terça-feira, 2 de agosto de 2011

Intenção

O zénite do tédio...!
Fotografar apenas pelo gosto de fotografar não resulta. Fotografar por desfastio torna-se fastidioso e cansativo. Hoje aconteceu-me: como tinha o dia livre (estou de férias), peguei no saco e fui fotografar. Fiz-me à estrada sem nenhum programa estabelecido, parei num local que me pareceu interessante e tirei algumas fotografias. Nenhuma me satisfez. Apenas uma ou duas saíram aceitáveis.
Aceitável, nada mais...
Em contrapartida, no Domingo fui a Amarante com um propósito bem definido: queria fotografar a ponte e o mosteiro de S. Gonçalo à noite, com a iluminação artificial e os reflexos no Tâmega. Ter visto fotografias que Joel Santos tirou do mesmo local espevitou-me a vontade de fotografar aquele lugar, que considero um dos mais interessantes do nosso país - pelo menos dos que conheço -, pelo que resolvi criar a minha própria versão fotográfica daquele local.
Os resultados foram plenamente satisfatórios. As fotografias que tirei saíram exactamente como queria. Tinha planeado a viagem antecipadamente e estava preparado para ficar em Amarante até à noite; como conheço razoavelmente bem o local, não demorei muito a encontrar o melhor lugar para montar o tripé (ou pelo menos o melhor possível, porque a distância focal equivalente de 34 mm, a mínima que posso usar, obrigou a planos mais aproximados do que aqueles que queria); fiz diversas experiências com o enquadramento e a composição antes de me decidir pelo melhor local e, quando as luzes municipais finalmente acenderam, estava pronto para fotografar. Não houve grande lugar à improvisação. Experimentei a melhor abertura, a melhor velocidade de disparo, o melhor compromisso com o ISO e o equilíbrio de brancos mais apropriado.
O resultado de um bom planeamento
Quando se quer fotografar a um determinado nível criativo, tem de haver sempre uma intenção. Fotografar ao acaso não leva a lado nenhum, a não ser à desmotivação, ao cansaço e à frustração. Mesmo no estilo mais espontâneo - a fotografia de rua -, o fotógrafo deve estar preparado: deve estar bem atento a tudo o que está a acontecer à sua volta, de maneira a tomar decisões em fracções de segundo. Aquilo que parece improvisado não o é verdadeiramente: implica um trabalho de preparação psicológica que não é despiciendo e um planeamento devidamente antecipado. Para tirar fotografia de rua escolho lugares que conheço e onde sei que há sempre muita gente e cenas interessantes à espera de ser colhidas pela minha câmara. Há, deste modo, uma preparação a anteceder cada fotografia - e em todos os estilos, não apenas nas cenas de rua. Só assim se obtêm resultados satisfatórios. É necessário, numa palavra, saber o que se vai fotografar. Onde, como (a cores? A preto-e-branco? Com que lente?) e quando (de manhã muito cedo? Ao anoitecer?). E, sobretudo, porquê. (Gosto deste tipo de fotografia? Tenho algo a dizer aos que a vão ver?) Ter temas previamente definidos simplifica o trabalho de preparação.
Para além destes, há outros aspectos a ter em conta: se o céu está nublado ou limpo, por exemplo. As câmaras digitais têm extrema dificuldade em recolher imagens de céus encobertos mas com bastante luz, sendo o resultado um céu branco, pelo que esses dias são de evitar.
Estes são os elementos fundamentais da preparação de uma sessão fotográfica. Nada disto significa, porém, que o fotógrafo se deva tornar um obcecado que só tira fotografias depois de consultar a meteorologia, que tenha assinalado no calendário os dias em que quer fotografar ou saiba a posição do sol no céu para os próximos seis meses. Demasiada preparação pode tornar-se castradora por retirar o elemento de prazer da fotografia, substituindo-o por uma rotina que mais tarde ou mais cedo se tornará estéril. (A menos, claro, que se seja um profissional!)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Um ano de fotografia

Foi há um ano que comecei a fotografar. No dia 31 de Julho de 2010 fui a uma grande superfície e comprei uma câmara compacta, a Canon Power Shot A3150is, que hoje, e desde Maio deste ano, está nas mãos do meu sobrinho-do-meio. Antes desta data, as minhas experiências fotográficas limitaram-se a umas fotografias tiradas, ainda adolescente, com aquilo que era, no entender da Agfa, uma câmara portátil - um aparelho retráctil, de plástico, que avariou ao fim de poucas semanas e me levou a acreditar que nunca poderia tornar-me num fotógrafo - e a uma série de fotografias tiradas, já em 2006, com uma Canon Ixus emprestada por uma amiga. Os elogios que recebi por estas fotografias, tiradas durante um daqueles passeios pelo Porto com o excelente Júlio Couto como cicerone, fizeram-me perceber que os meus receios de nunca vir a tirar boas fotografias eram, afinal, infundados - mas a aquisição de uma câmara teve de esperar pela melhoria da situação patrimonial, que só se verificou quatro anos mais tarde.
Entretanto conheci Fernando Aroso, como já relatei aqui. Ter conhecido este grande fotógrafo despertou-me a vontade de fotografar e tornou a aquisição de uma máquina fotográfica numa prioridade. Comprei a minha primeira câmara mais ou menos a sério dois meses mais tarde.
 Podia dizer que as minhas primeiras fotografias foram um desastre, mas não foram. Pelo contrário, descobri que, através da fotografia, podia dar rédea solta ao meu sentido estético. Embora ainda hoje não possa ser considerado muito original nos temas que escolho e nos enquadramentos que uso, não demorei muito a tirar fotografias de qualidade aceitável. Foi como se tivesse descoberto uma vocação de que não suspeitava.
 Não demorei muito, porém, a compreender que a própria câmara era uma limitação. A despeito de não ter quaisquer conhecimentos técnicos de fotografia, o produto final nem sempre era do meu agrado. Mesmo quando me sentia satisfeito com a estética, a composição e o enquadramento das fotografias que ia fazendo, havia sempre motivos de frustração que não tardei a descobrir serem atribuíveis à câmara. Antes de mais, os níveis horrendos de ruído, como pode ser verificado nesta fotografia (que já foi tratada com a redução de ruído do Olympus Viewer 2!):
O outro problema era a distorção da imagem quando usava distâncias focais curtas. Nestas distâncias, típicas das grande-angulares, as linhas verticais surgem sempre diagonalizadas, mas a Canon tornava-as curvas. Esta distorção tornou-se-me de tal maneira intolerável que senti necessidade de mudar para uma câmara melhor logo dois meses após a aquisição. Compreendam-me, pois, por alinhar entre os que entendem que o equipamento é fundamental.
Outras limitações da Canon eram a sua baixa resolução - mesmo na qualidade máxima -, um zoom muito deficiente que prejudicava a focagem nas distâncias focais mais elevadas, um nível de aberrações cromáticas que ia muito para além do tolerável e a completa impossibilidade de regular a exposição como queria. Apesar de ter uma posição P, com a qual comecei a fotografar logo no segundo dia, apenas tinha acesso à regulação da compensação da exposição, ao equilíbrio dos brancos e ao ISO (que bem podia não existir: era inútil - mesmo com o ISO mais baixo as fotos eram inconcebivelmente ruidosas).
Decidi concentrar-me em aspectos como o enquadramento, a composição e, sobretudo, o conteúdo da fotografia. Já que era impossível tirar fotografias tecnicamente boas, procurei que ao menos fossem interessantes. Não sei se consegui - mas serviu para treinar os aspectos estéticos da fotografia enquanto não conseguia adquirir uma câmara decente.
Apesar de todas as limitações, ter uma câmara, ainda que modesta, abriu-me as portas para o enorme prazer de fotografar. É um hobby, claro, e nunca será mais que isso. Não conto tornar-me num fotógrafo profissional. Mas é um hobby enriquecedor e recompensador como poucos.
Como um pescador que sonha com canas de fibra de carbono e carretos Mitchell, ou um audiófilo que aspira a ter um amplificador Conrad-Johnson, também eu despendi dias da minha vida a imaginar o que poderia fazer se tivesse uma câmara melhor. Em Setembro do ano passado dei por mim a considerar as hipóteses que tinha: deveria comprar uma reflex? Mas porquê, se aquelas câmaras são tão feias e desajeitadas? O que eu queria mesmo era uma rangefinder, como a Minolta S7 do meu pai - mas naquela altura, antes de a FujiFilm X100 aparecer, só as Leicas correspondiam ao meu arquétipo de câmara. Um arquétipo bem caro, diga-se: €5.000,00 só pelo corpo! Felizmente, havia uma câmara que me satisfazia esteticamente e tinha, ao que se dizia na Internet, uma qualidade de imagem mais que aceitável. Era a Olympus E-P1, a primeira PEN digital. Comprei-a, finalmente - quando já havia sido descontinuada - em Abril deste ano. Se a Canon me abriu as portas para o prazer da fotografia, a Olympus derrubou os limites técnicos e permitiu-me avançar como fotógrafo. Ainda não me considero um bom fotógrafo, mas tenho a certeza de que estou no bom caminho.
Amarante, 31 de Julho de 2011
Isto é o que a Olympus me permite fazer. Tirar uma boa fotografia nestas condições de luz com uma compacta é absolutamente impensável. Se analisar friamente esta fotografia da ponte e da igreja de S. Gonçalo de Amarante, porém (e eu sou o maior e mais severo crítico das minhas próprias fotografias), concluo que tem demasiado ruído e que as cores não são inteiramente convincentes. O que está aqui é o que a câmara tirou, sem qualquer tipo de manipulação. Sei que ainda tenho margem para melhorar - mas sei também que estou a seguir na direcção certa.
Não sei até onde posso levar este meu hobby. É bem possível que o trabalho se venha a sobrepor ao tempo disponível para fotografar, ou que, por qualquer motivo, perca o interesse pela fotografia. Mas, enquanto nenhum destes eventos acontece, vou-me divertindo e aprendendo. E dou uns passeios...!

sábado, 30 de julho de 2011

Fotografia nocturna

Abertura f13, velocidade 8'', ISO 250
A minha curva de aprendizagem evolui um pouco mais sempre que fotografo em condições de luminosidade reduzida. As sessões fotográficas ao lusco-fusco e à noite (deixemos de lado, por agora, a questão da comprovada inabilidade da minha E-P1 para a fotografia nocturna) têm-me vindo a mostrar como funcionam as relações entre os valores que determinam a exposição num conjunto câmara-lente - a abertura, a velocidade e a sensibilidade ISO.
Com efeito, estes três valores operam entre si numa relação de dependência para determinar a exposição da imagem: a abertura, quando aumentada, leva a que a exposição seja mais luminosa, podendo criar imagens sobre-expostas; a velocidade do obturador, ao ser reduzida, produz o mesmo efeito. O mesmo com o ISO.
Temos, deste modo, que:
- Quanto maior a abertura (a que corresponde um número f proporcionalmente menor), mais exposta fica a imagem;
- Quanto menor a velocidade do disparo e a sensibilidade ISO, maior é a exposição.
Isto (que, naturalmente, pode ser lido de forma inversa) significa que deve ser encontrado um equilíbrio adequado entre os três valores para se obter a exposição ideal. Deve dizer-se, a este propósito, que a exposição ideal não é algo de objectivo: nem sempre o fotómetro produz exposições do agrado do fotógrafo. No caso da minha câmara, esta tende a produzir imagens muito luminosas, e eu gosto de fotografias low key, um pouco obscurecidas e fortemente contrastadas. É difícil dizer em que consiste este equilíbrio, uma vez que as relações entre os três valores criam uma quantidade enorme de possibilidades, mas há algumas regras que convém ter em mente quando se fotografa à noite:
1) A fotografia nocturna exige velocidades de disparo lentas, que deverão ser tanto mais lentas quanto mais reduzidas forem as condições de luminosidade. Como as velocidades lentas aumentam a exposição, a sobre-exposição é evitada optando por uma abertura menor. A sensibilidade ISO também pode ser aumentada, mas (já o disse aqui por diversas vezes) a escolha de sensibilidades elevadas aumenta o ruído presente na imagem. 
2) Por vezes não há escolha possível: se o que pretendemos é fotografias nocturnas de objectos em movimento, não há alternativa ao uso de valores de sensibilidade altos. Se tentarmos compensar o excesso de exposição - os tais céus azuis a meio da noite a que já me referi aqui - provocado pela diminuição da velocidade do obturador com uma abertura demasiado diminuta, ficaremos com imagens sub-expostas - i. e. demasiado escuras -, e o mesmo acontece se aumentarmos a velocidade do disparo. Nestas circunstâncias, para manter a imagem nítida, usamos um valor ISO elevado.
A foto no topo foi feita com um tripé igual a este
3. A fotografia nocturna implica, obrigatoriamente, o uso de um tripé. É impossível fazer uma boa fotografia nocturna sem um apoio estável. As fotografias tiradas segurando a câmara com as mãos sofrem, inevitavelmente, distorção por arrastamento dos pontos luminosos, que pode ser vista nos rastos de luz partindo do centro daqueles pontos, e perda de nitidez. Por maior e mais ergonómico que seja o punho da câmara, e mais firmes que sejam as mãos do fotógrafo, estes efeitos surgirão sempre que a fotografia nocturna é feita segurando a câmara com as mãos. A única excepção é o disparo com flash (sobre o qual não me posso pronunciar porque não tenho), uma vez que o seu uso altera as condições de luminosidade, suprindo parcialmente a necessidade do tripé e de valores ISO elevados.
4. O ruído da imagem é, como vimos, o preço a pagar pelo uso de sensibilidades ISO elevadas. Por melhor e mais sofisticada que seja a câmara, esta é sempre uma consequência necessária. Para além do conselho, dado anteriormente por diversas vezes, de procurar usar o menor valor ISO possível, direi que existe uma relação proporcionalmente inversa entre o tamanho do sensor e o aparecimento de ruído. Isto é quase uma lei da natureza: quanto menor for o sensor, maior o ruído aparente na imagem. Contudo, nem as full frame como a Canon 1D Mk IV ou a Nikon D3 estão livres de ruído: o que produzem é menos ruído.
Como vêem, tirar boas fotografias à noite não é simples - mas também não é tão complicado como parece. É uma questão de prática, de manusear os comandos e funções da câmara e tirar muitas fotografias até se obterem resultados satisfatórios. Claro que a aprendizagem pode ser mais rápida e menos frustrante se tivermos alguns conhecimentos de como a câmara funciona, e gostava que este texto ajudasse alguns principiantes (categoria na qual me incluo) a encontrar rapidamente as boas configurações para obter boas fotografias. Nem que sejam só um ou dois...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Questões legais da fotografia

Já tinha em mente escrever alguma coisa sobre aspectos jurídicos da fotografia, mas ter visto o vídeo que descobri no dpreview.com apressou a minha decisão.
O principal problema jurídico da fotografia é, evidentemente, o seu potencial conflito com o direito à imagem e com o direito à reserva da vida privada. Como não estou a escrever para paparazzi, esqueçamos, por agora, este último direito para nos concentrarmos na análise do direito à imagem.
A lei civil configura o direito à imagem como um direito de personalidade; este direito está, por via desta qualificação legal, incluído entre direitos inatos e incindíveis da pessoa humana, como, desde logo, o próprio direito à vida. É, deste modo, um direito universal, absoluto e erga omnes, i. e. oponível a toda e qualquer outra pessoa ou entidade. Com efeito, os direitos de personalidade são aqueles que cada um adquire por força do seu nascimento, correspondendo, na lei civil portuguesa, aos direitos enunciados na Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948. A violação destes direitos pode fazer o infractor responder pela prática de um crime (e. g. homicídio, ofensas à integridade física, injúria, difamação, etc.) ou responder civilmente, constituindo-se, no plano da lei civil, na obrigação de indemnizar o lesado.
Esta introdução serviu apenas para dar um contexto ao direito que nos interessa enquanto fotógrafos: o direito à imagem. A tutela deste direito está consagrada no artigo 79.º do Código Civil, que transcrevo:
Artigo 79.º
(Direito à imagem)
1. O retrato de uma pessoa não pode ser exposto, reproduzido ou lançado no comércio sem o consentimento dela; depois da morte da pessoa retratada, a autorização compete às pessoas designadas no n.º 2 do artigo 71.º, segundo a ordem nele indicada.
2. Não é necessário o consentimento da pessoa retratada quando assim o justifiquem a sua notoriedade, o cargo que desempenhe, exigências de polícia ou de justiça, finalidades científicas, didácticas ou culturais, ou quando a reprodução da imagem vier enquadrada na de lugares públicos, ou na de factos de interesse público ou que hajam decorrido publicamente.
3. O retrato não pode, porém, ser reproduzido, exposto ou lançado no comércio, se do facto resultar prejuízo para a honra, reputação ou simples decoro da pessoa retratada.
Como se vê, a regra é a da proibição da divulgação da imagem das pessoas - o que é diferente da recolha da imagem. O que a lei proíbe, com efeito, é a difusão - por exposição, publicação ou comercialização - da imagem de alguém sem o seu consentimento. Esta proibição decorre da consagração do princípio da inviolabilidade dos direitos da personalidade, mas está bom de ver que, se fosse interpretada como uma proibição absoluta - incluindo a tomada de imagens -, seria impossível tirar fotografias de locais onde estivesse uma só pessoa que fosse; de igual modo, seria ilícito tirar fotografias de um comício ou manifestação. Se este preceito legal fosse entendido de maneira restrita, Henri Cartier-Bresson e Garry Winogrand não teriam ficado conhecidos como fotógrafos, mas como reclusos. 
Há, evidentemente, uma colisão entre o direito à imagem e outros direitos, como o de informar ou - o que mais de perto nos concerne - o direito à criação artística. Há, por outras palavras, um conflito entre a liberdade individual da pessoa enquanto titular do direito à imagem, e a liberdade de cada um, exprimida, no nosso caso, na liberdade de colher imagens fotográficas.
Compete à lei resolver conflitos desta natureza; aliás, é para isto que a lei existe - para harmonizar direitos e liberdades conflituantes, de maneira a permitir a convivência em sociedade. A lei resolve este conflito de direitos através da excepção prevista no n.º 2 do artigo 79.º do Código Civil. O direito à imagem cede perante a liberdade de recolha de imagens que é reconhecida a todos os indivíduos. Não deixa, apesar desta excepção, de ser um direito absoluto: aquele que se sentir ofendido com a divulgação pública da sua imagem (do seu retrato, na linguagem antiquada de um código que entrou em vigor em 1967) tem o direito de ser ressarcido do prejuízo que essa publicidade causar ao seu bom nome e reputação (n.º 3).
A fotografia de pessoas em locais públicos é livre. É este o princípio que decorre do artigo 79.º, n.º 2. Do mesmo modo, a fotografia de pessoas que participem em eventos públicos é também livre, tal como o é a recolha de imagens de figuras públicas. Que não haja equívocos quanto a isto. Os fotógrafos de rua podem ficar tranquilos, desde que tenham o cuidado de fotografar pessoas em locais públicos. O que não podem fazer é fotografar pessoas de tal forma que a fotografia afecte a reputação, ou mesmo o simples decoro da pessoa fotografada. São, deste modo, bastante largos os limites do fotografável, e relativamente ténue a margem de proibição.
É importante desfazer aqui uma preconcepção que impede muitos fotógrafos de se exprimirem artisticamente, por receio de estarem a violar o direito à imagem: a fotografia de pessoas, dentro das condições previstas no artigo 79.º, n.º 2, do Código Civil, é livre e não depende de autorização ou consentimento das pessoas fotografadas. O único limite é a divulgação das imagens em condições ofensivas, como se prevê no n.º 3. A pessoa fotografada não tem, ao contrário do que alguns erroneamente pensam, direito a exigir que o fotógrafo apague a fotografia ou, no caso da fotografia analógica, lhe entregue o rolo. Isto decorre de um raciocínio muito simples: a violação do direito à imagem, tal como é configurada no n.º 3, não se consuma com a gravação da imagem na câmara, mas com a sua divulgação (exposição, publicação ou comercialização). É o que decorre de uma leitura atenta da disposição legal. A protecção legal do direito à imagem consubstancia-se na proibição de difundir imagens, e não na de as captar.
Por outro lado, a fotografia de pessoas e a sua divulgação não viola o direito à imagem quando a ela está subjacente um fim cultural. E a lei, como resulta da leitura do n.º 2, abstém-se de proibir a recolha de imagens quando esta seja feita com fins culturais. Podemos discutir o que se entende por fins culturais - e eu sou daqueles que entendem que cultura é tudo o que o homem acrescenta à natureza -, mas não tenho dúvidas em considerar a fotografia uma forma de expressão artística. A despeito da sua democratização, muitos de nós ainda fazem fotografia para satisfazer um impulso estético ou para exprimir uma ideia. Se fosse de considerar uma proibição absoluta e universal de colher imagens de pessoas, seria a própria liberdade de expressão que seria inaceitavelmente cerceada.
Esta é a maneira como a lei harmoniza o direito individual com um interesse mais geral. A protecção do direito à imagem não desaparece - não deixa de ser um direito absoluto -, mas a protecção legal está em concordância com as exigências de uma sociedade livre e com a realidade do nosso tempo, no qual a informação tem um lugar preponderante nas nossas vidas.
Em resumo (e com interesse para a actividade de fotógrafo amador):
1. O direito à imagem é um direito absoluto, ao qual corresponde uma obrigação passiva universal - a obrigação de todos os demais respeitarem esse direito, abstendo-se de expor, divulgar ou comercializar o retrato de uma pessoa.
2. O que a lei pune não é a recolha de imagens, mas a sua difusão sem o consentimento do titular do direito.
3. Não é necessário consentimento para fotografar pessoas:
a) Quando estas sejam figuras públicas;
b) Quando participem em eventos públicos;
c) Quando a sua imagem surja enquadrada em locais públicos.
4. A recolha de imagens é livre quando corresponda a um fim cultural.
5. A difusão de imagens de pessoas em espaços públicos ou com fins culturais só é proibida quando constitua ofensa à honra, reputação ou simples decoro da pessoa visada.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Equipamento vs. olhar (2)

O que referi nos últimos parágrafos do texto anterior não significa que o equipamento não seja importante. Pelo contrário: como mencionei, um bom equipamento permite libertar o potencial criativo do fotógrafo.  Simplesmente, não é o equipamento que faz a fotografia - é o fotógrafo.
O equipamento, quando não está à altura, pode ser um obstáculo severo à criatividade do fotógrafo. Por várias razões. A primeira é, evidentemente, a qualidade da imagem, que por seu turno é determinada pela qualidade do sensor (no caso da fotografia digital), das ópticas e do fotómetro. Quanto ao sensor, cuja qualidade é, por regra, proporcional ao seu tamanho, ele introduz limitações quanto à resolução da imagem e ao ruído que induz nesta última. Não há marketing nem retroiluminação que lhe valha: um sensor pequeno, como os dos telemóveis e das câmaras compactas e bridge, não consegue ter uma boa resolução nem evitar que o ruído se instale quando as condições de luz são fracas e se usam valores ISO elevados. Quanto às ópticas, parece meridianamente claro que estar confinado a uma só lente, por muito boa que esta seja (e normalmente não o é), limita drasticamente as escolhas do fotógrafo. E as lentes fixas das câmaras inferiores trazem os seus próprios problemas: são dadas a aberrações cromáticas, distorções e perda de informação fora do centro da imagem. Por fim, as compactas, as bridge e os telemóveis vêm equipados com fotómetros de baixa qualidade, pensados para ser usados em modo automático por pessoas que apenas usam as câmaras para tirar fotografias aos esposos ou namorados com a paisagem como fundo, reagindo adversamente - e sem qualquer possibilidade de controlo pelo utilizador - a condições difíceis de luminosidade. É por isso que vemos tantas fotografias sem contraste e com céus completamente brancos, ou fotografias demasiado escuras porque o fotómetro entendeu que seria assim que compensava o excesso de luz.
A segunda limitação está nos próprios limites técnicos das câmaras embutidas nos telemóveis e nos das câmaras compactas e bridge; embora estas duas últimas apresentem uma panóplia de efeitos, nenhuma consegue chegar perto do que uma boa câmara pode fazer. Por muito que se tente desfocar o fundo de uma imagem para realçar o primeiro plano, é impossível a qualquer das câmaras referidas obter esse efeito. O utilizador de uma compacta, por exemplo, ficará decepcionado por ver que os artifícios que a câmara anuncia, e que por vezes surgem num selector de roda que lembra vagamente os das reflex (por ex. «fotografia nocturna», «desportos», «macro» ou «retrato»), pouca ou nenhuma diferença produzem em relação ao modo automático. Neste tipo de câmaras, concebido para que qualquer pessoa possa tirar fotografias em condições «normais», o fotógrafo está limitado a fazer o que a máquina quer, e não o que ele quer: não tem domínio sobre a luz captada pelo sensor, e o controlo sobre o ISO e o equilíbrio de brancos que algumas compactas permitem não é suficiente para compensar os compromissos técnicos de um equipamento concebido para ser barato, durar pouco e ser usado por pessoas sem aspirações a fotógrafos.
Claro que há-de haver sempre quem diga que só a imagem interessa, e que o equipamento não tem qualquer importância, mas esta ideia é tão errónea como advogar que qualquer pessoa munida de uma boa câmara é capaz de boas fotografias. Ambas são falsas. À primeira só posso contrapor que uma fotografia sem resolução é uma má fotografia, por muito interessante que seja o seu tema; uma fotografia com demasiado ruído, por muito bonito que seja o motivo captado, é uma fotografia arruinada - tal como aquela fotografia belíssima de uma linda manhã de Verão que ficou totalmente estragada por causa daquele halo roxo que surge no canto superior esquerdo.
Foto roubada de http://blog.chasejarvis.com/blog/
A questão não tem de se pôr em termos extremos: não é verdade que a criatividade baste para se ser um bom fotógrafo, nem que um bom equipamento, por si só, faça um bom fotógrafo. Um bom fotógrafo com um mau equipamento faz fotografias sofríveis. E, mesmo sendo certo que o material existe para ajudar o fotógrafo a exprimir-se, não chega, por muito bom que seja, para fazer um bom fotógrafo. Porque, mesmo que se tenha um bom equipamento e um bom domínio das técnicas fotográficas, tal não assegura, por si só, boas fotografias: uma imagem pode ser tecnicamente perfeita e ser profundamente desinteressante. Em contrapartida, ter boas ideias e um equipamento minimamente decente pode fazer despontar um grande fotógrafo; a sua evolução como fotógrafo implicará, naturalmente, uma evolução no equipamento - mas esta última é sempre comandada pela primeira. O próprio fotógrafo sentirá, mais tarde ou mais cedo, a necessidade de fazer evoluir o seu equipamento, de modo a expandir a sua criatividade.
Se me perguntarem qual o mais importante nesta contenda equipamento versus olhar, respondo sem hesitação: o olhar. Porque ter boas ideias é muito mais importante que ter um bom equipamento. Um bom fotógrafo com um equipamento fraco ou mediano faz melhores fotografias que um fotógrafo fraco ou mediano com um bom equipamento.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Equipamento vs. olhar (1)

Durante vários anos fui um aspirante a audiófilo. Escrevi «aspirante» porque sempre me faltou um requisito essencial para ser um verdadeiro audiófilo - ser rico. Muito rico. Um dia descobri que era um hobby absurdo, e que o meu interesse estava a ser desviado da música para o som reproduzido pelos aparelhos e acessórios. Desperdicei horas preciosas da minha vida tentando resolver os problemas de qualidade sonora, adquirindo cabos caríssimos e inventando soluções que roçavam o ridículo, usando a música como mero instrumento de avaliação do desempenho do equipamento. Resolvi que estava num plano completamente fora da realidade e, o que era pior, a perder o gosto pela música. Parei com as compras de material de Hi-Fi, proibi-me de adquirir revistas especializadas e abandonei as consultas e pesquisas na Internet acerca do assunto. A vida é demasiado curta para a desperdiçar com questões totalmente acessórias que me roubaram o prazer de pôr um disco a tocar e apreciar a música.
Não permitirei que aconteça o mesmo com a fotografia. Tenho uma câmara que, apesar dos defeitos, é capaz de fotografias excelentes; tenho duas belíssimas lentes e os filtros para suprir problemas de luminosidade com que me deparei; acresce a isto um tripé de qualidade e um bom saco para transportar todo o equipamento. Não tenho interesse em fazer novas aquisições de material de fotografia. Tudo o que me interessa, neste momento, é treinar o olhar e melhorar as minhas noções inatas, ou intuitivas, de composição e enquadramento. As câmaras não fazem isso por mim, nem é decerto o Photoshop que me vai ajudar a encontrar um ângulo ou perspectiva interessante. Posso ter uma Leica S2 ou uma Nikon D3x, mas se não tiver a imaginação ou a atenção necessárias para tirar fotografias interessantes, o equipamento não me serve para nada: mais me valeria contentar-me com o telemóvel.
Com efeito, não é o equipamento que faz o bom fotógrafo. O equipamento é bom e útil, mas apenas na justa medida em que permite dar rédea solta à criatividade. Se esta não existir, o equipamento é um desperdício de dinheiro, de tempo e de saúde mental: a pessoa fica tão obcecada com o equipamento que acaba por adoptar comportamentos estranhos, como culpá-lo pela sua falta de talento. Conheço gente que comprou boas câmaras apenas para ficar desiludida com a qualidade das imagens e culpar o desempenho do equipamento, quando o que lhes faltava não era uma boa câmara nem uma boa lente, mas o domínio de noções básicas como a forma como a câmara capta as imagens - i. e. a exposição -, a composição e o enquadramento. A alguns, por via do desconhecimento dos processos ópticos de captação da luz, faltava a própria compreensão das funções da câmara. Também conheço quem tenha comprado a câmara mais evoluída do mercado - sendo que a sua noção de «mais evoluída» consistia num número ISO mais elevado do que a concorrência apresenta - apenas para tirar fotografias deploráveis dos catraios a brincar na praia! E nem vale a pena mencionar os saloios que se deixam seduzir pelo número de pixéis, sem saberem sequer o que isso é ao certo...
Feita com uma compacta (Canon Power Shot A3150is)
Em contrapartida, há muita gente a fazer fotografias espantosas com câmaras modestas. Há pessoas que têm uma imaginação tão vasta que o equipamento acaba por se tornar num severo obstáculo à sua criatividade. Por vezes olho para fotos dessas pessoas e não consigo deixar de imaginar como elas poderiam ser muito melhores com um equipamento adequado. A minha própria experiência mostrou-me esta realidade tão simples: tudo começa no olhar. Uma boa fotografia implica saber apreender um objecto de uma forma que não tem de ser necessariamente original, mas deve ser interessante. Implica o trabalho intelectual de calcular a forma como os objectos que vemos através do nosso olhar vão ficar enquadrados no rectângulo que é a fotografia, implica compor a imagem mentalmente antes de disparar o obturador. E implica, também, algo que a aquisição de bom equipamento pode causar a sensação ilusória de se ter, mas que é algo que tem de estar no nosso espírito: o gosto da fotografia. Tudo o mais é secundário: o material é perfeitamente acessório em relação a essa essencialidade que é o instinto do fotógrafo. Quem não o tiver, mais vale dedicar-se a outro hobby...

domingo, 17 de julho de 2011

Fim-de-semana fotográfico

Este fim-de-semana foi muito enriquecedor em matéria fotográfica. Para além da compra do filtro de 37mm, houve ainda duas aquisições muito satisfatórias.
A primeira (por ordem de importância) foi a instalação, de graça, do novo software de edição de imagem da Olympus, o Viewer 2. Em relação ao que vinha usando (Olympus Master 2), o Viewer traz extras como a redução do ruído, o ajuste de inclinação (que era o único uso que dava ao Gimp 2.6) e a função unsharp mask. Outras funções que já constavam do Master 2 foram ampliadas: a correcção da distorção, por exemplo, corrige a distorção trapezoidal e a de paralelograma. Isto significa que posso corrigir uma imagem muito para além daquilo que o Master 2 tinha para dar, e que não preciso de abrir o Gimp para endireitar fotos. O que quer dizer que ainda sinto menos necessidade do Photoshop...
A outra novidade foi a aquisição de um saco novo para as minhas coisas de fotografia.  Chegara à conclusão que andar com o saco pequeno num ombro e com o tripé noutro era tudo menos prático, por isso decidi-me a comprar uma mochila que me permitisse transportar também o tripé. Mais uma vez a escolha foi para um Lowepro, neste caso o SlingShot 102. Para além de facultar o transporte do tripé em conjunto com o resto do equipamento, tem ainda espaço de sobra para material que venha a comprar no futuro. Não que não esteja satisfeito com o que tenho, mas é sempre bom saber que, se sentir necessidade de adquirir mais qualquer coisa, tenho onde a guardar. Bem acomodada e à prova de choque. Passe a publicidade!
Claro que o material é importante, mas é absolutamente secundário. Um dia destes vou escrever um texto profundíssimo sobre a prioridade do ver em relação ao equipamento, mas por enquanto o que me interessa dizer é que fiquei bem mais orgulhoso das fotografias que tirei no Sábado de manhã do que de todas as coisas que mencionei. A verdade é que tirei uma das fotografias mais satisfatórias da minha carreira (?) de amador da fotografia. Esta:
Não imaginam a satisfação que senti ao ver esta fotografia surgir no Viewer 2 depois de a descarregar da câmara. A expressão da criança é maravilhosa, o olhar da rapariga é fascinante, o enquadramento saiu muito melhor do que esperava. Cartier-Bresson tem a Derrière la Gare de St. Lazare, Robert Doisneau tem aquela do beijo junto ao Hotel de Paris, Robert Capa a do soldado republicano a levar um tiro, Alberto Korda a do Che - e eu tenho esta! É a minha obra-prima. (Não, não me estou a comparar a nenhum daqueles monstros da fotografia...)
E hoje, Domingo, 17 de Julho de 2011, entretive-me a tirar fotografias conceituais na Casa do Infante, aqui no Porto. O álbum que criei no Facebook pode ser visto aqui. Não, nenhuma das fotografias deste álbum me deu a satisfação daquela que tirei na rua que, para mim, será sempre a de Santo António - mas fiquei contente com os resultados.