quarta-feira, 14 de março de 2012

Rui Palha, fotógrafo de rua

Reincido no elogio. Vim há pouco do Facebook, no qual acabei de assistir aos insultos mais execráveis e rasteiros que vi na Internet, com os quais alguém se permitiu atingir uma pessoa que é minha amiga - e uma amiga que não o é apenas na Internet, mas na vida real. Como disse anteriormente, hoje em dia é mais fácil insultar que elogiar, e as pessoas parecem mais bem preparadas para receber a crítica e o insulto do que o cumprimento e o elogio: este último tende, como também já referi, a ser confundido com adulação, mas não é esse o meu propósito. Entendo que quem tem valor merece ser reconhecido e destacado, porque de contrário corremos o risco de mergulhar no lodaçal da mediocridade. Ademais, e como disse Manuel Laranjeira há mais de um século - sem que as coisas tenham mudado muito entretanto -, vivemos num país «...onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos». E a fotografia de Rui Palha é a inteligência aplicada à arte fotográfica. Há, pois, que reconhecer mérito a quem o tem. O que não é o mesmo que adular, coisa da qual não tenho necessidade nem intento e, de resto, me repugna.
Rui Palha é um dos fotógrafos mais imaginativos e criativos cuja obra conheço. Tem uma predilecção pela fotografia a preto-e-branco, que usa na fotografia de rua, género que aprecio acima de qualquer outro (se procurarem os textos sobre as minhas referências, verão que os fotógrafos de rua ocupam lugares proeminentes). O que primeiro cativa, na obra fotográfica de Rui Palha, é a sua mestria técnica, em particular na escolha da composição e do enquadramento. Esta, contudo, não mais é que o veículo que atrai o olhar para a originalidade dos motivos escolhidos. Há, sem dúvida, uma forte inspiração de Rui Palha na fotografia de Henri Cartier-Bresson, bem patente em algumas das suas fotografias - mas quem é o fotógrafo de rua que se preze que não se inspirou no nome maior entre os maiores da fotografia? -, mas não é imitação: é homenagem. Há também, como marca da fotografia de Rui Palha, o forte sentido geométrico que, invariavelmente, domina as suas composições - jogando com sombras, linhas, enquadramentos e contrastes para criar imagens de uma dinâmica que quase chega a ser vertiginosa. Analisando - se é possível analisar algo quando estamos completamente envolvidos no conteúdo das fotografias e deliciados com a sua contemplação - as imagens de Rui Palha, diria que são os contrastes que mais vivamente as caracterizam: contrastes entre luz e sombra, rectas e curvas, movimento e estático. São estes contrastes que lhe conferem uma qualidade plástica que eleva a fotografia de Rui Palha a um nível superior. Rui Palha tem a capacidade, por mim invejada, de capturar um momento fugidio e passageiro conferindo-lhe uma composição que está muito perto de perfeita, reconhecendo de imediato o facto em si e os elementos gráficos da imagem que lhe vão conferir contexto.
Se tivesse de resumir a fotografia de rua de Rui Palha a um único adjectivo, seria este: surpreendente. As suas fotografias causam surpresa e admiração pela qualidade estética, pelo insólito dos episódios capturados e pela - repito-o - originalidade. Rui Palha é um fotógrafo bem conhecido da comunidade fotográfica portuguesa, e as suas fotografias são também reputadas lá fora; dispensava talvez, por redundantes, estes elogios, mas não posso deixar de os exprimir. Embora não conheça pessoalmente Rui Palha, sei o suficiente para dizer que ele é um fotógrafo que pensa a fotografia - o que é, no meu entender, uma característica importante, em particular nestes tempos em que a banalização e os artifícios da manipulação de imagens tendem a destituir a fotografia do seu estatuto de arte. Tal como Fernando Aroso, o homem que me impeliu a fotografar, Carlos Machado, que me ensinou o que eu não sabia sobre a câmara, e José Antunes, cuja dedicação à fotografia, neste país perdido e confuso, recebe o meu mais veemente aplauso, também Rui Palha é inteiramente merecedor do meu reconhecimento. Pertence ao punhado de fotógrafos que, pelo valor da sua obra, não pode ficar ignorado.
A fotografia de Rui Palha pode ser vista aqui:
www.ruipalha.com
http://www.flickr.com/photos/ruipalha/

Resmunguices

Há uns bons anos atrás - talvez dez, já não sei bem -, estava no balcão da Imacústica, no Porto, quando entra pela loja um sujeito com meia dúzia de CDs na mão, que pressurosamente mostrou ao balconista: CDs de artistas femininas vulgares, como a Dulce Pontes. «Quero ouvir umas vozes» - exclamou o indivíduo. Deve ter sido nesse momento que decidi deixar de ser audiófilo: nunca me passaria pela cabeça comprar música em função do desempenho da alta fidelidade, ou como simples teste desta - e muito menos comprar música de que não gosto porque soa bestial na aparelhagem. Foi a música que me levou à alta fidelidade, e não o oposto. Desde então as minhas únicas aquisições foram em 2009: uma Ortofon 2M - e só porque precisei de substituir a cabeça anterior, uma fabulosa Ortofon MC 15 Super II - e um rádio, o Tivoli Audio Model One. É com este último que as minhas audições de música são feitas: está sempre sintonizado na Vodafone FM, ligo-o e fico a conhecer música actual: Florence & The Machine, Fleet Foxes, King Krule, Hot Chip e dezenas de grupos portugueses que fazem música extremamente interessante. O leitor de CD passa semanas sem funcionar e raramente ligo o amplificador.
Quando adoptei a fotografia como hobby (uma noção um pouco redutora, que não traduz correctamente o meu envolvimento com a fotografia, mas que por agora serve), decidi que nunca me tornaria um tarado da técnica. Porque, assim como há audiófilos capazes de descobrir diferenças do dia para a noite por mudarem de uns cabos Kimber para uns Transparent (e há gente capaz de trocar milhares de euros por aquilo que não é mais que fios de cobre), também há loucos destes no meio fotográfico. E eu não quero ser um deles. Quero avaliar tudo pela minha cabeça, e não por aquilo que os websites, as revistas e os gurus me dizem que é fantástico. Há um marketing bastante eficaz no mercado fotográfico, que sabe procurar e criar necessidades junto do público alvo com a mesma tenacidade com que Pavlov pôs um cão a salivar ao ouvir uma sineta: basta apresentar uma câmara com um sensor grande, com muitos megapixéis e uma sensibilidade ISO estratosférica, para pôr os consumidores a babar-se diante dos monitores dos seus computadores.
Isto é ridículo. Ninguém precisa de uma sensibilidade ISO superior a 3200 - com a qual os níveis de ruído são intoleráveis, nem que seja com uma Nikon D3 -, mas as pessoas ficam loucas quando vêem imagens em condições de boa luminosidade, tiradas com níveis elevados de ISO e com velocidades de disparo rápidas, relativamente limpas de ruído. Nem sequer raciocinam que a iluminação dos objectos é de tal ordem que o ruído se torna imperceptível, e que só em condições reais é possível aferir o verdadeiro desempenho do sensor. E as pessoas que, completamente iludidas, compram essas câmaras, vão acabar por fotografar motivos que nunca lhes passaria pela cabeça fotografar, apenas para justificar a aquisição de uma câmara com sensibilidades ISO elevadíssimas. Tal como o sujeito ao balcão da Imacústica. Não - eu não vou por aí. Tal como abandonei a audiofilia quando esta começava a interferir com o meu gozo de ouvir música, também não me deixarei embarcar nessa loucura de, sendo um leigo, discutir aspectos técnicos da fotografia com a autoridade de um cientista. Porque é isso que os audiófilos, tal como os pixelpeepers e gearheads que pululam na Internet, fazem: apesar de não saberem distinguir um Ampere de um Watt, discutem a impedância, a resistência e a inductância com a fluência de um catedrático.
Ainda que estes fotógrafos discutissem aspectos técnicos importantes, como a composição e o enquadramento (são técnicas!), a abertura, a velocidade do disparo ou a medição - factores que verdadeiramente contam para a obtenção de boas fotografias -, poderia suportar esta idiotia que se vê nos websites de fotografia, mas o que eles discutem não é técnica - é tecnologia. São coisas perfeitamente secundárias, que não têm grande influência no processo criativo da fotografia: o tamanho do sensor, o número de pixéis, o ISO. Curiosamente, pouco falam de lentes - como se estas fossem acessórios - e, quando o fazem, é para discutir a abertura e a distância focal com base em conceitos empíricos que se aproximam da superstição. Alguns destes iluminados acham que existe uma «abertura equivalente», tal como existe uma distância focal equivalente, i. e. que a abertura varia conforme a área do sensor da câmara em que a lente é montada!
Eu quero fazer boas fotografias. A câmara e as lentes são simples instrumentos para melhorar a minha expressão. E hei-de manter-me fiel a este princípio. Nunca perverterei as minhas prioridades: fazer boas fotografias implica uma boa câmara e boas lentes, mas nunca vou fazer fotografias em função do equipamento que tenho, ou para justificá-lo. 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Leica, câmara portuguesa

Onde se lê «Germany», devia ler-se «Portugal»
Foi com enorme assombro e estupefacção que descobri, hoje mesmo, que as Leica são, na sua quase totalidade - apenas 10% de cada corpo é montado na Alemanha, em Solms -, fabricadas em Portugal. Mais concretamente em Vila Nova de Famalicão, a duas dúzias de quilómetros do Porto. Nós, portugueses, temos o hábito de criticar o nosso próprio país (talvez por não percebermos que somos nós, portugueses, que fazemos o país que temos), mas a notícia, conhecida hoje, de que a Leica Camera AG vai edificar uma unidade fabril em Portugal, substituindo a que já existe desde 1973 (eis aquilo a que eu chamo um segredo bem guardado: só em 2009 se descobriu que a Leica fabrica câmaras aqui!), é algo que nos devia deixar a todos orgulhosos.
A Leica - refiro-me aqui à série M, e não às Panasonic rebaptizadas, como as D-Lux - é aquela câmara a que todos os fotógrafos aspiram, profissionais ou amadores. Não é a melhor câmara em termos de desempenho, não é a mais prática, não é a mais bonita, nem é barata - mas é a única com que é legítimo sonhar. Sonhar com uma Canon 1D é ridículo: aquilo é um instrumento de trabalho, uma coisa com o mesmo apelo estético e desejabilidade de uma alfaia agrícola. E ninguém deseja nem sonha com alfaias agrícolas. A Leica é, acima de tudo, a portadora de uma longa tradição: ela perpetua a estirpe das rangefinders, das câmaras usadas, ao longo das décadas, pelos fotógrafos mais ilustres de entre todos, desde Henri Cartier-Bresson até Josef Koudelka, passando por Garry Winogrand e pelo nosso Gérard Castello Lopes. Foi esta a marca que deu ao mundo o formato 35mm, inventado pelo pioneiro Oskar Barnack e ao qual ainda hoje a fotografia digital presta tributo, construindo sensores com a mesma área. E é, acima de tudo, uma câmara construída de acordo com os padrões mais exigentes de precisão. Uma câmara com uma qualidade irrepreensível, concebida para sobreviver a várias gerações. Que ela seja montada no nosso país devia ser um motivo de orgulho para todos nós. Afinal de contas, se há quem confie nas qualidades dos portugueses e lhes confie engenharia de alta precisão, algum mérito há de nos caber. Talvez não sejamos o povo improdutivo que nos querem fazer acreditar que somos para nos roubar os poucos direitos que ainda temos.

domingo, 11 de março de 2012

Sem paciência

Hoje foi um daqueles dias frustrantes. Fui fazer fotografias para a praia da Agudela, e nada resultou como queria: escolhi a lente errada, o local errado, os enquadramentos errados e a maré errada. Só estou a escrever porque decidi escrever um texto por dia neste blogue.
A única consolação foi descobrir a obra de um grande fotógrafo de nome Richard Avedon. Gosto da fotografia de rua a preto-e-branco que ele fez, de alguns retratos e pouco mais; o resto faz-me lembrar Helmut Newton e Annie Leibowitz: fútil, e por vezes gratuito.
Agora vou ter uma semana de trabalho árduo pela frente, contando os dias até que o fim-de-semana chegue. Vou ficar à espera que chegue a encomenda que fiz no sábado: uma base de couro para dar (ainda) mais estilo à minha E-P1. Não é nada verdadeiramente essencial, mas vou comprá-la porque sim. Às vezes apetece comprar coisas porque sim - embora, se bem me conheço, possa vir a lamentar o dispêndio no futuro. Não é uma compra fútil porque faço muita fotografia de rua, e com isto evito o contacto das mãos com a câmara, mas também não é nada de estritamente necessário. Neste momento, as minhas necessidades resumem-se a uma grande-angular que se comporte melhor do que a 17mm. Li algures que a Olympus patenteou há pouco uma nova lente pancake de 17mm/f2.8. Se corrigir os problemas da actual 17mm, compro-a sem pensar duas vezes.

sábado, 10 de março de 2012

A pergunta

A pergunta mais embaraçosa que me podem fazer, no respeitante à fotografia, é esta: «qual é o tipo de fotografia que preferes?»
A minha resposta é, invariavelmente, uma longa divagação para a qual o interlocutor pode (ou não) ter paciência, e que envolve adjectivos como «eclético»; um longo discurso que poderia ser substituído por duas palavras: não sei. Embora muitos me reconheçam um bom poder de síntese, este é por vezes impeditivo de uma boa conversa, pelo que tenho o hábito de desenvolver o tópico. O que pode ser interessante se a pessoa que me está a ouvir tiver um interesse razoavelmente aprofundado por fotografia, mas nem por isso se for um leigo.
A minha hesitação tem que ver, acima de tudo, com o facto de o meu interesse por fotografia ser recente. Ainda não fez dois anos desde que comprei a minha primeira câmara, e a minha atitude tem sido a de fotografar tudo o que me parece interessante: cenas de rua, arquitectura, paisagens, graffiti, flores, pôres-do-sol. Mas o ecletismo tem um defeito, que é o de, querendo fazer tudo, acabar por não se ser verdadeiramente bom em nenhum dos temas fotografados. Em lugar de fazer milhares de fotografias do mesmo tema e atingir, por essa via, uma especialização, o eclético dispersa os seus esforços e pode nunca chegar a ser verdadeiramente bom em nenhum tema.
Não há nada de mal em ser especializado num determinado tema: Ansel Adams tornou-se num fotógrafo proeminente porque foi ele quem escreveu as regras da fotografia paisagística; Garry Winogrand e Eve Arnold ganharam os respectivos lugares na história da fotografia por serem fotógrafos de rua; e, como estes, muitos outros fotógrafos tornaram-se grandes por desenvolverem um tema de tal maneira que acabaram por atingir um patamar próximo da perfeição. E os fotógrafos profissionais tendem a ser procurados pela sua especialização num determinado tema. O mesmo acontece noutras áreas do conhecimento humano, até naquelas que são mais refractárias à especialização - como por ex. o direito, que é a minha formação e é o que eu faço quando não estou a fotografar: há hoje em dia uma procura de advogados especialistas em determinadas áreas do direito, embora, ao contrário da medicina, não existam especialidades no direito. Não se é um advogado, por ex., de direito do trabalho pela escolha de um percurso académico, mas por vocação.
Mas tergiverso, desviando-me do assunto. Dizia, algumas linhas acima, que a minha ausência de resposta à pergunta enunciada no início do texto se deve à minha relativa inexperiência, mas a verdade é que o tempo que tenho despendido com a fotografia tem sido ocupado, nos últimos tempos, com apenas dois temas, o que significa que posso estar a caminho de descobrir qual o meu tipo de fotografia favorito. A fotografia de rua é um deles: gosto de fotografar pessoas e pequenos episódios da vida da minha cidade, e de preferência a preto-e-branco. Sempre gostei deste tipo de fotografia, apesar de dar comigo a percorrer sempre as mesmas ruas - especialmente a mais movimentada delas, a Rua de Santa Catarina.
O outro tema é aquele a que chamo (e há um set no meu flickr com este nome) oceanos pastosos: fotografias de praias obtidas com longos tempos de exposição, de maneira a provocar o arrastamento das ondas, dando um aspecto pastoso à água. A verdade é que, depois de o ter experimentado com resultados bem sucedidos, tenho sentido um impulso constante por fazer este tipo de fotografia. Quando resultam bem, as imagens são espectaculares. O que me atrai, neste tipo de fotografia, é o desafio que ela constitui: não é fácil, do ponto de vista técnico, obter o efeito necessário para que a imagem resulte. São requeridos tempos de exposição muito longos, o que obriga a tirar as fotografias quase na escuridão total, o que por seu turno implica o uso de um tripé, de um cabo disparador e, sobretudo, de muita paciência. Quanto mais longo for o tempo de exposição, melhor será o efeito de arrastamento obtido.
A grande dificuldade deste tipo de fotografia, porém, está na escolha da abertura correcta. Uma abertura grande não permite os tempos de exposição necessários para que a fotografia resulte, e uma abertura demasiado estreita provoca difracção. Outra dificuldade, particularmente quando uso lentes de focagem manual, é o facto de a imagem que surge no visor diferir bastante da imagem colhida, sendo aquela bastante mais subexposta.
Uma coisa é certa: parece que já sei responder à pergunta do início do texto. O meu receio é que, de tanto me dedicar a um tipo de fotografia, acabe por me querer concentrar exclusivamente nela e atingir rapidamente o ponto de saturação. Enquanto isto não acontece, porém, vou entreter-me com este tipo de fotografia, que é meditado, estudado e ponderado - ao contrário da fotografia de rua, que é intuitiva e espontânea.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dois esclarecimentos

O meu texto sobre o Carlos Machado, publicado anteontem, e o de hoje sobre os testes DxOMark, carecem de alguns desenvolvimentos que, por as postagens terem sido escritas ao correr da pena, ficaram de fora. Aqui vão.
Quanto ao primeiro texto, o Carlos Machado agradeceu-mo (via Facebook), tendo embora ressalvado que lhe parecia algo exagerado. Aceito que o texto poderá, numa leitura apressada, parecer algo excessivo nos elogios, mas a verdade é que vivemos num país onde, infelizmente, é mais fácil insultar e criticar do que elogiar. Aqui em Portugal, o elogio é visto como algo estranho e tende a ser interpretado como alguma forma de lisonja, ou talvez mesmo de bajulação. Ora, eu não sigo esta tendência: entendo que o mérito deve ser reconhecido e aplaudido. Contudo, se tiver de criticar (desde que me pareça haver justificação para o fazer), também critico. E, por vezes, de forma corrosiva, como quem leu o meu texto sobre a Pentax KO 1 sabe. Ora, parece-me evidente que o Carlos Machado não está no mesmo patamar que um Koudelka ou um João Silva (nem o contrário pode ser inferido do meu texto), mas a verdade é que ele publicou uma fotografia na sua página do Facebook, feita durante um funeral de pescadores na Póvoa de Varzim, que é - sem lisonja ou exagero - das melhores fotografias que alguma vez vi. E eu já vi fotografias dos melhores entre os melhores. Foi esta fotografia, e a impressão que ela me causou, que me levou a escrever aquele texto. Como referi, o mérito merece ser estimulado e apoiado - mesmo correndo o risco de parecer excessivamente lisonjeiro -, especialmente num país onde as opiniões destrutivas são, por sistema, mais amplificadas que as positivas. Algo de muito errado se passa quando estamos mais bem preparados para enfrentar uma crítica ou responder a um insulto do que para aceitar um elogio.
Quanto ao comparativo da DxOMark, faltou referir que os testes de câmaras publicados neste website incidem sobre o desempenho do sensor. De fora ficam outros critérios que interessam à qualidade da imagem, como o processamento feito pelo software da câmara, o controlo da exposição ou a velocidade da focagem automática. Parece-me importante fazer este reparo, porque entendo que o sensor, embora importante, não é o único factor que contribui para a qualidade de uma câmara, mas aquele facto que não altera as conclusões que formulei com base na comparação entre a minha câmara e os modelos que lhe sucederam. Mesmo quanto à focagem automática, porquanto a actualização do firmware que levou a E-P1 para a versão 1.4 melhorou substancialmente o desempenho da câmara neste particular. Pelo que continuo a acreditar que a E-P1 é hoje uma câmara tão boa quanto o era em Abril de 2010, altura em que recebeu o firmware 1.4, e que a E-P3 não representa nenhum avanço, sendo a sua aquisição um desperdício de dinheiro dificilmente justificável. (Já o mesmo não poderei dizer quanto à OM-D E-M5, que parece estar num outro patamar.) O sentido daquele texto foi, essencialmente, o de alertar para o erro que é menosprezar um produto apenas porque este não é o mais recente, e reforçar a minha convicção de que nem sempre aquilo que nos é apresentado como uma evolução significa uma melhoria na qualidade.

O que é isso da «obsolescência»?

Toda a gente que se interessa por equipamento sabe o que são os (ou já ouviu falar dos) DxO Labs. E, em particular, conhece os testes DxOMark. Estes testes são a referência absoluta, em virtude da sua metodologia, para muitos especialistas em fotografia. Embora não seja um frequentador assíduo do website da DxO, hoje deu-me para visitá-lo, atraído pela curiosidade de saber como se comporta uma determinada lente, neste caso a nova Olympus 12-50mm f3.5/6.3. Já calculava, depois de uma péssima experiência com a detestável zoom 14-42mm, que a classificação fosse menos que boa, mas ainda é pior do que esperava: à beira do péssimo. Eu cá gosto é de primes, por isso esta classificação não teve qualquer influência em mim porque nunca me passou pela cabeça comprar essa lente.
A curiosidade levou-me a ver testes de outras lentes - estou a considerar, se a vida me correr muito bem, comprar a Panasonic-Leica 25mm/f1.4 -, e a ir daí para as câmaras: fui dar comigo a uma análise à Olympus E-P3, e descobri uma página onde se podem comparar até três câmaras. Deu-me a curiosidade para comparar a E-P3 com a predecessora E-P2 - para descobrir que a E-P3 não é superior aos modelos que a precederam. Escolhi a comparação com a E-P2 por imaginar que a E-P1, já não sendo produzida, não figuraria nas listas da DxOMark, mas enganei-me. Ainda está lá. Comparei as três EPs lado a lado e - surpresa das surpresas! - a E-P1, que tem virtualmente o mesmo desempenho que a E-P2 (como seria de esperar), supera a E-P3!
Se pensam que estou a mentir, podem ver o comparativo aqui. A E-P1 supera a E-P3 em cor e gama dinâmica, e o seu desempenho com sensibilidades ISO elevadas é melhor do que o da E-P2 (e igual ao da E-P3).
Qual é, então, a vantagem de comprar uma câmara como a E-P3 (ou mesmo a E-P2) em lugar da E-P1? A possibilidade de montar um visor electrónico. Nada mais. A E-P3 tem um flash integrado, mas é tão fraquinho que não tem grande utilidade: quem quiser fazer um uso sério do flash tem sempre de comprar um flash externo. Contudo, a E-P3 foi publicitada (e difundida pelos websites e blogues da especialidade) como um salto enorme em qualidade. Este comparativo demonstra que, no que verdadeiramente conta - a qualidade da imagem -, a E-P1 (que já foi «descontinuada» há dois anos) ainda é uma belíssima câmara.
O que significa que, visor electrónico à parte, a E-P1 é uma excelente câmara. O resto é marketing enganoso. Quando a E-P1 foi lançada, toda a gente clamou que não prestava porque - ó sacrilégio!, ó infâmia! - não tinha flash nem visor. E a Olympus, prontamente, substituiu-a pela E-P2, que permite a montagem de um visor electrónico - mas continou a faltar o flash, pelo que a E-P2 cedeu tranquilamente o seu lugar à E-P3. E os consumidores, atordoados pelo pecado de uma câmara sem flash integrado, correram a substituir as suas E-P1 e E-P2 pelo novo modelo - sem que a tal despesa (a E-P3 é estupidamente cara) corresponda qualquer melhoria sensível na qualidade da imagem. E esta é - ou devia ser - o critério n.º 1 na escolha de uma câmara. Em consequência, a E-P1 é hoje considerada obsoleta. Estou convencido que se passou o mesmo com as OM, e a verdade é que hoje as OM-1 são as mais caras e mais procuradas das OM no mercado das câmaras usadas. Este não é um fenómeno novo, a diferença está no volume de vendas. O conceito de obsolescência é, como se vê, muito relativo: neste caso é uma invenção do marketing que nos induz a consumir cada vez mais e mais cegamente.
É preciso ser muito criterioso na escolha de uma câmara - ou de outro produto qualquer. A novidade não pode ser um critério que se baste a si mesmo e justifique a aquisição de um produto. Por vezes, aquilo que nos é anunciado como the next big thing não apresenta mais que evoluções marginais em relação ao modelo precedente (como quem tem material da Apple sabe muito bem). Por vezes pode acontecer que não exista evolução nenhuma e seja tudo uma questão de adereços. Pode, até, acontecer que o novo produto seja, na verdade, pior que aquele que o antecedeu. O consumidor prudente deve ponderar muito bem a sua aquisição e resistir à tentação de se deixar influenciar pelo marketing. A E-P3 não é melhor do que a E-P1: o que tem é mais extras que, contudo, em nada contribuem para a qualidade da imagem. O mesmo se diga, por exemplo, quanto às Canon e as 550 e 600D, cujas diferenças estão na disposição de alguns botões. Ou as Nikon D3 e D4, que têm o mesmo desempenho apesar dos mais pixéis desta última.  Consumidores, abram os olhos!

I shout at times that nothing stays
Nothing lasts and damned to change
Though then I read a book, a line
Which says we sleep in blind sublime...

(Peter Murphy, Blind Sublime