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terça-feira, 24 de julho de 2012

Do fanatismo

O lançamento da Canon EOS M foi acompanhado por muitos milhares de pessoas - como seria de esperar de uma câmara que é a primeira do seu género de uma marca tão importante como é a Canon. As reacções que suscitou, que podem ser lidas na Internet, têm a particularidade de trazer a público um dos piores defeitos da espécie humana - o fanatismo.
Eu dou-me muito mal com fanatismos. Discussões entre portistas e benfiquistas fazem-me fugir, tal como os argumentos trocados entre fanáticos de Fernando Alonso e de Lewis Hamilton. Levando isto para uma escala planetária, sinto vergonha de ver os argumentos que liberais e conservadores esgrimem a propósito das eleições presidenciais americanas, e ver o fanatismo religioso, esse atavismo da Idade Média, florescer no Século XXI, é algo que a minha compreensão não consegue abranger.
Do mesmo modo, não concebo nem sinto qualquer simpatia por fanatismos em torno de marcas de equipamento fotográfico. É ridículo, e de uma futilidade inconcebível, que se sinta um fervor apaixonado pela Canon, Nikon, Olympus, Pentax ou Panasonic. Contudo, e a despeito de podermos estar a incensar accionistas e CEOs corruptos, gananciosos e desprezíveis quando idolatramos uma marca de equipamento fotográfico, este existe; milhares de fanáticos insultam-se e rebaixam-se diariamente na Internet, trocando argumentos irracionais e infantis para justificar a pretensa superioridade da sua marca de eleição sobre todas as outras. Os canonistas vociferam contra a Nikon, os Nikonianos lançam pedras (verbais) aos canonistas, os olympianos e pentaxistas desdenham aquilo a que chamam «Canikon» e recebem em troca outras verberações.
A irracionalidade atinge dimensões tais que aquilo que há três anos eram defeitos redibitórios são hoje virtudes justificadas por argumentos falaciosos. Quando a Olympus E-P1 foi lançada, em Junho de 2009, foi ridicularizada pelos fanáticos de outras marcas - incluindo, obviamente, os canonistas - por não ter flash nem visor incorporados; agora que a Canon lançou uma câmara mirrorless sem visor nem flash, esta ausência é considerada uma opção «inteligente»! Repito: isto é ridículo. O fanatismo rebaixa os fanáticos a um estatuto primitivo, fá-los fazer figura de parvos em público e priva-os de qualquer respeito ou simpatia que os outros pudessem nutrir por eles. Ontem senti-me desgostoso por ver gente que sempre admirei e respeitei comportar-se pior do que o pior dos fanáticos para tentar justificar uma câmara indefensável como a Canon EOS M, e isto criou em mim uma consciência aguda e crítica dos perigos do fanatismo.
Uma câmara é apenas uma câmara. É o veículo, o instrumento que nos permite exprimir a criatividade fotográfica. Compreendo que se seja um apaixonado da fotografia e se procure mergulhar durante horas na Internet em busca de informação sobre Ansel Adams, Steve McCurry, Helmut Newton ou Annie Leibovitz, que se adquiram livros sobre fotografia e que, de um modo geral, se viva imerso na fotografia; compreendo, também, que se queira explorar até ao limite as capacidades do equipamento, e hoje sou muito mais aberto à edição de imagem do que há um ano; compreendo, deste modo, que se despendam horas sem fim modificando curvas de tons, adicionando contraste local ou alterando os valores das altas luzes e das sombras para tornar as fotografias melhores. O que não posso, de modo algum, compreender é que se usem argumentos infantis para justificar as opções de um fabricante de equipamento, ou para afirmar a pretensa superioridade de uma dada câmara sobre as suas rivais.
Não sou fanático. Adquiri a minha câmara por gostar das suas linhas, e não por ser uma Olympus. Comprei-a depois de me assegurar que a sua qualidade de imagem era elevada, e estava perfeitamente consciente dos seus defeitos e limitações. Estes não me pareceram obstáculos ao uso que iria fazer dela, pelo que não impediram a minha aquisição. Sei que a minha câmara tem defeitos: a falta de um visor, ou de um dispositivo para montar um visor electrónico, é um deles; pior ainda, porém, são o ruído e a tendência para estourar as altas luzes. Contudo, prefiro extrair a melhor qualidade possível da minha E-P1 a obcecar-me com a compra de uma câmara nova que não apresente estes problemas. Se não fosse o facto de ter cinco lentes para o formato micro 4/3, olharia para outras marcas no momento de comprar uma câmara nova (momento que espero estar ainda bem longe). O que é verdadeiramente importante é que o meu equipamento me sirva para fazer as fotografias que quero, mesmo que tenha de contornar os problemas da câmara com recurso a meios exteriores à própria câmara - o que faço com o uso do melhor e mais sofisticado software de edição de imagem que conheço. Nunca me atreveria a insultar os que têm câmaras de outras marcas, como muitos fazem, a despeito de ser muitas vezes atingido pela sobranceria dos fanáticos com os seus comentários ignorantes sobre a inferioridade teórica de um sensor pequeno. (As discussões sobre tamanhos de sensores são tão disparatadas como as comparações que os rapazes púberes fazem da sua genitália; nisto, como na fotografia, o que importa é o que se faz com o material que Deus - ou a Pixmania... - nos deu.)
Por vezes, quando fotografo, sou confrontado com os olhares desdenhosos de gente que traz ao pescoço DSLRs topo-de-gama (ou nem isso...) da Canon e Nikon. Não me afecta. É até possível que essas pessoas sejam fotógrafos perfeitamente medíocres, sem um conteúdo que se aproveite nas suas fotografias e sem perseguirem uma ideia ou um conceito pessoal de fotografia; estarão, porventura, mais preocupados em fotografar com valores ISO astronómicos ou em fazer múltiplas fotografias de um objecto desinteressante usando várias opções técnicas. É com eles. Por mim, prefiro fazer fotografias, e não testar o equipamento. (O que noto, por seu turno, é que os bons fotógrafos que conheço não têm nenhum gosto particular em ostentar o seu equipamento: apenas usam o melhor material que podem comprar, porque só esse corresponde aos seus critérios de qualidade.)
Este texto foi escrito enquanto ouvia música tranquilizadora (o maravilhoso álbum Twist Again, dos americanos Bodies of Water, que eu não sou adepto de música new age nem de Kenny G...), para tentar evitar que as minhas considerações sobre os fanatismos se tornassem demasiado amargas ou exaltadas e atingir alguém em particular com as minhas palavras. Porque o fanatismo dos fanboys, a sobranceria dos possuidores de DSLRs em relação a quem tem equipamento que consideram inferior, e a infantilidade e frivolidade dos amantes da tecnologia fotográfica produzem-me, por vezes, reacções viscerais. E eu não quero ser igual a essa gente. O que eu quero é fotografar; quero exprimir em imagens a maneira como vejo as coisas, os meus ideais estéticos e os meus conceitos de fotografia. O resto é acessório. O equipamento é necessário, mas é apenas um conjunto de elementos mecânicos, electrónicos e ópticos; não é nada que mereça que nos rebaixemos e nos comportemos como criaturas tolas, intolerantes, sobranceiras e irracionais.      

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Novidades da indústria fotográfica: uma point and shoot com lentes amovíveis

Mal consigo exprimir a minha desilusão com a Canon EOS M, a mirrorless da Canon apresentada hoje. Depois de tanta expectativa, imaginei que tinha surgido a câmara que iria dizer a última palavra sobre como deve ser uma mirrorless. Enganei-me. Não se pode dizer que a montanha pariu um rato: é mais o planeta pariu uma formiga. (Ou a galáxia pariu uma pulga.)
Há pouco mais de três anos, os fanboys da Canon entretinham-se a ridicularizar a Olympus E-P1 por não ter visor nem flash integrados. Agora a Canon lança uma câmara que não só não tem aqueles componentes como nem sequer se dá ao respeito de oferecer um comando de modos de exposição. E a Canon EOS M custa mais do que custava a E-P1 quando esta última foi lançada. Do ponto de vista estético, pôr as duas câmaras lado a lado é como pôr um Mercedes SLK ao lado de um Fiat Punto: a Canon tem a estética das compactas PowerShot.
Então esta câmara, cuja única novidade significativa são os pontos de fixação da alça, serve para quê e para quem? Em termos de controlos exteriores, ela é tão despojada como a Olympus E-PM1 e a Panasonic GF5, mas as suas baterias estão assestadas à Nikon J1, contra a qual a Canon opõe um sensor de área decente (APS-C). Contudo, fá-lo a um preço que está muito para além das Micro 4/3 equivalentes e se aproxima de outras mirrorless com sensores da mesma área, como as Sony NEX. A minha previsão é que esta câmara vai vender como pãezinhos quentes por ser uma Canon. A fidelidade canina dos canónicos vai levá-los a correr até à loja mais próxima para encomendar um exemplar, e aposto que a Amazon está entupida com reservas neste preciso momento. Só por ser uma Canon - tal como as Nikon 1 vendem bem por serem Nikons.
E que vão os compradores encontrar quando a caixa lhes chegar às mãos e a abrirem? Uma câmara com um sensor grande, mas com a oferta de apenas duas lentes específicas para o novo formato. Como a distância entre a parte posterior da lente e o sensor é mais pequena que nas reflex, sendo a baioneta menor em diâmetro, as lentes concebidas para as DSLR não podem ser montadas directamente, mas apenas por via de um adaptador que pode ser adquirido em conjunto com a câmara. A Canon comete, deste modo, o mesmo erro que a Sony, que fica a perder em comparação com a Panasonic e a Olympus por causa da escassez e da falta de qualidade das lentes. E vão encontrar uma câmara que se manuseia como uma point and shoot, com o acesso às funções a ser feito quase exclusivamente através do ecrã táctil (algo que só apela aos inermes).
Isto significa que esta é uma câmara para pessoas desiludidas com a fraca qualidade de imagem das compactas que querem evoluir para algo melhor, mas se sentem intimidadas perante aquilo que imaginam ser a complexidade e dificuldade de manusear uma DSLR. É possível que a Canon venha mais tarde a apresentar uma mirrorless decente, mas para já a EOS M é uma enorme frustração. É uma câmara que terá, no mínimo, a qualidade de imagem da 650D, com a qual partilha o sensor e o processador, mas o mais provável é que venha a ser adquirida com a lente 18-55, por pessoas que nunca usarão qualquer outra lente com esta câmara e nem sequer sabem que se pode montar outras lentes - e que só usarão a câmara no modo AUTO. Tal como acontece com as Sony NEX 3 e 5 (a NEX 7 pertence a outro campeonato). 
Esta câmara é demasiado cara para aquilo que oferece. Os seus potenciais adquirentes fariam melhor em procurar compreender como se usa uma câmara e adquirir uma 1100D ou uma 650D, que lhes ficará mais barata e lhes dará muito mais controlo e versatilidade. Parece-me fácil concluir que a Canon lançou esta câmara com o único propósito de combater as mirrorless da Nikon, usando o argumento do tamanho do sensor para incrementar as vendas. É a guerra Canon-Nikon levada para o campo de batalha das mirrorless...    

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Novidades da indústria fotográfica: uma câmara para idiotas e a mirrorless da Canon

Os programadores das câmaras e os técnicos de marketing dos fabricantes continuam a sua cruzada para transformar os consumidores em idiotas completos. Não sei que ideia fazem eles de quem compra uma câmara, mas seja qual for, está errada. Os fotógrafos casuais querem fotografias que reproduzam momentos significativos das suas vidas, de pouco se interessando em ornamentar as fotografias com efeitos que nada têm de naturais, e os amadores com ambições querem ter o controlo completo do processo fotográfico, da programação da exposição até ao processamento. Contudo, alguns fabricantes insistem em atulhar os processadores das câmaras com «filtros» e efeitos ditos criativos.
Alguns destes «filtros» chegam a ser ridículos, e levantam a questão de saber se quem os concebeu imagina que os potenciais compradores da câmara são todos gente com um QI de dois algarismos. É o caso da novíssima Panasonic G5, uma câmara de formato micro 4/3 apresentada na quarta-feira: esta câmara inclui modos como «Clear Portrait», «Relaxing Tone», «Sweet Child's Face», «Romantic Sunset Glow». «Warm Glowing Nightscape», «Soft Image of a Flower», «Appetizing Food» e «Cute Dessert»! Os meus parabéns à Panasonic por tomar os consumidores por imbecis.

Entretanto...

Ao que parece, na segunda-feira, 23 de Julho, vai ser apresentada - ta-taaaa! - a mirrorless da Canon. Se a fotografia junta não for uma montagem e o factor estético for determinante na aquisição destas câmaras, a Olympus e a Fujifilm não vão ter muito a temer: o seu design lembra as compactas das gamas PowerShot e IXUS, e a super-compacta G1 X tem um ar mais sério do que esta câmara. Os CEOs da Nikon e da Pentax, esses, já devem estar a pensar nas asneiras que fizeram com os lançamentos das suas câmaras «sem espelho». A Canon quis, aparentemente, filiar a nova câmara no sistema EOS - o mesmo das DSLR - e, embora ainda subsistam algumas dúvidas, por força do recente lançamento da G1 X, com um sensor aproximadamente da área dos micro 4/3, parece certo que a mirrorless da Canon terá um sensor APS-C (só assim faria sentido o lançamento recente da lente Pancake 40mm/f2.8, que é compatível com os sensores APS-C e full frame). Esta câmara, que ao que se diz se vai chamar «EOS-M», não parece ter qualquer entrada para montar um visor electrónico, o que pode ser uma desvantagem. Vamos esperar impacientemente até segunda-feira para ver o que vai acontecer.
 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Um formato universal?

Por vezes surgem, no meio fotográfico, lamentos por não haver um formato de sensor predominante, como havia (e há, porque a Nikon ainda faz duas câmaras analógicas reflex) o formato 35 mm na fotografia analógica. Hoje, para além dos sensores das compactas - que são uma irrelevância em matéria de qualidade da imagem - e do médio formato, o panorama é o seguinte: a Canon faz câmaras com sensores APS-C, que são ligeiramente menores que os da concorrência, APS-H - um formato específico, entre o APS-C e o full frame - e full frame; a Nikon tem o sensor CX da série 1, o APS-C fabricado pela Sony (DX) e o full frame FX; a Sony faz sensores APS-C para as suas câmaras, e ainda para a Nikon e Pentax, e a Olympus e a Panasonic insistem nos sensores 4/3 (sendo o sensor da Olympus OM-D E-M5 fabricado pela Sony); a Fujifilm e a Sigma alinham pelo APS-C, com a mesma área que os Sony, mas a última tem também o sensor Foveon, cuja área está entre o 4/3 e o APS-C. Com esta variedade, e sem que existam sinais sensíveis de uniformização, parece seguro dizer-se que o formato «universal» não vai acontecer.
Seria porventura bom que um dos formatos prevalecesse; tal permitiria que a indústria fotográfica avançasse numa só direcção, o que levaria a um desenvolvimento semelhante àquele que as câmaras de 35 mm tinham nos anos 70 e início dos 80. As especificidades técnicas de cada formato seriam eliminadas, o que levaria a uma evolução substancial e a um cenário de concorrência perfeita que não deixaria de ser benéfico para todos os fabricantes - e, sobretudo, para os consumidores.
Contudo, a verdade é que mesmo no tempo da fotografia analógica existia o 135, o 110 e outros formatos mais ou menos atípicos, como o half-frame das Olympus Pen. E, mesmo que um formato de sensor prevalecesse - e o que me parece mais plausível de o fazer seria o APS-C da Sony -, os fabricantes continuariam, como sempre o fizeram, a ter os seus próprios sistemas de montagem das lentes, continuando a oferecer lentes que não podem ser montadas em câmaras de outros fabricantes.
No momento actual, o formato mais abundante é o APS-C; A Nikon, Sony, Pentax, Fujifilm e a Sigma usam todas sensores com a mesma área. Contudo, daqui não se pode inferir que se está a caminho da «universalização» (em sentido impróprio) que existia com o filme de 35 mm, já que cada fabricante aplica as suas próprias tecnologias, e a concorrência da Canon e do 4/3 não dá sinais de se aproximar e de querer o estabelecimento de um padrão. Tudo isto se torna ainda mais complicado com o advento das mirrorless, que, pelas suas dimensões, beneficiam de sensores pequenos.
Se há um sensor que merece tornar-se prevalente, é o full frame. A Leica já provou que não é impossível fabricar câmaras de tamanho conveniente com sensores full frame, embora as objectivas para este formato tenham o inconveniente de ser muito volumosas, tornando-se mais confortável usá-las em câmaras com a ergonomia das actuais DSLR - o que preclude a sua aplicação em corpos compactos como os das mirrorless. E isto obsta à sua universalização, porque os fabricantes vão apostar cada vez mais nestas câmaras. O que é pena, porque hoje há um sensor full frame capaz de uma resolução equiparável ao médio formato - o sensor das Nikon D800 e D800E. O ideal seria uma câmara pequena com este sensor, mas sem os preços das Leica. Será que isto alguma vez vai acontecer?
Por outro lado, é verdade que as grandes evoluções na fotografia aconteceram quando se reduziu o formato - dos médio e grande formato para o 35 mm, e deste para o APS-C. Mesmo sendo certo que essas evoluções foram acompanhadas por uma redução na resolução, o certo é que os progressos que se verificaram aproximaram os formatos recentes dos padrões de qualidade de imagem dos precedentes. Não quero apostar, porque já me enganei a fazer previsões, mas talvez o futuro esteja no formato APS-C, com resoluções na ordem das três dezenas de megapixéis. Vamos ver...

sábado, 7 de julho de 2012

Respeitar o passado

Ontem decidi caminhar, actividade que tenho praticado esparsamente nos últimos tempos. Fui de casa até Miragaia, porque queria fazer fotografia de rua nas arcadas de Miragaia, depois subi até à Praça da República e fui à Rua de Santa Catarina, passando pela Rua dos Mártires da Liberdade. (As fotografias das arcadas não ficaram grande coisa, mas o leitor pode avaliá-las no meu Flickr.) Uma caminhada em que devo ter completado dez quilómetros.
Descobri que na Rua dos Mártires da Liberdade, por onde cortei caminho para chegar até à Praça da República (tinha de resolver um assunto profissional na Rua de Santa Catarina, no quarteirão entre as ruas Gonçalo Cristóvão e Guedes de Azevedo), há duas lojas de material fotográfico: uma, Câmaras & Companhia, comercializa material fotográfico antigo e novo; a outra, Máquinas de Outros Tempos, especializa-se, como o nome sugere, em material usado. Na primeira dessas lojas pude ver ao vivo, pela primeira vez, a famosa antecessora da minha câmara, a Olympus Pen F. Na outra andei à procura de lentes usadas, mas infelizmente não encontrei nenhuma que satisfizesse as minhas necessidades: experimentei uma Pentax fisheye, mas a distância focal equivalente, quando montada na E-P1, é de 34mm, o que impede a distorção característica das fisheye ao endireitar as linhas.
As visitas a estas lojas induziram-me mais respeito pelo passado. Embora a minha escolha seja a fotografia digital, não deixo de sentir o maior respeito por quem opta pela fotografia analógica. Não me sinto tentado a comprar uma câmara analógica - que seria sempre uma Olympus OM, pela razão simples de já ter três objectivas desse sistema - por duas razões: a primeira, de ordem bastante comezinha, é a despesa e as limitações do formato: os rolos não são tão baratos como isso, o número de fotografias que poderia fazer seria limitado (o que decerto me obrigaria a fotografar melhor) e, a estes problemas, acresceria a despesa com a revelação e a espera pelas fotografias.
De resto, demoraria certamente muito tempo a obter resultados satisfatórios. Fotografar com filme obriga a ter um conhecimento preciso da lei da reciprocidade e a saber jogar com a abertura e o tempo de exposição para obter exposições correctas - embora seja certo que as câmaras analógicas mais recentes têm um fotómetro, que indica a exposição correcta. Neste aspecto a fotografia digital é muito mais cómoda e prática: vejo os resultados imediatamente e, se quiser, posso consultar o histograma para saber se a fotografia está correctamente exposta.
Nada disto significa, como disse, que não respeite quem se dedica à fotografia analógica. O material antigo não é necessariamente sucata: as câmaras analógicas duram muito mais do que as digitais, são geralmente mais bem construídas e têm um apelo estético superior (só as Olympus Pen E-P3 e OM-D, as Leica M e as Fuji X100 e X-Pro 1 constituem, actualmente, excepções a esta regra: a E-P1 já não se fabrica há dois anos...). E uma lente antiga, quando em bom estado, pode ser usada com bons resultados cinquenta anos depois de ter sido fabricada. Aliás, as lentes usadas, salvo em alguns aspectos em que são incompatíveis com o domínio digital, são uma excelente opção para quem não pode ou não quer gastar fortunas com objectivas novas, desde que se supere o receio de focar manualmente.
O facto de estas lojas existirem levou-me a especular se não haverá um revivalismo em tudo semelhante ao que existe na indústria discográfica, com o ressurgimento do vinil. Se o houver, parece-me natural, e interpreto-o como uma reacção à ditadura digital em que vivemos, na qual o material fotográfico é cada vez mais temporário e ficou reduzido a uma condição de bens perecíveis. Muitos preferem a segurança de ter bens duradouros, que podem estimar, em lugar de bens que estão destinados a durar alguns anos. De resto, ainda não dou por adquirido que a fotografia digital seja melhor: é certamente mais prática e cómoda, mas tal não significa, necessariamente, mais qualidade. Tal como o som de um CD, por mais upsampling que seja usado, permanece abaixo do que se consegue obter com um bom vinil tocado num gira-discos decente. Há pessoas que preferem a qualidade, em lugar de se deixarem prender nas malhas do consumismo que caracteriza, cada vez mais, os tempos que vivemos. E esta atitude, porque em parte a partilho, merece-me o maior respeito.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

E se...?

E se eu estivesse completamente errado quanto ao futuro das câmaras digitais quando vaticinei que as médio formato iam tornar-se mais pequenas e versáteis, atacando o segmento superior das DSLR? E se este ano tiver sido um ano charneira para as câmaras digitais, por ter sido lançada a câmara que pode moldar o futuro? 
E se esta câmara for uma das melhores de sempre?
A câmara a que me refiro é a Nikon D800E. É a irmã gémea da D800, e nenhuma delas é o topo da gama Nikon; acima delas está a profissional D4 (embora quase possa apostar que muitos profissionais vão preferir a D800E a esta última). As Nikon 800 têm corpos idênticos, os mesmos processadores e partilham o sensor fabricado pela Sony. Este é um sensor full frame (36 X 24 mm) que tem a maior contagem de megapixéis dentro deste formato: nada mais nada menos que 36,3 MP. A diferença entre a D800 e a D800E está na diferente disposição do filtro anti-moiré - ou anti-aliasing - nesta última (v. imagem abaixo). Este filtro serve para evitar a aberração óptica conhecida por moiré (serrilhado), que se verifica quando uma imagem digital é vista em tamanhos diminutos, mas produz os seus resultados introduzindo uma ligeira perda de nitidez nas bordas do objecto de modo a suavizar o aspecto daquelas - o que se repercute, evidentemente, na resolução. O «cancelamento» (termo da Nikon, não meu) do efeito deste filtro aumenta a resolução, com a contrapartida de tornar as imagens mais vulneráveis ao aparecimento do moiré (v. aqui) e de cores falsas.
Este número astronómico de pixéis teve uma consequência curiosa - tornou obsoletos alguns programas de edição de imagem, incapazes de lidar com uma resolução tão alta. Alguns tiveram de ser evoluídos especialmente para ir ao encontro da resolução da Nikon 800E. Mais importante, porém, é que estes 36 MP colocam a câmara no território das câmaras de médio formato. Estas câmaras estão por regra dentro de estúdios, dado o seu volume mastodôntico (as excepções são a Pentax 645D e a Leica S2, que, além de maiores, são mais caras que a Nikon D800E). Isto significa que podemos ter aqui uma câmara quase com o mesmo nível de resolução que as médio formato (que têm uma resolução à volta dos 40 MP), mas com uma versatilidade acrescida.
O único problema que um sensor com este nível de resolução poderia apresentar (para além da possibilidade de encher o disco rígido de um computador normal três ou quatro vezes mais rapidamente...) seria o nível de ruído aparente nas imagens. A relação sinal-ruído é, teoricamente, mais desfavorável do que a de uma câmara como a Canon 5D MkIII - há mais pixéis para a mesma área -, e a verdade é que o desempenho desta última com valores ISO elevados é melhor, mas os problemas de ruído da Nikon começam a ISO 6400, valor a partir do qual a Canon ganha vantagem. Simplesmente, essa vantagem não é esmagadora. De resto, uma sensibilidade como esta é insusceptivel de ser usada nas situações mais comuns. ISO 6400 é um valor extremamente elevado, mesmo se atendermos à tendência de alguns amadores para fotografar à noite segurando a câmara com as mãos, usando sensibilidades ISO altíssimas como se fossem um substituto do flash. Pelo que esta não é uma verdadeira limitação. ISO 6400 é uma exorbitância!
É possível que a Nikon D800E prefigure o futuro das câmaras digitais. É até plausível que um fotógrafo profissional só veja vantagens no seu uso em relação a uma câmara profissional, que é maior, mais pesada, mais cara e tem menor resolução. Resta saber o que fará a concorrência - entendendo-se como tal a Canon - perante uma câmara que pode vir a mudar a face da história da indústria fotográfica. A sua resolução é simplesmente incrível; contudo, há ainda um pequeno pormenor que importa corrigir - o surgimento de cores falsas (especialmente em RAW), consequência inevitável da disposição especial dos filtros anti-moiré desta câmara. Se este problema for corrigido - embora um bom programa de processamento de imagem remova facilmente esta aberração: no DxO Pro 7 basta carregar numa quadrícula -, esta pode ser a câmara do futuro: uma profissional a preço de uma câmara para entusiastas, com uma resolução equiparável a uma Hasselblad. Que tal?

domingo, 3 de junho de 2012

Obsolescência programada

Todos sabemos que os bens que adquirimos hoje em dia são concebidos para durar pouco. Esta é uma consequência óbvia de uma sociedade apodada, com toda a propriedade, «de consumo», e é o resultado de um ciclo vicioso: para manter níveis de produção elevados, de maneira a manter os lucros das empresas, há que criar necessidades novas junto dos consumidores; estes, ao adquirir os bens, forçam à redução do preço, o que se repercute na qualidade. É por esta razão que, se espreitarmos o painel inferior da nossa câmara, é forte a probabilidade de vermos um selo dizendo made in China, ou made in Thailand. E é também esta a razão pela qual a câmara começou a dar alguns problemas ao fim de dois ou três anos.
Claro que nem tudo é mau nesta espiral consumista: os preços baixos permitem-nos adquirir bens que, há alguns anos atrás, nos seriam inacessíveis. Simplesmente, isto tem um preço bem mais caro do que aquele que pagámos pelo mesmo bem: este é feito para durar pouco, pelo que ao fim de algum tempo terá de ser substituído. O que, bem vistas as coisas, resulta na anulação da poupança que efectuámos. Se comprarmos um bem (um corpo Leica, por ex.) por €5.000,00, há a forte probabilidade de nos durar, digamos, vinte anos; se comprarmos um corpo de uma reflex por €1000 e o tivermos de substituir ao fim de quatro anos, teremos gasto os mesmos €5.000,00 ao longo do mesmo período. Pelo que a poupança feita com o baixo preço é meramente ilusória.
Além disto, os preços são tremendamente inflacionados. Mesmo quando são aparentemente baixos, os bens de carácter tecnológico lançados para o mercado têm preços que visam amortecer os custos de investigação e desenvolvimento, o que significa que mais tarde, quando estes custos estiverem compensados, os mesmos bens custarão uma mera fracção do preço inicial. Muitos adquirentes iniciais sentir-se-ão chocados por ver que um computador portátil que lhes custou €800,00 está à venda, um ano mais tarde, por metade do preço.
Outros problemas que esta sociedade de consumo levanta são de natureza ética - desde a repulsa pelas condições de trabalho nos países do outsourcing como a China, o Vietname ou a Tailândia, até à cupidez sem limites dos especuladores e CEOs que nos trouxe à crise que vivemos, mas isto extrapolaria em muito o âmbito deste blogue (embora eu considere que o fotógrafo deve ser um cidadão consciente e tão alerta para estas questões como o é para os enquadramentos inesperados que descobre quando está a fotografar). Ora, a indústria fotográfica não escapa a esta lógica da obsolescência programada. Esta manifesta-se, sobretudo, na duração do obturador, que é, na melhor das hipóteses, de 140 000 fotogramas (Nikon D3). O obturador da nova Olympus E-M5 dura 100 000 disparos «garantidos». 100 000 fotos é uma enormidade para um amador - eu fiz cerca de 7500 no primeiro ano com a minha E-P1 -, mas não para um profissional ou semi-profissional. Substituir o obturador é tão caro que ninguém vai querer fazê-lo em caso de avaria, preferindo comprar uma câmara nova que terá mais megapixéis, melhor gama dinâmica, menos ruído e outras inovações que tornarão a câmara anterior numa peça arqueológica - mesmo que tenha sido comprada há dois anos e fosse uma câmara de ponta quando era nova.
Estes são os engodos dos fabricantes para que continuemos a alimentar a maquinaria que mantém a sociedade de consumo em movimento. Infelizmente, não há muito que possamos fazer para contrariar este statu quo - pelo menos enquanto não construirmos uma consciência colectiva que nos leve a reagir contra os vícios desta sociedade. Adquirir uma câmara e lentes fabricadas em países onde se respeitam os direitos humanos e laborais, com padrões de qualidade e durabilidade elevados, sai caro. É a lei da oferta e da procura em funcionamento. Claro que, se não houvesse tanta gente a comprar câmaras fatelas, as boas câmaras seriam mais baratas porque haveria mais gente a comprá-las, mas a democratização da fotografia, que leva os fabricantes a produzir câmaras com especificações avançadas por preços que seriam impossíveis há dez anos atrás, não é nada de mau ou reprovável: é a realidade que se esconde por trás desta ilusão que merece a nossa objecção.  
O vídeo que pode ser visto seguindo esta hiperligação é, possívelmente, o mais equilibrado, objectivo e factual de todos os que encontrei acerca da temática da obsolescência programada. Uns são demasiado superficiais, outros são feitos para ser compreendidos por imbecis, e os restantes enveredam por «teorias da conspiração» que lhes retiram todo o crédito. Espero que a visualização não leve os entusiastas a ir a correr a lojas de segunda mão para comprarem uma Leica III ou uma Nikon F...

terça-feira, 29 de maio de 2012

«Canon ou Nikon?»

Quando fui buscar as minhas impressões novas, a conversa com a pessoa que me atendeu resvalou para a edição de imagem e ganhou um novo interlocutor - um informático que, pressurosamente, me quis mostrar um plug-in dos Photoshop denominado PT Lens (que é bestial, mas o DxO Pro 7 faz o mesmo sem necessidade de plug-ins). Como o informático queria realmente convencer-me dos méritos da aplicação, chamou-me para junto do computador para fazer uma demonstração prática; quando tratou de escolher as configurações, perguntou-me com a maior das naturalidades: «Canon ou Nikon?»
Para aquela pessoa, era uma impossibilidade lógica eu ter uma câmara que não fosse uma Canon ou uma Nikon. Toda a gente tem uma Canon ou uma Nikon! Senti-me como um alienígena, uma avis rara que aterrasse de repente num mundo homogeneizado e bipolarizado, semelhante a um sistema democrático ocidental em que apenas dois partidos mais ou menos iguais alternam no poder. Ultrapassado o breve complexo de inferioridade e o sentimento de alienação que me percorreram a psique durante dois ou três segundos, respondi que nem uma nem outra.
Há vários efeitos nocivos neste duopólio a que muitos chamam «Canikon». O primeiro deles é que, à custa de falta de concorrência, a indústria fotográfica pouco ou nada evoluiu entre 2003 e 2009 (ano em que foi lançada a primeira mirrorless a sério, a Olympus E-P1). Tornou-se convicção geral que as únicas câmaras capazes de uma alta qualidade de imagem eram as DSLRs, cujo mercado era (é) dominado por estes dois mastodontes. O sistema DSLR está de tal maneira tetanizado que as evoluções são de carácter meramente marginal, e, num certo sentido, pouco relevantes: a introdução do vídeo - que não tem qualquer tipo de interesse para o fotógrafo dedicado -, os ecrãs rotativos, etc. A única coisa verdadeiramente importante que aconteceu às SLRs desde a sua concepção foi a passagem para o domínio digital. A Canon e a Nikon limitam-se a renovar os seus modelos ciclicamente, introduzindo pequenas evoluções no que são, essencialmente, as câmaras da geração anterior - mais megapixel, menos megapixel. A única coisa excitante que aconteceu no império Canikon foi a introdução da Nikon D800, neste mesmo ano, com uns mastodônticos 36 megapixéis (o que, ao que se diz, se repercute no nível de ruído por deteriorar, como aliás era previsível, a relação sinal/ruído).
As DSLR, cujo mercado a Canon e a Nikon hegemonizam, são câmaras capazes de alta qualidade de imagem, e são a única escolha possível para os fotojornalistas, mas não são as únicas câmaras de qualidade. Aliás, se entrarmos num estúdio de grande porte, verificamos que as câmaras aí usadas não são DSLRs, mas câmaras de médio formato (Mamiya, Hasselblad, etc.) De resto, as DSLRs começam a ser ameaçadas a montante e a jusante. No segmento mais baixo, estão sob a ameaça de câmaras mirrorless cada vez mais evoluídas e com vantagens substanciais em relação às reflex no peso, transportabilidade e flexibilidade. Para fazer fotografia de rua, por exemplo (ou qualquer outra modalidade que exija discrição), o uso de uma DSLR é um obstáculo. No escalão superior, têm sido feitos esforços para produzir câmaras de médio formato mais portáteis do que as monstruosas Hasselblad. Há a Leica S2 - cujo preço é absolutamente delirante - e, sobretudo, a Pentax 645D. Não são para fotojornalistas, certamente, mas têm uma qualidade de imagem inerentemente superior à das DSLR profissionais.
Outro problema que a estagnação do segmento das DSLR trouxe foi a indigência com que as câmaras da Canon ou da Nikon são construídas. Meus caros amigos: mesmo as Olympus do formato micro 4/3 dão lições de qualidade de construção às reflex da Canon e da Nikon. Há algumas semanas aconteceu-me mexer numa câmara do segmento médio/superior de um destes fabricantes. O barulho do obturador - cujo botão é, evidentemente, de plástico - denuncia uma qualidade de construção que é superada por muitas compactas. É uma orgia de plástico - e do mais fatela que existe à superfície da terra. Há baldes e alguidares feitos com plásticos melhores. E já nem falo da questão da obsolescência programada, que tem por efeito que estas câmaras sejam feitas para durar não mais que 4 ou 5 anos.
O domínio da Canon e da Nikon tem ainda o efeito perverso de pôr na sombra outras grandes câmaras DSLR, tão boas ou melhores que as Canikon: as Pentax e as Sigma. A Pentax K-5 é por muitos considerada a melhor reflex da sua categoria (compete com a Canon 60D e a Nikon D7000), mas... não é uma Canikon. E a Sigma usa a tecnologia mais inteligente que conheço: o sensor Foveon. Mas o amador, para não se sentir embaraçado em frente dos seus amigos e dos informáticos de lojas de material fotográfico por não ter uma Canon ou uma Nikon, ignora estas câmaras, o que é uma enorme injustiça. (Note-se que não me refiro aqui às reflex da Olympus, porque têm um handicap notório em relação à concorrência no seu sensor 4/3, nem às da Sony, porque esta foi a marca que matou a minha predilecta Minolta...)
Há outra consequência nociva, mas esta só afecta quem frequenta fóruns de fotografia: a Canon e a Nikon têm fãs verdadeiramente ferozes que passam o tempo a insultarem-se uns aos outros e a usar argumentos ridículos para afirmar a superioridade da sua marca predilecta em relação ao modelo equivalente da outra. Se pensam que os tipos das claques do Porto e do Benfica são umas bestas, leiam os comentários aos artigos sobre lançamentos de câmaras da Canon ou da Nikon no DPReview. Vão ficar surpreendidos!
O meu vaticínio é que, dentro de alguns anos, apenas as reflex profissionais e semi-profissionais, com sensor full frame, farão sentido. Os profissionais com trabalhos mais exigentes, como os repórteres ou os fotógrafos de casamentos, continuarão a necessitar de câmaras como estas, mas o segmento inferior será tomado pelas mirrorless, para as quais os sensores APS-C terão migrado, enquanto os estúdios e os profissionais para quem os valores ISO muito elevados não são uma preocupação usarão câmaras de médio formato como a Pentax 645D. Como isto constituirá uma redução substancial na quota de mercado, o duo Canikon virar-se-á para as mirrorless - mas não com o perfeito disparate que é a série 1 da Nikon. Não é preciso ser o Professor Mambo para prever isto.  

sábado, 12 de maio de 2012

Novidades da indústria fotográfica: uma orgia de Leicas

Gostava de gostar de Leicas, mas a minha costela socialista (não no sentido de militante do PS, que não sou e, de resto, este partido é tudo menos socialista) não me deixa. Há muitos e bons motivos para gostar de Leicas: são belíssimas, têm uma qualidade de construção muito acima da média, as lentes são fabulosas (ao que se diz, porque nunca experimentei nenhuma) e, acima de tudo, são parcialmente feitas em Portugal. Sim, a Leica dá emprego a operários portugueses: podia «deslocalizar» a produção para a China ou para a Tailândia, mas prefere ficar em território comunitário - mais concretamente em Vila Nova de Famalicão. Não só não despede, deste modo privando muitos trabalhadores de novas oportunidades (não é bom ter um primeiro-ministro como Pedro Passos Coelho?), como vai investir numa fábrica nova em Portugal e contratar mais operários. Depois há um facto incontornável: as minhas referências em fotografia usavam - ou usam - Leicas. De Koudelka a Gérard Castello Lopes, de HCB a Sebastião Salgado, todos eles faziam (fazem) fotografia com Leicas.
Estas são as boas razões para sentir estima pela Leica. Depois há o lado negativo - os preços, que fazem das Leicas contemporâneas pouco mais que adereços para ricos. São bens de Veblen, como lembra Mike Johnston no seu The Online Photographer, pelos quais o interesse aumenta na mesma proporção que o preço. Por outras palavras - quanto mais caros, mais vendem. É este um sinal do nosso mundo e do nosso tempo, em que a desigualdade e a distribuição iníqua da riqueza nunca foram tão longe. A simples menção dos preços das Leicas de que vou falar de seguida chega a ser obscena - mas não tanto como o facto de haver cada vez mais gente disposta a comprá-las. E não é por haver mais ricos: é por estes o serem cada vez mais, em detrimento de todo o resto do mundo. As Leica são, deste modo, um dos símbolos desta civilização decadente em que o dinheiro é tudo, e em que as pessoas são tanto mais valorizadas quanto mais dinheiro tiverem.
Uma câmara ou um Volvo XC60: a escolha é sua
E o que é que a Leica nos veio mostrar na passada quinta-feira? Uma compacta, que não é mais que uma Panasonic com o ponto vermelho da Leica chapado no painel frontal, e a X2, que custa o dobro da concorrente mais directa, a Fujifilm X100 (que não é exactamente uma câmara barata). Esqueçamos estes dois produtos: só um pateta que não sabe o que fazer ao dinheiro é que comprará a Leica compacta em lugar de uma Panasonic, ou a X2 em vez duma Fuji. Para além destas câmaras, a Leica apresentou uma lente nova, uma 50mm/f2, e dois corpos: uma M9 em versão Hermés, revestida de couro amarelo torrado (de um mau gosto extremo, mas deve haver quem a ache chiquérrima) e uma câmara que apenas fotografa a preto-e-branco, adequadamente denominada «M-Monochrom». A lente vai custar USD $7.195; a câmara monocromática custará $7.950 e a M9 Hermés pode ser sua pelas modestas quantias de $25.000 ou, na versão kit com três lentes, $50.000.
Destas novidades, só a câmara monocromática é verdadeiramente interessante. A M9 Hermés é o típico adereço de ricaço frívolo e ignorante: O couro amarelo alaranjado é, como referi acima, de um mau gosto lamentável e, para esfregar sal na ferida, o painel superior, que foi redesenhado por Walter De' Silva (o homem que deu ao mundo o Alfa Romeo 156 e depois deste apogeu foi desenhar carros banais e monótonos para o grupo Volkswagen), não tem sapata para o flash! Não, esta não é uma câmara para fotógrafos. Aliás, nem sequer vejo muito bem quem é que quererá comprar uma câmara destas. Talvez a amante de Bernard Madoff. Note-se que, ao comprar esta câmara, se está a comprar um sensor full frame, fabricado pela defunta Kodak, que não vai além de ISO 2500 e produz um nível inaceitável de ruído a ISO 800. Um sensor full frame, repito. Do mesmo tamanho que os da Nikon D4 e da Canon 1D.
A objectiva 50mm/f2 é, não tenho dúvidas, um item de enorme qualidade. Imagino que não tenha aberrações cromáticas nem produza distorção de qualquer espécie. Mas, num universo onde f1.8 já é considerado uma abertura estreita por muitos, a ideia de dar mais de €6.000 por esta lente - que é de focagem manual e não estabilizada - é pura e simplesmente inconcebível. Espero que, ao menos, venha com um para-sol...
A câmara a preto-e-branco é a única cuja compra poderia considerar se me saísse o Euromilhões. Antes de mais, é linda. E eu fotografo cada vez mais a preto-e-branco. Com esta câmara, que ao que se diz tem uma qualidade superior por o seu sensor não ter filtro RGB nem filtro anti-moiré, teria uma câmara discreta, de altíssima qualidade... com a qual seria dificílimo fazer fotografia de rua por causa da focagem manual! E este é um problema ainda mais grave por ser uma câmara com visor de telémetro, sem ampliação da imagem que permita confirmar a focagem, como até a minha humilde E-P1 me faculta. De resto, seria sempre uma segunda câmara, porque iria precisar de outra para fotografar a cores. (Talvez a M9 Hermés...) Uma câmara para fotógrafos experientes, dirão alguns - mas a verdade é que esta câmara vai acabar por ser comprada por diletantes ricos. Muito ricos. Ou vai ser usada por profissionais «patrocinados» pela Leica. Em todo o caso, não deixa de ser um produto interessante.
Enfim, são estas as novidades do mundo Leica: duas compactas com preços abusivos, uma lente de focagem manual e uma abertura que não tem nada de especial por um preço proibitivo, uma câmara muito limitada que custa mais de €20.000,00 só por ser revestida com couro amarelo alaranjado e uma câmara a preto-e-branco que só serve para fotografar paisagens (que são mais interessantes a cores). Tudo isto por preços que são um insulto a todos os milhões de pessoas que atravessam as maiores dificuldades à custa dos potenciais compradores destas Leicas. Nem o facto de a Leica dar trabalho a portugueses me faz respeitar estes produtos.   

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O sensor Foveon

Não tenho por regra escrever sobre questões tecnológicas, por duas razões. A primeira é que elas só são importantes se contribuírem para uma melhoria na qualidade da imagem; a segunda é a minha falta de aptidão - os meus saberes estão no campo das humanidades, não das ciências. O que não significa que as tecnologias sejam de menosprezar.
Na terça-feira o Digital Photography Review publicou uma análise crítica de uma câmara cheia de singularidades: a Sigma SD1. Entre outras particularidades e idiossincrasias que a distinguem, esta câmara tem um sensor de uma tecnologia que me parece extremamente interessante: o sensor Foveon. As explicações sobre este captor de luz podem ser lidas com mais precisão aqui, mas pelo que entendi o Foveon, ao contrário dos sensores Bayer comuns a quase todas as câmaras (a Fujifilm tem um sensor inovador na X-Pro 1, mas baseia-se no sistema Bayer), que dispõem os pixéis numa única camada, sendo a luz filtrada e dividida para que apenas alguns pixéís «leiam» cada uma das cores primárias, o sensor da Sigma SD1 tem três camadas, dispostas com base na capacidade de penetração da luz no silicone, correspondendo cada uma às cores vermelha, verde e azul. Daí que a Foveon, companhia que inicialmente desenvolveu esta tecnologia (o sensor da SD1 difere do original por ser maior, com a área de um APS-C), denomine esta tecnologia «X3». Este sensor, por ter três camadas - uma para cada cor primária, como vimos -, tem uma resolução de 15 MP X 3 (15 MP por cada camada), o que resulta numa resolução teórica de 45 MP, mas a sua resolução potencial é de 30 MP. O que já é um número impressionante, convenhamos.
Este sensor Foveon tem ainda a singularidade de dispensar o filtro anti-moiré, ou antialiasing: os sensores Bayer, para evitar a aberração conhecida por moiré, usam um filtro que introduz uma suavização artificial da imagem de maneira a que a aberração não se note, mas esta filtragem, como parece evidente, reduz a resolução.
Como ficou mais ou menos explícito no primeiro parágrafo, se estou a escrever sobre esta câmara e este sensor não é porque esteja particularmente interessado na sua aquisição, nem em versar aspectos tecnológicos que estão para além dos meus conhecimentos, mas porque esta tecnologia me parece cheia de potencial para um purista da fotografia. A câmara, que inicialmente foi proposta com o preço absolutamente obsceno de USD $6,900 e custa agora €2.100,00 (só o corpo), é interessante, mas tem especificações que fazem rir os fanboys da Canon e da Nikon: não tem visualização directa no ecrã, não tem vídeo (o que merece o meu aplauso) e o sensor, do tamanho de um APS-C, produz um nível de ruído muito elevado a sensibilidades ISO acima dos 800. (Não excluo que muito deste ruído seja causado por uma relação sinal/ruído muito pobre, atento o número de megapixéis disposto num sensor que, apesar das três camadas, é essencialmente um APS-C nas suas dimensões.)
Simplesmente, quando se abstrai destas desvantagens - se é que realmente o são -, o que fica é, pura e simplesmente, a melhor resolução de todas as câmaras do seu segmento. As imagens obtidas com a Sigma SD1, especialmente em raw, são de cortar a respiração. Imagens de texturas finas, que são o pesadelo de qualquer sensor Bayer por causa do moiré, surgem com uma definição absolutamente impressionante, e a quantidade e qualidade dos pormenores subtis captados é espantosa. 
E, se a resolução é fantástica, é na apresentação das cores que a Sigma brilha mais intensamente: as imagens comparativas mostram cores que, inicialmente, parecem severamente dessaturadas, ou mesmo mortiças; quando observamos com atenção, porém, e comparamos as imagens com as das suas rivais, vemos que estas últimas é que estão erradas. Com efeito, as cores da SD1 são neutras, e não mortiças. São cores absolutamente precisas. As outras câmaras produzem cores que, em comparação com a SD1, parecem artificiais, excessivamente saturadas e com uma ausência completa de naturalidade. As outras câmaras são concebidas para agradar numa apreciação superficial e imediata; a Sigma SD1 conta a verdade acerca das cores. Não é uma câmara para agradar às multidões, mas a um número relativamente restrito de puristas que procuram a maior qualidade e fidelidade possíveis numa câmara digital - mesmo com o sacrifício de alguns adereços que a procura impôs ao mercado fotográfico, como o vídeo.
Se estou a escrever este artigo é por estar inteiramente convicto que esta tecnologia é uma enorme evolução na qualidade da imagem. Esta câmara não é para os tarados do ISO que se babam sobre o teclado quando lêem que uma câmara é capaz de sensibilidades da ordem das centenas de milhares, mas é excelente para quem procura a maior qualidade da imagem possível. A neutralidade das cores facilita o trabalho de edição das imagens, porque é mais fácil saturá-las que o inverso; contudo, ver as imagens produzidas por esta câmara (aqui) demonstra que a precisão das cores produz resultados imensamente satisfatórios, mesmo sem qualquer trabalho de pós-produção. E a resolução, com a total ausência de aberrações, tem o potencial de criar imagens de um realismo que não está ao alcance da tecnologia Bayer. O futuro da fotografia digital pode muito bem passar por aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Eu tinha razão

Pentax KO-1. Chaminé incluída
O único texto verdadeiramente controverso que escrevi neste blogue foi sobre a Pentax KO-1 (eu sei que não é assim que o modelo se escreve). Esta câmara pareceu-me, para além da sua estética absurda - a única câmara do mundo equipada com uma chaminé - e da ergonomia discutível, uma perda de tempo e de dinheiro. Tem os defeitos das DSLR (volume e estética) e das mirrorless (ausência de visor e de focagem automática por detecção de fase).
Escrevi, no texto que foi um dos mais lidos deste blogue, que mais valia comprar uma Pentax K-x enquanto ainda as há. Mantenho. A K-x é uma câmara extremamente interessante, e esteve por muito tempo na minha lista enquanto me decidia por uma câmara evoluída. E tem as vantagens de um bom visor óptico e de um sistema de focagem automática muito rápido, para além de ser compacta e ter uma boa ergonomia (de longe melhor que a Canon 1100D e a Nikon D3100, que parecem ter sido concebidas para mãos de crianças). E, evidentemente, tem a baioneta do sistema K, tal como a KO-1. O único problema é que, por já ter cessado a sua produção - foi substituída pela K-r, que é mais cara -, a K-x pode ser difícil de encontrar.
Afinal parece que eu tinha razão. Um dos melhores websites de fotografia, o Photography Blog, publicou ontem uma análise crítica à Pentax KO-1. A classificação? Above average, que é uma espécie de gentileza eufemística para dizer que a câmara não satisfaz. («Above average» é pior que «recommended», «highly recommended» e «essential», esta a classificação máxima.) E porquê? Porque é uma câmara que não faz sentido: demasiado grande e desajeitada para uma mirrorless e sem os benefícios óbvios de uma DSLR. Não está em causa a qualidade da imagem - o sensor é o mesmo da K-5 e a câmara pode usar qualquer lente do sistema K -, mas a ausência de propósito desta câmara. Nas palavras de Mark Goldstein, ...the Pentax K-01 falls unsuccessfully between two stools - ultimately we'd either buy a similarly sized DSLR or a much smaller compact system camera in preference to the K-01.
Agora venham de lá os comentários parvos incriminando-me por ser pago por uma marca para dizer mal da concorrência.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Novidades da indústria fotográfica: o que os consumidores querem

Foto: Digital Photography Review (www.dpreview.com)
A Canon e a Nikon já não sabem que mais hão-de inventar para reanimar a sua gama de DSLRs: enquanto uma - Canon - consegue ser mais conservadora que qualquer dos candidatos a candidatos à presidência dos EUA do Partido Republicano, a outra decidiu entrar na guerra dos megapixéis.
A Canon lançou hoje, 2 de Março, a Canon EOS 5D Mark III. O seu sensor full frame tem 22 megapixéis, o que é substancialmente mais que os 18 MP da profissional 1D X. Há três semanas, a Nikon lançou a 800D, com a contagem a subir para 36 MP. Curiosamente, a Canon está a ser criticada, nos fóruns e comentários a artigos nos websites de fotografia, por ter aumentado apenas um ao número de megapixéis do sensor da 5D Mark II, enquanto muitos foristas e comentaristas criticam a Nikon por ter tantos megapixéis!
Em que ficamos? O número de megapixéis é importante, mas não se for excessivo. Pôr demasiados MP num sensor significa pixéis mais pequenos, o que diminui o desempenho com sensibilidades ISO elevadas e prejudica a resolução. Não é apenas o número de pixéis que conta na resolução do sensor: é, sobretudo a relação sinal-ruído, que se deteriora quando o número de pixéis aumenta sem que lhe corresponda um aumento da área do fotosensor. Recorrendo a um exemplo simplista: se metermos 50 bolas de ténis numa caixa de 1m quadrado, elas podem caber mais ou menos confortavelmente; se tentarmos meter 100, as bolas só caberão se forem comprimidas. Daí que os objectores do novo sensor da Nikon tenham razão por recear que o desempenho do novo sensor seja menos que óptimo, e que a Canon, embora querendo dar aos consumidores o que eles querem - mais megapixéis -, tenha sido tão cautelosa.
Já o ISO é outra guerra insensata, mas desta vez o duo conhecido pejorativamente por Canikon usa a mesma artilharia: a Canon 5D Mark III vai até aos 102 400. Eu escrevo por extenso, para o caso de pensarem que pus algum algarismo a mais: cento e dois mil e quatrocentos. Claro que, com uma sensibilidade destas, a imagem evoca furiosamente os pontilhados de Georges-Pierre Seurat, mas isto parece não importar muito para alguns potenciais consumidores.
Deixem-me dizer, antes de prosseguir, que qualquer destas câmaras trucida por completo a minha E-P1, reduzindo-a à condição de brinquedo. Comparar qualquer delas à minha seria tão absurdo como comparar um Mini a um BMW M5. Não é por despeito que escrevo assim, nem por inveja - defeito que, sinceramente, nunca tive. Também não sou pago para dizer mal de umas marcas e bem de outras, como já foi comentado aqui por alguém que devia estar num estado mental alterado. Dito isto, os novos lançamentos demonstram dois dos piores vícios da indústria fotográfica, ambos determinados pela ambição de satisfazer consumidores a quem previamente foi feita uma lavagem cerebral por um marketing muitas vezes enganador. As guerras dos megapixéis e do ISO não têm outro fim que não seja conquistar mercado. Ambas as marcas sabem, porque os seus técnicos são incrivelmente competentes, que os números apresentados são completamente fantasistas e inúteis em termos de resolução e qualidade de imagem, mas os consumidores estão predispostos a aceitar que 36 MP ou ISO 102 400 são proezas tecnológicas que vão transformar por completo a experiência de fotografar com estas câmaras. Se estes consumidores compararem os dois modelos com os precedentes (Nikon 700D e Canon 5D Mark II), vão provavelmente reparar que: a) a diferença de resolução da nova Nikon em relação à anterior é marginal, e que b) As fotografias feitas com a Canon usando valores superiores a 12 800 - o que já é um valor muitíssimo bom, diga-se - têm níveis de ruído intoleráveis. Estamos, portanto, diante de marketing enganoso, mas se há pessoas que se deixam influenciar por ele e substituem os corpos dos modelos precedentes por estes novos, que havemos de fazer?
A Canon, de resto, é também severamente fustigada pelos comentadores e foristas por - imaginem! - não ter um ecrã articulado, e por ter um microfone mono. Eu já não sei o que as pessoas querem de uma câmara, mas vou fazer um exercício de imaginação: a câmara ideal seria uma DSLR com sensor médio formato e resolução, digamos (numa estimativa por baixo) de 50 megapixéis; teria uma capacidade de disparo contínuo de 60 fotogramas por segundo, sensibilidade ISO máxima de 204 800, GPS, vídeo na mais alta especificação possível e em 3D, ecrã rotativo OLED touchscreen com 2 milhões ppi, gravação de som surround 7.1 e, eventualmente, uma saída para tostas mistas e torradas. E custaria €500,00 na FNAC, já equipada com uma lente 18-55mm/f3.5-5.6 (ninguém notaria a diferença...) 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A Olympus E-M5 e eu

Antes de mais, cumpre informar que, de acordo com um leitor ocasional e comentador deste blogue, eu sou pago para elogiar a Olympus e dizer mal das outras marcas neste blogue. Como decerto já se apercebeu toda a gente que leu o que escrevi aqui sobre a Fuji X-Pro1, a Canon 60D, a Nikon D7000, a Leica M9 e a Pentax K-5. O problema é que o tesoureiro da Olympus ainda não me mandou nenhum cheque. Se calhar gastaram o dinheiro todo a comprar aquelas empresas de Tupperwares e cremes faciais para ocultar os prejuízos e agora não têm como me pagar. Ou então ainda ninguém os avisou da existência deste contrato.
Quando a Olympus liquidar os meus honorários, vou finalmente comprar uma câmara nova. Ou não. É que a Olympus OM-D E-M5 (que só não recebe o troféu para a designação de modelo mais estúpida do mundo porque já existe a Pentax KO 1) deixa-me a lutar contra uma certa sensação de ambivalência. Não que seja feia - se dissesse que esta câmara é feia, que adjetivo poderia usar para qualificar a Pentax KO 1? -, mas o seu design tem qualquer coisa de pastiche. É uma câmara que pretende ser a continuação da linha das OM, mas isto não será a tentativa de ressuscitar um cadáver? É que a E-M5 não é uma OM: estas eram analógicas, a OM-D é digital. Como escrevi anteontem, tudo as separa - exceto o fabricante e a semelhança das linhas. A minha ambivalência vem do facto de esta câmara não me parecer tão atraente como a minha - a despeito de considerar a OM-1, em que a E-M5 se inspira, uma das câmaras mais bonitas alguma vez produzidas.
Afora isto, a verdade é que a câmara é bonita. Muito bonita. Ver as suas primeiras imagens, porém, não me causou o mesmo impacto que ver as da Pen E-P1, que me despertaram instantaneamente o desejo de ter uma. Aliás, creio que a E-P1 continua a ser mais elegante que estas pretensas OM digitais. Simplesmente, tenho de me colocar na posição de potencial comprador, o que implica olhar mais às diferenças técnicas entre as câmaras do que à estética e ver em que pode a evolução que a OM-D inequivocamente representa ajudar-me a fazer fotografias melhores.
Antes de mais, esta câmara tem um visor. Aquela bossa acima da lente abriga as entranhas do visor eletrónico VF-2. Convenhamos que o resultado estético é mais interessante que uma E-P2 com o VF-2 montado, mas ao que se diz o visor da E-M5 é ainda melhor que o VF-2, que de resto até tinha boa reputação. E, como referi no texto de domingo, não há nada como fotografar com um visor. É pena que não seja óptico, mas qualquer visor é melhor que usar o ecrã para fotografar.
Depois há o sensor. Eu não entro na guerra de tamanhos, que me lembra obsessões de rapazes pré-adolescentes, mas a verdade é que a OM-D usa um sensor mais evoluído e com melhor desempenho que o da E-P1 em matéria de ruído. Uma câmara com melhores resultados neste particular seria muito bem-vinda.
Se comprasse esta câmara, dificilmente sentiria diferenças quanto à funcionalidade. É certo que perde o comando principal da E-P1, aquela roda à volta do seletor principal - mas ganha um seletor que faz o mesmo, apenas com a forma de um disco montado sobre o painel superior, como as velhas SLR. O cilindrozinho que faz de comando secundário na E-P1 é também substituído por um disco rotativo, mas montado na parte dianteira do painel superior da câmara. É mais retro - os comandos desta câmara evocam as OM originais e a Fuji X100 - e, paradoxalmente, mais DSLR, porque é neste lugar que as reflex têm o seu comando rotativo: junto ao botão do obturador (botão que, no caso da E-M5, é mesmo sobre o comando secundário). O resultado é esta câmara assemelhar-se às câmaras vintage, embora os comandos selecionem funções mais contemporâneas (como a compensação da exposição ou a abertura do diafragma). Com estas modificações, o funcionamento em modo manual pode ser ainda mais divertido do que na E-P1. E teria outra vantagem: dois botões Fn, com os quais poderia personalizar funções de uma maneira que a E-P1 não permite. Por exemplo, gostava de ter comutação de focagem automática para manual e a calibração do equilíbrio dos brancos sem ter de escolher entre uma ou outra, porque a E-P1 só permite fazê-lo com o botão Fn. Ter dois botões para estas funções seria extremamente prático, já que não são poucas as ocasiões em que uso lentes de comando manual e de focagem automática na mesma sessão.
Outra vantagem seria poder usar um punho e uma bateria suplementar, algo a que a E-P1 não teve direito. Além da melhoria ergonómica - poderia fotografar na vertical de uma maneira muito mais cómoda -, teria uma autonomia muito maior, dispensando a compra de uma bateria suplementar. Poderia ter sessões de fotografia muito mais tranquilas, sem o risco de ter de acabá-las mais cedo por ter ficado sem bateria. 
Quanto ao resto, não me interessam o vídeo, o número de fotogramas por segundo nem o ISO 25600 (que deve produzir imagens ótimas para quem queira tirar fotos parecidas com os quadros de Seurat). A focagem automática pode ser muito rápida, mas esta velocidade apenas interessa se conseguir acompanhar objetos em movimento rápido, o que a deteção de contraste nem sempre consegue fazer. O facto de ser resistente à chuva é interessante, mas não o considero decisivo (e de pouco me adiantaria, porque não tenho nenhuma lente que também o seja).
É evidente que ficaria mais bem servido com a E-M5, mas eu não quero nem preciso de ter duas câmaras, nem tenho vontade de desfazer-me da E-P1. Podia encomendar hoje mesmo uma E-M5 na Amazon - embora ficasse completamente teso -, mas não vou fazê-lo. Seria um desperdício. A OM-D é certamente bonita, e não tenho dúvidas que é superior à minha câmara - mas tenho, como já referi por diversas vezes, um fraco pela E-P1. Talvez quando esta der o último suspiro adquira uma OM-D - que, nessa altura, já deverá ir na versão E-M8, com evoluções relativamente à câmara que hoje foi apresentada.
Apesar de tudo, acredito que esta câmara possa ser um sucesso. E, quem sabe, pode até estabelecer o micro 4/3 como o formato de referência entre as câmaras mirrorless e, pelo caminho, restabelecer a reputação da Olympus. Estou ansioso por ver os primeiros testes de imagem. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A Olympus E-M5

Hoje, 4 de fevereiro, a cinco dias da sua apresentação, surgiram as primeiras imagens decentes da Olympus E-M5, de seu nome completo Olympus OM-D E-M5. No texto de sexta feira referi que a Olympus se propunha, com esta câmara, continuar a linha OM depois de uma interrupção de dez anos; ao ver as imagens com o punho e bateria, compreendi que a Olympus quer ir muito mais longe e estabelecer o formato micro 4/3 como o novo 35mm - a referência em matéria de dimensões do sensor.
Ainda não sei se esta é uma ideia brilhante ou uma loucura, mas não é de todo infundada: afinal de contas, a dimensão do filme também passou das chapas monstruosas usadas nos anos dos pioneiros da fotografia para o grande formato, depois para o médio formato e, finalmente, para o 35mm, que se estabeleceu como o padrão universal. Se é um caminho semelhante que a Olympus se propõe abrir com esta câmara, vai ter de se debater com alguns obstáculos, sendo o maior deles a aceitação generalizada da ideia (que não é inteiramente falsa) de que o sensor é tanto melhor quanto maior for. O facto de ter dado um ar tão profissional à câmara, com o punho e a bateria externa, significa que está preparada para a luta e confia no desempenho desta câmara. Não é impossível que a Olympus tenha êxito: tenho a certeza que a passagem para o formato 35mm também foi desdenhada pelos fabricantes de câmaras de médio e grande formato - com a diferença substancial, porém, de que o Dr. Oskar Barnack não teve de se defrontar com um marketing vasto e poderoso como é o dos nossos dias, e nesse tempo não havia milhões de ignorantes a opinar na Internet como hoje. (Aliás, nem sequer havia Internet...) Tenho para mim que o sensor 4/3 é semelhante, em qualidade de imagem, ao APS-C - que, não tendo conseguido a aceitação unânime dos fabricantes, é contudo o mais utilizado nas DSLR, e agora também em algumas mirrorless. O problema do 4/3 é o nível de ruído, que é algo superior, mas este apenas é verdadeiramente grave quando se usam sensibilidades ISO muito elevadas - digamos, acima dos 800. Os fotógrafos habituaram-se a usar valores de ISO astronómicos, e vai ser muito difícil persuadi-los que a qualidade da imagem sai beneficiada com o uso de sensibilidades baixas. Pelo que sei, o sensor da OM-D tem um desempenho melhor que o sensor de 12,3 megapixéis das Pen, o que pode levar muitos a confiar no que a Olympus está a fazer - incluindo a própria Olympus.
Esta versão é uma montagem feita com o Photoshop
Outra dificuldade é o facto de a Olympus estar praticamente sozinha na luta para impor o micro 4/3. Até ao momento, apenas a Panasonic e a própria Olympus usam este formato, sendo que a primeira, que fabrica os sensores 4/3, impôs condições leoninas à Olympus para que que esta pudesse usar os seus sensores. A Olympus está obrigada a usar sensores da geração anterior aos lançados pela Panasonic, o que é uma desvantagem. (A Olympus vinga-se fazendo lentes não estabilizadas, o que torna difícil o seu uso nos corpos não estabilizados da Panasonic.)
Outro obstáculo é a possível repercussão do escândalo financeiro da Olympus Corporation na divisão de imagem. Embora me pareça que as previsões mais negras não se vão cumprir, e que o escândalo caminha para um esquecimento conveniente, ainda é difícil de prever o que vai acontecer. Qualquer especulação é legítima, incluindo a aquisição da divisão de imagem por outra companhia.
Por fim há a concorrência. A Sony, a Samsung, A Fuji e a Pentax usam sensores APS-C nas suas mirrorless. Se a Olympus conseguir fazer melhor, em matéria de qualidade de imagem, que estas marcas, o micro 4/3 pode tornar-se no 35mm dos tempos digitais. Tenho algumas dúvidas que isto venha a acontecer, mas não é impossível que a E-M5 seja uma câmara com uma qualidade de imagem acima da média. A Olympus tem o melhor processamento de JPEG entre os grandes fabricantes, fotómetros excelentes, experiência no fabrico de lentes de alta qualidade e em óptica de alta precisão. De resto, esta câmara é um risco calculado: se suceder, transportará a Olympus para o topo da indústria fotográfica; se falhar, os danos são limitados: o pior que lhe pode acontecer é interferir no volume de vendas da E-P3.
Há algo de profundamente insensato em retomar a linha das OM: por muito evocativa que seja, esta câmara não é uma OM. Há um universo de diferenças para além do facto evidente de as OM serem câmaras analógicas: não há uma única característica técnica que seja transponível das OM para a era digital. É verdade que o estilo retro tem sucesso entre os fabricantes de câmaras - a Fuji consegue vender com sucesso uma câmara pior e mais cara que as da concorrência (a X100) apenas porque parece uma Leica pequenina -, como a própria Olympus sabe desde que lançou a E-P1. E agora, a Olympus não quer apenas repetir o sucesso de uma fórmula comprovada: quer fazer vingar um conceito. A continuação da linha OM não pode ser vista como uma mera opção estética: é a maneira como a Olympus pretende retomar o lugar que ocupava no tempo das OM, e transformar o mercado fotográfico como o fez com o lançamento da OM-1. Será que consegue?
P. S.: esta câmara até pode ser muito melhor, mas não é tão bonita como a minha E-P1.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Mais novidades da indústria fotográfica

Enquanto a Pentax lançava a câmara mais grotesca do século sem pré-aviso - e qualquer pessoa com um mínimo de bom gosto tinha de estar preparada para a exibição de atrocidade que a K-01 é -, a Olympus vem seguindo uma campanha de marketing baseada em fugas de imagens (teasers) que, ao que parece, vai culminar na apresentação do modelo da série OM-D na próxima quarta-feira, dia 8.
Ao contrário da Pentax, a Olympus optou por se inspirar no passado para conceber a nova câmara, a E-M5. Não sei se isto é bom ou mau: a OM-1 foi uma das câmaras que mudou a face da indústria fotográfica: era muito mais pequena que qualquer outra SLR da época, tinha uma qualidade de imagem, ao que se diz, fora do comum, e introduziu inovações que fazem hoje parte de qualquer câmara que se preze, como o indicador da exposição da O-M1n. E a Olympus não se limitou a copiar o estilo das OM: o número do modelo (5) significa que quer retomar a numeração das OM de alta qualidade, que foi interrompida com o fim da produção da OM-4. (Entretanto foram lançados outros modelos, com dois algarismos, para consumidores não profissionais, mas diz quem sabe que não tinham a mesma qualidade.) Isto significa que a Olympus quer continuar a série OM depois de uma interrupção de dez anos.
A Olympus OM-4
O que é, convenhamos, uma estratégia arriscada. Para ter sucesso e não envergonhar a tradição das OM, esta nova câmara tem de ser um produto da mais alta qualidade. Pelo que circula na Internet, a E-M5 vai ter o mesmo sensor que as Panasonic G3 e GX1 - um CMOS de 16 megapixéis -, uma nova evolução do processador duplo das Pen, um visor eletrónico que, ao que parece, é o VF-2 embutido no corpo da câmara, e o sistema de focagem automática mais rápido do mercado. Isto pode não ser o suficiente num meio em que os consumidores foram sujeitos a uma lavagem cerebral que os convenceu que qualquer sensor que seja mais pequeno que os APS-C, ainda que por um milímetro quadrado, é um péssimo sensor cheio de ruído, com uma gama dinâmica limitadíssima e uma profundidade de campo demasiado ampla. Eu apenas ponho as minhas dúvidas se a contagem de megapixéis não redundará numa deterioração da relação sinal/ruído, degradando a qualidade geral da imagem em favor de um pouco mais de resolução.
A fazer fé na veracidade da imagem do topo do texto - ainda não ponho de lado que seja uma montagem -, a estética é a continuação da linha das OM analógicas. O que me levanta uma dúvida: será que a Olympus vai abandonar por completo as câmaras do formato DSLR, construindo uma linha de produtos que inclui uma gama de acesso - as Pen - e outra (as OM) num patamar superior, substituindo esta as câmaras do formato 4/3? Há muita gente que vai ficar dececionada se isto acontecer. As lentes para 4/3 incluem alguns dos melhores modelos produzidos pela Olympus, mas são incompatíveis com a baioneta do sistema micro 4/3 por 6 mm. Quem adquiriu lentes 4/3 poderá ficar sem um corpo onde as montar, e os sistemas mirrorless ainda não atingiram o nível de desempenho das DSLR. Imaginem como se sentirá quem gastou €1.700,00 com uma Olympus E-5 ao saber que a marca não vai fazer mais nenhuma DSLR e que no futuro, quando a sua câmara necessitar de substituição, vai ter, para continuar a usar o seu arsenal de lentes, de comprar uma OM-D e um adaptador - que não lhe garante acuidade na focagem automática - e prescindir do visor óptico.
A política da Olympus está a tornar-se quase tão errática como a da Pentax, embora com a diferença de ainda saber fazer câmaras bonitas. Não sei onde os administradores da Olympus esperam chegar com estas opções, mas desiludir consumidores fiéis não me parece uma boa política para um fabricante que depende do entusiasmo dos olympianos fervorosos. Se forem estas as ideias da Olympus, vamos decerto ver muitas lentes 4/3 no eBay e um acréscimo de vendas das reflex da Canon e da Nikon.
Não me sinto particularmente compelido para comprar a E-M5. Para que a ambicionasse, esta câmara teria de constituir uma enorme evolução em relação às Pen. Mas posso estar a agir como a raposa da fábula, que desdenha as uvas por estarem verdes. Quero ver que tal é a câmara - e, sobretudo, como me corre a vida -, para saber se a minha esplêndida E-P1 vai ter uma sucessora. Se os progressos em qualidade de imagem forem apenas marginais, a E-P1 fica...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Novidades da indústria fotográfica

Hoje o mundo da fotografia foi colhido de surpresa com o anúncio, totalmente inesperado, de uma nova câmara mirrorless: a Pentax K-01. Uma câmara em relação à qual o fabricante teve de esclarecer, para não se cobrir de ridículo diante dos potenciais adquirentes de língua inglesa, que o modelo se pronuncia «K Zero One», de maneira a que os críticos não a designassem pelo termo técnico utilizado no boxe.
Eu já suspeitava que algo de muito mau podia acontecer à Pentax com a sua aquisição pelo fabricante de fotocopiadoras Ricoh. Aqui está: a Pentax, uma marca de prestígio e boa reputação, não acabou, mas cobriu-se de ridículo. Até ao momento, a Pentax saiu-se com a absurdamente cara Pentax Q - e agora lançou a câmara mais feia do mercado. Um feito colossal. A câmara já foi comparada a uma construção Lego, mas tal comparação é ainda demasiado benéfica: os Lego são giros, esta câmara é hedionda. O seu design é, possivelmente, o resultado de um momento de intoxicação com substâncias ilícitas de um tal Marc Newson, que aparentemente tem o dom de transformar materiais nobres em algo parecido com plástico. E a Pentax K-01 é o melhor exemplo desse design: apesar de ser de alumínio, a sua construção assemelha-se mais a plástico que a metal. É uma câmara parola - o amarelo fica-lhe a matar - que parece mais um brinquedo que uma máquina fotográfica a sério.
E não é apenas a fealdade: a câmara tem pormenores verdadeiramente grotescos. O botão de seleção de modos de exposição está no topo de algo que se assemelha à chaminé de uma caldeira (ou à canalização de um bidé, no caso do acabamento metálico), e a textura do revestimento é canelada, dando-lhe um ar barato de objeto que pode ser adquirido numa loja do chinês. E não me quero alongar acerca dos botões verde e vermelho no topo da câmara... Curiosamente, nenhuma das combinações de cores e tons lhe confere um ar sério. Até o modelo preto é parolo. Ainda por cima é enorme, praticamente do tamanho de uma K-5, o que denega uma das maiores vantagens dos sistemas mirrorless - a dimensão física -, e, ao mesmo tempo, lhe realça a piroseira. Temos uma câmara praticamente do tamanho de uma DSLR, mas sem visor de qualquer espécie e sem focagem automática por deteção de fase. Em poucas palavras, reúne os defeitos das mirrorless e das DSLR, aos quais acrescenta a estética de um brinquedo barato. E, a despeito do seu ar de pechisbeque, é relativamente cara. Mais vale tentar encontrar uma K-x antes que estas câmaras desapareçam das lojas.
E é com isto que a Pentax quer triunfar num segmento onde há câmaras com a estética da Olympus E-P3 e da Fujifilm X-Pro1. É certo que tem um sensor APS-C e uma baioneta do sistema K, podendo montar praticamente todas as lentes das SLR da Pentax, mas é tão obnóxia que a qualidade da imagem se torna secundária: quem, no seu perfeito juízo, quer ser visto com uma coisa destas na mão? Quem poderá fazer um retrato em condições, sem que o retratado tenha um ataque de riso ao olhar para a câmara? Fotografia de rua? Está fora de questão. Esta é a câmara que um palhaço usaria num número de circo.
Esta câmara é uma mirrorless, o que significa que não tem pentaprisma nem espelho. Ainda bem: se tivesse um espelho, dar-se-ia conta de quão feia e desajeitada é e poria fim à vida de imediato.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Oh My goodness!

Há muito que andam pela Internet rumores sobre uma câmara micro 4/3 da Olympus de uma categoria superior às Pen; chamavam-lhe a «Pen Pro». Afinal, os rumores confirmam-se. O que poucos esperavam era que a Olympus fosse inspirar-se no design das OM-1. A OM-1 é a minha câmara analógica favorita (não que alguma vez tenha experimentado uma, mas em termos de estética é a minha preferida), e quem me acompanha sabe que nutro uma predileção pelas lentes da série OM. Daí que seja com enorme expetativa que estou a acompanhar tudo o que é rumores e teasers acerca desta nova câmara, da qual saiu hoje mesmo, no 4/3 Rumors, a primeira fuga de imagem:
Se esta imagem não for o resultado da imaginação de algum artista do Photoshop, temos que a linha das OM analógicas quase foi copiada, como o demonstra o formato hexagonal dos planos superior e inferior da câmara. 
Já agora, alguma informação que circula pelos websites de fotografia dá como certo que a OM digital será uma câmara selada (resistente a poeiras e salpicos), com um sensor novo de 16 MP e visor electrónico integrado. A confirmar-se tudo isto, esta Olympus pode ser uma rival da Sony NEX-7 e da Fujifilm X-Pro1. Só tem de convencer os compradores que uma diferença de dois ou três milímetros na área do sensor não compromete a qualidade da imagem, o que implicará lutar contra um marketing agressivo e as ideias feitas de muitos fotógrafos amadores.
Já agora, parece que a câmara se vai chamar OM-D5. O que significa, a ser verdade, que vai continuar onde a primitiva OM parou: a última - descontando as versões cuja denominação incluía dois dígitos, como a OM-10, que eram inferiores em qualidade - foi a OM-4. Isto é muito interessante. Agora só falta ver que solução os designers encontraram para integrar o visor. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Mirrorless da Canon e mais novidades

Hoje a Canon apresentou a G1X, a sua ideia de como deve ser uma câmara mirrorless. A G1X tem um sensor mais ou menos do tamanho 4/3 (Olympus, Panasonic), é pequena e transportável, tem controlos manuais, mas tem uma lente fixa. Pior ainda, essa lente tem uma abertura, no máximo de zoom (112mm), de f5,8. Suponho que o que a mensagem que a Canon quis transmitir, com esta câmara, foi algo como se queres fotografias de qualidade, compra uma das nossas reflex. Que é exactamente o que a Nikon quis dizer aos compradores quando lançou a sua série 1 com o seu sensor minúsculo. Em ambos os casos, trata-se de exercícios cínicos de fabricantes que começam a ver o seu domínio ameaçado - pelo menos no longo termo. No caso da Canon, não me parece que esta seja uma câmara mirrorless: é uma compacta. As suas rivais não são a Olympus E-P3 nem a Panasonic GX1: são as Sigma DP-1 e DP-2. Só vejo um tipo de compradores para esta câmara: fotógrafos profissionais que querem uma câmara com boa qualidade de imagem que caiba no bolso das calças.
Bem mais excitante é a FujiFilm X-Pro1. Esta sim, é uma câmara mirrorless com tudo para interessar o entusiasta: comando manual da abertura e da velocidade do obturador, um visor híbrido, lentes intermutáveis, um sensor que, ao que se diz, é revolucionário, e uma gama de três lentes prime, todas elas bem rápidas. Se eu fosse muito rico - o corpo vai custar $1700 USD - e não estivesse tão comprometido com o sistema micro quatro terços, esta seria a minha próxima câmara. É a Leica, não digo dos pobres, mas dos remediados. Só é pena não ter o acabamento metálico da X100, mas mesmo toda preta tem toneladas de classe.
Por falar em micro quatro terços: de acordo com um site de rumores, a Olympus vai apresentar uma nova câmara micro quatro terços já em fevereiro. Ao que parece, terá um visor incorporado - finalmente alguém na Olympus percebeu que ficavam a perder na comparação com a Sony NEX-7 e, agora, com a nova Fuji - e, curiosamente, diz-se que terá linhas inspiradas na fabulosa Olympus OM-1. Mal posso esperar. Oxalá não seja exageradamente cara.
Entretanto, a Sigma entrou no mercado das lentes micro quatro terços com duas prime - uma de 19mm e outra de 30mm. Ambas com abertura máxima de f2.8. Com a minha pancake 17mm/f2.8 e a OM 28mm/f3.5, posso dizer que não preciso de nenhuma delas. Num meio onde se exigem lentes cada vez mais rápidas, não me parece que f2.8 seja um bom argumento de vendas. Estas lentes precisam de ter uma qualidade de imagem acima da média para justificar a sua compra. Em todo o caso, se uma marca como a Sigma aposta no micro 4/3, tal não pode deixar de significar que este é um formato com futuro.
A Nikon, que não está muito interessada em que o conceito mirrorless se desenvolva e concorra com as suas DSLR, apresentou a D4, uma câmara full frame profissional. Embora não duvide que é uma câmara superlativa - um verdadeiro maquinão -, entendo que a sua aquisição apenas se justifica se se for um fotógrafo profissional cujo trabalho envolva um grau extremo de exigência em matéria de qualidade de imagem e rapidez. Seria um disparate se um amador comprasse uma destas câmaras - a menos, evidentemente, se esse amador fosse o Sultão do Brunei. Quer dizer: se o Sultão do Brunei comprasse uma câmara destas, seria um disparate na mesma, mas esse, ao menos, pode comprar as câmaras que quiser. Se gostar de fotografar, claro.