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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Superstições

Os leitores mais atentos sabem que fui um audiófilo. Durante anos procurei o melhor som possível dentro do meu orçamento e em condições acústicas adversas, tendo chegado a resultados satisfatórios (mas longe de perfeitos: ainda hoje tenho uma série de aberrações sonoras que só poderia eliminar se mudasse de ambiente acústico). O meu sistema é essencialmente o mesmo há doze anos: nunca senti necessidade - nem tive posses - para o evoluir, pelo que é uma verdadeira montra de arqueologia áudio. As únicas evoluções desde 2003 foram as aquisições de uma cabeça Ortofon 2M Blue para o meu gira-discos e um rádio Tivoli Audio Model One, ambas em 2009. Segue uma lista do meu equipamento.
  • Fontes: Gira-discos Rega Planar 3 com cabeça Ortofon 2M Blue, leitor de CD Rega Planet (o original), sintonizador/rádio Tivoli Audio Model One (ligado ao amplificador integrado com um adaptador, para ouvir rádio em stereo);
  • Amplificação: amplificador integrado Primare A20 MkII, pré-amplificador phono Musical Fidelity X-LP;
  • Colunas: ProAc Tablette 50, em cima de uns suportes baratos da Standesign;
  • Cabos: Todos Kimber Kable, excepto os de alimentação.
  • Mesas: um suporte de parede para o gira-discos e um móvel para as electrónicas, feitos por mim com painéis de contraplacado feitos de encomenda no «Freitas dos Contraplacados» em Frazão, Paços de Ferreira. 
Mais tarde descobri a fotografia, e desde então o meu sistema passa a maior parte do tempo desligado. É muito mais educativo, divertido e interessante andar à caça de boas fotografias do que sentar no vértice de um triângulo equilátero formado por mim e pelas colunas a ouvir música sem a apreciar, substituindo a fruição musical por considerações obsessivas do género: «como é que hei-de eliminar a ressonância dos graves?».
Esta alusão à alta fidelidade pode parecer algo deslocada, mas se a faço é porque encontro muitos pontos em comum entre a fotografia e a alta fidelidade enquanto hobbies. E nem sempre estas analogias acontecem pelos melhores motivos.
Uma característica que muitos audiófilos e fotógrafos amadores partilham é a crença na superioridade do digital. É uma convicção errónea na maior parte dos casos, nascida de uma confusão entre qualidade e comodidade (que são conceitos diferentes). Muitos deixam-se enganar por números: os megapixéis dos fotógrafos são os bits dos audiófilos. A qualidade - sonora e de imagem - é algo que não se exprime apenas em algarismos, tendo mais que ver com a percepção subjectiva do que com gráficos. Claro que, para conceber um bom amplificador ou uma boa lente, é necessário saber muito de ciência e tecnologia - mas essa é uma tarefa que deve ser deixada aos técnicos, não aos utilizadores. Contudo, fotógrafos e audiófilos perdem horas e horas das suas vidas debatendo os ISO e os megapixéis das suas câmaras e os bits e o upsampling dos DAC actuais. (DAC = Digital to Analogue Converter) Esta sobreposição de questões técnicas à apreciação subjectiva é comungada por audiófilos e fotógrafos amadores, e em muitos casos redunda em disparates que têm mais que ver com falta de conhecimentos técnicos do que com opiniões devidamente fundadas: são convicções adquiridas em fóruns e com a leitura de artigos de gente que sabe tão pouco como eles.
Um exemplo, na audiofilia, é a bicablagem das colunas de som: a maioria dos fabricantes inclui fichas de alimentação separadas para o tweeter e o woofer. Muitos imaginam ouvir uma melhoria na qualidade sonora quando usam fios eléctricos separados para os dois altifalantes. Eu também o fiz, até descobrir que o efeito da bicablagem é nulo. Hoje uso apenas um dos terminais de cada coluna para as ligar ao amplificador. Contudo, este é um argumento de vendas que os fabricantes usam para aumentar os seus lucros, usando argumentos pseudo-científicos que, de tão néscios, são equiparáveis a superstições.
O mesmo acontece na fotografia. Muitos deixam-se convencer que uma câmara é tanto melhor quantos mais pixéis tiver, quando a gama dinâmica é muito mais importante do que a resolução expressa em números de pixéis. E a treta do ISO, essa, mais vale não me pronunciar sobre ela. (Para quê, se já o fiz tantas vezes?)
Além disto, os audiófilos e alguns fotógrafos amadores ajudam, com as suas superstições induzidas por marketing enganador, a sustentar uma corja de charlatães que vendem fio eléctrico a €1.000,00 o metro ou tripés que custam mais do que o dobro do valor que mencionei. O negócio dos acessórios esotéricos é uma vigarice em que muitos alinham alegremente, graças a uma capacidade de auto-sugestão que os leva a julgarem ver ou ouvir melhorias na qualidade da imagem ou do som onde estas não existem, procurando justificar a aquisição de coisas que não fazem sentido nenhum, mas são caríssimas.
Outra característica comum é a atracção pelo tamanho. Para audiófilos e fotógrafos amadores néscios, o argumento do tamanho é tudo. As colunas têm de ser grandes, os amplificadores têm de ser monoblocos que requerem duas pessoas para os levantarem; e as câmaras só são boas se, além de serem grandes, tiverem um sensor enorme nas suas entranhas. Uma vez disseram-me que um sujeito tinha umas Wilson Audio WATT/Puppy 7 (v. imagem do topo) num quarto de 12m2. O sujeito devia ter todo o género de problemas acústicos que a interacção entre a energia sonora e os limites físicos da sala podem causar - mas tinha umas WATT/Puppy! Tal qual os amadores que compram uma Canon 5D para fazer fotografias dentro de casa, ao gato ou a painéis de cortiça, como já vi...
Tudo isto significa que as pessoas que descrevi não são amantes das artes da música e da fotografia: são tarados da técnica. O problema é que nem sequer percebem muito da técnica. Limitam-se a balbuciar umas coisas sem nexo como o «palco sonoro» ou a «abertura equivalente», conforme os casos, sem se aperceberem que não estão a fazer sentido.
É evidente que há gente inteligente no áudio e na fotografia. Estes riem-se a bandeiras despregadas dos mitos e superstições que enevoam as mentes de alguns audiófilos e fotógrafos amadores. Se os audiófilos disserem a um técnico de som que deram €1.000,00 por fio eléctrico para ligar as colunas ao amplificador, o mais provável é que se sintam vexados pelos escárnios do técnico (que sabe infinitamente mais que eles sobre som). Do mesmo modo, quando certos fotógrafos amadores estiverem diante de um fotógrafo profissional, devem evitar qualquer alusão à «abertura equivalente»: vão envergonhar-se a si mesmos...
Ludwig Wittgenstein escreveu: «Sobre aquilo que sabemos, devemos falar abertamente; sobre o que não sabemos, devemos manter-nos calados». É uma máxima que procuro seguir, mas há muitos que não o fazem e preferem falar do que não sabem.   

sábado, 4 de agosto de 2012

Fotografia de objectos em movimento

Modo S, f4.5, 1/1000, -1 EV
Na minha cidade - o Porto, Portugal, para quem ainda não o tenha descoberto - há uma tradição de décadas que se tornou num espectáculo extremamente procurado por turistas e residentes: no Verão, nas tardes de calor, dezenas de adolescentes e jovens da Ribeira mergulham nas águas barrentas do rio Douro, saltando a partir do tabuleiro inferior da ponte Luiz I (que o tempo e os modos rebaptizaram de «Ponte D. Luís»). O que torna estes saltos tão especiais é a elevada altura do tabuleiro inferior em relação ao rio, que, dependendo das marés, pode variar entre dez e quinze metros. Com uma altura desta magnitude, são saltos arriscados, mas é exactamente este risco que os torna tão especiais.
É preciso que diga que os rapazes e raparigas que saltam daquela altura recebem de mim o estatuto de heróis. Quando era da idade deles, tinha à minha disposição a prancha de mergulhos das piscinas do Clube Fluvial Portuense, com duas alturas diferentes: cinco e dez metros. Nunca tive coragem de saltar da plataforma superior e, das poucas vezes que saltei da prancha de cinco metros, foi sempre com os pés entrando primeiro na água, e nunca de cabeça. Pois bem: há alguns destes jovens da Ribeira (embora poucos) que mergulham com as mãos entrando na água em primeiro lugar. O que é um feito que tem muito de extraordinário.
É evidente que quem salta tem consciência do risco que corre. É notório que muitos dos que se penduram na borda da ponte hesitam durante muito tempo antes de saltar, e alguns benzem-se antes de o fazer. O que é compreensível: um salto mal executado, com o corpo tocando na água na horizontal, é como cair no chão, porque a resistência da água, nessas circunstâncias, é enorme. O corpo tem de perfurar a água, o que só pode ser feito se o corpo mergulhar perpendicularmente à linha da água. Como se o salto não fosse suficientemente arriscado, muitos dos que saltam não dominam suficientemente as técnicas de natação, e o Rio Douro é um rio de correntes fortes.
Claro que um dia eu havia de tentar fotografar estes saltos. Eu adoro fotografar a minha cidade, e aqueles mergulhos são um dos seus acontecimentos mais interessantes. Na sexta-feira, 2 de Agosto, tentei fazê-lo pela primeira vez. Usei a lente zoom 40-150/f4-5.6, que é suficiente em matéria de distância focal, e seleccionei a focagem e disparo contínuos, mas uma falência cerebral grave levou-me a fotografar no modo A, seleccionando a maior abertura possível.
Modo A, f4.5, 1/250: um desastre!
Os resultados foram pouco menos que desastrosos. Nenhum dos mergulhadores ficou nítido. Com as distâncias focais usadas, a abertura máxima era da ordem dos f4.5, o que levou o fotómetro a seleccionar tempos de exposição de 1/250, que são insuficientes para congelar o movimento. Além disto, a focagem automática é particularmente complicada com aquela lente, tornando-se muitas vezes errática: falhei muitas fotografias porque a câmara se recusou a focar. Este não é apenas um problema da lente: é também uma dificuldade do sistema de detecção de contraste.
Ainda por cima, as fotografias não isolam o objecto como eu gostaria. A profundidade de campo é sempre muito grande, o que significa que a câmara não focou os mergulhadores, mas um ponto qualquer no plano de fundo (ou, se focou os primeiros, focou também uma porção do plano de fundo). Teria precisado de usar uma lente mais rápida, com uma abertura máxima de, digamos, f2.8, e uma câmara com sistema de focagem automática por detecção de fase. Tudo materiais caríssimos cuja aquisição, atento os tipos de fotografia a que me dedico, não se justifica: a fotografia de objectos em movimento rápido deve corresponder a 1 ou 2% do que eu fotografo.
No dia seguinte, depois de verificar o fracasso das primeiras fotografias (não houve unsharp mask que lhes valesse), voltei ao mesmo lugar. Desta vez usei o modo S (prioridade ao disparo), usando velocidades bem mais elevadas que os 1/250 da véspera. Procurei manter o tempo de exposição num mínimo de 1/1000, o que ainda não era o ideal - mas era o possível, atenta a abertura máxima da lente 40-150. Para isto recorri a uma função da câmara que, por fotografar maioritariamente no modo M, raramente uso: a compensação da exposição. Nalguns casos a compensação teve de atingir -1 EV, para evitar que as altas luzes estourassem e manter a exposição correcta.
Os resultados foram consideravelmente melhores do que os da véspera, como se pode ver na imagem que encima este texto. Se esta for ampliada e olhada criticamente, veremos que a focagem ainda não é a ideal, porque subsiste alguma distorção por arrastamento, mas o que obtive é incomparavelmente superior aos resultados do dia anterior. Tirei partido da focagem contínua focando cada mergulhador enquanto este se preparava para saltar, pelo que a taxa de erros na focagem diminuiu consideravelmente. Claro que teria gostado de usar uma câmara que me desse 10 fotogramas por segundo, em lugar dos míseros 3 fps da E-P1, e também teria feito muito melhor se tivesse uma lente com uma abertura maior, o que me possibilitaria o uso de tempos de disparo mais rápidos e contribuiria para o desfoque do plano de fundo (o que teria resultado em fotografias muito mais interessantes) - mas, para obter estes resultados com a qualidade a que aspiro, teria de ter uma Nikon D800 ou uma D4, ou então as equivalentes da Canon). Como quem não tem cão caça com gato, o que fiz foi o melhor que pude e sabia com o material que tenho. Ainda tenho muito a aprender quanto ao uso de zooms e à fotografia de objectos em movimento, mas parece-me que ontem dei alguns passos firmes nessa aprendizagem - a despeito das limitações do equipamento. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Novidades da indústria fotográfica: uma point and shoot com lentes amovíveis

Mal consigo exprimir a minha desilusão com a Canon EOS M, a mirrorless da Canon apresentada hoje. Depois de tanta expectativa, imaginei que tinha surgido a câmara que iria dizer a última palavra sobre como deve ser uma mirrorless. Enganei-me. Não se pode dizer que a montanha pariu um rato: é mais o planeta pariu uma formiga. (Ou a galáxia pariu uma pulga.)
Há pouco mais de três anos, os fanboys da Canon entretinham-se a ridicularizar a Olympus E-P1 por não ter visor nem flash integrados. Agora a Canon lança uma câmara que não só não tem aqueles componentes como nem sequer se dá ao respeito de oferecer um comando de modos de exposição. E a Canon EOS M custa mais do que custava a E-P1 quando esta última foi lançada. Do ponto de vista estético, pôr as duas câmaras lado a lado é como pôr um Mercedes SLK ao lado de um Fiat Punto: a Canon tem a estética das compactas PowerShot.
Então esta câmara, cuja única novidade significativa são os pontos de fixação da alça, serve para quê e para quem? Em termos de controlos exteriores, ela é tão despojada como a Olympus E-PM1 e a Panasonic GF5, mas as suas baterias estão assestadas à Nikon J1, contra a qual a Canon opõe um sensor de área decente (APS-C). Contudo, fá-lo a um preço que está muito para além das Micro 4/3 equivalentes e se aproxima de outras mirrorless com sensores da mesma área, como as Sony NEX. A minha previsão é que esta câmara vai vender como pãezinhos quentes por ser uma Canon. A fidelidade canina dos canónicos vai levá-los a correr até à loja mais próxima para encomendar um exemplar, e aposto que a Amazon está entupida com reservas neste preciso momento. Só por ser uma Canon - tal como as Nikon 1 vendem bem por serem Nikons.
E que vão os compradores encontrar quando a caixa lhes chegar às mãos e a abrirem? Uma câmara com um sensor grande, mas com a oferta de apenas duas lentes específicas para o novo formato. Como a distância entre a parte posterior da lente e o sensor é mais pequena que nas reflex, sendo a baioneta menor em diâmetro, as lentes concebidas para as DSLR não podem ser montadas directamente, mas apenas por via de um adaptador que pode ser adquirido em conjunto com a câmara. A Canon comete, deste modo, o mesmo erro que a Sony, que fica a perder em comparação com a Panasonic e a Olympus por causa da escassez e da falta de qualidade das lentes. E vão encontrar uma câmara que se manuseia como uma point and shoot, com o acesso às funções a ser feito quase exclusivamente através do ecrã táctil (algo que só apela aos inermes).
Isto significa que esta é uma câmara para pessoas desiludidas com a fraca qualidade de imagem das compactas que querem evoluir para algo melhor, mas se sentem intimidadas perante aquilo que imaginam ser a complexidade e dificuldade de manusear uma DSLR. É possível que a Canon venha mais tarde a apresentar uma mirrorless decente, mas para já a EOS M é uma enorme frustração. É uma câmara que terá, no mínimo, a qualidade de imagem da 650D, com a qual partilha o sensor e o processador, mas o mais provável é que venha a ser adquirida com a lente 18-55, por pessoas que nunca usarão qualquer outra lente com esta câmara e nem sequer sabem que se pode montar outras lentes - e que só usarão a câmara no modo AUTO. Tal como acontece com as Sony NEX 3 e 5 (a NEX 7 pertence a outro campeonato). 
Esta câmara é demasiado cara para aquilo que oferece. Os seus potenciais adquirentes fariam melhor em procurar compreender como se usa uma câmara e adquirir uma 1100D ou uma 650D, que lhes ficará mais barata e lhes dará muito mais controlo e versatilidade. Parece-me fácil concluir que a Canon lançou esta câmara com o único propósito de combater as mirrorless da Nikon, usando o argumento do tamanho do sensor para incrementar as vendas. É a guerra Canon-Nikon levada para o campo de batalha das mirrorless...    

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Novidades da indústria fotográfica: uma câmara para idiotas e a mirrorless da Canon

Os programadores das câmaras e os técnicos de marketing dos fabricantes continuam a sua cruzada para transformar os consumidores em idiotas completos. Não sei que ideia fazem eles de quem compra uma câmara, mas seja qual for, está errada. Os fotógrafos casuais querem fotografias que reproduzam momentos significativos das suas vidas, de pouco se interessando em ornamentar as fotografias com efeitos que nada têm de naturais, e os amadores com ambições querem ter o controlo completo do processo fotográfico, da programação da exposição até ao processamento. Contudo, alguns fabricantes insistem em atulhar os processadores das câmaras com «filtros» e efeitos ditos criativos.
Alguns destes «filtros» chegam a ser ridículos, e levantam a questão de saber se quem os concebeu imagina que os potenciais compradores da câmara são todos gente com um QI de dois algarismos. É o caso da novíssima Panasonic G5, uma câmara de formato micro 4/3 apresentada na quarta-feira: esta câmara inclui modos como «Clear Portrait», «Relaxing Tone», «Sweet Child's Face», «Romantic Sunset Glow». «Warm Glowing Nightscape», «Soft Image of a Flower», «Appetizing Food» e «Cute Dessert»! Os meus parabéns à Panasonic por tomar os consumidores por imbecis.

Entretanto...

Ao que parece, na segunda-feira, 23 de Julho, vai ser apresentada - ta-taaaa! - a mirrorless da Canon. Se a fotografia junta não for uma montagem e o factor estético for determinante na aquisição destas câmaras, a Olympus e a Fujifilm não vão ter muito a temer: o seu design lembra as compactas das gamas PowerShot e IXUS, e a super-compacta G1 X tem um ar mais sério do que esta câmara. Os CEOs da Nikon e da Pentax, esses, já devem estar a pensar nas asneiras que fizeram com os lançamentos das suas câmaras «sem espelho». A Canon quis, aparentemente, filiar a nova câmara no sistema EOS - o mesmo das DSLR - e, embora ainda subsistam algumas dúvidas, por força do recente lançamento da G1 X, com um sensor aproximadamente da área dos micro 4/3, parece certo que a mirrorless da Canon terá um sensor APS-C (só assim faria sentido o lançamento recente da lente Pancake 40mm/f2.8, que é compatível com os sensores APS-C e full frame). Esta câmara, que ao que se diz se vai chamar «EOS-M», não parece ter qualquer entrada para montar um visor electrónico, o que pode ser uma desvantagem. Vamos esperar impacientemente até segunda-feira para ver o que vai acontecer.
 

terça-feira, 17 de julho de 2012

A verdade sobre as compactas

Por vezes entretenho-me a ver as primeiras fotografias que fiz, ainda com a compacta que dava pelo nome (completo) de Canon PowerShot A3150is. Em relação a algumas delas, não sinto vontade de as apagar - o que é, pelos critérios macedónios, um sinal de aprovação.
Esta manhã fui mais longe e resolvi fazer algo que nunca fizera antes: analisar algumas dessas fotografias em tamanho real (1:1) e processá-las com o DxO Pro 7. O resultado? Chega a ser embaraçoso admitir que tive aquela câmara, e ainda mais pensar que publiquei aquelas fotografias na Internet. Sabem aquelas pessoas que dizem que uma compacta é tudo quanto basta para se tirarem grandes fotografias? Quando estiverem com uma delas, telefonem discretamente para o 112 e dêem indicações para que seja trazido um colete de forças. As compactas são uma bosta!
«Ah, mas ele exagera» - pensarão alguns, confortados com a ideia que uma imagem digital é uma quantidade de bits e pixéis, pelo que não há diferenças relacionadas com a câmara e as lentes. Falso. À fraca resolução de um sensor com os pixéis amontoados num espaço minúsculo, acrescem as deficiências de ópticas que, querendo fazer tudo, fazem quase tudo mal. Até agora tenho-me limitado a advertir contra o uso destas câmaras; hoje proponho-me ilustrar as suas deficiências.
A imagem acima foi uma que nunca rejeitei. Pelo contrário: depois de passada para preto-e-branco, e se abstrairmos do careca no canto inferior direito, há nela um ambiente muito Aniki-Bóbó (foi tirada na Ribeira, a verdadeira, a da margem norte do Rio Douro), e gostei de ter conseguido fotografar o momento em que o miúdo que mergulha toca com a ponta dos dedos na água. Mas, vista de perto, esta fotografia é horrível: os pormenores estão completamente esbatidos, demonstrando uma falta de resolução que parece ser tanto mais grave quanto maior é a distância focal usada. Mesmo depois de a tratar com o unsharp mask (que, no DxO Pro 7, é o menos agressivo e mais eficaz que já experimentei), existe uma enorme falta de definição, como se fossem duas fotografias idênticas sobrepostas com uma diferença de alguns milímetros.
No caso da imagem da gaivota pousada sobre a chaminé, com a clarabóia a equilibrar a imagem, o problema é o mesmo: uma falta de resolução inaceitável que, de novo, parece agravada pelo emprego do zoom - mesmo que este seja óptico, e não digital. O Pro 7 fez um excelente trabalho ao equilibrar as altas luzes e as sombras, mas esta fotografia não tem uma qualidade aceitável. Digamos que nunca a mandaria imprimir. A imagem que vêem foi também tratada com o unsharp mask, mas esta função, neste caso, limita-se a dar nitidez a pixéis fragmentários. Num tamanho pequeno mal se nota, mas vejam o que acontece com um crop (que nem sequer é de 100%) da imagem:
Esclarecedor, não é? Notem que esta é uma imagem já processada com recurso ao unsharp mask; não me peçam para descrever como estava antes do tratamento!
Depois há a questão do ruído. Interiorizei, desde muito cedo, a ideia que não devia dar rédea solta à câmara, para que esta não escolhesse automaticamente o valor ISO, e que este devia ser mantido no mínimo. Mesmo com o valor ISO no mínimo, o ruído manifesta-se com enorme agressividade mesmo em imagens feitas à luz do dia e com abundância de sol. Infelizmente, a redução do ruído nada pode fazer para melhorar estas imagens, porque o ruído destruiu a informação necessária à recuperação da nitidez e do contraste. A redução do ruído limitou-se a dar um aspecto ainda mais artificial à imagem, como se pode ver na fotografia seguinte:
Todas estas fotografias foram feitas com distâncias focais razoavelmente elevadas. As imagens com distância de grande-angular têm outro tipo de aberrações, como uma distorção geométrica fortíssima que curva as linhas direitas de uma forma grotesca.
Comprar uma compacta é uma perda de tempo e de dinheiro. No meu caso, comprei a Canon 3150 porque não sabia nada de técnica fotográfica: apenas sabia que sentia uma necessidade urgente de fotografar. Se soubesse o que sei hoje, teria amealhado mais dinheiro e esperado até ter o suficiente para comprar uma câmara decente.
Resta dizer que a Canon 3150, entretanto «descontinuada», estava longe de ser uma das piores compactas; tinha, até, algumas qualidades: cores agradáveis, um sistema de estabilização da imagem bastante eficaz e algumas possibilidades de controlo pelo fotógrafo, sendo possível evitar os modos automáticos e usá-la em modo P, tendo deste modo acesso ao controlo da medição, do ISO e do equilíbrio dos brancos. E tinha compensação de exposição,o que era utilíssimo. Há compactas muito, muito piores. Quanto a estas, mais vale fazer fotografias com um iPhone - ou, melhor ainda, com um Nokia 808. Ao menos só têm de transportar um aparelho electrónico. (Mas o ideal é mesmo comprar uma reflex ou uma boa mirrorless.)
Esta falta de qualidade das compactas é de tal maneira notória que os fabricantes estão a lançar compactas com sensores muito maiores que o habitual - mas mesmo assim fica por resolver a questão da qualidade das ópticas. Claro que esta tendência não é só motivada pela qualidade de imagem em si, mas também pela concorrência dos telemóveis. Esta nova geração de compactas não faz mais do que adiar o declínio das compactas perante os telemóveis (ou smartphones, que é como os génios do marketing chamam a estes telefones, provavelmente para os distinguir dos stupidphones). Mas esta é outra ilusão: um smartphone pode fotografar melhor que muitas compactas, mas nunca fará o mesmo que uma câmara de qualidade decente.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Um formato universal?

Por vezes surgem, no meio fotográfico, lamentos por não haver um formato de sensor predominante, como havia (e há, porque a Nikon ainda faz duas câmaras analógicas reflex) o formato 35 mm na fotografia analógica. Hoje, para além dos sensores das compactas - que são uma irrelevância em matéria de qualidade da imagem - e do médio formato, o panorama é o seguinte: a Canon faz câmaras com sensores APS-C, que são ligeiramente menores que os da concorrência, APS-H - um formato específico, entre o APS-C e o full frame - e full frame; a Nikon tem o sensor CX da série 1, o APS-C fabricado pela Sony (DX) e o full frame FX; a Sony faz sensores APS-C para as suas câmaras, e ainda para a Nikon e Pentax, e a Olympus e a Panasonic insistem nos sensores 4/3 (sendo o sensor da Olympus OM-D E-M5 fabricado pela Sony); a Fujifilm e a Sigma alinham pelo APS-C, com a mesma área que os Sony, mas a última tem também o sensor Foveon, cuja área está entre o 4/3 e o APS-C. Com esta variedade, e sem que existam sinais sensíveis de uniformização, parece seguro dizer-se que o formato «universal» não vai acontecer.
Seria porventura bom que um dos formatos prevalecesse; tal permitiria que a indústria fotográfica avançasse numa só direcção, o que levaria a um desenvolvimento semelhante àquele que as câmaras de 35 mm tinham nos anos 70 e início dos 80. As especificidades técnicas de cada formato seriam eliminadas, o que levaria a uma evolução substancial e a um cenário de concorrência perfeita que não deixaria de ser benéfico para todos os fabricantes - e, sobretudo, para os consumidores.
Contudo, a verdade é que mesmo no tempo da fotografia analógica existia o 135, o 110 e outros formatos mais ou menos atípicos, como o half-frame das Olympus Pen. E, mesmo que um formato de sensor prevalecesse - e o que me parece mais plausível de o fazer seria o APS-C da Sony -, os fabricantes continuariam, como sempre o fizeram, a ter os seus próprios sistemas de montagem das lentes, continuando a oferecer lentes que não podem ser montadas em câmaras de outros fabricantes.
No momento actual, o formato mais abundante é o APS-C; A Nikon, Sony, Pentax, Fujifilm e a Sigma usam todas sensores com a mesma área. Contudo, daqui não se pode inferir que se está a caminho da «universalização» (em sentido impróprio) que existia com o filme de 35 mm, já que cada fabricante aplica as suas próprias tecnologias, e a concorrência da Canon e do 4/3 não dá sinais de se aproximar e de querer o estabelecimento de um padrão. Tudo isto se torna ainda mais complicado com o advento das mirrorless, que, pelas suas dimensões, beneficiam de sensores pequenos.
Se há um sensor que merece tornar-se prevalente, é o full frame. A Leica já provou que não é impossível fabricar câmaras de tamanho conveniente com sensores full frame, embora as objectivas para este formato tenham o inconveniente de ser muito volumosas, tornando-se mais confortável usá-las em câmaras com a ergonomia das actuais DSLR - o que preclude a sua aplicação em corpos compactos como os das mirrorless. E isto obsta à sua universalização, porque os fabricantes vão apostar cada vez mais nestas câmaras. O que é pena, porque hoje há um sensor full frame capaz de uma resolução equiparável ao médio formato - o sensor das Nikon D800 e D800E. O ideal seria uma câmara pequena com este sensor, mas sem os preços das Leica. Será que isto alguma vez vai acontecer?
Por outro lado, é verdade que as grandes evoluções na fotografia aconteceram quando se reduziu o formato - dos médio e grande formato para o 35 mm, e deste para o APS-C. Mesmo sendo certo que essas evoluções foram acompanhadas por uma redução na resolução, o certo é que os progressos que se verificaram aproximaram os formatos recentes dos padrões de qualidade de imagem dos precedentes. Não quero apostar, porque já me enganei a fazer previsões, mas talvez o futuro esteja no formato APS-C, com resoluções na ordem das três dezenas de megapixéis. Vamos ver...

sábado, 7 de julho de 2012

Respeitar o passado

Ontem decidi caminhar, actividade que tenho praticado esparsamente nos últimos tempos. Fui de casa até Miragaia, porque queria fazer fotografia de rua nas arcadas de Miragaia, depois subi até à Praça da República e fui à Rua de Santa Catarina, passando pela Rua dos Mártires da Liberdade. (As fotografias das arcadas não ficaram grande coisa, mas o leitor pode avaliá-las no meu Flickr.) Uma caminhada em que devo ter completado dez quilómetros.
Descobri que na Rua dos Mártires da Liberdade, por onde cortei caminho para chegar até à Praça da República (tinha de resolver um assunto profissional na Rua de Santa Catarina, no quarteirão entre as ruas Gonçalo Cristóvão e Guedes de Azevedo), há duas lojas de material fotográfico: uma, Câmaras & Companhia, comercializa material fotográfico antigo e novo; a outra, Máquinas de Outros Tempos, especializa-se, como o nome sugere, em material usado. Na primeira dessas lojas pude ver ao vivo, pela primeira vez, a famosa antecessora da minha câmara, a Olympus Pen F. Na outra andei à procura de lentes usadas, mas infelizmente não encontrei nenhuma que satisfizesse as minhas necessidades: experimentei uma Pentax fisheye, mas a distância focal equivalente, quando montada na E-P1, é de 34mm, o que impede a distorção característica das fisheye ao endireitar as linhas.
As visitas a estas lojas induziram-me mais respeito pelo passado. Embora a minha escolha seja a fotografia digital, não deixo de sentir o maior respeito por quem opta pela fotografia analógica. Não me sinto tentado a comprar uma câmara analógica - que seria sempre uma Olympus OM, pela razão simples de já ter três objectivas desse sistema - por duas razões: a primeira, de ordem bastante comezinha, é a despesa e as limitações do formato: os rolos não são tão baratos como isso, o número de fotografias que poderia fazer seria limitado (o que decerto me obrigaria a fotografar melhor) e, a estes problemas, acresceria a despesa com a revelação e a espera pelas fotografias.
De resto, demoraria certamente muito tempo a obter resultados satisfatórios. Fotografar com filme obriga a ter um conhecimento preciso da lei da reciprocidade e a saber jogar com a abertura e o tempo de exposição para obter exposições correctas - embora seja certo que as câmaras analógicas mais recentes têm um fotómetro, que indica a exposição correcta. Neste aspecto a fotografia digital é muito mais cómoda e prática: vejo os resultados imediatamente e, se quiser, posso consultar o histograma para saber se a fotografia está correctamente exposta.
Nada disto significa, como disse, que não respeite quem se dedica à fotografia analógica. O material antigo não é necessariamente sucata: as câmaras analógicas duram muito mais do que as digitais, são geralmente mais bem construídas e têm um apelo estético superior (só as Olympus Pen E-P3 e OM-D, as Leica M e as Fuji X100 e X-Pro 1 constituem, actualmente, excepções a esta regra: a E-P1 já não se fabrica há dois anos...). E uma lente antiga, quando em bom estado, pode ser usada com bons resultados cinquenta anos depois de ter sido fabricada. Aliás, as lentes usadas, salvo em alguns aspectos em que são incompatíveis com o domínio digital, são uma excelente opção para quem não pode ou não quer gastar fortunas com objectivas novas, desde que se supere o receio de focar manualmente.
O facto de estas lojas existirem levou-me a especular se não haverá um revivalismo em tudo semelhante ao que existe na indústria discográfica, com o ressurgimento do vinil. Se o houver, parece-me natural, e interpreto-o como uma reacção à ditadura digital em que vivemos, na qual o material fotográfico é cada vez mais temporário e ficou reduzido a uma condição de bens perecíveis. Muitos preferem a segurança de ter bens duradouros, que podem estimar, em lugar de bens que estão destinados a durar alguns anos. De resto, ainda não dou por adquirido que a fotografia digital seja melhor: é certamente mais prática e cómoda, mas tal não significa, necessariamente, mais qualidade. Tal como o som de um CD, por mais upsampling que seja usado, permanece abaixo do que se consegue obter com um bom vinil tocado num gira-discos decente. Há pessoas que preferem a qualidade, em lugar de se deixarem prender nas malhas do consumismo que caracteriza, cada vez mais, os tempos que vivemos. E esta atitude, porque em parte a partilho, merece-me o maior respeito.

domingo, 1 de julho de 2012

«Novo hardware encontrado»

Aconteceu o que era mais ou menos de esperar quando se fotografa RAW: o disco rígido do meu computador ficou cheio. Não ficou sem espaço, mas a barra que surge na visualização das propriedades ficou vermelha, avisando que estava quase a atingir o limite da sua capacidade.
Este é um dos grandes inconvenientes de fotografar RAW. Apesar de o meu computador ser uma máquina ainda bastante actual - pelo menos tão actual quanto um computador com três anos pode ser (e era uma bomba quando o comprei!) -, não há capacidade de armazenamento que resista quando se acumulam ficheiros com 16MB ou mais. Pior ainda quando os ficheiros são convertidos em imagens JPEG cujo tamanho médio anda pelos 5-6MB.
Isto deixou-me a pensar. Afinal de contas, tinha 37,2 gigabytes ocupados com fotografias - só as feitas com a Olympus, as da Canon ocupavam cerca de 4 gigas. É muito gigabyte: mais concretamente, era um terço da capacidade do disco rígido do computador, que tem uma capacidade de 116 GB. Levou-me a pensar na necessidade de tantas fotografias: não seria um enorme exagero? Praticamente deixei de fotografar em JPEG, porque o número de ferramentas de edição de imagem do DxO Pro 7 (e com o Lightroom seria a mesma coisa) é substancialmente maior quando se tratam ficheiros RAW, o que permite correcções mais eficientes. Porquê? E para quê? O meu lado prático, que nem sempre consigo calar, está sempre a lembrar-me que não sou nenhum profissional da fotografia, pelo que tudo isto é completamente desproporcionado, mas no fim a resposta àqueles porquês é sempre porque sim. Porque gosto tanto de fotografar e de fotografia que os meios que emprego - desde que razoáveis, sensatos e justificados - acabam sempre por valer a pena.  
Cheguei a um ponto em que só me restavam duas opções: ou deitava fora fotografias ou comprava um disco externo. Seleccionar imagens para eliminar seria um trabalho incrivelmente fastidioso: com 6659 fotografias feitas com a E-P1 e as cerca de 1700 com a Canon (das quais não me consigo desfazer, não sei porquê), demoraria tanto tempo a seleccionar fotografias para eliminar que ficaria cansado só de pensar nessa possibilidade. Optei pela solução mais simples - e também mais dispendiosa - e comprei um disco externo, um Western Digital My Book Essential de 2 Terabytes. A sua aquisição, que foi precedida de pesquisas exaustivas (como quase todas as minhs compras), levou-me a renunciar aos meus princípios e adquirir um bem de consumo num estabelecimento cuja publicidade, que passa antes das notícias da TSF, parece ter sido concebida por estagiários recrutados numa CERCI - mas a verdade é que comprei o disco com um desconto de trinta euros. O que não é mau, especialmente se pensar que me custou tanto como um disco de 1 Tera a preço normal.
O disco é interessante porque não é muito grande, e também não é feio: é revestido de acrílico preto, o que o torna discreto e elegante. Mas o mais importante é saber como funciona. Numa palavra: bem. Embora não saiba muito bem como avaliar algo que serve para armazenar ficheiros, posso dizer que, depois de ter armazenado todas as minhas fotografias, já processei algumas a partir do disco externo, só para experimentar. Não notei qualquer diferença no processamento, o que significa que o novo hardware não veio prejudicar o computador, nem o desempenho do programa de processamento de imagem. Trabalhar as imagens armazenadas no disco externo é igual ao que fazia quando as fotografias estavam no disco rígido do computador, o que era o mínimo que podia esperar. O que melhorou, e muito, foi o funcionamento do computador: ficou consideravelmente mais rápido depois de se ver livre de um terço da sua capacidade de armazenamento. O que, como não o uso só para fotografia, é um benefício absolutamente inestimável. Quanto à fotografia, os ficheiros de imagem não chegam a ocupar 1% do disco externo - o que significa que nunca mais vou ter de me preocupar com a capacidade de armazenamento. E, se o computador tiver algum problema, as minhas fotografias ficam devidamente salvaguardadas. O que é ainda melhor.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Passado e futuro da fotografia

L'Atelier de l'Artiste, daguerreótipo de Louis Daguerre (1837)
Se eu afirmasse aqui que uma fotografia - ou, mais exactamente, um daguerreótipo -, feita há cento e setenta anos, tinha mais resolução que qualquer fotografia digital dos nossos dias, sem fundamentar essa afirmação, muitos provavelmente pensariam que eu tinha ensandecido de vez e que estava a publicar textos a partir de uma cela de paredes acolchoadas no Rilhafoles. Daí que faça uma remissão para este artigo interessantíssimo que encontrei no Pixiq, para fundamentar o que acabei de escrever. Talvez assim acreditem em mim.
Antes de mais, convém esclarecer que um daguerreótipo é uma forma de criar uma imagem pela captação de luz inventada por Louis Daguerre no segundo quartel do Século XIX. A luz reflectida pelos objectos era fixada em placas de cobre revestidas por uma solução de prata. A imagem era tornada visível através do uso de vapor de mercúrio, o que causava problemas de saúde nos fotógrafos (ou, mais propriamente, daguerreotipistas). O daguerreótipo é, deste modo, o pai da fotografia.
De regresso ao artigo publicado no Pixiq, é interessante ver que um daguerreótipo contém muito mais informação que uma imagem digital. Devo dizer, usando um raciocínio analógico (em mais que um sentido), que o conceito de as antigas tecnologias serem superiores às digitais que lhes sucederam não me é novo: há doze anos que substituí o leitor de CD por um gira-discos como fonte principal nas minhas audições musicais. Daí que não tenha sido um choque aprender esta realidade. Aliás, isto é a repercussão de algo que é evidente se pensarmos um pouco: a diminuição da qualidade em favor da produção em massa. Temos bens mais baratos, com compromisso da qualidade.
Significará isto que devemos trocar as nossas câmaras digitais por camerae obscurae, como as usadas para fazer daguerreótipos? Decerto que não. O que devemos fazer é esperar pelos novos desenvolvimentos da fotografia digital. Uma resolução como a do daguerreótipo referido no artigo da Pixiq não estará nunca ao alcance de câmaras digitais servidas por sensores convencionais, uma vez que estes, por maiores que sejam, têm uma limitação no número de pixéis, que dificilmente poderá ir para além da centena de MPs. Qualquer imagem, mesmo feita com uma Mamiya com um back digital da Leaf, tem serrilhado quando ampliada para além de 400%. Há que pensar de outra maneira, lateralmente, e foi isto mesmo que fizeram na DARPA, a agência de pesquisa do Departamento de Defesa norte-americano.
Com efeito, esta agência desenvolveu e mostrou uma câmara, a AWARE-2, que atinge os gigapixéis. Decerto que esta tecnologia ainda requer muito desenvolvimento para que possa produzir imagens de qualidade - esta está limitada, no protótipo mostrado, pelo uso de uma lente de plástico -, e terá de ser desenvolvida para reduzir as câmaras a a proporções práticas: o protótipo parece uma fonte de alimentação arrefecida a ar, como as dos computadores desktop, que tivesse sido monstruosamente ampliada, mas este pode ser o caminho para a obtenção de níveis de resolução superiores.
O que nos mostra que a fotografia digital ainda está na sua infância. Um dia - provavelmente muito em breve - os sensores CCD e CMOS serão coisas do passado, substituídas por uma abordagem mais orgânica, que imite a natureza. Afinal de contas, os melhores instrumentos ópticos existentes são os olhos. Quando a tecnologia conseguir este grau de perfeição, teremos as resoluções com que muitos fotógrafos sonham.
Claro que nada disto pode esconder uma realidade triste: esta câmara que a DARPA desenvolveu serve, sobretudo, para aperfeiçoar a intromissão na vida privada de cada um. Esta tecnologia terá a sua aplicação em funções de vigilância, de maneira a poder devassar-nos com mais eficiência. Mas, se saírem daqui benefícios para a fotografia, penso que os fabricantes de equipamento devem estar atentos.    

quarta-feira, 13 de junho de 2012

E se...?

E se eu estivesse completamente errado quanto ao futuro das câmaras digitais quando vaticinei que as médio formato iam tornar-se mais pequenas e versáteis, atacando o segmento superior das DSLR? E se este ano tiver sido um ano charneira para as câmaras digitais, por ter sido lançada a câmara que pode moldar o futuro? 
E se esta câmara for uma das melhores de sempre?
A câmara a que me refiro é a Nikon D800E. É a irmã gémea da D800, e nenhuma delas é o topo da gama Nikon; acima delas está a profissional D4 (embora quase possa apostar que muitos profissionais vão preferir a D800E a esta última). As Nikon 800 têm corpos idênticos, os mesmos processadores e partilham o sensor fabricado pela Sony. Este é um sensor full frame (36 X 24 mm) que tem a maior contagem de megapixéis dentro deste formato: nada mais nada menos que 36,3 MP. A diferença entre a D800 e a D800E está na diferente disposição do filtro anti-moiré - ou anti-aliasing - nesta última (v. imagem abaixo). Este filtro serve para evitar a aberração óptica conhecida por moiré (serrilhado), que se verifica quando uma imagem digital é vista em tamanhos diminutos, mas produz os seus resultados introduzindo uma ligeira perda de nitidez nas bordas do objecto de modo a suavizar o aspecto daquelas - o que se repercute, evidentemente, na resolução. O «cancelamento» (termo da Nikon, não meu) do efeito deste filtro aumenta a resolução, com a contrapartida de tornar as imagens mais vulneráveis ao aparecimento do moiré (v. aqui) e de cores falsas.
Este número astronómico de pixéis teve uma consequência curiosa - tornou obsoletos alguns programas de edição de imagem, incapazes de lidar com uma resolução tão alta. Alguns tiveram de ser evoluídos especialmente para ir ao encontro da resolução da Nikon 800E. Mais importante, porém, é que estes 36 MP colocam a câmara no território das câmaras de médio formato. Estas câmaras estão por regra dentro de estúdios, dado o seu volume mastodôntico (as excepções são a Pentax 645D e a Leica S2, que, além de maiores, são mais caras que a Nikon D800E). Isto significa que podemos ter aqui uma câmara quase com o mesmo nível de resolução que as médio formato (que têm uma resolução à volta dos 40 MP), mas com uma versatilidade acrescida.
O único problema que um sensor com este nível de resolução poderia apresentar (para além da possibilidade de encher o disco rígido de um computador normal três ou quatro vezes mais rapidamente...) seria o nível de ruído aparente nas imagens. A relação sinal-ruído é, teoricamente, mais desfavorável do que a de uma câmara como a Canon 5D MkIII - há mais pixéis para a mesma área -, e a verdade é que o desempenho desta última com valores ISO elevados é melhor, mas os problemas de ruído da Nikon começam a ISO 6400, valor a partir do qual a Canon ganha vantagem. Simplesmente, essa vantagem não é esmagadora. De resto, uma sensibilidade como esta é insusceptivel de ser usada nas situações mais comuns. ISO 6400 é um valor extremamente elevado, mesmo se atendermos à tendência de alguns amadores para fotografar à noite segurando a câmara com as mãos, usando sensibilidades ISO altíssimas como se fossem um substituto do flash. Pelo que esta não é uma verdadeira limitação. ISO 6400 é uma exorbitância!
É possível que a Nikon D800E prefigure o futuro das câmaras digitais. É até plausível que um fotógrafo profissional só veja vantagens no seu uso em relação a uma câmara profissional, que é maior, mais pesada, mais cara e tem menor resolução. Resta saber o que fará a concorrência - entendendo-se como tal a Canon - perante uma câmara que pode vir a mudar a face da história da indústria fotográfica. A sua resolução é simplesmente incrível; contudo, há ainda um pequeno pormenor que importa corrigir - o surgimento de cores falsas (especialmente em RAW), consequência inevitável da disposição especial dos filtros anti-moiré desta câmara. Se este problema for corrigido - embora um bom programa de processamento de imagem remova facilmente esta aberração: no DxO Pro 7 basta carregar numa quadrícula -, esta pode ser a câmara do futuro: uma profissional a preço de uma câmara para entusiastas, com uma resolução equiparável a uma Hasselblad. Que tal?

domingo, 10 de junho de 2012

Câmaras, câmaras e mais câmaras

Sendo a minha paixão pela fotografia muito recente, não tive tempo para construir um capital de nostalgia por câmaras do passado. E é provável que nunca a venha a conhecer, nestes tempos em que uma câmara se torna intoleravelmente obsoleta ao fim de dois anos ou menos. Apesar de já não ser jovem, não consigo olhar para a montra da Photomaton com saudade, porque nunca tive nenhuma das câmaras que por lá aparecem; nem tenho interesse em voltar a tempos que nunca vivi, comprando uma câmara analógica, porque o digital praticamente só tem vantagens. O mais retro que sou capaz é quando uso as lentes de focagem manual, mas confesso que só as tenho porque foi a maneira que encontrei de ter lentes de muito alta qualidade por pouco dinheiro. A OM 28mm/f3.5 custou-me €110, a OM 50mm/f1.4 €100, e o monstro, a Vivitar 75-300, custou outros €100. Mesmo com o adaptador MF-2, que me custou a insignificância de €190,00, o dinheiro que gastei com estas lentes não chegaria para adquirir a Panasonic-Leica 25mm/f1.4, ou a Olympus 9-18mm. Ter um corpo analógico, porém, significaria despesa com rolos e revelações, caminho que não quero prosseguir - apesar de haver qualquer coisa na fotografia analógica que é antagónica da frieza asséptica da fotografia digital e que, por vezes, me faz sentir saudades de tempos que não vivi (mas vi).
Deste modo, quando visito o núcleo museológico do Centro Português de Fotografia e vejo aquelas vitrinas cheias de equipamento fotográfico do passado, olho as câmaras expostas com o ar levemente blasé de quem vê peças de arqueologia. Nem sequer consigo pensar que aqueles objectos inertes já fizeram fotografias fantásticas nas mãos de fotógrafos experimentados: são coisas mortas. Poucas são as que me despertam verdadeiro interesse, e mesmo estas apenas me convencem pela estética. (Apesar desta minha falta de raízes fotográficas, fui exposto a equipamento desde muito novo, por via de um tio que trabalhava na Hitzemann & Cia., Lda., importadora da Minolta e da Fujifilm. O meu sentido estético, no que concerne às câmaras, foi formado com as rangefinders da Minolta, e as únicas SLR para que consigo olhar são as da Pentax, Canon e Olympus dos anos 70. A febre ergonómica que transformou as câmaras SLR em miasmas anamórficos destruiu por completo a beleza das cãmaras, as compactas não podem ser levadas a sério e os telemóveis servem para fazer chamadas e SMS, não para fotografar.)
Das câmaras expostas no CPF, dizia, poucas são as que me atraem a atenção. Considero muito mais excitante entrar numa loja de artigos novos do que num museu (ou, neste caso, núcleo museológico). Aliás, nem sequer consigo perceber porque só expõem câmaras: seria muito interessante ver algumas lentes, como na vitrina do Instituto Português de Fotografia (foto ao lado). Afinal, uma câmara não é apenas o corpo - mas existe esta tendência para fingir que o é, e que a objectiva não é mais do que um mero acessório (o que é uma completa falsidade). As câmaras-espia, as miniaturas e outras curiosidades nada me dizem. Não compreendo por que havia um espião de usar uma câmara disfarçada de lata de Coca-Cola; no momento em que ele levasse a lata ao olho para ver através do visor, as pessoas haviam de achar aquele comportamento bizarro: «Olha, aquele maluquinho está a tirar fotografias com uma lata de Coca-Cola!» Convenhamos que seria muito pouco discreto.
De todas as câmaras expostas, só duas ou três me impressionaram: uma SLR da Canon, por ter montada uma lente 50mm/f0,95, a Olympus O-Product - mais por curiosidade do que pela funcionalidade - e uma das primeiras Leicas, da era pré-Hermés e pré-Walter de'Silva. Esta sim, é uma daquelas câmaras que apetece comprar nem que seja só pelo prazer de a ter - mesmo que não se façam fotografias com ela. Uma câmara com um visor óptico externo belíssimo, e com uma linha que, excepto pelo tamanho dos comandos no painel superior, pode ser considerada intemporal. Se hoje fizessem uma câmara inspirada nesta, visor externo e tudo, seria um êxito!
E eu compraria uma câmara destas, na hipótese fortuita de me sair o Euromilhões? Não. Só se fosse para fotografar com ela, o que implicaria que estivesse em muito bom estado e fosse capaz de uma qualidade de imagem sublime. Porque só isso verdadeiramente conta. Não excluo que venha a fazer fotografia analógica - mal supere o meu receio de não conseguir obter exposições correctas -, mas esta não é uma prioridade.
Não vivo, deste modo, preso ao passado, nem consigo sentir nostalgia por peças de museu. O que não significa que o passado da fotografia não me mereça respeito, ou que seja um tarado da tecnologia, um escravo das modas que se ilude com as promessas de um futuro tecnologicamente perfeito no qual não há lugar para coisas do passado como a focagem manual. Vivo no presente; esta é a minha era. Não vivo para sonhar com um futuro ilusório nem para sonhar com um passado a que não pertenci. Olhar para aquele material fotográfico, porém, não deixa de me fazer pensar que foi feito com um espírito que hoje se perdeu por completo. Tenho a certeza que, em 2060, não haverá uma Nikon D800E ou uma Olympus E-P1 em exposição em nenhuma parte do mundo, porque todas terão sido recicladas ou destruídas pelos seus donos depois de as terem trocado pelo modelo que saiu dois anos depois (ou menos) de as terem adquirido. Definitivamente, perdeu-se aquele espírito pioneiro de fazer evoluir as coisas para obter a melhor qualidade possível. Agora fazem-se câmaras para serem vendidas.  

sábado, 2 de junho de 2012

Como lidar com uma superteleobjectiva

Se não ficasse demasiado comprido, o título deste texto seria «Como lidar com uma superteleobjectiva de focagem manual». Lidar com uma teleobjectiva já é difícil, mas a focagem manual vem multiplicar essa dificuldade por dois. 
Como sabem, ontem resgatei a Vivitar 75-300mm/f4.5-5.6; para não ter uma objectiva metida numa gaveta, nem deixar que aquela se torne num bibelot inútil, decidi que havia de aprender a tirar partido deste mastodonte. (A câmara, equipada com esta lente e o adaptador, fica a pesar 1,280 kg, e não cabe no meu saco mais pequeno!) Esta manhã fiz diversas fotografias no Jardim Botânico, sem esperar bons resultados. Estava nublado, pelo que as velocidades do disparo, mesmo com a abertura em f4.5, raramente excediam 1/125, o que, se dificultou a precisão da focagem, também serviu como treino para aprender a segurar a câmara e a lente (não levei o tripé). Um dos benefícios que esperava de uma teleobjectiva que atinge 600mm de distância focal efectiva era uma profundidade de campo reduzida, mas a verdade é que não obtive melhores resultados do que quando uso a OM de 50mm (100mm efectivos). Porquê? Por causa da abertura, que é muito mais importante do que a distância focal em matéria de profundidade de campo. f1.4 é imbatível - tanto que chega a ser injusto comparar ambas as lentes.
Então o que pode a 75-300 dar-me que as outras não dêem? Numa palavra: alcance. Esta teleobjectiva é portentosa: consigo grandes planos a 20 metros de distância, e preencho o enquadramento a distâncias que me obrigariam a aproximar-me do objecto com outras lentes. Isto significa que posso usar uma distância de focagem mais extensa, embora à custa de uma compressão drástica da perspectiva em todos os planos. Se quisesse fazer a fotografia ao lado com a OM de 50mm, teria de ter entrado na água - o que, convenhamos, seria um pouco desagradável.
Outra vantagem desta lente é o facto de oferecer imagens de enorme nitidez. Este é um aspecto que só pude confirmar depois de aprender a segurar a câmara com esta objectiva montada com um grau suficiente de firmeza, mas mesmo assim é necessário ter em conta que esta é uma lente de focagem manual. E, mesmo com a ajuda à focagem, é difícil visualizar a imagem correctamente por causa da tremedeira. A câmara não é a mais ergonómica do mundo, nem a mais adequada para uma objectiva deste peso e tamanho, o que me faz suspirar por uma pega ao estilo das DSLR.
O facto de ter conseguido imagens com um bom nível de nitidez deixou-me contente. O Carlos Machado, formador do IPF que orientou o workshop que frequentei, assegurou-me que era possível dominar uma câmara com uma lente avantajada e que, com a prática, se conseguiam fotografias sem arrastamento segurando-a com as mãos. É verdade. Confirmei-o hoje.
Para dar um bom uso a uma superteleobjectiva como esta são necessários diversos cuidados. Antes de mais, estas lentes são, imperativamente, para ser usadas no máximo da abertura. Claro que isto tem repercussões na profundidade de campo, o que leva inevitavelmente a planos de fundo desfocados. Usar aberturas mais estreitas, como quando se quer nitidez em todos os planos, torna impossível segurar a câmara com as mãos sem provocar arrastamento, pelo que a única alternativa, nestes casos, é o uso de um tripé.
Deve também evitar usar-se objectivas como esta em condições de luz escassa. Mesmo na abertura máxima, as velocidades de disparo requeridas em condições de pouca luz são demasiado baixas para segurar a câmara à mão. E há que ter em consideração que a maioria dos zooms é de abertura variável (e este é um deles), pelo que a abertura máxima diminui quando se aumenta a distância focal.
Lentes como estas requerem câmaras decentes. Não pela qualidade da imagem, embora este seja obviamente um factor importante, mas pela ergonomia. Não é com câmaras com a minha que se tira o melhor partido de uma superteleobjectiva. Apesar de o desafio ser maior, e a satisfação por obter boas imagens ser exponencialmente ampliada, a verdade é que lentes grandes e pesadas exigem corpos ergonómicos e robustos, concebidos para o uso de qualquer tipo de objectiva.  Um corpo ergonómico facilita a tarefa de segurar a câmara e beneficia a nitidez da focagem.
E, quando não for possível de todo segurar a câmara com as mãos, não se deve hesitar em usar o tripé. Se possível, com um anel de fixação que permita que seja a lente, e não o corpo, o que vai ser fixado ao tripé.
Talvez não tenha sido tão mau não ter conseguido vender a Vivitar. Ela tem muito a seu favor. Além do alcance, tem boas cores e é razoavelmente isenta de aberrações e distorções, o que significa que emprega vidro de boa qualidade. E é muito bem construída. Não é uma lente que se use todos os dias, nem em quaisquer circunstâncias, mas uma vez dominada, e dentro dos seus limites - ou melhor: dentro daquilo para que foi concebida e construída - pode ser bem divertida de usar, e com resultados muito satisfatórios.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Ela voltou para mim

Não - apesar de o título parecer sugeri-lo, não vou narrar aqui pormenores da minha vida sentimental. Quem (ou melhor: o que) voltou para mim foi a Vivitar 75-300/f4.5-5.6. A história é simples: a lente estava à venda na FNAC de Santa Catarina (aqui no Porto), onde havia uma vitrina para artigos fotográficos em segunda mão. Os interessados deixavam lá o material que queriam vender e, se surgisse comprador, a FNAC vendia-o e, com um pouco de sorte, entregava o dinheiro ao alienante. Adquiri um cabo disparador nestas condições, embora um pouco mais caro que aquilo que poderia ter pago se tivesse comprado online - e usado.
A Vivitar estava à venda por ser impossível de usar com a E-P1. Foi um excesso de optimismo que me vai perseguir até ao fim dos meus dias. Não posso, por ex., fotografar na vertical com este monstro montado no tripé porque o conjunto começa a descair, por mais que aperte a câmara à placa de fixação do tripé. Mesmo quando fotografo na horizontal é extremamente difícil focar porque o conjunto não é estável: precisava de um anel de fixação ao tripé que, aparentemente, não existe. Usá-la à mão é difícil por causa do peso, da abertura máxima relativamente estreita e, em consequência, da dificuldade em obter imagens que não fiquem tremidas. (Consegue-se, mas não é simples.)
Seja como for, recebi um SMS a informar-me que podia levantar a lente, e fui à FNAC. Descobri que o serviço de vendas em segunda mão tinha sido eliminado. Em lugar de câmaras e lentes vintage, o que havia era... molduras digitais! A verdade é que, mesmo sem a eliminação, dificilmente teria vendido a Vivitar, apesar do preço convidativo (€80,00): aquelas alminhas nunca tiveram a preocupação de colocar um simples papelucho de onde constasse o modelo, as características e o preço da objectiva. Estava pousada numa montra, sem que fosse possível a um eventual adquirente descobrir que lente era aquela.
A FNAC (pelo menos a de Santa Catarina) é isto: acabam com a venda de artigos em segunda mão, tal como já antes tinham acabado com a alta fidelidade - agora é só audiovisual - e se preparam para acabar com o vinil, que está confinado a um espaço que deve corresponder a 1% (talvez menos) dos expositores de música. Completamente subjugada aos gostos do povo - se me perdoarem o aparente elitismo. É o progresso, dirão alguns. É a estupidez, a ganância e a cegueira, digo eu. Um dia ainda vou entrar na FNAC de Santa Catarina, e verificar que estão a tocar o Ai Se Eu Te Pego (ou qualquer bosta desse género) aos berros. Pois se é isto que o povo (ou aquilo que entendem ser «o povo») gosta...
Pode não ter sido inteiramente mau voltar a ter a Vivitar: afinal, esta é uma lente que permite obter uma profundidade de campo espantosa quando montada na E-P1. Esqueçam «bokeh»: esta objectiva faz desaparecer o plano de fundo! Um dia destes vou experimentá-la no Jardim Botânico: fotografar flores com esta lente deve ser sensacional - pelo menos enquanto tiver força nos braços para a segurar.

terça-feira, 29 de maio de 2012

«Canon ou Nikon?»

Quando fui buscar as minhas impressões novas, a conversa com a pessoa que me atendeu resvalou para a edição de imagem e ganhou um novo interlocutor - um informático que, pressurosamente, me quis mostrar um plug-in dos Photoshop denominado PT Lens (que é bestial, mas o DxO Pro 7 faz o mesmo sem necessidade de plug-ins). Como o informático queria realmente convencer-me dos méritos da aplicação, chamou-me para junto do computador para fazer uma demonstração prática; quando tratou de escolher as configurações, perguntou-me com a maior das naturalidades: «Canon ou Nikon?»
Para aquela pessoa, era uma impossibilidade lógica eu ter uma câmara que não fosse uma Canon ou uma Nikon. Toda a gente tem uma Canon ou uma Nikon! Senti-me como um alienígena, uma avis rara que aterrasse de repente num mundo homogeneizado e bipolarizado, semelhante a um sistema democrático ocidental em que apenas dois partidos mais ou menos iguais alternam no poder. Ultrapassado o breve complexo de inferioridade e o sentimento de alienação que me percorreram a psique durante dois ou três segundos, respondi que nem uma nem outra.
Há vários efeitos nocivos neste duopólio a que muitos chamam «Canikon». O primeiro deles é que, à custa de falta de concorrência, a indústria fotográfica pouco ou nada evoluiu entre 2003 e 2009 (ano em que foi lançada a primeira mirrorless a sério, a Olympus E-P1). Tornou-se convicção geral que as únicas câmaras capazes de uma alta qualidade de imagem eram as DSLRs, cujo mercado era (é) dominado por estes dois mastodontes. O sistema DSLR está de tal maneira tetanizado que as evoluções são de carácter meramente marginal, e, num certo sentido, pouco relevantes: a introdução do vídeo - que não tem qualquer tipo de interesse para o fotógrafo dedicado -, os ecrãs rotativos, etc. A única coisa verdadeiramente importante que aconteceu às SLRs desde a sua concepção foi a passagem para o domínio digital. A Canon e a Nikon limitam-se a renovar os seus modelos ciclicamente, introduzindo pequenas evoluções no que são, essencialmente, as câmaras da geração anterior - mais megapixel, menos megapixel. A única coisa excitante que aconteceu no império Canikon foi a introdução da Nikon D800, neste mesmo ano, com uns mastodônticos 36 megapixéis (o que, ao que se diz, se repercute no nível de ruído por deteriorar, como aliás era previsível, a relação sinal/ruído).
As DSLR, cujo mercado a Canon e a Nikon hegemonizam, são câmaras capazes de alta qualidade de imagem, e são a única escolha possível para os fotojornalistas, mas não são as únicas câmaras de qualidade. Aliás, se entrarmos num estúdio de grande porte, verificamos que as câmaras aí usadas não são DSLRs, mas câmaras de médio formato (Mamiya, Hasselblad, etc.) De resto, as DSLRs começam a ser ameaçadas a montante e a jusante. No segmento mais baixo, estão sob a ameaça de câmaras mirrorless cada vez mais evoluídas e com vantagens substanciais em relação às reflex no peso, transportabilidade e flexibilidade. Para fazer fotografia de rua, por exemplo (ou qualquer outra modalidade que exija discrição), o uso de uma DSLR é um obstáculo. No escalão superior, têm sido feitos esforços para produzir câmaras de médio formato mais portáteis do que as monstruosas Hasselblad. Há a Leica S2 - cujo preço é absolutamente delirante - e, sobretudo, a Pentax 645D. Não são para fotojornalistas, certamente, mas têm uma qualidade de imagem inerentemente superior à das DSLR profissionais.
Outro problema que a estagnação do segmento das DSLR trouxe foi a indigência com que as câmaras da Canon ou da Nikon são construídas. Meus caros amigos: mesmo as Olympus do formato micro 4/3 dão lições de qualidade de construção às reflex da Canon e da Nikon. Há algumas semanas aconteceu-me mexer numa câmara do segmento médio/superior de um destes fabricantes. O barulho do obturador - cujo botão é, evidentemente, de plástico - denuncia uma qualidade de construção que é superada por muitas compactas. É uma orgia de plástico - e do mais fatela que existe à superfície da terra. Há baldes e alguidares feitos com plásticos melhores. E já nem falo da questão da obsolescência programada, que tem por efeito que estas câmaras sejam feitas para durar não mais que 4 ou 5 anos.
O domínio da Canon e da Nikon tem ainda o efeito perverso de pôr na sombra outras grandes câmaras DSLR, tão boas ou melhores que as Canikon: as Pentax e as Sigma. A Pentax K-5 é por muitos considerada a melhor reflex da sua categoria (compete com a Canon 60D e a Nikon D7000), mas... não é uma Canikon. E a Sigma usa a tecnologia mais inteligente que conheço: o sensor Foveon. Mas o amador, para não se sentir embaraçado em frente dos seus amigos e dos informáticos de lojas de material fotográfico por não ter uma Canon ou uma Nikon, ignora estas câmaras, o que é uma enorme injustiça. (Note-se que não me refiro aqui às reflex da Olympus, porque têm um handicap notório em relação à concorrência no seu sensor 4/3, nem às da Sony, porque esta foi a marca que matou a minha predilecta Minolta...)
Há outra consequência nociva, mas esta só afecta quem frequenta fóruns de fotografia: a Canon e a Nikon têm fãs verdadeiramente ferozes que passam o tempo a insultarem-se uns aos outros e a usar argumentos ridículos para afirmar a superioridade da sua marca predilecta em relação ao modelo equivalente da outra. Se pensam que os tipos das claques do Porto e do Benfica são umas bestas, leiam os comentários aos artigos sobre lançamentos de câmaras da Canon ou da Nikon no DPReview. Vão ficar surpreendidos!
O meu vaticínio é que, dentro de alguns anos, apenas as reflex profissionais e semi-profissionais, com sensor full frame, farão sentido. Os profissionais com trabalhos mais exigentes, como os repórteres ou os fotógrafos de casamentos, continuarão a necessitar de câmaras como estas, mas o segmento inferior será tomado pelas mirrorless, para as quais os sensores APS-C terão migrado, enquanto os estúdios e os profissionais para quem os valores ISO muito elevados não são uma preocupação usarão câmaras de médio formato como a Pentax 645D. Como isto constituirá uma redução substancial na quota de mercado, o duo Canikon virar-se-á para as mirrorless - mas não com o perfeito disparate que é a série 1 da Nikon. Não é preciso ser o Professor Mambo para prever isto.  

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Mais impressões: sequência

Desta vez apenas demoraram dois dias a chegar. Foi com alguma ansiedade que hoje, sexta-feira, 25 de Maio de 2012, fui buscar as impressões que encomendei na quarta-feira.
Não devia ter-me entusiasmado. Se me tivesse mantido mais frio, ter-me-ia poupado uma desilusão. As impressões estão muito boas, mas porções substanciais das imagens foram cortadas, não sei porquê. Todas as fotografias, excepto uma, ficaram amputadas da sua composição original. Paguei-as e trouxe-as, mas não sem deixar bem claro que não pode haver erros destes nas próximas impressões. Mesmo sendo certo que as impressões não foram caras, nada justifica este mutilar das imagens.
De resto, estas novas impressões confirmam tudo o que disse no texto de quarta-feira: a qualidade da imagem das Olympus é pensada em função das impressões, e não da visualização no monitor. Níveis de pormenor que não aparecem no computador são mostrados de uma maneira surpreendente nas impressões - mesmo nos planos distantes de fotografias feitas com grande-angular. Já devo ter escrito isto, mesmo que através de palavras diferentes, mas estas impressões são uma bofetada na cara de todos os que tentam amesquinhar a qualidade da imagem do formato micro 4/3. Pelo menos a das Olympus.
E fica também confirmada a enorme resolução de uma objectiva que é o patinho feio da família Zuiko: a 17mm/f2.8 Pancake. Esta lente humilde é capaz de resolver pormenores que, atentas as limitações da visualização no monitor, pareciam não ter sido bem captados. Por exemplo, uma das fotografias cuja impressão encomendei é a de uma criança que andava de skate nas imediações da Casa da Música: a textura porosa da pedra usada no pavimento surge, nesta fotografia a preto-e-branco, com uma nitidez espantosa. 
Cinco das seis fotografias impressas foram feitas com a Pancake; a outra foi feita com a OM de 50mm/f1.4. E que prodígio que esta lente é! À resolução e nitidez (desde que bem focada, evidentemente) junta cores saturadas e vivas, mas correctas e fiéis àquilo que vemos, e uma profundidade de campo de que só uma lente verdadeiramente rápida é capaz: o bokeh é simplesmente maravilhoso!
Devo também referir o seguinte, mesmo que, aparentemente, patenteie uma incoerência muito pouco macedónica: todas as fotografias agora impressas, à excepção de uma, foram processadas com o DxO Optics Pro 7. Escolhi as versões tratadas com este programa depois de as comparar com os JPEGs obtidos com o Olympus Viewer e com o Lightroom. As vantagens de usar este software, que me pareciam escassas ao ver fotografias no computador, tornaram-se evidentes com a impressão. O que me pareceu um exagero nas altas luzes é, afinal, nem mais nem menos do que aquilo que a câmara captou. E não é impossível atenuá-las, apenas não é tão simples como com o Lightroom 4. Com o Pro 7, obtive imagens praticamente isentas de ruído - a redução do ruído é menos invasiva que a do Lr4 - e com uma gama dinâmica extensa - mesmo com JPEGs. Vou mais longe: o Pro 7 faz milagres com os JPEGs. Talvez venha a adquirir este software, agora que as impressões mostraram o que ele pode fazer pelas fotografias - mesmo que isto esteja em completa contradição com o que escrevi sobre este programa em textos anteriores. O Pro 7 é verdadeiramente excelente.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A minha câmara ideal

Se pudesse ter uma câmara feita à medida, só para mim, seria uma DSLR pequena e transportável, como a Olympus Pen FT d'antanho, mas digital. Digital porque não quero ter incerteza nos resultados nem despesa com revelações, e quero ter o nível de controlo que as câmaras digitais e a edição da imagem me dão. Esta câmara não seria uma mirrorless: teria um sistema engenhoso de espelho e porroprisma, como a Olympus E-330 ou a Pen FT, para conduzir a luz a um visor óptico, e teria o sensor Foveon da Sigma SD1. Porque este é o sensor mais genial, e também o de maior resolução e o mais neutro e preciso na captação de cores. O processador podia ser o mesmo da SD1, ou então o TruePic VI das Olympus E-P3 e E-M5.
E seria totalmente despida de distracções, como os modos «criativos» das compactas, a detecção de olhos, os filtros artísticos e outras palermices que de nada servem a quem quer ter o controlo da imagem. Evidentemente, não teria vídeo. Para que é que as câmaras digitais têm vídeo? Quem gosta de vídeo deve comprar uma câmara de vídeo! Em contrapartida, teria os modos de exposição avançados, o célebre PASM. Talvez dispensasse o modo P, agora que praticamente não o uso por descobrir que tenho melhores resultados, na fotografia de rua (única circunstância em que usava o modo P), usando a prioridade à abertura. Evidentemente, teria controlo da medição e do equilíbrio dos brancos e fotografaria em formato raw e em JPEG. E talvez em DNG. Teria um visor óptico TTL, mas não teria flash incorporado, e teria um valor ISO baixo. O limite seria de 800 ou 1600, porque não preciso de mais. O que precisava era que o ruído de fundo (noise floor) fosse intrinsecamente baixo. Não me interessam valores ISO da ordem das centenas de milhar; interessa-me não ter nenhum ruído a ISO 100.
Por outras palavras: seria uma câmara minimalista, completamente orientada para a fotografia e capaz de imagens da mais alta qualidade. É evidente que esta seria uma câmara cara, porque a sua procura seria reduzida - possivelmente só teria um comprador: eu... - e seria impossível realizar economias de escala. Quanto às lentes, podia ter uma baioneta Canon: deste modo teria uma verdadeira cornucópia de boas lentes ao meu dispor: Canon, evidentemente, mas também Sigma, Tokina e Tamron.
E o corpo? Este estaria algures entre a Fujifilm X-Pro 1 e a Leica M9. Mais elegante do que a primeira - e menos descaradamente «pequena Leica» - e mais compacta que a segunda. Os leitores mais atentos terão reparado que seria uma falsa rangefinder, porque, apesar de ter os princípios ópticos de uma DSLR, o visor situar-se-ia no lado superior esquerdo do painel traseiro. A minha câmara - eu não teria dinheiro para a comprar, mas decerto oferecer-me-iam uma ou duas por ter sido o seu conceptor... seria feita de metal branco, evidentemente, e revestida de couro preto. Bonita e elegante como eram as câmaras do início dos anos 70, antes das obsessões ergonómicas que redundaram nas linhas derretidas das DSLR actuais.
Sonhos...

Velocidade furiosa

Por vezes o fotógrafo iniciado pode ser acometido de grande perplexidade diante do jargão fotográfico. Já nem falo do facto de, para efeitos de equilíbrio dos brancos, o vermelho ser uma cor fria e o azul pálido uma cor quente, ou de a abertura maior ser referenciada por um número menor do que uma abertura estreita - porque estas aparentes incongruências têm uma explicação. A perplexidade manifestar-se-á quando lêem ou ouvem falar de lentes rápidas. Como é que uma lente pode ser considerada rápida? O que é isso de uma lente rápida?
Uma lente rápida é uma lente com um bom valor de abertura máxima (que, como sabemos, é representada por um número f baixo). Uma lente 1.4 é mais rápida que uma lente 2.0 e esta é mais rápida que uma lente 3.5. O facto de se referir certas lentes como rápidas, lentas ou assim-assim tem que ver com o facto de uma lente capaz de grandes aberturas permitir o uso de velocidades do obturador bastante altas. Ainda ontem me referi à relação de reciprocidade entre a abertura e a velocidade do obturador: quanto mais baixa for a primeira, mais elevada pode ser a outra. Com uma lente na abertura f1.4 é possível obter velocidades de disparo da ordem dos 1/1000 sob céu nublado. É isto que se entende por rapidez da lente.
Voigtländer Nokton 25mm: abertura máxima de f0.9!



A rapidez de uma lente é uma característica importante. Com uma lente rápida é possível usar velocidades de disparo elevadas em condições de luz abaixo das ideais sem ter de recorrer a um tripé, ao flash ou a sensibilidades ISO muito altas. Por outras palavras, é possível fotografar, nessas condições de luz, sem que as fotografias fiquem tremidas quando seguramos a câmara com as mãos. A outra vantagem das aberturas amplas é o estreitamento da profundidade de campo, que facilita a obtenção do bokeh e a focagem selectiva. A desvantagem é que, quando se usam estas lentes na abertura máxima, as imagens podem ficar algo baças, com cores planas, mas este é um problema que só se manifesta com aberturas da ordem dos f1.4 ou f1.8. Reduzir um pouco a abertura resolve o problema.
Há lentes que, pela sua natureza, são mais lentas que outras: os zooms, especialmente os de grandes distância focal, pertencem a esta categoria. Tecnicamente, é possível fabricar zooms rápidos, mas são de tal maneira caros que a sua aquisição se torna proibitiva. E são grandes e pesados, pelo que uma das grandes vantagens das lentes rápidas - dispensar o tripé - desaparece por completo. Daqui resulta que a maioria dos zoom disponíveis tenha aberturas máximas que podem ser consideradas medíocres, da ordem dos f4 ou f4.5.
Hoje há uma verdadeira mania das lentes rápidas, e o valor da abertura máxima é usado como argumento de venda por muitos fabricantes. A rapidez, contudo, é apenas uma das qualidades de uma lente. Há lentes que, não sendo tão rápidas, são contudo excelentes, não devendo ser ignoradas. Um exemplo que posso dar é o da OM 28mm/f3.5: esta lente tem uma nitidez e uma apresentação das cores de tal ordem que se torna fácil esquecer que a sua abertura máxima é apenas f3.5. Não é uma lente diminuída por ser menos rápida que outras. Tudo depende da utilização que se lhe quiser dar: esta não é a lente que uso quando quero diminuir a profundidade de campo - é uma grande-angular, embora se comporte como uma standard montada na minha câmara, e as grande-angulares são concebidas para manter todos os planos focados -, nem é a ideal para fotografar com pouca luz - mas, dentro da sua gama de utilização, é uma objectiva absolutamente excepcional. Nem sequer a posso comparar com a minha outra OM, a rapidíssima 50mm/f1.4, porque a utilização que dou a ambas é completamente diferente.
Nada disto contradiz o facto de a rapidez ser uma característica desejável numa lente. Apenas reitero que a rapidez não é a única qualidade a procurar quando se escolhe uma objectiva. Há lentes, como as SLR Magic e as Lensbaby Toy Lens, que têm aberturas enormes, mas têm tão pouca nitidez que não chegam a ser mais do que a denominação deste último modelo sugere: brinquedos. Uma OM com uma abertura máxima de f3.5 ou f4 é infinitamente melhor. A minha recomendação é que se use o critério da velocidade com um grão de sal e não se use como factor exclusivo de escolha de uma objectiva - embora, repito, seja uma característica que se deve procurar.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Uma DSLR não é um monstro!

É mais fácil do que parece à primeira vista...
Eu não tenho uma DSLR. Em parte por opção, porque nunca gostei deste tipo de câmara, mas também por constrangimentos económicos. Tenho uma Olympus E-P1 - o que, por esta altura, já não deve ser novidade para ninguém... - e, mesmo assim, só a pude comprar por me ter surgido um negócio daqueles que nos impelem a pensar é agora ou nunca. A E-P1 não é, ao contrário do que li num comentário a um artigo da DPReview, uma point-and-shoot incensada: é uma câmara evoluída que permite o mesmo grau de controlo da exposição que uma DSLR. O facto de ser pequena e sexy não significa que seja fútil, ou tecnicamente limitada como o é a maioria das compactas. Com a E-P1 posso fotografar no modo manual ou dar prioridade à abertura e ao disparo, posso escolher o modo de medição e fazer muitas outras coisas que as compactas não permitem e que os utilizadores de DSLRs conhecem bem.
Não é de surpreender que eu seja capaz de pegar num maquinão e descobrir como se fazem fotos com ele sem necessidade de consultar o manual: é que todas as câmaras evoluídas funcionam de modo igual, com os mesmos comandos e segundo os mesmos princípios, que se mantêm essencialmente inalterados desde a criação das primeiras máquinas. O necessário é compreender o seu funcionamento. As câmaras captam luz; o mero facto de se compreender isto é já um começo para entender como funciona uma DSLR (ou qualquer outra câmara evoluída, seja ela uma mirrorless ou uma Leica M9). É ao fotógrafo, e não à câmara, que compete determinar qual a quantidade de luz que vai penetrar através da lente e ser capturada pelo sensor. Esta quantidade denomina-se exposição. Compreender a exposição é essencial para entender a câmara.
E não é assim tão difícil entender a exposição. Ela depende - esquecendo, por agora, o ISO, que deve ser sempre mantido tão baixo quanto possível, desactivando o seu funcionamento automático - de dois factores: a abertura, que determina a capacidade da lente para captar luz, e a velocidade do obturador - que é o tempo durante o qual a câmara vai absorver a luz. (A luz entra pela objectiva, razão pela qual é tão importante remover a tampa desta antes de começar a fotografar...) A abertura e a velocidade do obturador funcionam entre si numa relação de reciprocidade: a uma maior abertura deve corresponder uma maior velocidade do obturador, e vice-versa, para manter a exposição correcta. Exemplificando: a uma abertura de f2.8 corresponderá, digamos - dadas certas condições de luz -, uma velocidade de disparo de 1/640; se diminuirmos a abertura para f8 sob a mesma luz, a velocidade do disparo terá de ser baixada para 1/100; e, se usarmos f16, a velocidade deverá ser reduzida para 1/30 - tudo isto para manter a mesma exposição. Não é necessário ter o tipo de conhecimento dos fotógrafos da era da fotografia analógica pré-medição para dominar a exposição: as DSLR têm a gentileza de nos mostrar um indicador de exposição, que pode ser visto na base do visor (igual ao da imagem acima, no lado esquerdo). A exposição ideal dá-se quando o ponteiro desse indicador está no zero, que é como quem diz no meio da régua. Se o ponteiro estiver para a esquerda, a imagem está sub-exposta: vai ficar escura. Se estiver para a direita, a imagem ficará sobre-exposta, o que é o mesmo que dizer com luz a mais. Isto tem implicações na qualidade e apresentação da imagem: numa fotografia sub-exposta, os pormenores ficarão escondidos nas zonas de sombra. Inversamente, a imagem sobre-exposta vai ocultar os detalhes debaixo de uma claridade que não é natural, e vai dessaturar as cores e provocar perda de definição.
É estupidamente simples controlar a exposição. Tomemos o exemplo de uma Nikon D7000, que, não sendo uma câmara profissional, já é bastante evoluída em relação a uma câmara de acesso: no modo M (controlo manual da exposição), roda-se o comando circular situado no punho, logo abaixo do botão do disparo, para regular a abertura, e um comando idêntico existente na parte superior direita do painel traseiro para controlar a velocidade do disparo. Depois é só rodar um e outro até o ponteiro do mostrador da exposição ficar no zero. Não consigo encontrar uma forma mais simples de descrever isto. Claro que há muitas variáveis possíveis, dependendo da intenção do fotógrafo: se este quer uma profundidade de campo menor, por ex. para desfocar o segundo plano, usa uma abertura grande (a que corresponde um número f pequeno), o que aumenta a velocidade do obturador; se quer provocar um efeito de arrastamento, usa uma velocidade do obturador diminuta, estreitando a abertura. Sejam quais forem as circunstâncias, o mostrador da exposição está ali com um propósito: o de não o deixar fazer fotografias com uma exposição deficiente. Não sei o que isto tem de complicado.
No entanto, há quem se deixe intimidar pela aparente complexidade de uma câmara reflex. Tenho um amigo que comprou uma Canon 1000D e praticamente deixou de fotografar por pensar que é demasiado complicada. E, quando fotografa, fá-lo no modo automático, o que equivale a participar numa corrida de ciclismo com uma bicicleta equipada com aquelas rodinhas auxiliares das biclas dos miúdos. E, contudo, basta rodar dois simples botõezinhos e observar o movimento de um ponteiro para começar a fotografar correctamente nos modos de exposição avançados. E quase me esquecia de referir que o que escrevi até agora diz respeito ao modo de exposição manual, mas a dificuldade (que, como vimos, não é nenhuma) de controlar a exposição pode ser reduzida para metade se forem usados os modos A ou S (Av ou Tv nas Canon e Pentax), casos em que a câmara se encarrega de escolher, respectivamente, a velocidade do obturador ou a abertura mais apropriados. Ambas são úteis para situações especiais: certos resultados dependem de uma dada abertura ou de velocidades de disparo diferentes das normais. O congelamento e o arrastamento requerem velocidades altas ou baixas, respectivamente; a focagem selectiva exige aberturas grandes. Mas isto já é para fotografadores mais experimentados: o que importa, para já, é familiarizar-se com a DSLR e com a maneira como esta funciona.