domingo, 8 de janeiro de 2012

O escândalo Olympus

Soube-se na semana passada que Michael C. Woodford desistiu da luta pelo cargo de CEO da Olympus Corporation. Os bancos e accionistas japoneses fizeram-no abandonar a pretensão de ocupar de novo aquele cargo, apoiando o actual conselho de administração, no qual estão alguns dos administradores que aprovaram as práticas fraudulentas que fizeram o escândalo despontar. Embora o conselho esteja depurado dos principais mentores das manipulações contabilísticas, esta notícia mostra um espírito de encobrimento que ninguém esperava que se viesse a manifestar, atendendo à gravidade dos comportamentos denunciados por Woodford e às perdas que a Olympus Corp. sofreu com este escândalo. O normal seria que o conselho de administração fosse exonerado, mas o que aconteceu foi o oposto. Como notou Michael Woodford, no Japão nunca se ouviu uma palavra de crítica aos actos dos anteriores conselhos de administração, e Woodford acabou por ser tomado pelo malfeitor, o odioso whistleblower estrangeiro que arruinou o negócio de uma empresa japonesa.
Sabe-se, agora, que parte do capital da Olympus Corporation vai ser adquirido por um dos grandes grupos japoneses com interesses na área da imagiologia: FujiFilm, Sony ou Panasonic. Estes grupos têm sido reputados, nas notícias, como os salvadores da Olympus, o que não deixa de ser irónico, já que, por ex., a Fuji é uma concorrente directa - embora com um volume de negócios irrisório, quando comparado com a Olympus - no fabrico de material óptico de diagnóstico. A Sony e a Panasonic são também concorrentes na área da fotografia, embora esta não seja tão relevante e apetecível como a do equipamento de diagnóstico.
Que pensar de tudo isto? Antes de mais, é um péssimo exemplo. Se, no ocidente, estamos habituados a práticas fraudulentas nas grandes empresas, estamos também habituados a que o opróbrio caia sobre os autores das fraudes e a que estes sejam exonerados, e à acção das entidades reguladoras; no Japão, aparentemente, os autores das fraudes são protegidos pelos investidores institucionais. Isto é o que de pior pode acontecer num mercado desregulado e, se é certo que isto não poderia acontecer na Europa ou nos Estados Unidos sem que houvesse consequências, certo é que não deixa de ser um mau exemplo para o mundo. Os vigaristas sentirão que podem fazer o que entenderem sem que nada lhes aconteça. A pior faceta do capitalismo selvagem sobrevive e prospera no Japão. Esperemos que não se propague...
Quanto à possível aquisição de capital pela Sony, Fuji ou Panasonic, não me parece que ela corresponda ao imperativo patriótico de ajudar uma empresa conterrânea em dificuldades. Mais me parece uma forma de eliminar a concorrência a partir do interior. O optimismo que cheguei a sentir quanto à continuidade da marca de material fotográfico Olympus desvaneceu por completo com esta notícia. A Fuji é uma companhia a quem a divisão de equipamento de diagnóstico da Olympus interessa, pelo que poderá neutralizar a fatia de mercado da Olympus - mas pode também abandonar a sua própria produção e investir fortemente na Olympus. Só o futuro o dirá. A Sony e a Panasonic estarão, porventura, interessadas em encontrar um novo negócio no equipamento de diagnóstico, mas o que me preocupa, quanto a todas elas, é a subsistência da Olympus Imaging: não me parece que nenhuma delas queira manter no mercado uma marca concorrente - e nós sabemos o que a Sony fez quando adquiriu a Minolta. E não estou a ver a Panasonic abandonar o negócio das câmaras em favor da sua aliada no negócio do micro quatro terços...
O que mais me choca, no meio de toda esta confusão, é a impunidade com que tudo isto acontece. Em lugar de se correr com uma administração «podre até ao tutano» (como foi descrita no relatório dos auditores em Dezembro), esta é protegida pelos bancos e investidores. O tempo dirá com que propósitos. A novela ainda está longe de terminar.

sábado, 7 de janeiro de 2012

As DSLR e eu

Hoje tive nas mãos uma câmara exactamente igual à da imagem acima, cortesia do meu amigo Vicente. Uma Nikon D7000 com uma lente 18-105. Não me intimidou: rodei o botão selector de modo para M, e descobri intuitivamente como se regulavam a abertura e a velocidade do obturador, assim como aprendi facilmente a consultar o valor de exposição (que é uma régua, e não expresso em algarismos como nas Olympus). Com umas consultas ao manual, creio que poderia dominá-la rapidamente. Estou absolutamente certo de que é uma grande câmara. O único defeito que detectei foi quanto à ergonomia, uma vez que o dedo médio da mão direita não encaixa lá muito bem na pega, mas esta é de dimensões muito confortáveis. Nem sequer me preocuparam as questões estéticas, às quais atribuo grande relevo: quando se tem um olho no visor e o outro fechado, a estética deixa de ter importância. Não posso dizer que senti inveja, ou aquela sensação deprimente que se tem quando experimentamos algo que não está ao nosso alcance: apenas que temos abordagens diferentes quanto ao equipamento. Eu aceito um ligeiro compromisso, trocando um pouco de resolução absoluta por mais portabilidade e prazer estético, o V. vai em busca do melhor material que pode obter. Não me resta qualquer dúvida que a Nikon é superior à minha E-P1, mas estou satisfeito com o material que tenho (excepto o tripé...) e, com as lentes que tenho, não me parece que fosse uma boa ideia adquirir uma DSLR. Não quero ser um coleccionador de câmaras: basta-me uma. (Já as lentes é outra questão...)
Há dias namorei uma outra reflex, desta vez a Canon 60D, que tinha a particularidade de trazer uma lente muito promissora: a 17-55 USM, com abertura constante de f2.8. Por um preço deveras interessante, diga-se. Era um negócio que eu faria de imediato, se tivesse o dinheiro necessário e muita vontade de adquirir uma câmara daquelas. Já escrevi aqui sobre esta câmara, e afirmei que seria a câmara que adquiriria se quisesse uma reflex e tivesse dinheiro para investir num corpo que ronda os €1000.
As câmaras reflex, ou DSLR, têm uma vantagem enorme em relação à minha: o visor óptico. Compor a imagem através de um visor que o mesmo que a lente é uma vantagem considerável em relação a compor num ecrã LCD. E é também benéfico do ponto de vista ergonómico, uma vez que permite uma posição mais estável e menos cansativa que segurar a câmara à distância: sempre é um apoio suplementar. Os problemas das DSLR são as suas dimensões e o preço das lentes. Comprar uma grande câmara para depois a usar com lentes como as 18-55 que habitualmente se adquirem conjuntamente com o corpo seria um disparate, e seguir a via de adquirir lentes usadas, como faço com a Olympus, não faria sentido porque não aproveitaria o  grande benefício de uma DSLR - a rapidez.
Outro inconveniente é o facto de as DSLR poderem vir a tornar-se obsoletas muito em breve. Os progressos feitos com as mirrorless levam-me a crer que as reflex poderão ser ultrapassadas em benefício de câmaras muito mais pequenas e manuseáveis. A Sony NEX-7 e a futura FujiFilm X-Pro1 são câmaras que vão fazer evoluir o conceito mirrorless - especialmente a Fuji, se for confirmado que vai ter um visor híbrido (comutável entre óptico e electrónico). E diz-se que a Olympus está a preparar uma câmara micro 4/3 com um visor incorporado. Não tenho dúvidas que o futuro está nas mirrorless, e que as DSLR se resumirão em breve ao mercado das câmaras profissionais e semiprofissionais.
Voltando à Nikon do V.: a facilidade com que a manuseei, ao invés de me fazer invejá-la, fez-me perceber que a E-P1 é uma boa câmara que faz praticamente tudo o que uma reflex faz. A minha câmara ensinou-me a fotografar e fez-me aprender a controlar uma câmara, por mais complexa que esta seja. Não estou disposto a trocá-la tão cedo e, mesmo que a vida me permita adquirir uma câmara melhor - fantasia recorrente que embate sempre na questão e eu preciso de uma câmara melhor? -, quero mantê-la enquanto ela durar. É uma câmara bonita e divertida de usar. E, acima de tudo, é uma máquina fotográfica extremamente competente e capaz de imagens de enorme qualidade. Sinto-me preso a ela por um vínculo ainda mais forte que o matrimónio!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Telescopia (3)


Hoje pude fazer o primeiro teste em condições normais (i. e. fora de casa) da minha supertelefoto, a Vivitar 75-300. As  minhas primeiras impressões foram, felizmente, confirmadas: esta lente é muito boa. Contudo, para a usar conveniente, são necessários alguns cuidados. Antes de mais, esta lente requer um tripé muito sólido. Apesar do que referi quanto à sua utilização sem tripé, segurando a câmara e lente com as mãos, ser globalmente verdade, quando se exige uma focagem precisa o tripé é obrigatório. E não pode ser um tripé qualquer: esta lente pesa qualquer coisa como 690g, pelo que tem de ser usado um tripé sólido e estável.
O que me conduziu à grande decepção do dia - o meu tripé não serve para esta lente. É demasiado instável: o mais pequeno toque fá-lo vibrar. Não há aperto que lhe valha, é uma questão estrutural. O tripé funciona muito bem com a Pancake, e mesmo com a 40-150, que é bastante leve, mas com as lentes OM (e a Vivitar é uma lente OM, apesar de não ser uma Olympus), a cujo peso acresce o do adaptador, o resultado é desastroso. É impossível colocar a câmara na vertical, porque o conjunto desliza sempre para baixo - por mais que aperte o perno que liga o tripé à câmara. Devo sublinhar que não estendi as pernas do tripé por completo, nem ergui a coluna. Lamentável. Se tivesse dinheiro, compraria um tripé novo amanhã mesmo.
Mesmo assim foi possível fazer algumas fotografias com boa nitidez. A minha impressão definitiva é que esta é uma lente honesta e competente que faz o que se lhe pede. A escassez da abertura mal se faz sentir e, mesmo que perturbe, há sempre a possibilidade (não muito aconselhável) de subir o ISO para manter velocidades de disparo rápidas. É uma lente que reage muito bem às diferentes condições de luz e favorece grandes contrastes - o que me agrada -, embora por vezes me pareça tender para a sobre-exposição, especialmente quando se usam aberturas amplas. A sua profundidade de campo é espectacular, sendo possível obter fundos desfocados mesmo quando o objecto a focar está a distâncias consideráveis. E não requer aberturas excessivamente estreitas para focar na máxima profundidade, o que facilita a tarefa de fotografar objectos muito distantes.
Esta lente esmaga a 40-150, a despeito de ter o dobro da distância focal máxima. É melhor em tudo, menos no peso e na ausência de focagem automática. Os únicos verdadeiros reparos que lhe faço são o facto de ser tão difícil de focar e a tendência, que já referi, para a sobre-exposição. O ponto ideal de nitidez é muito pequeno; se se rodar o anel de focagem um micron que seja para um ou para o outro lado, a fotografia fica irremediavelmente desfocada. E quanto mais estreita for a abertura, pior. Na verdade, isto é consequência de uma profundidade de campo extremamente reduzida, e não um pode ser considerado um defeito. E não é uma lente para usar na abertura máxima, pois tem uma certa tendência, sob condições de luz abundante, para sobre-expor. Mas o mesmo pode ser dito de todas as lentes do mundo, suponho...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Telescopia (2)

Pormenor da casa do vizinho de frente...
A Vivitar 75-300 tem uma indicação enganosa no aro da lente: «macro focusing lens». Esta não é uma lente macro. Na verdade, chamar «macro» a uma lente cujo plano focal mínimo é de 95 centímetros é um disparate. O que ela produz, em contrapartida, é close-ups muito bons, cheios de pormenor e com uma resolução extraordinária, como se pode aferir pela fotografia do meu gato publicada no texto de ontem.
Esta é uma lente extremamente exigente em termos de manuseamento: antes de mais, por ser extremamente pesada. É virtualmente impossível obter um máximo de nitidez segurando o conjunto câmara-lente na mão. Contudo, importa fazer uma ressalva para dizer que a resolução e a nitidez são muito aceitáveis quando se fotografa sem tripé: por vezes só se detecta o arrastamento produzido pelo tremor das mãos quando se fazem ampliações. Tenho a certeza que este resultado surpreendente se deve ao estabilizador de imagem incorporado na E-P1. Já referi aqui que a estabilização da imagem pode ser ajustada à distância focal quando se usam lentes de focagem manual; nas fotografias que fiz ontem, ao experimentar a Vivitar, regulei a distância focal para 300mm e o resultado é superior ao obtido com a lente (de focagem automática) 40-150, com muito menos arrastamento apesar do peso superior e das dimensões colossais.
A 20 metros de distância (sem cropping)
O outro problema é, como já mencionei, a abertura. Com esta lente nunca vou poder fotografar no lusco-fusco, e muito menos à noite. Mas também não poderia fazê-lo com nenhuma outra lente com esta distância focal, a menos que vendesse todos os meus bens e comprasse uma Canon EF (daquelas brancas que os fotojornalistas usam...). A Olympus 75-300 para micro 4/3 tem valores de abertura máxima de f4,8-6,7, o que é mais lento que a Vivitar - especialmente na distância focal máxima.
Há um terceiro problema: não estou habituado a fotografar à mão com lentes tão pesadas, o que é agravado por alguns problemas neuromusculares que me ficaram no braço esquerdo por causa de uma hérnia na coluna cervical. Terei de praticar muito e descobrir uma maneira de estabilizar o braço e a câmara, o que poderia ser mais fácil se tivesse um visor - mas este é um problema inteiramente subjectivo com o qual nem sequer devia ter maçado o leitor.
A mais de 150 metros de distância, sem tripé
Ainda é cedo para avaliar o meu grau de satisfação com esta lente, mas, pelo que já pude aferir, vou tirar bom partido dela. Seria injusto apontar grandes reparos a uma lente tão capaz e que me custou tão pouco: há meses experimentei uma lente Sigma com a mesma distância focal e, embora o preço que pediam fosse substancialmente inferior, estava em péssimo estado - o pára-sol deslizava livremente e o revestimento de borracha do anel de focagem estava muito deteriorado - e a resolução e nitidez da imagem pareceram-me inferiores às da minha lente (que, diga-se, está em perfeito estado de conservação). Decerto não vou chorar o dinheiro que paguei a mais pela Vivitar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Telescopia

Vivitar 75-30mm/f4.5-5.6, a. k. a. «A Bisarma»
Sempre que me convenço que tenho material em quantidade suficiente para satisfazer as minhas necessidades de fotógrafo amador, surge-me pela frente uma oportunidade irrecusável. Foi assim com a OM 50mm, e também com a 28mm. E agora, poucos dias depois de ter afirmado, neste mesmo blogue, que estava plenamente satisfeito (sic) com o equipamento que tinha, surge-me esta coisa mastodôntica e monstruosa pela frente. Por cerca de uma centena de euros. Como podia resistir? Sou, desde hoje, o proprietário de mais uma lente de focagem manual dos tempos da fotografia analógica. E, pela primeira vez, adquiri uma lente que não é Olympus: é uma Vivitar, mais precisamente a 75-300mm/f4.5-5.6, mas é feita para a série OM.
Devo dizer que a aquisição de uma supertelefoto esteve sempre nas minhas cogitações, especialmente desde que me dei conta de que a 40-150 não era suficiente para fotografar as garças e os corvos-marinhos que habitam o estuário do Douro com a dimensão de que precisava. Atendendo que a lente 75-300 da Olympus para micro 4/3 custa cerca de €700, não posso dizer que tenha sido mau negócio - mesmo com o peso acrescido e a perda da focagem automática.
Antes de mais, um esclarecimento quanto à distância focal: os leitores que lêem este blogue sabem da existência de uma distância focal equivalente, pela qual a distância focal de uma lente, medida pelos padrões do formato 35mm, é multiplicada por um determinado factor quando montada em câmaras com sensores de área menor que os 35mm; sabem também que, no caso das câmaras micro 4/3, como a E-P1, esse factor é de x2, pelo que o que tenho desde hoje de manhã é uma lente com a distância focal equivalente de 150-600mm. O que é considerável.
A Vivitar 75-300 é uma lente imponente: embora não seja um monstro como as Canon EF, a sua dimensão física e peso são bastante avantajados. A qualidade de construção é boa, mas não está no mesmo patamar que as minhas prime da Olympus: Há mais plástico (embora de qualidade aceitável) e os comandos não têm o mesmo toque que o anel de focagem das Zuiko, mas é uma lente bem construída que transmite imediatamente uma sensação de qualidade. Mais de metade do seu comprimento é ocupada pelo enorme anel de focagem e zoom (o zoom obtém-se fazendo o anel avançar ou recuar), que é integralmente revestido de borracha de toque agradável. O anel de regulação da abertura é na base da lente, a baioneta é de metal e, na extremidade, há um pára-sol integrado que desliza e se fixa com firmeza quando colocado em posição. O pára-sol é pouco mais largo que a lente, uma vez que, com um ângulo de visão de apenas 8º (equivalente a 4º na E-P1), não interfere no campo de visão.
A Vivitar 75-300 não é exactamente rápida: com uma abertura máxima de f4.5 na distância focal mínima e f5.6 na máxima, não é uma lente para fotografar ao entardecer - e muito menos, claro está, à noite. Curiosamente, apesar do peso e da abertura reduzida, é possível fazer fotografias de grande nitidez segurando o conjunto câmara-lente com as mãos. Contudo, esta lente não dispensa o tripé quando se pretende nitidez a grandes distâncias, o que obriga a diminuir a abertura e, consequentemente, a reduzir a velocidade do obturador. Mas não faz sentido queixar-me: uma lente com estas características de distância focal com aberturas maiores seria inacreditavelmente cara  e pesada. E o peso acrescido obrigaria, de qualquer maneira, a usar o tripé...
Pormenor a cerca de 15 metros de distância. Fotografia por Sérgio Modesto
A minha primeira surpresa, quando experimentei a lente na loja, foi a enorme nitidez com que esta lente capta objectos a grande distância. Esta é uma lente para fotografar pormenores longínquos. Mesmo segurando a câmara com a mão, a imagem tem enorme claridade e nitidez, captando cores naturais e tonalidades neutras. Apesar do peso e do tamanho, fotografar com esta lente é uma experiência agradável: os comandos respondem muito bem e torna-se confortável segurar a lente, graças à aderência da borracha usada para revestir o anel de focagem e zoom.
O meu gato Sousa, a 2 metros de distância (sem cropping)
Esta é uma lente capaz de imagens de enorme qualidade cromática e tonal, mas o que mais impressiona é a quantidade e qualidade do pormenor. Mesmo fotografando a distâncias consideráveis, o alcance desta lente é pura e simplesmente prodigioso. Aquela qualidade a que os britânicos chamam sharpness, cuja tradução não logra interpretar o seu significado, está presente nas imagens de um modo absolutamente admirável. Deve dizer-se, contudo, que, talvez pelos valores máximos da abertura serem reduzidos, não é fácil obter imagens nítidas: tal como notara com a 28mm, o curso do anel de focagem ao longo da qual a imagem se mantém nítida é extremamente reduzido - ao contrário do que acontece com a 50mm, com a sua abertura máxima de f1.4. Nada se compara a fotografar com aberturas abaixo de 3.5...
O problema com as zoom é que estas lentes estabelecem muitos compromissos: troca-se nitidez por alcance, e este por luminosidade. Contudo, a Vivitar 75-300 parece ter conseguido atingir compromissos muito aceitáveis. E, se formos a pensar bem, f5,6 a 600mm (equivalentes) não é muito mau - sobretudo se compararmos com os f6,3 a 100mm da nova Olympus 12-50.
Outra qualidade impressionante é a profundidade de campo. Com a Vivitar é possível obter um grau de abstracção incrível: os fundos desaparecem, substituídos por manchas aveludadas de cor. É um bokeh suave, sem a interferência de detalhes que concorram com o objecto para atrair a atenção do olhar. Não seria de esperar outros resultados, sabendo que a profundidade de campo varia na proporção inversa da distância focal, mas ainda assim os resultados são impressionantes.
Enfim, parece que fiz um bom negócio. Os corvos-marinhos e as garças estão à espera, ali a meio quilómetro de casa...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A FotoDigital e eu

José Antunes é um fotógrafo que tomou em mãos uma missão: manter um site português de fotografia na Internet. Como possivelmente seria de esperar num país onde os programas especiais de passagem de ano das televisões mais vistas são galas de concursos rascas, não é nada fácil a tarefa a que José Antunes se propôs.
Repare-se que não há exactamente falta de sites sobre fotografia: do Digital Photography Review até aos inúmeros blogues, passando pelos sites de rumores sobre as últimas novidades em fotografia, o que não falta é informação; o problema é que esta existe em todas as línguas menos em português (pelo menos em português de Portugal, porque o Brasil tem uma abundância considerável de sites e blogues de fotografia).
Aqui em Portugal parece ser difícil alguém dedicar-se à fotografia. Noto, por vezes, que quando monto o tripé para fotografar, algumas pessoas olham para mim como se fosse algum lunático (ou então pensam que sou um agrimensor que vai montar um teodolito...). Este blogue, embora tenha a desculpa de ser recente, tem mais gente a sacar imagens do que a consultar os textos, e os consultantes, na sua maioria, são brasileiros. Numa palavra: a fotografia não é muito popular em Portugal. Como tudo o que não se integra nos gostos das multidões, está condenada a ser residual e de nicho e a ser olhada como uma excentricidade, ou uma perda de tempo e de dinheiro (pois se todos podem tirar fotografias fantásticas com os seus telemóveis...)
É por isto que simpatizo com o projecto de José Antunes. Precisamente por ter a coragem de cultivar uma arte num país que tende para a bestificação. É este o motivo que me leva a apoiar a FotoDigital, apesar de sentir que esta revista online podia ser ainda mais informativa e ter mais conteúdos para iniciados - mas aqui estamos perante um ciclo vicioso, porque sem apoios o site não pode expandir-se e oferecer mais. E já muito faz J. Antunes. Quem dá o que pode a mais não é obrigado.
Por tudo isto, não tenho dúvidas em recomendar este site. E vou ainda mais longe: exorto todos os que têm um gosto genuíno por fotografia a que o divulguem, apoiem e se tornem Amigos da FD.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Como diminuir a profundidade de campo

Pode o leitor eventual deste blogue - entendendo-se por «leitor eventual» aquele que vem aqui, não para sacar imagens, mas para colher informação - interrogar-se como é que se obtêm imagens como a de cima; pois bem, é fácil e não requer conhecimentos especiais.
A profundidade de campo (já sabemos que a profundidade de campo é a distância ao longo da qual a imagem se mantém nítida) depende de três factores, que analisaremos de modo sistemático:
- A abertura;
- A distância entre a câmara e o objecto;
- A distância entre o objecto e o plano de fundo.
Para se obter um fundo tão desfocado como o que se vê nesta fotografia, tirada a um banco de um dos cais de embarque da Estação de S. Bento (Porto) aquando de uma saída de campo do workshop do Instituto Português de Fotografia que frequentei, é necessário, antes de mais, seleccionar uma abertura ampla. Neste caso, usei uma abertura de f2, a despeito de a lente que usei permitir uma abertura de f 1.4. Não usei a lente wide open porque a abertura máxima tende a criar imagens demasiado sobre-expostas que resultam em cores mortiças e planas. Contudo, pode ter-se por regra que quanto maior for a abertura, menor é a profundidade de campo.
Em segundo lugar, pode dizer-se que a profundidade de campo é tão mais reduzida quanto menor for a distância entre o plano focal (definido pela posição da câmara) e o objecto que se pretende fotografar. Todas as lentes têm uma distância mínima de focagem e uma distância máxima (normalmente o infinito, definido pelo símbolo ), descritas algures no seu corpo, em regra na base, perto da baioneta. A distância mínima, que é a que nos interessa neste caso, depende da distância focal; quanto menor esta for, menor será também o plano focal possível. Uma grande-angular de 35mm permitirá uma distância de 25 a 30 cm em relação ao objecto, ao passo que uma lente standard de 80mm requererá uma distância entre os 70 e os 80 cm. As teleobjectivas podem exigir distâncias de vários metros. Fotografar a distâncias menores que as mínimas produz desfocagem do primeiro plano, o que é visível na fotografia acima, na qual a extremidade do banco surge desfocada (o ponto que escolhi para focar foi o motivo de ferro fundido sob as ripas de madeira, que surge perfeitamente focado). Não é proibido focar abaixo da distância mínima; pelo contrário, por vezes a desfocagem obtida pode criar efeitos interessantes, mas convém ter em mente que demasiada proximidade produz desfocagem do primeiro plano.
Por outras palavras: para obter o efeito desfocado, é necessário aproximar a câmara do motivo tanto quanto for possível; quanto mais próxima a câmara estiver, menor será a profundidade de campo.
Finalmente, esta técnica de redução da profundidade de campo só resulta se o motivo estiver afastado do plano de fundo. Se fotografarmos uma flor que tenha folhagem imediatamente atrás, esta folhagem vai surgir nítida na imagem. É necessário, deste modo, que o motivo esteja isolado do plano de fundo. Aliás, o que se pretende, com esta técnica, é isolar um motivo do fundo; para que a atenção de quem vê a imagem se concentre no motivo, pode ser necessário que os objectos do plano de fundo não compitam com aquele para atrair a atenção do olhar. Quanto mais distante for o plano de fundo, mais desfocado este surgirá na imagem.
Note-se, contudo, que o que descrevi refere-se a lentes comuns; nas lentes macro a profundidade de campo é reduzida por natureza - apenas uma área muito diminuta da imagem surge em foco. Convém também ter em mente que nem todas as lentes «normais» produzem um esbatimento perfeito do fundo. O que se pretende, com esta técnica, é obter fundos suaves, e as lentes de pequena distância focal falham neste particular, apresentando imagens de fundo que, embora desfocadas, são demasiado nítidas para isolar o objecto a fotografar. O mesmo se diga de lentes que, embora tenham grandes distâncias focais, apenas permitem aberturas demasiado estreitas.
E pronto - nada como começar o ano partilhando um naco de sabedoria...