidores o que eles querem - mais megapixéis -, tenha sido tão cautelosa.
Já o ISO é outra guerra insensata, mas desta vez o duo conhecido pejorativamente por Canikon usa a mesma artilharia: a Canon 5D Mark III vai até aos 102 400. Eu escrevo por extenso, para o caso de pensarem que pus algum algarismo a mais: cento e dois mil e quatrocentos. Claro que, com uma sensibilidade destas, a imagem evoca furiosamente os pontilhados de Georges-Pierre Seurat, mas isto parece não importar muito para alguns potenciais consumidores.
Deixem-me dizer, antes de prosseguir, que qualquer destas câmaras trucida por completo a minha E-P1, reduzindo-a à condição de brinquedo. Comparar qualquer delas à minha seria tão absurdo como comparar um Mini a um BMW M5. Não é por despeito que escrevo assim, nem por inveja - defeito que, sinceramente, nunca tive. Também não sou pago para dizer mal de umas marcas e bem de outras, como já foi comentado aqui por alguém que devia estar num estado mental alterado. Dito isto, os novos lançamentos demonstram dois dos piores vícios da indústria fotográfica, ambos determinados pela ambição de satisfazer consumidores a quem previamente foi feita uma lavagem cerebral por um marketing muitas vezes enganador. As guerras dos megapixéis e do ISO não têm outro fim que não seja conquistar mercado. Ambas as marcas sabem, porque os seus técnicos são incrivelmente competentes, que os números apresentados são completamente fantasistas e inúteis em termos de resolução e qualidade de imagem, mas os consumidores estão predispostos a aceitar que 36 MP ou ISO 102 400 são proezas tecnológicas que vão transformar por completo a experiência de fotografar com estas câmaras. Se estes consumidores compararem os dois modelos com os precedentes (Nikon 700D e Canon 5D Mark II), vão provavelmente reparar que: a) a diferença de resolução da nova Nikon em relação à anterior é marginal, e que b) As fotografias feitas com a Canon usando valores superiores a 12 800 - o que já é um valor muitíssimo bom, diga-se - têm níveis de ruído intoleráveis. Estamos, portanto, diante de marketing enganoso, mas se há pessoas que se deixam influenciar por ele e substituem os corpos dos modelos precedentes por estes novos, que havemos de fazer?
A Canon, de resto, é também severamente fustigada pelos comentadores e foristas por - imaginem! - não ter um ecrã articulado, e por ter um microfone mono. Eu já não sei o que as pessoas querem de uma câmara, mas vou fazer um exercício de imaginação: a câmara ideal seria uma DSLR com sensor médio formato e resolução, digamos (numa estimativa por baixo) de 50 megapixéis; teria uma capacidade de disparo contínuo de 60 fotogramas por segundo, sensibilidade ISO máxima de 204 800, GPS, vídeo na mais alta especificação possível e em 3D, ecrã rotativo OLED touchscreen com 2 milhões ppi, gravação de som surround 7.1 e, eventualmente, uma saída para tostas mistas e torradas. E custaria €500,00 na FNAC, já equipada com uma lente 18-55mm/f3.5-5.6 (ninguém notaria a diferença...) 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Telefones vs. câmaras

O lançamento do Nokia 808 aproximou um pouco mais a comunidade fotográfica da loucura e voragem consumistas. Este telemóvel, ou smart phone, tem uma resolução (anunciada) de 41 megapixéis num sensor quase do tamanho das Nikon J1 e V1, mas, sendo o que é, tem apenas uma lente de distância focal fixa de 24mm/f2.4, fabricada pela venerável Carl Zeiss. Como esta lente é, por opção da Nokia (que demorou cinco anos a descobrir que não se pode montar um zoom num telefone sem comprometer a qualidade da imagem), de distância focal fixa, o zoom é digital: o software do telemóvel faz o chamado cropping digital para ampliar a imagem. A resolução, conforme alega a Nokia, permite recortar porções da imagem à escolha do proprietário, e o elevado número de pixéis encarregar-se-á de garantir a máxima resolução possível para estes croppings. Ao que parece, o grande problema é o sistema operativo Symbian Belle, que parece não ser muito eficaz. 
Estou certo que, com um sensor deste tamanho, o telefone pode ter uma qualidade superior à da concorrência. E as imagens são até bastante razoáveis, desde que não se abuse da ampliação. Até aqui tudo bem. Se as pessoas se contentam com um telemóvel para fotografar, este é para elas. Já disse aqui que não tenho objeções a que as pessoas fotografem com compactas ou telemóveis. O disparate começa com os clamores de «qualidade profissional» com que o marketing quer impor este produto. A qualidade da imagem, embora interessante para um telefone móvel, não é nada daquilo que anunciam. Descobri até uma imagem - um cropping - na qual os defeitos de fotografar com um telefone ficam bem patentes:
Como vêem, o nível de ruído é considerável, mas pior ainda é o facto de a imagem estar desfocada, com uma nitidez bastante pobre. Se isto é qualidade profissional, ou nunca viram uma fotografia de um profissional a sério ou são simplesmente mentirosos.
Contudo, a avaliar pelo furor causado em websites de fotografia, o marketing da Nokia atingiu em cheio os corações dos que entendem que o tamanho do sensor e o número de megapixéis definem a qualidade de uma câmara. Já se falava na morte das câmaras compactas às mãos dos telefones móveis, mas agora encomendaram-lhes o funeral.
Entendamo-nos. As imagens apresentadas pela Nokia são boas - para um telemóvel, e se forem vistas no Facebook (já o Flickr, como vimos, expõe as insuficiências das imagens). Daí a clamar que este é o futuro da fotografia vai a distância que separa a sensatez do disparate total. O telemóvel pode ser bom a fotografar, e não me custa nada aceitar que venha dar cabo do negócio das câmaras compactas, mas nunca substituirá uma boa câmara. Tal como nas compactas, está limitado ao uso de uma só lente que, por melhor que seja, não assegura a versatilidade de uma DSLR ou de uma mirrorless. Mesmo quando recorre ao zoom digital, como este Nokia 808, a qualidade da imagem será sempre inferior à de uma câmara decente. Há limitações que não podem ser superadas, e a dimensão física - que, no caso dos telefones, tem de albergar o hardware de imagem (foto e vídeo) e de comunicação, para além da bateria - é uma delas. Acresce que um telefone não dá uma profundidade de campo baixa, porque esta não é apenas função do sensor - ao contrário do que muitos entendem -, mas também da distância focal da lente. Por outro lado (e este é talvez o aspeto mais importante), o telefone não dá qualquer possibilidade de controlo da exposição ao utilizador: não há controlo da abertura ou do tempo de exposição. Nem um modo P sequer. O que significa que não se pode fazer arrastamentos, nem desfocar com sucesso o plano de fundo ou usar a focagem seletiva. Também não se pode controlar o modo de medição, nem o ISO ou o equilíbrio dos brancos, funções que mesmo algumas das compactas mais modestas já oferecem. (A minha Canon A3150 tinha modo P, compensação de exposição, medição matricial, ponderada e pontual, controlo do ISO e equilíbrio dos brancos.) Mais importante ainda é o facto de, por mais tecnologia que se embuta num telefone, este não atinge a mesma nitidez, contraste e riqueza cromática de uma câmara decente.
Se uma pessoa se satisfaz com fazer fotografias descontraidamente, sem preocupações técnicas, muito bem: trazer este telefone no bolso até pode dispensar a compacta, desde que esta não seja uma Canon Power Shot S100 ou uma Olympus XZ-1. O que não se pode é dizer que o Nokia 808 garante imagens de qualidade profissional, porque essa pretensão é risível. Estamos numa época em que muitos consumidores não se limitam a ser enganados: eles agora gostam que os enganem, e vão a correr comprar o que o marketing anuncia - completamente alheios ao facto de irem comprar um produto caríssimo (cerca de €450,00 - mais do que dei pela minha E-P1) que na melhor das hipóteses lhes vai durar dois anos (se entretanto não o substituírem por um telefone ainda mais XPTO, com mais megapixéis ou um sensor APS-C nas entranhas...)
Eu entendo que quem quiser fazer fotografias com qualidade e criatividade deve comprar uma câmara decente. Podem vir com todos os megapixéis e sensores que conseguirem enfiar num telefone móvel, mas nada substitui uma câmara e boas lentes quando se quer fotografar com criatividade. Telefones como este (ou o iPhone) não são capazes de despertar a criatividade fotográfica do utilizador. Pelo contrário, ao convencê-lo que faz boas fotografias por causa do tamanho do sensor e dos megapixéis estão a contribuir para a instalação definitiva da mediocridade. Este é mais um pequeno triunfo do consumismo desenfreado.
Ah, é verdade: embora a publicidade não o mencione, parece que este Nokia 808 também dá para fazer chamadas...

domingo, 19 de fevereiro de 2012

O futuro é mirrorless?

Um artigo publicado na quarta feira no Digital Photography Review informa que as vendas dos sistemas mirrorless têm vindo a crescer, em detrimento das DSLR. Aparentemente não sou nenhum visionário, nem estou sozinho na escolha de um sistema: as vendas das mirrorless traduzem uma adesão crescente a este tipo de câmaras e lentes. E este crescimento de vendas é consistente. Claro que este artigo recebeu inúmeros comentários depreciativos, vindos sobretudo de proprietários de DSLRs, mas estes não são suficientes para alterar a realidade de que estes novos sistemas estão a afetar as vendas das reflex.
Teoricamente, as câmaras que mais deveriam sofrer com o crescimento do segmento das mirrorless seriam as bridge, em relação às quais as mirrorless têm a vantagem de um sensor de dimensões decentes, mas aquelas câmaras são, sobretudo, compradas por pessoas que querem uma lente que faça de grande-angular e supertelefoto sem a maçada de mudar de lentes. As compactas propriamente ditas, i. e. as point and shoot, já estão a ser ignoradas pelos consumidores em favor dos iPhones e outros telemóveis, pelo que não é aqui que as mirrorless vão buscar a sua fatia de mercado: as reflex é que têm vindo a perder compradores.
Temos como adquirido que as mirrorless estão a substituir as reflex, e o mais provável é que seja o segmento de entrada destas últimas - nomeadamente a Nikon D3100 e a Canon 1100D - que mais tem perdido, porque é com este que as mirrorless concorrem diretamente; questão diferente, porém, é saber se este volume crescente de vendas significa que as mirrorless são o futuro da fotografia. Em meu ver, não. Ainda não. Para que isso acontecesse seria necessário, a meu ver, que se verificassem três condições.
A primeira seria que a qualidade de imagem destes sistemas se tornasse superior à das correntes DSLR. O que não é impossível, atento o facto de este novo sistema ter mais margem de progressão que as DSLR, mas pode demorar e encontrará inúmeras resistências. As tecnologias empregues nas mirrorless são ainda recentes, e as que não são recentes são inovações que se mantiveram estacionárias por pertencerem ao segmento das compactas (e. g. a focagem por deteção de contraste). Para que as mirrorless compitam com as DSLR em condições de igualdade, têm de haver desenvolvimentos substanciais em três áreas: a qualidade dos sensores, a resolução e rapidez dos visores eletrónicos e o aperfeiçoamento dos sistemas de focagem.
A segunda condição, que depende da primeira, é que os profissionais que hoje usam DSLRs full frame adiram às câmaras destes novo sistema (o que também pode levar algum tempo). Os progressos atuais das mirrorless ainda não asseguram a qualidade e a rapidez de que os profissionais necessitam. Por muito boas que sejam câmaras como a Fujifilm X-Pro1 ou a Sony NEX-7, não me parece plausível que um fotojornalista resolva trocar a sua Nikon D4 por uma destas câmaras. Antes de mais, porque as mirrorless não podem, pela sua própria natureza, ser equipadas com visores ópticos TTL, algo que os profissionais não dispensam; depois, porque um profissional necessita de corpos ergonómicos e funcionais, e a maior parte das mirrorless corresponde mais ao conceito de frivolidade que ao de funcionalidade; e, finalmente, porque os sistemas de focagem automática implementados nas mirrorless ainda não estão no mesmo nível de desempenho que os das melhores DSLR. A Olympus já por duas vezes se gabou de ter o sistema de focagem automática mais rápido do mundo, mas omitiu o facto de este só ser eficaz com objetos estáticos e boas condições de luminosidade.
A terceira condição é que um dos presentes formatos (seja ele o 4/3 ou o APS-C) se torne universal, à semelhança do 35mm da era analógica.Presentemente há quatro tamanhos de sensor a ser usados nas câmaras mirrorless: o da Pentax Q, que é um sensor típico de compacta, o Nikon CX, os 4/3 e os APS-C. Embora os dois primeiros sejam atípicos, a verdade é que esta diversidade tem obstado a que os fabricantes assentem os desenvolvimentos num padrão único, o que dificulta ainda mais a progressão das tecnologias e confunde os consumidores. O estabelecimento de um padrão único, que faria a tecnologia desenvolver de um modo verdadeiramente ameaçador para o segmento profissional, é dificultado pelas especificidades dos principais formatos: o micro 4/3, que foi o pioneiro nos sistemas mirrorless, tem uma vantagem substancial sobre o APS-C: a possibilidade de fabricar lentes pequenas e compactas, mas de grande qualidade. Um dos problemas da Sony é o seu sistema NEX exigir lentes tão grandes como as das DSLR, o que dilui as vantagens de poder fabricar corpos pequenos. Um corpo pequeno com uma lente grande é tudo menos prático e funcional. Os sensores APS-C têm, porém, a vantagem de uma qualidade de imagem ligeiramente superior, mas esta tende a atenuar com os progressos que se têm conseguido em sensores pequenos: o sensor Nikon CX, apesar de ter metade da área do 4/3, consegue desempenhos muito interessantes com sensibilidades ISO elevadas, e há indicações de que os sensores 4/3 têm feito progressos em resolução. Enquanto um destes formatos - 4/3 ou APS-C - não prevalecer, o duopólio Canon - Nikon vai manter-se.
As mirrorless podem ser o futuro - e eu acredito que tem condições para tanto -, mas o futuro não é já para o ano que vem. Nem para o próximo. O mais provável é que estas câmaras se tornem numa alternativa às DSLR, tal como as câmaras de telémetro o eram em relação às SLR nos dias da fotografia analógica. Contudo, não me surpreenderia, nem me chocaria, se um dia as mirrorless substituíssem as DSLR. Tal como a fotografia evoluiu do grande formato para o 35mm, e deste para o digital, a tendência tem sido para a adoção de formatos cada vez mais pequenos. Claro que haverá sempre quem tente contrariar esta evolução, e eu imagino que o Dr. Oskar Barnack tenha recebido, quando inventou o 35mm, o mesmo tipo de sarcasmos que agora recebem os fabricantes que escolheram o micro 4/3. Os argumentos não deviam ser, na substância, muito diferentes. Mas, como referi, aquela substituição - se vier a ter lugar - não é para tão cedo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Size matters

Sabem o que mais se discute nos fóruns e websites de fotografia? O tamanho dos sensores. Milhões de pessoas completamente mal informadas deixaram-se convencer de que tudo quanto é necessário para que uma câmara seja boa é que tenha um sensor enorme nas suas entranhas. É como se fosse uma hierarquia, ou uma cadeia alimentar, na base da qual estão as compactas e, no topo, as médio formato - embora os possuidores de câmaras com sensores APS-C tenham a ilusão de que estão no degrau mais alto. (É assim na fotografia como na vida: os pequenos acabam sempre por encontrar outros ainda mais pequenos para retribuir neles as humilhações que os grandes lhes infligem.) Os proprietários de Hasselblads, Pentax 645 e Leicas S2 não precisam de ir à Internet fazer de trolls porque não têm de superar complexos de inferioridade, e os que têm câmaras full frame são, em regra, profissionais que não têm tempo a perder com discussões pueris, mas os que têm câmaras com sensores APS-C entendem que qualquer sensor que seja mais pequeno, ainda que por um punhado de milímetros quadrados, é inferior; alguns chegam ao ponto de pensar - e, o que é pior, exprimem-no por escrito - que qualquer sensor mais pequeno pertence à categoria das digicams, as compactas de bolso a que os de língua inglesa chamam point and shoot. Devemos, deste modo, concluir que os fotógrafos - ou pseudofotógrafos - mais presunçosos estão entre os proprietários de câmaras equipadas com sensores APS-C, o que é injusto para muitos que eu conheço e nada têm de pretensiosos.
Vamos ao que interessa: o tamanho do sensor é importante? É. Sem dúvida. Um sensor grande permite acomodar fotodíodos maiores, incrementando a resolução e diminuindo o ruído quando se usam sensibilidades elevadas; tem também uma profundidade de campo menor, uma gama dinâmica mais extensa e é menos sujeito ao fenómeno da difração - mas será que os sensores mais pequenos são assim tão desvantajosos? Os sensores que estão mais sujeitos às atoardas ignorantes dos foristas e comentaristas são, indubitavelmente, os 4/3 que a Olympus e a Panasonic usam. Abstraindo do facto de esses fãs do APS-C poderem, a qualquer altura, ser ridicularizados por quem usa câmaras com sensores full frame e de médio formato, vamos ver se têm razão no que invocam.
Antes de mais, a questão do tamanho: o sensor APS-C da Canon é maior que o 4/3 por 4,9mm em largura e 1,8mm em altura, ao que correspondem áreas de, respetivamente, 329mm2 e 225mm2. O que, convenhamos, não é como comparar um elefante com uma formiga. Acrescentemos a isto que todos os sensores têm uma shading area (área de sombra), que resulta do facto de a lente ser redonda, produzindo um cone de luz que vai atingir o sensor, que é rectangular; pelo que o sensor pode não receber a mesma quantidade de luz nos cantos que aquela que recebe no centro. Como parece mais ou menos fácil de intuir, quanto mais retangular for o sensor, maior será a área de sombra. O 4/3, sendo quase quadrado (17,3mm x 13mm), sofre menos com este problema.
Em matéria de qualidade de imagem, a desvantagem de tamanho de um 4/3 para um APS-C existe, mas será que é tão dramática como alguns dizem? Não sei. Para aferir isto com precisão, seria necessário algo impossível: duas câmaras exatamente iguais com sensores diferentes, uma com o 4/3 e outra com o APS-C. Contudo, analisando testes comparativos, é notório que, a partir de certas sensibilidades ISO, o 4/3 sofre de mais ruído e perda de resolução - mas isto, note-se bem, acontece apenas em sensibilidades que não são utilizadas na maioria das condições, pelo que é um argumento que, embora possa ser válido em circunstâncias limitadas, apenas é esgrimido por quem cinge a questão da qualidade de imagem a critérios estatísticos.
Quanto a vantagens dos sensores mais pequenos, estas podem resumir-se a duas, mas estas são importantes: permitem fabricar câmaras mais pequenas - embora a Olympus E-5 não constitua o melhor argumento em defesa desta teoria -, mas mais relevante, porém, é o facto de os sistemas baseados em sensores mais pequenos poderem receber lentes também elas mais pequenas, embora com um desempenho óptico semelhante ao de lentes maiores. Estas vantagens são de suficiente monta para permitir a consolidação de um sistema que tem vindo a ganhar cada vez mais aceitação, sendo também, entre os sistemas mirrorless, aquele que tem melhores lentes: o micro quatro terços. Não afirmo isto por ter uma destas câmaras: tenho uma destas câmaras porque adivinhei o futuro deste sistema mal me informei sobre ele.
E, se me vierem com comentários acerca da inferioridade da minha câmara por causa do tamanho do sensor 4/3, eu respondo assim: