quarta-feira, 7 de março de 2012

Carlos Machado, fotógrafo profissional

Carlos Machado a f1.4
Hoje não vou escrever sobre técnica nem equipamentos, nem manifestar opiniões acerca do hobby mais interessante do mundo. Não: hoje vou escrever sobre um fotógrafo profissional que tive o prazer de conhecer, e que se tornou rapidamente numa das minhas referências.
Carlos Machado é um fotojornalista. É também formador no Instituto Português de Fotografia. Foi ele quem ministrou o workshop que frequentei no Instituto Português de Fotografia em Novembro do ano passado. Tudo o que não sabia ou ainda não dominava, aprendi ali: o panning, a medição pontual, a calibração do equilíbrio dos brancos, entre outras técnicas ministradas no workshop de técnica fotográfica. Acho justo, deste modo, mencioná-lo neste blogue. Eu sou assim; tenho a humildade suficiente para prestar o tributo devido a todos aqueles com quem aprendo, seja qual for a área do conhecimento ensinada. 
Se o Carlos Machado apenas soubesse de técnica fotográfica, porém, talvez não me sentisse obrigado a manifestar o meu reconhecimento; e, se não fosse uma pessoa excelente - totalmente despretensioso (o que não é o mesmo que ser inconsciente do seu valor), acessível e sempre pronto a ensinar e a ajudar -, decerto este texto não existiria. Pois o Carlos Machado é tudo isto - e é também um fotógrafo extraordinário cujas fotografias são verdadeiras provas de talento. Talvez dos melhores que existem em Portugal - e provavelmente a pedir meças a muitos estrangeiros. E um excelente mestre. Daí que seja duplamente, triplamente, merecedor destas palavras, que são escritas sem qualquer outro intuito que não seja o de manifestar o meu apreço (e são, evidentemente, extensivas ao Instituto Português de Fotografia, que também as merece).
Já tive oportunidade de me referir aqui ao workshop do IPF - por duas vezes -, e recomendo-o sem reservas a quem quiser aprender ou aperfeiçoar a técnica fotográfica. Uma fotografia que apenas seja boa no aspecto técnico é uma fotografia vazia, decerto - mas uma fotografia de um objecto interessante que denote uma técnica deficiente é apenas uma fotografia medíocre. E não é preciso ser um génio, nem gastar muito tempo, para entender uma câmara e aquilo que ela põe ao nosso dispor para que possamos fazer fotografias ainda melhores. Por isso, meus caros amigos proprietários de boas câmaras, fiquem atentos ao calendário das iniciativas do IPF e inscrevam-se no próximo workshop. E não me venham com a desculpa de que é caro, pois é muito mais barato que uma lente, um flash ou um tripé e faz muito mais pela vossa fotografia do que estes equipamentos.
Como todos os profissionais da fotografia, o Carlos Machado é extremamente (conscien)cioso dos seus direitos autorais; daí que, em lugar de publicar aqui as suas fotografias, convide o leitor a visitar a sua página no Facebook, onde aquelas podem ser vistas: 


terça-feira, 6 de março de 2012

Manual das aberrações fotográficas (4)


Outro problema intolerável, e praticamente impossível de corrigir sem transformar a fotografia numa imagem completamente diferente da que se intentou, é o surgimento de halos ou clarões na imagem. Estas aberrações da imagem são aquelas cuja proveniência e explicação são mais óbvias: a incapacidade da câmara e da lente de lidar com o excesso de luz (sendo que, neste aspecto, não difere muito dos nossos olhos).
Fotografar directamente uma fonte de luz intensa, como o sol, é algo que os fabricantes recomendam que se evite nos manuais de instruções. E compreende-se porquê: o excesso de luz pode danificar o sensor, tal como, no tempo do filme, podia queimar a película. Há outro perigo, quando se usam visores ópticos e se fotografa com a lente apontada directamente ao sol, que é o de causar lesões oculares, uma vez que o excesso de luz é desviado, através do pentaprisma, para o visor.
Mas não é quando se fotografa directamente uma fonte de luz intensa, como o sol, que estes halos surgem (o resultado de fotografar o sol directamente – se o sensor resistir – é uma imagem fortemente sobre-exposta): é quando a luz é captada obliquamente à lente. Nestes casos surge uma mancha de luz, que pode (fortuitamente) resultar bem, mas que na maior parte das imagens tem um efeito nocivo. É o caso da imagem acima: a mancha esbranquiçada acima da linha do horizonte não é mais que um enorme clarão. Embora possa parecer uma nuance natural do céu, não o é (acreditem: eu estava lá e vi!): é uma aberração óptica.
Outra manifestação do excesso de luz oblíqua consiste no aparecimento de manchas na imagem, que geralmente - mas nem sempre, como se pode ver na imagem ao lado - têm a forma do diafragma: um ou mais pentágonos, hexágonos ou octógonos, de acordo com o numero de lâminas da íris. Este é um efeito dos reflexos que se produzem dentro da lente quando a luz incide sobre a mesma. Todos nós já vimos filmes, séries e documentários em que se recorre a estas manchas por opção estética, mas na fotografia é muito raro que resultem em boas imagens. 
Ao contrário de outras aberrações a que já me referi, esta pode ser evitada através de um expediente muito simples: o uso de um para-sol. O para-sol não faz nada se se fotografar o sol de frente (o que, a menos que a sua luz seja pouco intensa, como no ocaso ou ao amanhecer, é vivamente desaconselhado), mas é extremamente eficaz quando a luz solar incide lateralmente. Resta referir que os para-sóis devem ser adequados ao tipo de lente que se usa: lembremo-nos que o ângulo de visão da lente é tanto maior quanto menor for a distância focal, pelo que o para-sol para uma grande-angular é mais aberto do que o de uma teleobjectiva, cujo ângulo de visão se pode reduzir a 2 – 4º. O uso de um para-sol demasiado aberto numa teleobjectiva é ineficaz, por permitir a passagem da luz oblíqua, e, inversamente, o uso de um para-sol de ângulo estreito numa grande-angular vai provocar o escurecimento dos cantos da imagem. E, à falta de um para-sol, pode sempre proteger-se a lente com a mão, evitando que a luz incida sobre a lente. 
A referência ao escurecimento dos cantos da imagem leva-nos a uma outra aberração: a vinhetagem. Esta consiste no escurecimento dos cantos da imagem, e é uma característica mais ou menos necessária das distâncias focais reduzidas. Digo «mais ou menos» porque algumas lentes, geralmente caras e de concepção sofisticada, conseguem evitar este fenómeno. Embora a vinhetagem seja uma aberração, há fortes possibilidades de trabalhar com ela para tornar a fotografia interessante, à maneira das fotografias feitas com lentes pinhole – mas, em muitos casos, o resultado é indesejável. Só há uma maneira de evitar a vinhetagem: deitar fora a lente que a produz e comprar uma melhor. Não posso ilustrar o fenómeno da vinhetagem com fotografias tiradas com material da Olympus, porque nenhuma das minhas lentes produz esta aberração, mas a minha antiga compacta, essa, fazia o que se pode ver na imagem acima.
Há ainda uma outra aberração, conhecida por moiré (na falta de uma boa tradução), que importa referir. Esta consiste no surgimento de distorções da imagem em padrões uniformes - e. g. as malhas de um tecido - e é resultado de uma sobreposição de padrões em ângulos diferentes. Como os próprios captores de luz do sensor formam um padrão, o moiré pode acontecer quando se fotografam texturas finas num ângulo oblíquo ao padrão formado pelas células do sensor. O sensor tem um filtro anti-moiré, também denominado anti-aliasing, mas o seu efeito pode desaparecer quando se baixa a resolução da imagem. Quanto mais alta for esta última, menor será a possibilidade de esta distorção surgir. Na imagem abaixo, que foi descarregada do Olympus Viewer para o ambiente de trabalho na resolução mais baixa, o moiré é bem visível - mas não na imagem original, que foi tirada na mais alta resolução.
 As aberrações tratadas ao longo destes quatro textos têm quase todas a característica de serem inevitáveis. O que pode ser feito para diminuir o impacto de algumas delas é muito pouco ou quase nada. Apenas os halos podem ser evitados com recurso a para-sóis, mas mesmo estes podem ser ineficazes, como por ex. quando se usam zooms com uma amplitude muito grande entre as distâncias focais mínima e máxima, por ser difícil usar um para-sol que seja eficaz em ambas. Contudo, aberrações como o ruído e a difracção podem ser minimizadas pelo recurso a técnicas fotográficas correctas, como procurei explicar ao longo dos textos; outras podem ser corrigidas na pós-produção, e uma delas - a vinhetagem -, sendo consequência de uma qualidade deficiente da lente, não têm solução. De fora deste texto ficam defeitos de fabrico (como os globos brancos que afectam as imagens obtidas com a compacta Fujifilm X10, que têm provocado muito choro e ranger de dentes entre os adquirentes dessa câmara), uma vez que não são aberrações características da fotografia, mas anomalias de fabrico de determinados componentes.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Manual das aberrações fotográficas (3)


Uma aberração fotográfica que importa ter em conta, especialmente (mas não apenas) quando se fotografa com teleobjectivas e se pretende manter a imagem em foco em todos os planos, é a difracção. Posta de uma maneira simples (e sem recurso às equações que podem ser encontradas na Wikipédia), a noção de difracção pode ser dada como o desvio dos raios luminosos ao incidirem sobre um corpo opaco.
Por vezes, ao ver uma fotografia afectada pela difracção, este fenómeno pode ser confundido com a desfocagem que ocorre naturalmente quando se usam lentes com profundidade de campo reduzida, mas a verdade é que a difracção não acontece apenas quando se usam distâncias focais longas. Mesmo com grandes-angulares é possível verificar os efeitos da difracção, que podem ser vistos como uma perda notória de nitidez em determinados planos. Para compreender melhor a difracção, interessa referir que a luz, como qualquer onda, não se comporta uniformemente quando tem de atravessar um determinado caminho: a luz que penetra na lente não tem as mesmas características depois de atravessar o diafragma. Quanto mais aberto este estiver, menor será o desvio dos raios de luz. Inversamente, o uso de aberturas estreitas provoca um desvio mais acentuado. Pensemos num prisma: para decompor o espectro cromático, a luz tem de ser encaminhada através de um orifício estreito antes de atingir o prisma. Na difracção passa-se sensivelmente o mesmo – simplesmente, em lugar de obter o espectro luminoso que torna visíveis as cores do arco-íris, o que sucede, quando se usam aberturas estreitas, é uma perda de nitidez. 
Deixei propositadamente para o fim a causa da difracção, ou melhor, o momento em que esta ocorre. Embora exista um grande número de variáveis, como por ex. a área do sensor (a difracção afecta menos os sensores de áreas maiores), a distância focal ou a qualidade intrínseca da lente, tem-se como adquirido que a difracção ocorre quando se usam aberturas mais estreitas que f11. É por esta razão que a difracção ocorre mais facilmente com teleobjectivas: como a profundidade de campo destas lentes é mais reduzida – e tanto mais quanto maior for a distância focal –, há uma tendência, para manter a nitidez em todos os planos, para escolher aberturas estreitas (e nós já sabemos que a focagem depende directamente da abertura e das variações que esta provoca na profundidade de campo). E usar aberturas estreitas é também essencial, por força da lei da reciprocidade, para obter velocidades de disparo lentas. No caso da fotografia acima, foi necessária uma abertura de f20 para obter o efeito de arrastamento da água - e as consequências são visíveis na perda de nitidez da linha do horizonte.
Devem, por isto, ser evitadas aberturas demasiado estreitas. Como em tudo, há que fazer escolhas: ou se sacrifica a focagem nos planos mais longínquos, recorrendo a aberturas maiores, ou se usam aberturas estreitas, com o risco de perda de nitidez.

domingo, 4 de março de 2012

Manual das aberrações fotográficas (2)


Outras aberrações, igualmente detrimentais para a qualidade da imagem, são as aberrações cromáticas. Estas são um defeito de certas lentes que, por um efeito de refracção dos diferentes comprimentos de onda das cores em que se decompõe a luz captada, não conseguem focar correctamente a totalidade do espectro cromático. São, por via de regra, uma demonstração de mediocridade na concepção dos elementos ópticos da lente, mas as aberrações cromáticas também podem acontecer com lentes de qualidade superior. É o que se verifica quando se montam lentes antigas – i. e. anteriores à era digital – em câmaras digitais, uma vez que as primeiras foram concebidas para responder a uma gama dinâmica que a câmara digital, cuja gama dinâmica tem características diferentes, não interpreta correctamente. (Quanto a esta questão, que se relaciona com a densidade dos pixéis do sensor, vd. Michael Freeman, Mastering Digital Photography, Ilex, pp. 623-624.)
Por regra, as aberrações cromáticas manifestam-se sob a forma de orlas púrpura ou vermelhas à volta do objecto fotografado. Cada cor tem um comprimento de onda diferente, pelo que, quanto maior for esse comprimento, maior será a sua visibilidade numa imagem na qual a aberração cromática seja evidente. Daí que o azul e o vermelho sejam as cores mais visíveis, porque os seus comprimentos de onda são maiores. No caso da fotografia no topo deste texto, parece evidente que a câmara não conseguiu focar a totalidade do comprimento de onda do azul, o que explica as horrendas orlas azuis à volta da folhagem (a imagem foi obtida quando experimentava a lente OM de 28mm/f3.5); já a imagem abaixo, que é um crop muito ampliado de uma das primeiras fotografias tiradas quando experimentava a E-P1, foi obtida com uma lente especificamente concebida para câmaras digitais, a 17mm/f2.8, que é um verdadeiro compêndio de aberrações da imagem. Aqui é visível a orla púrpura, que não mais é que o resultado da combinação dos comprimentos de onda das cores azul e vermelha, que o sensor não pôde captar convenientemente por erro de focagem das mesmas.
Exemplo das aberrações cromáticas mais comuns
Deve notar-se, contudo, que as aberrações cromáticas se manifestam sobretudo em grandes ampliações. Numa fotografia publicada na Internet, em tamanho reduzido, a refracção da cor é praticamente imperceptível. De igual modo, elas são mais visíveis quando existem grandes contrastes entre o plano de fundo - especialmente quando este é o céu - e o objecto fotografado.
Sendo a aberração cromática um defeito óptico, resultante da concepção da lente ou da sua incompatibilidade com o sensor, não há muito que possa ser feito para a evitar antes do momento em que se pressiona o botão do disparo - salvo trocar a lente por uma melhor. Algumas câmaras, como as Panasonic para micro 4/3, corrigem as aberrações cromáticas, pelo que, tal como acontece com a correcção da distorção geométrica nas Olympus, o fotógrafo nem sequer se chega a aperceber da sua existência. As aberrações cromáticas podem também ser corrigidas em alguns programas de edição de imagem, como o Photoshop (ver aqui como se faz essa correcção).  

Manual das aberrações fotográficas (1)


Por vezes o prazer de fazer uma boa fotografia é totalmente arruinado quando a descarregamos no computador e verificamos que a imagem foi conspurcada por anomalias: o poste que ficou curvo, a franja púrpura que envolve o ramo, a perda de nitidez e contraste no plano de fundo, etc. Hoje proponho-me analisar estas anomalias, que podemos englobar sob a denominação de aberrações, e saber se podemos fazer alguma coisa para as eliminar.
Deve, antes de mais, assimilar-se a noção introdutória de que a maior parte destas aberrações tem uma natureza óptica. Por outras palavras, são causadas pela lente. Deste modo, podem ser subsumidas a defeitos de concepção dos elementos ópticos, não restando outra solução que não seja a de mudar de lente para as corrigir.
Vejamos, pois, quais são as principais aberrações fotográficas.
A primeira, que surge nesta ordem pelo seu carácter insidioso, é o ruído. Como já me referi a esta aberração neste blogue, remeto para o respectivo texto, que pode ser encontrado aqui. Felizmente, esta é uma das poucas aberrações que podem ser atenuadas pelo fotógrafo antes do momento do disparo, fazendo uso de sensibilidades ISO reduzidas, usando um tripé quando requerido e procurando usar velocidades de disparo adequadas.
Pincushion distortion
Distorção de barril
A distorção geométrica é, porventura, a mais infame das aberrações fotográficas. Quando se fotografa com distâncias focais curtas, assume o nome, traduzido literalmente do inglês barrel distortion, de «distorção de barril». Esta aberração resulta de erros de concepção da lente, cujos grupos ópticos não são corrigidos de maneira a obter resultados lineares. Manifesta-se na curvatura centrífuga das linhas direitas, o que é especialmente notório nas linhas verticais. As lentes fisheye acentuam esta curvatura propositadamente, sendo possível obter imagens interessantes, mas em lentes normais este efeito é indesejável. Pode, contudo, ser corrigido com o software que acompanha a câmara ou em programas de edição de imagem. Algumas câmaras incorporam este software de correcção: é o caso das Olympus, nas quais esta aberração nem sequer é vista no ecrã ou visor, a despeito de estar presente em lentes como a 17mm Pancake e mesmo com a nova 12mm/f2.0. Nas distâncias focais longas ocorre o fenómeno inverso, que é o da distorção centrípeta das linhas direitas – denominado, em inglês, pincushion distortion –, que pode igualmente ser corrigido na pós-produção.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Novidades da indústria fotográfica: o que os consumidores querem

Foto: Digital Photography Review (www.dpreview.com)
A Canon e a Nikon já não sabem que mais hão-de inventar para reanimar a sua gama de DSLRs: enquanto uma - Canon - consegue ser mais conservadora que qualquer dos candidatos a candidatos à presidência dos EUA do Partido Republicano, a outra decidiu entrar na guerra dos megapixéis.
A Canon lançou hoje, 2 de Março, a Canon EOS 5D Mark III. O seu sensor full frame tem 22 megapixéis, o que é substancialmente mais que os 18 MP da profissional 1D X. Há três semanas, a Nikon lançou a 800D, com a contagem a subir para 36 MP. Curiosamente, a Canon está a ser criticada, nos fóruns e comentários a artigos nos websites de fotografia, por ter aumentado apenas um ao número de megapixéis do sensor da 5D Mark II, enquanto muitos foristas e comentaristas criticam a Nikon por ter tantos megapixéis!
Em que ficamos? O número de megapixéis é importante, mas não se for excessivo. Pôr demasiados MP num sensor significa pixéis mais pequenos, o que diminui o desempenho com sensibilidades ISO elevadas e prejudica a resolução. Não é apenas o número de pixéis que conta na resolução do sensor: é, sobretudo a relação sinal-ruído, que se deteriora quando o número de pixéis aumenta sem que lhe corresponda um aumento da área do fotosensor. Recorrendo a um exemplo simplista: se metermos 50 bolas de ténis numa caixa de 1m quadrado, elas podem caber mais ou menos confortavelmente; se tentarmos meter 100, as bolas só caberão se forem comprimidas. Daí que os objectores do novo sensor da Nikon tenham razão por recear que o desempenho do novo sensor seja menos que óptimo, e que a Canon, embora querendo dar aos consumidores o que eles querem - mais megapixéis -, tenha sido tão cautelosa.
Já o ISO é outra guerra insensata, mas desta vez o duo conhecido pejorativamente por Canikon usa a mesma artilharia: a Canon 5D Mark III vai até aos 102 400. Eu escrevo por extenso, para o caso de pensarem que pus algum algarismo a mais: cento e dois mil e quatrocentos. Claro que, com uma sensibilidade destas, a imagem evoca furiosamente os pontilhados de Georges-Pierre Seurat, mas isto parece não importar muito para alguns potenciais consumidores.
Deixem-me dizer, antes de prosseguir, que qualquer destas câmaras trucida por completo a minha E-P1, reduzindo-a à condição de brinquedo. Comparar qualquer delas à minha seria tão absurdo como comparar um Mini a um BMW M5. Não é por despeito que escrevo assim, nem por inveja - defeito que, sinceramente, nunca tive. Também não sou pago para dizer mal de umas marcas e bem de outras, como já foi comentado aqui por alguém que devia estar num estado mental alterado. Dito isto, os novos lançamentos demonstram dois dos piores vícios da indústria fotográfica, ambos determinados pela ambição de satisfazer consumidores a quem previamente foi feita uma lavagem cerebral por um marketing muitas vezes enganador. As guerras dos megapixéis e do ISO não têm outro fim que não seja conquistar mercado. Ambas as marcas sabem, porque os seus técnicos são incrivelmente competentes, que os números apresentados são completamente fantasistas e inúteis em termos de resolução e qualidade de imagem, mas os consumidores estão predispostos a aceitar que 36 MP ou ISO 102 400 são proezas tecnológicas que vão transformar por completo a experiência de fotografar com estas câmaras. Se estes consumidores compararem os dois modelos com os precedentes (Nikon 700D e Canon 5D Mark II), vão provavelmente reparar que: a) a diferença de resolução da nova Nikon em relação à anterior é marginal, e que b) As fotografias feitas com a Canon usando valores superiores a 12 800 - o que já é um valor muitíssimo bom, diga-se - têm níveis de ruído intoleráveis. Estamos, portanto, diante de marketing enganoso, mas se há pessoas que se deixam influenciar por ele e substituem os corpos dos modelos precedentes por estes novos, que havemos de fazer?
A Canon, de resto, é também severamente fustigada pelos comentadores e foristas por - imaginem! - não ter um ecrã articulado, e por ter um microfone mono. Eu já não sei o que as pessoas querem de uma câmara, mas vou fazer um exercício de imaginação: a câmara ideal seria uma DSLR com sensor médio formato e resolução, digamos (numa estimativa por baixo) de 50 megapixéis; teria uma capacidade de disparo contínuo de 60 fotogramas por segundo, sensibilidade ISO máxima de 204 800, GPS, vídeo na mais alta especificação possível e em 3D, ecrã rotativo OLED touchscreen com 2 milhões ppi, gravação de som surround 7.1 e, eventualmente, uma saída para tostas mistas e torradas. E custaria €500,00 na FNAC, já equipada com uma lente 18-55mm/f3.5-5.6 (ninguém notaria a diferença...) 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Acordo ortográfico: arrepiando caminho


Libertem-me do acordo ortográfico, por favor! Ontem surgiu a notícia de que o governo estaria a ponderar a revogação do acordo ortográfico de 1990, o que seria a única iniciativa decente desde que tomou posse. O português a que o AO obriga é estranho demais: mesmo dando de barato que hoje não escrevemos como no século passado, estas alterações à ortografia parecem-me demasiado forçadas para corresponderem a uma evolução natural da língua portuguesa: ato, ata, perspetiva, perentório, atual, ação, efetivo, aspeto… não gosto. É demasiado estranho. Não conseguia escrever certas palavras conforme o AO, como «ótico», porque me pareciam absurdas. Sempre manifestei o meu estatuto de objector de consciência quando, essencialmente por motivos profissionais, o usei, mas agora acabou: não vou voltar a usá-lo. Esta decisão é como descalçar sapatos demasiado apertados: um alívio!
Outra aberração do acordo ortográfico é o facto de ter entrado em vigor sem que se tivesse verificado uma condição normativa essencial – a sua ratificação por todos os países signatários. Sendo assim, é ineficaz. Acresce que a sua aplicação prática é ditada por remissão para o referido acordo de 1990 - o tal que não foi ratificado por todos os signatários - e… pelo uso do conversor LINCE. Por amor de Deus – uma aplicação informática com valor normativo! É de loucos.
Outro aspecto curioso: o acordo ortográfico não veio unificar a ortografia do português: a norma que obriga à supressão das consoantes mudas significa que, em Portugal, escrevemos «perspetiva» e «aspeto», porque aqui não lemos os cc, mas os brasileiros vão continuar a escrever «perspectiva» e «aspecto» porque lá lêem os cc! É demasiado mal pensado, e não vai produzir o efeito esperado.
Por tudo isto, vou reverter para o português correcto. Se vier aí a PSP obrigar-me a escrever de acordo com o AO, eu... vou para tribunal e ganho! Seria um enorme alívio se o governo suspendesse a aplicação do acordo e se este fosse estudado de uma maneira mais racional. Não discuto a necessidade de unificar a ortografia, nem renego a evolução da língua – nós já não escrevemos «pharmacia», «portuguez» nem «inflacção» –, mas sempre manifestei reservas quanto a esta evolução forçada. E entendo que qualquer acordo deve ser feito com a aproximação das diversas ortografias à matriz do português, em lugar de alterar a matriz para corresponder aos seus desvios.