segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Conselho n.º 2: compreender a câmara (continuação)

5. O modo M

O modo M, inicial de manual, é o cume da evolução do fotógrafo; é a sua emancipação em relação à câmara e ao fotómetro. Neste modo, tudo está sob controlo do fotógrafo: é ele quem regula a exposição, controlando a abertura e a velocidade do disparo. Apenas a compensação de exposição está fora dos comandos controláveis pelo fotógrafo, uma vez que é desnecessária: o excesso ou deficiência de exposição são corrigidos aumentando ou diminuindo manualmente a velocidade do disparo ou a abertura.
Quem leu os textos anteriores com atenção recordar-se-á, decerto, que a abertura, a velocidade do disparo e a sensibilidade ISO agem entre si numa relação de interdependência para determinar a exposição. No modo M tudo isto é feito pelo fotógrafo, o que pode, de início, deixá-lo com a sensação de que se encontra sozinho a contas com algo que não domina, mas é sempre possível ter uma pequena ajuda do fotómetro, uma vez que este está permanentemente em funcionamento, medindo a quantidade de luz, e a câmara indica sempre o valor da exposição em EVs. Esta é uma pequena batota que pode ajudar nos primeiros tempos, mas deve ser encarada como as rodas auxiliares de uma bicicleta, que se descartarão quando se adquirir o equilíbrio necessário. O domínio da técnica adquire-se por tentativa e erro - com a vantagem, no caso da fotografia, de não haver arranhões nem ossos partidos!
Dizia que a abertura, a velocidade do disparo e a sensibilidade ISO agem entre si numa relação de interdependência para determinar a exposição. Com efeito, quanto maior a abertura, maior poderá ser também a velocidade do disparo e menor a sensibilidade ISO; inversamente, aberturas diminutas requerem velocidades de disparo mais baixas e, se o objecto estiver em movimento, sensibilidades elevadas. Como regra de bolso, podemos memorizar que as aberturas grandes se usam para concentrar a focagem num motivo e as pequenas são empregues quando queremos que toda a imagem, desde o ponto mais próximo ao infinito, se mantenha nítida. Há, naturalmente, uma miríade de possibilidades entre estes dois extremos, mas é incrivelmente divertido descobrir as correlações entre a abertura e a velocidade do disparo e aprender a jogar com elas.
O modo manual tem também a vantagem de ser o único que garante que as fotografias saem como queremos; há algumas explicações maçadoras para que isto aconteça, nomeadamente os parâmetros de medição da luz, mas a verdade é que, nos modos de exposição automática (AUTO e P), a temperatura da cor e a luz raramente têm correspondência com aquilo que vemos a olho nu - especialmente no lusco-fusco e ao amanhecer. A câmara tende a compensar a escassez da luz com grandes aberturas ou velocidades de disparo reduzidas, assim aumentando a exposição, pelo que é frequente termos céus muito azuis quando o sol já desapareceu, ou céus brancos quando o sol já se está a pôr. Só no modo M é possível evitar estes efeitos e obter uma exposição correcta nestas circunstâncias, sendo que a compensação de exposição, embora útil, obscurece a imagem por todo, e não apenas na parte que queremos. Já exemplifiquei aqui o que se pode obter com o modo M, pelo que remeto para o texto correspondente e para os exemplos que ilustram o texto.
O M é o modo de eleição dos fotógrafos avançados, mas não significa que estes o usem em exclusividade. Os outros modos têm a sua pertinência: até o P é usado, por ex., quando se faz fotografia de rua, na qual não há tempo para regular a câmara. É que, se fotografarmos de um lado da rua com determinados valores de exposição, podemos descobrir que estes são completamente desajustados quando fotografarmos do outro lado, o que obriga a regular a câmara de novo, com a consequência óbvia de o enquadramento que queríamos ter desaparecido enquanto procurávamos os botões que regulam a abertura...
Também os modos A e S são frequentemente usados em circunstâncias especiais, como por ex. para fotografar com focagem selectiva ou captar motivos em movimento, respectivamente. Não se pode ter a pretensão de fotografar exclusivamente no modo manual. Posso assegurar-vos, contudo, que, quando aprenderem a usá-lo, raramente vão querer fotografar nos outros modos.

sábado, 17 de setembro de 2011

Conselho n.º 2: compreender a câmara (continuação)

4. O modo S

Os textos que aqui publico não têm a pretensão de formar um manual; muitos dos meus conhecimentos estão ainda incompletos, pelo que apenas me atrevo a escrever sobre aquilo que a minha curta experiência me diz ser correcto e cuja correcção pude comprovar repetidamente. No caso do modo S, de Shutter priority («prioridade ao disparador»), a minha experiência diz-me que este modo de exposição é apenas usado quando o motivo requer velocidades de disparo muito baixas ou muito altas, sendo pouco prático de usar em circunstâncias normais. Ao seleccionar S, estamos a deixar que a câmara escolha qual a abertura mais apropriada em função das condições de luz, bem como a sensibilidade ISO – se esta estiver programada para ser seleccionada automaticamente pelo fotómetro.
Vejamos o que se passa nestas circunstâncias: quando queremos fotografar à noite, ou ao lusco-fusco, importa que a exposição seja maior do que sob luz intensa. Quanto menos luz, menor deve ser a velocidade do disparo. Para que a exposição se prolongue, de maneira a que o sensor capte o máximo de luz possível, a velocidade de disparo deve ser reduzida, podendo ser necessário que a exposição dure alguns segundos. Há até um modo denominado Bulb, pelo qual o obturador permanece aberto durante períodos que podem ultrapassar os 30 segundos. O que pode levantar um problema se a intenção for captar objectos em movimento, caso em que não existe outra alternativa para além de aumentar a sensibilidade ISO - o que, como sabemos, tem um preço a pagar no incremento do ruído na imagem.
Já escrevi aqui sobre a fotografia nocturna, pelo que remeto para o respectivo texto. Além da necessidade de um tripé para fotografar à noite referida no texto anterior, importa ter em consideração a lente. Uma das maravilhas de ter uma DSLR ou uma câmara como as Olympus Pen (ditas «compactas de lentes intermutáveis») é a possibilidade de escolher a lente mais adequada para as condições em que se pretende fotografar. Para fotografar com pouca luz é fundamental que se usem lentes com aberturas grandes. Digamos qualquer coisa entre f2.0 - ou menos - e f3.5. Lentes com aberturas mínimas a partir de f3.5 são desaconselháveis, porque obrigam a que se empreguem velocidades de disparo demasiado lentas para compensar as fracas características de luminosidade da lente, o que pode não ser o mais adequado. O que significa, quase forçosamente, que se devem usar lentes grande-angulares, uma vez que as zoom tendem a ter aberturas reduzidas - e tanto mais quanto maior for a distância focal escolhida. Há excepções; há teleobjectivas com grandes aberturas, e outras cuja abertura é invariável seja qual for a distância focal, mas estas lentes são caríssimas.
O modo S não serve apenas para fotografar à noite: serve também para seleccionar velocidades de disparo altas em quaisquer outras condições de luminosidade, por exemplo para captar objectos em movimento. A velocidade escolhida deve ser directamente proporcional àquela com que o objecto se desloca. Nestas circunstâncias não é prático estar a seleccionar a melhor abertura, uma vez que se pode perder o momento ideal para fotografar; deixar a abertura ao critério da câmara é a melhor solução para obter bons resultados. Por outro lado, tentar fotografar estes objectos no modo P pode ser um fracasso, já que o fotómetro vai sempre demorar algum tempo a calcular a velocidade e a abertura ideais. Isto pode prejudicar a focagem, ou mesmo levar a que o objecto já não esteja lá quando a câmara finalmente se resolveu a disparar...
É possível fazer fotografias imensamente interessantes com recurso ao modo S: jogando com a velocidade do disparador, podemos obter fotografias em que se congela o motivo mas o plano de fundo é arrastado, parecendo estar em movimento, ou o efeito inverso. É também no modo S, escolhendo uma velocidade de disparo relativamente lenta e um valor ISO baixo, que se obtém o efeito de arrastamento dos motivos, que pode resultar em imagens espectaculares (ou, dependendo do ponto de vista, ser interpretado como inépcia do fotógrafo...). Este modo permite exercitar a criatividade do fotógrafo de uma maneira que é simplesmente impossível nos modos automáticos, que tendem sempre a escolher as regulações correctas para que a imagem resulte nítida. E a nitidez nem sempre é o que se pretende.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Conselho n.º 2: compreender a câmara (continuação)


3. O modo A

Por este comando, que nas Canon e Pentax é designado «Av» (Aperture value), o fotógrafo controla a abertura do diafragma e a câmara selecciona a velocidade de disparo mais adequada. A abertura é o modo de fazer variar a quantidade de luz que a lente deixa entrar no sensor. As lentes têm um diafragma, constituído por diversas lâminas, que controla a quantidade de luz captada contraindo ou expandindo as lâminas. A cada posição do diafragma corresponde um número designado por «número f». Quanto mais alto for este número, menor a abertura.
Uma vez que a fotografia é a captação de luz, a abertura é absolutamente determinante para a qualidade da imagem. É pelo controlo da abertura que se determina a quantidade de luz que chegará ao sensor, o que tem implicações não apenas na luminosidade da imagem, mas também na focagem e na profundidade de campo.
Determinar manualmente a abertura é algo que tem interesse em determinadas aplicações: podemos usá-la quando instalamos uma lente com comando manual da abertura, se quisermos que seja a câmara a decidir qual a velocidade do disparo mais adequada à abertura escolhida, ou quando pretendemos obter determinados efeitos jogando com a focagem.
Referi que a abertura tem implicações na focagem. Com efeito, a abertura determina-a da mesma maneira que nós usamos os olhos para ver objectos ao perto ou ao longe: abrimo-los o mais possível para ver nitidamente um objecto próximo e tendemos a semicerrá-los para observar algo distante. Com as lentes é a mesma coisa, uma vez que o diafragma simula a nossa íris, mas os efeitos de focagem e desfocagem são exacerbados, já que os nossos olhos tendem a ver com maior nitidez (pelo menos enquanto não perfizermos quarenta anos, altura em que começamos a frequentar o oftalmologista com mais assiduidade...).
Ora, quando conseguimos ver algo longínquo com nitidez, o que está entre os nossos olhos e o objecto tende a manter-se nítido; quando concentramos o olhar num objecto próximo, perdemos acuidade visual de tudo o que rodeia o objecto. A câmara e a lente comportam-se sensivelmente da mesma maneira. Se queremos manter tudo em foco, usamos uma abertura pequena e, se queremos focar apenas um determinado plano, escolhemos uma abertura maior. É isto que se designa por profundidade de campo.
Se repararem bem, as lentes contêm uma indicação quanto à distância coberta: por ex. 0.30-∞. Isto significa que a sua profundidade de campo vai da distância mínima em relação ao objecto (neste caso 30cm) até ao infinito, valor esse que se modifica conforme a abertura e a distância da lente em relação ao objecto. A profundidade de campo não é regulada por um comando - embora algumas lentes permitam calculá-la -, mas é determinada pela abertura e pela distância entre a câmara e o objecto. Uma profundidade de campo diminuta produz imagens desfocadas, ao passo que uma profundidade longa mantém todo o campo de visão nítido.
Exemplo de profundidade de campo reduzida: o fundo está, propositadamente, desfocado. A abertura usada para esta foto foi f4.2, próxima da abertura mínima da lente (4.0)
É o modo A que deve ser usado quando queremos usar a focagem selectiva, i. e. quando queremos destacar um objecto mantendo-o em foco e deixando que tudo o resto (não necessariamente apenas o plano de fundo) permaneça desfocado. Aquelas fotografias que vemos com um objecto perfeitamente em foco e o fundo desfocado são obtidas seleccionando uma grande abertura (a que corresponde um número f baixo), aproximando a câmara do objecto e focando sobre o motivo que se pretende manter nítido. É extremamente simples obter este efeito nos modos de exposição avançada, sendo os resultados superiores aos obtidos quando se selecciona o modo «Macro» da câmara.
Temos, deste modo, que a profundidade de campo depende do valor da abertura; daí que o controlo desta seja fundamental para obter a focagem desejada. Se optarmos por uma abertura ampla, a profundidade de campo reduz-se, ao passo que aberturas estreitas alongam a profundidade de campo.
Há algumas variáveis que importa considerar. Antes de mais, quanto menor a abertura, menor é a quantidade de luz, o que pode originar fotografias tremidas porque o fotómetro, para compensar a menor quantidade de luz captada, vai seleccionar uma velocidade de disparo reduzida. Aberturas estreitas podem tornar necessário o uso de um tripé.
Por outro lado, a resolução da imagem pode não ser a melhor quando se escolhem aberturas demasiado amplas ou diminutas. Por regra, a melhor resolução obtém-se nas aberturas intermédias (f5.6, f8, f11). Devem assim evitar-se os extremos mínimo e máximo da abertura.
Por fim, deve notar-se que existe uma relação proporcional entre a profundidade de campo e a distância focal da lente: quanto maior for esta, mais reduzida é a profundidade de campo. É mais simples obter nitidez ao longo de toda a imagem numa grande-angular de 50mm que numa teleobjectiva de 300mm. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Conselho n.º 2: compreender a câmara (continuação)

2. O modo P

Vimos, no texto anterior, que a exposição pode ser determinada pela câmara, mas a intervenção do fotógrafo é fundamental para que a fotografia corresponda melhor à sua intenção. Contudo, os modos de exposição avançados (PASM) não servem apenas para que o fotógrafo determine a exposição, como veremos melhor em textos posteriores; servem também para adequar a captação de luz a determinadas condições especiais.
Dos modos de exposição avançados, o mais simples de utilizar é o P. Já vimos que esta é a inicial de Programme («Programa»), fórmula abreviada para exposição automática programada. Este é o meu conselho n.º 3: quando começarem a fotografar com uma câmara evoluída, escolham sempre este modo. Esqueçam o AUTO e os modos pré-determinados de exposição: estes nem sempre produzem os efeitos anunciados, e é possível obter resultados melhores - muito melhores - nos modos de exposição avançados. A primeira coisa que devemos fazer, depois de ligar a câmara, é rodar o selector para o modo P. Este é o primeiro degrau da escada que leva ao domínio das técnicas fotográficas.
O modo de exposição automática programada significa que a câmara, através do fotómetro, vai determinar automaticamente os valores da exposição, regulando a abertura e a velocidade do disparo de acordo com a luz captada pelo sensor através da lente. O fotógrafo não tem de se preocupar com a regulação destes valores, o que o torna ideal para começar - desde que o fotógrafo o encare como o primeiro passo na compreensão da câmara, que lhe permite ir treinando as suas aptidões fotográficas, e não como um modo que torna os demais desnecessários. Com efeito, no modo P já é possível obter imagens de grande qualidade, pelo que o fotógrafo pode entender que não necessita de evoluir para os outros modos de exposição, mas pensar assim é um erro porque é possível fazer ainda melhor.
O modo P difere do automático (AUTO) por, apesar de a exposição ser definida automaticamente, permitir o acesso a três comandos importantes que influem na qualidade da imagem: a compensação de exposição, o equilíbrio de brancos e a sensibilidade ISO.
Quem leu os textos anteriores com atenção lembra-se, certamente, das noções de exposição referidas anteriormente. A exposição refere-se à quantidade e às características da luz captada pela câmara, dizendo-se, de uma fotografia demasiado clara - i. e. com excesso de luz -, que está sobreexposta, e que está subexposta quando a luz captada é escassa, produzindo uma imagem escurecida.
Embora o fotómetro determine com razoável precisão os parâmetros da exposição, os valores calculados podem não produzir o efeito desejado pelo fotógrafo. Uma exposição que é correcta pela medição do fotómetro pode não ter correspondência com a intenção do fotógrafo. Pode este querer um pouco mais de contraste, ou mais luminosidade. Acresce que a medição da luz é feita por parâmetros matriciais (embora possam ser seleccionados outros modos de medição), pelo que os valores da exposição são calculados de acordo com a forma como a luz se distribui pela imagem, o que pode resultar em fotografias com um contraste deficiente entre zonas de sombra e de luz. É para corrigir estes problemas da exposição que existe a compensação de exposição, que é accionada por um comando assinalado pelo símbolo +/- (ver imagem). A exposição pode ser corrigida em passos de 1 EV (iniciais de Exposure Value) ou fracções de 1/2 ou 1/3 EV: tipicamente, se rodarmos o comando para a esquerda, obteremos uma imagem com menos brilho, mais escura e contrastada, produzindo-se o efeito inverso - mais claridade - quando rodamos o comando para a direita. (Nalgumas câmaras a compensação de exposição é accionada por um comando circular, noutras por botões.) Normalmente basta 1/2 ou 1/3 EV para se obter o resultado pretendido, a menos que se pretendam imagens muito low-key ou banhadas em luz. Note-se, porém, que a compensação de exposição age sobre toda a imagem, não servindo para corrigir contrastes excessivos entre luz e sombra: para corrigir isto tem de se usar uma função avançada, que é a do controlo do modo de medição.
O equilíbrio dos brancos (WB - White Balance) serve para adaptar a tonalidade da imagem a diferentes condições de luminosidade. O branco é a fundação das cores - ou, mais correctamente, a soma de todas elas -, e a forma como a luz afecta a sua tonalidade determina a das demais cores e a tonalidade geral da imagem. O branco, tal como as demais cores, não tem a mesma tonalidade debaixo de diferentes condições de luz: as cores que a câmara capta não são idênticas debaixo da luz solar ou dentro de um quarto iluminado por uma lâmpada de tungsténio. O equilíbrio dos brancos ajusta as cores às condições de luz, modificando os valores Kelvin de temperatura da cor e adaptando a exposição em conformidade. A câmara oferece valores Kelvin pré-definidos para diferentes condições de luz: Luz Solar, Nublado, Sombra, Tungsténio, Fosforescente (incluindo diferentes regulações) e Flash. O equilíbrio dos brancos pode ser deixado ao critério da câmara, deixando em «auto», ou pode ser configurado pelo próprio fotógrafo, mas esta última possibilidade já implica conhecimentos extremamente avançados e o uso de acessórios que tocam o esoterismo...
Exemplo de ruído na imagem
O modo P permite subtrair a regulação da sensibilidade do sensor à luz ao controlo da câmara, o que é de extrema importância. O aumento da sensibilidade (ISO) permite que o sensor capture mais luz, o que tem o benefício de poder usar velocidades de disparo mais altas em condições de pouca luz, o que facilita a captação de imagens em movimento nessas circunstâncias. Se quisermos fotografar, por ex., um automóvel em marcha durante a noite, precisamos de uma velocidade de disparo rápida, uma vez que, se usarmos velocidades menores, surge um efeito de arrastamento das luzes do veículo e este aparece desfocado. Simplesmente, aumentar a velocidade de obturação reduz a exposição, o que resulta em fotografias subexpostas. Aumentando a sensibilidade consegue-se capturar o motivo focado e sem o efeito de arrastamento, mas o uso de valores ISO elevados tem a sua contrapartida no aumento de ruído da imagem, que confere um aspecto granuloso à fotografia que, se for muito pronunciado, pode destruir a imagem.
O modo P ainda não é aquele em que o fotógrafo assume o comando, mas deixa-lhe a possibilidade de regular parâmetros importantes da exposição. Como mencionei, é este - e não o modo totalmente automático AUTO - com que se deve começar a fotografar. 

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Conselho n.º 2: compreender a câmara (continuação)


1. Os comandos da câmara: introdução

Decerto que a primeira reacção do neófito ao ver uma câmara evoluída será o de se interrogar: para que serve esta parafernália de botões? 
Não nos deixemos intimidar. Os botões importantes para começar a explorar a câmara são três; os demais podem ser descobertos mais tarde, gradativamente, à medida que o utilizador se vai familiarizando com a câmara. Nesta fase exploratória, os três botões que se devem descobrir - não é muito difícil... - são o interruptor ON/OFF, o botão de disparo e o selector de modos de exposição, todos eles situados na parte superior da câmara. Quanto aos dois primeiros, não há nada de especial a dizer: um serve para ligar ou desligar a câmara, o outro para disparar. Ressalvada a necessidade de, uma vez escolhido o objecto e o seu enquadramento, premir o botão do disparador apenas até meio para que a câmara foque o motivo, e só premir completamente depois da confirmação da focagem (isto pode parecer redundante, mas já vi fotografias desfocadas por não se observar este procedimento), não há nada de especial a assinalar quanto a estes comandos.
O selector de modos de exposição é bem mais complexo de compreender. Tipicamente, este selector é um disco rotativo situado na parte superior da câmara (semelhante ao da imagem acima) e tem marcadas diversas posições: AUTO, P, A, S, M, SCN. Alguns têm desenhos, como uma câmara de vídeo e uma série de ícones referentes aos modos «fáceis» de exposição. O meu conselho, a quem queira realmente tirar partido do investimento que fez com a câmara, é o de simplesmente ignorar estes modos «fáceis» e o modo AUTO. Estes são comandos para gente preguiçosa, não para fotógrafos. Com eles, quem está a tirar fotografias não é o fotógrafo, mas a câmara, que se substitui ao primeiro na escolha dos valores de exposição, que por seu turno são aqueles que o fotómetro entende serem os mais correctos - mas que podem não coincidir com a fotografia que o fotógrafo queria realmente obter. Para se manusear uma câmara de acordo com a intenção criativa do fotógrafo, os únicos modos de exposição que interessam são os que surgem no selector assinalados como P, A, S e M - ou, nas Canon e Pentax, P, Av, Tv e M. O resto é para quem teve uma câmara compacta e quer evitar o sobreaquecimento dos neurónios.
Esqueçamos, deste modo, os comandos redundantes e concentremo-nos naqueles que permitem ao fotógrafo ser ele a determinar os valores da exposição - e, consequentemente, a obter as fotografias que quer, e não as impostas pela câmara. Vejamos, de maneira sistemática, quais são estes comandos, conhecidos na gíria fotográfica por PASM:
  • No comando P, esta letra é a inicial de Programme (ou Program), que por seu turno é a abreviatura de Programmed Automatic Exposure («exposição automática programada»); 
  • A é a inicial de Abertura (Aperture), abreviação de «prioridade à abertura» (Aperture priority) (*);
  • S é a primeira letra do vocábulo Shutter, que literalmente significa «disparador», representando a expressão Shutter priority («prioridade ao disparo») (**);
  • M representa Manual, de Manual exposure («exposição manual»).
Nos próximos textos analisaremos o que são estes comandos, em que circunstâncias devem ser usados e quais as suas vantagens e inconvenientes.

(*)(**) Nas Canon e Pentax, A é substituído por Av (Aperture value) e S por Tv (Time value).

Conselho n.º 2: compreender a câmara

Agora que já tem uma câmara decente, o leitor deste blogue pode começar a tentar entender-se com ela. Nada melhor, para poder familiarizar-se rapidamente com a câmara, que a leitura atenta do manual de instruções. Pode parecer penoso, ou mesmo assustador, perante a quantidade inesgotável de termos e funções de que nunca ouvimos falar, mas fotografar com uma boa câmara é mais simples do que a consulta do manual de instruções pode sugerir. O processo de aprendizagem da operação de uma câmara é longo, e por vezes podemos sentir-nos derrotados pela dificuldade em apreender todos os seus controlos, mas já referi aqui que o prazer de fotografar aumenta à medida que vamos dominando a técnica, pelo que vale a pena.
Para compreender o que uma câmara faz - o que permitirá entender melhor a forma como ela opera - convém ter algumas noções básicas sobre a fotografia antes de fotografar. A câmara é um aparelho que reproduz imagens através da captação de luz. Já o era quando foi inventada por Joseph Nicéphore Niépce, foi assim nos tempos de Daguerre, continuou a sê-lo quando inventaram as SLR e assim é com as câmaras digitais. Não há outra maneira de fazer fotografia. As câmaras de hoje continuam a captar a luz através de um sistema de lentes e a registar a luz, por acção de um obturador, num suporte fotossensível - tal como quando foram inventadas. A única diferença, neste processo, é que hoje se usam chips em lugar de películas. Este registo da luz dá-se quando o fluxo que alimenta o sensor (ou filme) é captado por intermédio de uma peça de nome obturador, cuja acção pode ser mais ou menos longa, dependendo do tempo de exposição.
À quantidade de luz, e suas características, chama-se exposição. É o controlo da exposição que determina a qualidade da imagem. De uma fotografia demasiado clara - i. e. com demasiada luz - diz-se que está sobreexposta; no caso inverso, diz-se que está subexposta. O controlo da quantidade de luz é feito por um aparelho óptico denominado fotómetro, que está permanentemente em funcionamento e mede os valores da exposição, determinando esta última para a obtenção de uma exposição equilibrada - embora a sua acção possa ser mitigada, ou mesmo inteiramente suprimida pelo fotógrafo através dos modos de exposição avançados.
Antes de mais - o que são os valores da exposição? São os valores que vão determinar a aparência da imagem, através do controlo da luz. São três: a abertura, a velocidade do obturador e a sensibilidade do sensor.
A abertura determina a quantidade de luz que vai entrar na câmara através da lente. Já vimos que é aumentada ou diminuída através de um conjunto de lâminas que formam um orifício que pode ser mais largo ou ou mais estreito, conforme as necessidades da exposição. Não há uma regra básica quanto à abertura: dizer-se que esta deve ser maior quando há menos luz e menor debaixo de luz abundante é apenas parcialmente verdadeiro. A abertura conjuga-se com os outros valores para determinar a exposição desejável. A maior influência da abertura é na focagem, como escrevi aqui e aqui. A abertura mede-se em números, denominados pela letra f, que variam na proporção inversa da abertura das lâminas da lente: quanto mais fechadas estas, maior é o número f, e vice-versa. Por exemplo, numa lente com aberturas entre f2 e f18 - estes números podem ser encontrados na parte frontal da lente -, o primeiro valor refere-se à abertura maior e o outro à menor. Confuso? Neste caso basta pensar no número f como uma fracção e escrever f=1/2 em lugar de f2, ou f=1/18 em lugar de f18 para que tudo faça sentido. Só por simplicidade é que o valor da abertura se exprime em números inteiros.
A velocidade do obturador, ou velocidade do disparo, é a medida do tempo durante o qual a luz vai ser registada no sensor ou no filme. Quanto menos luz existir, menor terá de ser a velocidade do disparo, porque o sensor vai precisar de captar o máximo de luz disponível para obter imagens nítidas. Inversamente, quanto mais luz houver, mais elevada será a velocidade do disparo. Também aqui esta regra peca pelo excesso de simplicidade, porque a velocidade do disparo conjuga-se com a abertura para obter a exposição ideal.
Por fim, a sensibilidade do sensor é a quantidade de luz que este consegue captar. Este valor é denominado por ISO (que é a sigla da Organização Internacional para a Normalização), e pode ser regulado para valores que vão, tipicamente, desde os 80 ou 100 a 6400 ou 12800. O ISO tem um papel fundamental na exposição, permitindo obter velocidades de disparo mais rápidas em condições de pouca luz, mas o seu incremento tem, como o leitor mais atento deste blogue o sabe, uma contrapartida indesejável: o surgimento de ruído na imagem. E o ruído é algo de insidioso: pode não se dar pela sua presença numa imagem thumbnail, mas, quando esta é ampliada, descobre-se que está arruinada pelo excesso de ruído. Daí que o valor da sensibilidade ISO deva ser sempre o menor possível.
No próximo post começaremos a ver como se controlam estes valores na câmara, dando desde já por adquirido que estes conhecimentos são imprescindíveis para compreender como funciona uma câmara e para que sejamos nós, e não a câmara ou o fotómetro, quem tira as fotografias.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Conselho n.º 1: o equipamento

Um principiante a dar conselhos a outros principiantes pode ser o caminho para um desastre; o que vou escrever nos próximos textos é apenas um conjunto de sugestões baseadas na minha própria experiência, que não é necessariamente idêntica à dos leitores ou à de outros fotógrafos, pelo que deve ser lido com um grão de sal. Cum grano salis, como diziam os antigos. Não tenho a experiência de um fotógrafo com décadas de fotografia e material de ponta, nem sequer tenho um curso de fotografia; o que vou escrever é mais uma forma de evitar que os leitores caiam nos meus erros, e de partilhar os conhecimentos em que me sinto seguro, do que uma tentativa de escrever um manual de fotografia.
A primeira coisa que nos devemos certificar, antes de tomarmos a decisão de adquirir uma câmara, é se temos jeito para fotografar. Se não tivermos, gastar dinheiro em material de qualidade não será mais que um desperdício. Seria como comprar um Steinway quando só sabemos tocar os Martelinhos e não temos intenção de aprender mais. O que vou escrever de seguida apenas se aplica a quem tiver um interesse verdadeiramente sério pela fotografia e tenha vontade de desenvolver a percepção visual dos objectos que o rodeiam; para os demais, o telemóvel é mais que suficiente. Desculpem se pareço presunçoso, mas as coisas são mesmo assim. Ninguém compra um Ferrari para ir de casa para o trabalho (e vice-versa) e levar os miúdos à escola: tal seria um desperdício estúpido.
Depois desta introdução, o conselho com que quero começar é o seguinte: COMPREM A MELHOR CÂMARA E LENTE QUE PUDEREM. (Não, não accionei o caps lock por engano: isto é mesmo importante.) Quando decidi começar a fotografar, em finais de Julho do ano passado, cometi um erro do qual me arrependi ao fim de apenas dois meses: comprei uma câmara compacta. Imaginei que deveria evoluir progressivamente, passando da compacta para uma câmara intermédia se sentisse essa necessidade, para só mais tarde adquirir uma câmara de qualidade, quando confirmasse que era capaz de tirar boas fotografias. Foi um erro: ao fim de algum tempo a compacta já era um obstáculo. As compactas não são versáteis, apesar de anunciarem valores de zoom astronómicos e funções XPTO. A lente das compactas gera aberrações lamentáveis, como um nível assustador de distorção da imagem, e o sensor produz uma quantidade horrenda de ruído em imagens captadas com pouca luz. Acresce que a resolução das imagens destas câmaras é apenas sofrível, dependendo de condições de luz óptimas. Não se deixem enganar pelas bridge, aquelas câmaras de lente fixa que parecem DSLRs mas que são, na verdade, câmaras compactas que sofrem dos mesmos problemas. O melhor é começar com uma boa câmara e ir progressivamente aprendendo a tirar o melhor partido das suas funcionalidades. Sei que uma boa DSLR pode parecer intimidante, e de facto estas câmaras são de uma enorme complexidade técnica, mas a verdade é que muitas câmaras de acesso incluem aplicações que instruem o proprietário com indicações sobre a melhor exposição e quais as funções que pode usar para obter as fotografias que pretende. A Nikon D3100 e as Olympus Pen mais recentes têm estas aplicações, denominadas, respectivamente, Guide Mode e Live Guide. Esta é uma boa maneira de começar a perder o temor reverencial pela câmara.
As minhas sugestões para quem quiser comprar uma boa câmara:
  • Canon 1100D: boa qualidade de imagem, mas pouco ergonómica para quem tiver mãos grandes, o que pode ser inconveniente. Qualidade de construção melhorável;
  • Nikon D3100: ligeiramente inferior à Canon em qualidade da imagem; aconselhável apenas a quem se propuser usar o Photoshop;
  • Pentax K-r: uma excelente câmara que dá acesso às lendárias lentes Pentax SMC - desde que não se importem com o facto de ser alimentada por pilhas, e não por bateria;
  • Olympus Pen E-P3: cara - pelo menos por agora -, mas a melhor na sua categoria. Oferece virtualmente o mesmo que as anteriores, mas num corpo compacto. Não é a mais indicada para fotografia nocturna. 
Qualquer destas câmaras assegurará uma excelente qualidade de imagem e o acesso a funções avançadas de controlo da exposição pelo fotógrafo, mas é possível - e preferível - adquirir câmaras de uma gama superior. Quanto melhor for a câmara, maior será a margem de progressão do fotógrafo.
E não se esqueçam de um princípio importante que vou enunciar: os corpos (i. e. as câmaras propriamente ditas) vão e vêm, as lentes permanecem. O fotógrafo experimentado constrói o seu sistema à volta da sua colecção de lentes, e não do corpo. Os corpos são compostos por elementos mecânicos e electrónicos sujeitos a avarias, enquanto as lentes tendem a durar décadas. É também importante que se tenha em mente que, por regra, as lentes de uma determinada marca não podem ser montadas em corpos de outras marcas, a não ser com recurso a adaptadores cuja aquisição, nesta fase, não se justifica. As Canon e as Nikon têm a vantagem de haver dezenas de fabricantes (Sigma, Tamron, etc.) a produzir lentes para as suas câmaras, que podem ser boas alternativas às lentes das próprias marcas. Os requisitos mínimos são uma lente grande-angular e uma teleobjectiva média; a grande-angular, a despeito da presença do adjectivo «grande», é uma lente que cobre distâncias focais curtas (grosso modo entre os 18 e os 50mm), e a teleobjectiva cobre uma gama de distâncias focais superior (acima dos 50mm). As diferenças entre as lentes foram tratadas neste blogue (aqui, aqui e aqui), pelo que não vale a pena prosseguir com a descrição das suas diferentes características e aplicações. Apenas deixo uma recomendação a quem adquirir uma Canon: uma das melhores lentes que podem adquirir é uma grande-angular de 50mm, que pode ser comprada por preços ridiculamente baixos - por volta dos €100. Diz quem sabe que esta lente é a pechincha do século.
Como habitualmente neste tipo de aquisições, é importante escolher onde comprar o material. Eu não aconselharia as grandes superfícies, e usaria da maior prudência nas aquisições online: as lojas especializadas têm a enorme vantagem de possuir pessoal qualificado que pode ajudar a resolver as dúvidas do potencial comprador, para além de uma assistência técnica mais confiável. A ideia de que os preços são mais altos nestas lojas é falsa. Exemplificando: o meu saco, comprado numa loja especializada, custou-me menos vinte euros do que o preço praticado numa grande superfície para o mesmo produto.
Por falar em sacos, esta é uma despesa que pode parecer vultosa, mas é absolutamente necessária. Aconselho os Lowepro pela sua versatilidade, pela modularidade do interior, que assegura possibilidades de arrumação quase infinitas, e pela resistência ao choque e robustez. Um bom saco é acolchoado, de maneira a amortecer os impactos causados por quedas ou choques. Não é fútil, nem redundante, adquirir um bom saco - é proteger um investimento.
Uma compra que é muito mais importante do que parece é o cartão de memória; este deve ter boa capacidade - não recomendo menos que 8GB - e deve ser rápido. A rapidez traduz-se na aptidão para gravar as imagens no menor espaço de tempo, o que é importante quando se pretende colher uma imagem imediatamente a seguir à anterior, ou no disparo sequencial. O leitor deve evitar cair no erro de pensar que todos os cartões de memória são iguais e fazem a mesma coisa, e devem também estar preparados para despender mais de €30 na sua aquisição; um preço destes poderá parecer um exagero, mas a verdade é que é uma despesa inteiramente justificada. Tomem cuidado, porém, com os cartões SanDisk: embora sejam muito bons (eu tenho um, de 8GB), há no mercado inúmeras falsificações. Outra alternativa de qualidade são os Lexar. Mais uma vez, recomendo que se aconselhem numa loja especializada.