quinta-feira, 29 de março de 2012

O cúmulo da preguiça

É com a câmara que isto se faz, não com o Photoshop!
Hoje entretive-me a ler um artigo no DPReview acerca do Photoshop CS6 Blur Gallery, um software do Photoshop CS6 que permite produzir um fundo esbatido a partir de uma imagem completamente nítida. Depois de o ler, fiquei com uma dúvida - a quem é que isto serve? Não compreendo como pode alguém que se arroga a qualidade de «fotógrafo» saber da existência deste software sem esboçar um esgar desdenhoso. Como é que alguém pode ser tão preguiçoso, ou tão inepto, ao ponto de não saber nem querer aprender como se reduz a profundidade de campo para produzir fundos esbatidos? É tão simples que me parece inconcebível haver quem precise daquele utensílio informático. Não vou ao ponto de dizer que só um idiota o usará (não quero ter mais comentários de gente ressabiada, ainda hoje recebi mais um), mas o potencial utilizador daquilo só pode ser alguém que prefere a complicação à simplicidade, o irreal ao natural e o artificial ao autêntico. Não será um idiota, mas é certamente alguém com concepções muito estranhas acerca de fotografia.
Já o disse aqui por várias vezes: obter aquilo a que se chama o bokeh é desconcertantemente simples. Claro que exige alguns requisitos técnicos, mas se eu consigo, qualquer um consegue. Basta ter uma lente com uma distância focal razoável - digamos a partir dos 70mm, mas quanto maior, melhor -, com uma boa abertura, na ordem dos f2.0 ou superior (a f1.4 as coisas começam a tornar-se seriamente interessantes). Claro que uma lente destas pode ser cara, mas não necessariamente: a Canon e a Nikon têm lentes 50mm/f1.8 extremamente baratas e de grande qualidade. 
Preenchidos que estejam estes requisitos, é só escolher a abertura máxima, aproximar a lente do objecto que se quer manter em foco e disparar. A focagem automática faz o resto. Não vejo o que tem isto de complicado. aliás, nem é condição necessária ter focagem automática: as lentes manuais são tão ou mais capazes de produzir este efeito quanto as lentes contemporâneas de focagem automática. No meu caso, tenho uma lente que é especialmente apta para este tipo de fotografia: a minha venerada Olympus OM G.Zuiko Auto-S 50mm/f1.4, obviamente de focagem manual. Fotografar com esta lente é um prazer. Ver, no ecrã da câmara, a maneira como o fundo se vai esbatendo, reduzindo-se a manchas coloridas, enquanto o objecto vai ganhando nitidez à medida que rodo o anel de focagem, é uma experiência única, de uma beleza incomparável. Nada substitui esta experiência: consigo envolver-me por completo no acto de fotografar. É muito diferente estar no terreno e regular a câmara ou estar de frente ao monitor a usar pincéis virtuais ou manipular camadas. E muito mais divertido.
Esta é a imagem que ilustra o artigo da DPReview. Completamente irrealista.
Além de ser uma experiência estéril, o Blur Gallery produz resultados esteticamente desagradáveis. Pode ser interessante para quem cultive noções superficiais de beleza, mas a verdade é que a imagem manipulada torna-se irreal, inautêntica e artificial, sendo a manipulação demasiado notória. Enfim - uma experiência estéril que tem o potencial de privar o utilizador de aprender a técnica fotográfica (que, como vimos, até não é assim tão difícil). Daí que o meu conselho seja que o eventual interessado neste software poupe o seu dinheiro e amealhe mais um pouco para adquirir uma lente com boa abertura. A menos, claro, que seja demasiado preguiçoso para aprender uma técnica tão simples como esta.

5 comentários:

Valdemar Traça disse...

Eu uso o lighroom como editor de fotografia mas uso somente o necessário para corrigir algumas coisas assim como o balanço de brancos por exemplo e saturação. Sou contra o exagero mas cada um faz como quer. Eu não vejo utilidade nesse tipo de programas nisso tenho de concordar com o artigo. Abraço

www.valdemartraca.com

JoeZef disse...

Como fotógrafo estou perfeitamente de acordo. Ferramenta inútil para mim. Mas por trabalhar diariamente com designers gráficos sei que o photoshop não é um software desenvolvido para fotógrafos. As suas capacidades vão muito além da fotografia. Para quem cria imagens de raiz, sem sequer ter como base uma fotografia mas sim um ecrã branco, esta ferramenta é indispensável.

José Antunes disse...

A ferramenta pode servir para aquelas alturas em que o fotógrafo tem de cumprir com um requisito do cliente e não consegue tecnicamente desfocar o fundo. Isso também acontece. Claro que como todas as ferramentas, tem de ser usada com nexo, mas isso é o que falta.

Veja-se a razão para o júri do prémio de Fotojornalismo Estação de Imagem|Mora 2012 desclassificar muitas reportagens: excesso do uso de Photoshop. Quer isso dizer que o Photoshop é mau? Não, as pessoas é que não sabem onde estão os limites para distintas situações.

MVM disse...

José Antunes, as minhas opiniões sobre o Photoshop estão aqui: http://mvm-iso100.blogspot.pt/2012/02/quem-precisa-do-photoshop.html

K2 disse...

Concordo com vc plenamente,eu mesmo já fiz um comentário em uma revista sobre isso,que ela dava 20 dicas de como tirar uma boa foto e na dica de numero 10 era,,"agora vamos editar a foto",pó,ai perguntei,então para que as dicas,e logo atras um cara que estava començando a fotografar so fez uma pergunta,,qual o melhor editar de imagem "gratis" eu uso,o cara mal sabia fotografar e ja estava pensando em editar,,mais é isso ai,,tambem não concordo com isso,parabens,gostei do ""idiota"".