domingo, 11 de setembro de 2011

O melhor é começar de novo...

Conhecendo alguns dos leitores deste blogue, sei que esperam extrair daqui alguns ensinamentos de ordem prática. Muitos dos que começaram a fotografar na era digital - e eu, note-se bem, sou um destes - não têm algumas noções básicas de fotografia, uma vez que se habituaram a que a câmara faça tudo, bastando carregar no botão de disparo para obter fotografias de qualidade aceitável. Isto pode ser suficiente, dependendo do tipo de fotografia que se quer obter, mas fica muito longe do que se pode fazer quando se tem conhecimentos acerca do funcionamento da câmara e da forma como esta capta a imagem. Na verdade, diria que quem fotografa no modo automático apenas aproveita 10% do potencial da câmara.
A primeira noção a ter em conta, para compreender a fotografia, é que esta consiste em captar luz. Daqui depende uma longa série de parâmetros, como o ajuste da exposição, a velocidade do disparo, a abertura, a sensibilidade à luz do sensor ou o equilíbrio dos brancos. Apesar de, como já disse, ser possível obter boas fotografias deixando estas regulações ao critério da câmara, a verdade é que, quando o fazemos, não estamos a fotografar: estamos apenas a escolher um enquadramento. É a câmara, recorrendo às medições feitas pelo fotómetro, que está a fotografar, e não o fotógrafo. Isto pode ser perfeitamente aceitável para uns, mas não o é para outros. Decerto, captar um bom motivo é o mais importante em fotografia, mas isto, por si só, não garante que a imagem reproduza aquilo que queremos transmitir. Não é, deste modo, uma fotografia criativa. E a criatividade e expressão são o que separa a arte do mero documento e da reprodução textual de um tema.
É por estes motivos que apenas aqueles que pretendem dar expressão às imagens nutrem interesse pelo conhecimento das técnicas fotográficas. Contudo, quem sentir algum grau de satisfação pelas imagens que capta acaba, necessariamente, por querer ir mais longe e procurar expandir a sua criatividade.
Alguns poderão argumentar que o conhecimento técnico subtrai ao factor lúdico da fotografia, mas a minha experiência - que admito ser ainda demasiado curta - mostra-me que é exactamente o contrário: quanto melhor conhecemos as técnicas fotográficas, mais prazer retiramos da fotografia. É que a técnica permite expandir a criatividade, ao soltar as potencialidades do fotógrafo de modo a que este obtenha as fotografias que quer, e não as que a câmara lhe impõe. E o fotógrafo conhecedor das técnicas pode aplicá-las de modo a dar expressão às suas fotografias. E, como disse há pouco, a expressão é uma das fundações da arte.
É pois altura de me deixar de conversas técnicas e procurar fornecer sugestões simples para ajudar quem se quiser lançar na fotografia - tal como eu fiz há pouco mais de um ano atrás, embora sem ajuda. Eu sei que não sou um especialista, mas se puder inocular a alguém o vício da fotografia com o meu entusiasmo, tanto melhor...

sábado, 10 de setembro de 2011

Eu, a Olympus e as outras marcas

O texto anterior não significa que eu nutra alguma idolatria pela marca que tão longamente versei. Estamos perante uma companhia que fabrica os seus produtos em países onde o respeito pelos direitos da pessoa humana não existe, o que refreia consideravelmente o meu entusiasmo (*). Muito menos significa que seja pago para publicitá-la. E ainda menos que sinta alguma espécie de espírito de facção que me impeça de ver mérito noutras marcas. Pelo contrário: a minha primeira câmara foi uma Canon compacta. Se não fosse ter feito já um investimento substancial em lentes do formato Micro 4/3, e se sentisse a necessidade de ter uma câmara melhor, a única opção seria uma DSLR - e esta não seria uma Olympus.
A aquisição de uma DSLR mereceu-me sempre algumas reservas, à cabeça das quais está a estética. Não tenho dúvidas que, ao enunciar este aspecto em primeiro lugar, incorro na qualificação de frívolo, mas a verdade é que o aspecto estético sempre comandou, desde muito novo, a minha apreciação de uma câmara. Nos tempos idos da minha juventude, as câmaras eram bonitas; eram, na sua maioria, rangefinders, e o seu aspecto físico tornou-se a minha referência: câmaras relativamente pequenas, com uma parte do corpo de metal e a outra revestida de imitação de couro; nada de punhos inestéticos, linhas moles ou alojamentos protuberantes para o prisma, visor e flash. As únicas câmaras feias eram as de dimensões grotescas, como algumas Praktica e as câmaras russas. Ainda hoje as minhas referências são as Leica da série M, que são a expressão mais pura das rangefinders.
A outra reserva é a das dimensões das DSLR. A complexidade do seu manuseamento não me assusta, mas ter de trazer ao peito um conjunto de mais de um quilograma é uma ideia aterradora - quanto mais carregar um saco cheio de lentes fálicas e mastodônticas. Não estou interessado em ser um fotógrafo profissional, embora possa ver-me forçado a comprar uma DSLR se a minha evolução como fotógrafo assim o determinar.
Depois há o gosto pela originalidade, que eu cultivo dogmaticamente. Convenhamos que ter uma Canon ou uma Nikon não é nada original, pelo menos se compararmos com a minha E-P1. A proporção entre as reflex da Canon e Nikon e as E-P1 deve ser, pelo menos aqui em Portugal, de 1000 para 1. Mais uma vez corro o risco de ser tomado por frívolo, ou pelo menos por um esteta de gostos estranhos, mas entendo que a originalidade é importante. Vivemos numa civilização demasiado massificada e homogénea, e esta é a minha reacção à banalidade. Tal como ouvir música alternativa, clássica e jazz, comprar discos de vinil ou preferir processadores AMD.
Por fim - mas não o menos importante - há o factor económico e a relação entre custo e qualidade. As DSLR de acesso, como a Canon 1100D ou a Nikon D3100, não têm uma qualidade de imagem superior à da minha Pen E-P1. Podem ser melhores em determinados aspectos, mas a qualidade dos JPEGs saídos da câmara não é melhor que a das imagens da E-P1 - especialmente se usar uma lente como a G.Zuiko de 28mm, que captura as cores mais extraordinárias. Para ter uma DSLR que me desse mais do que aquilo que tenho neste momento, teria precisado de gastar muito dinheiro - e este, como sabemos, não cresce nas árvores. Ademais, li há meses um artigo que me deixou preocupado, no qual o autor afirmava que os corpos actuais são concebidos para durar não mais que quatro ou cinco anos. Neste aspecto a E-P1, com o seu corpo totalmente construído com metal, parece-me uma escolha superior a uma DSLR de plástico que terei de deitar fora dentro de alguns anos. (E eu nunca revelei publicamente a pechincha que a minha E-P1 foi...)
Como referi, se tivesse um interesse ainda mais sério pela fotografia (que não estou livre de vir a desenvolver), encararia a aquisição de uma DSLR como a única possibilidade; e não seria uma Olympus, uma vez que as suas reflex têm limitações consideráveis por virtude da opção pelos sensores 4/3, que diminuem a relação sinal/ruído, causando níveis de ruído na imagem que as colocam fora dos padrões de qualidade obtidos pelas câmaras de outras marcas. E o ruído é uma das minhas bêtes noires em fotografia, logo atrás da distorção de barril e à frente das aberrações cromáticas. Se eu fosse profissional, ou pelo menos fizesse trabalhos ocasionais de fotografia, a minha escolha não seria uma Olympus: seria uma Canon. Se tivesse de contar os cêntimos, seria uma 600D; se pudesse ir um pouco mais longe, a minha opção seria a 60D. É enorme, feia, e tem aquele LCD no topo cuja complexidade intimida mesmo quando a câmara está desligada - mas, a avaliar pelos testes da Digital Photography Review, é uma câmara que torna difícil de justificar a opção por outra de gama e preços superiores. Claro que toda a gente tem uma Canon (e quem não tem uma Canon tem uma Nikon...), mas a qualidade das cores, a nitidez, a neutralidade tonal, os níveis de resolução e a qualidade das imagens com sensibilidades ISO elevadas fazem com que esta seja a câmara que eu compraria, se tivesse o dinheiro necessário e a necessidade real de ter uma reflex. Poderia considerar outras opções: tenho a certeza que o modelo equivalente da Nikon, a D7000, é uma belíssima câmara, mas a qualidade de imagem da Canon está mais próxima dos meus padrões; a Pentax tem câmaras belíssimas (a K-x esteve na minha lista de possíveis aquisições) e, pelo que sei, as suas lentes são de enorme qualidade - incluindo as da era da focagem manual -, mas o futuro da Pentax, agora que foi adquirida pela Ricoh, é demasiado incerto, não sendo improvável que esta marca tenha por futuro descansar no céu das máquinas fotográficas, fazendo companhia à Minolta. Em todo o caso, preferia uma K-5 a uma Olympus E-5.
As reflex têm, desde logo, uma vantagem tremenda sobre as compactas de lentes amoviveis: o visor óptico. Não é apenas pela clareza da imagem, nem pela enorme vantagem de ver exactamente o mesmo enquadramento que a lente capta: é também por permitir segurar a câmara de uma forma muito mais estável. Depois há a ergonomia, que também ajuda a focagem e a resolução das imagens, ao garantir uma posição de disparo muito mais firme. E há, evidentemente, os aspectos relacionados com a qualidade intrínseca da imagem, desde logo os níveis diminutos de ruído. E a velocidade: se me dedicasse, ainda que ocasionalmente, à fotografia de desportos ou de animais no seu habitat natural (o meu gato, o Sousa, não conta...), as compactas de lentes amovíveis estariam excluídas. Porém, no meu patamar de conhecimentos fotográficos, e atendendo às minhas necessidades, a E-P1 serve perfeitamente - por agora.
E é uma Olympus...
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(*) Este texto foi escrito antes do Olympusgate...   

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Eu e a Olympus

Não vou mentir: a Olympus não é uma marca com que tenha grande familiaridade. Ao contrário da Minolta, por exemplo, já  que um dos meus tios foi vendedor da representante da Minolta para Portugal, que importava também material da FujiFilm. O meu pai tinha uma Minolta 7S, que estou a pensar restaurar, pelo que as minhas recordações de fotografia não passam pela Olympus. O meu primeiro contacto com esta marca aconteceu em 1978 ou 1979, quando a Olympus patrocinou a Lotus na Fórmula 1 (o que me levou a uma impressão favorável, já que era, nessa altura, um taradinho pela F1...). A marca que está mais perto do meu coração é a Minolta, que já não existe: foi adquirida pela Sony, cujas câmaras nada me dizem. Como, aliás, qualquer dos seus produtos.
Não posso, deste modo, sentir nostalgia por tempos que passaram sem que me desse conta, nem inventar um passado que não vivi. A Minolta já não existe, e o meu conhecimento dos produtos da Olympus, antigos ou novos, vem do ano passado, altura em que me procurei informar sobre a câmara que ia comprar. Foi um mundo novo e inexplorado que encontrei. Não posso dizer que tenha ficado maravilhado com as descobertas, mas a verdade é que sinto orgulho em ter uma Olympus - o que não sucederia se tivesse uma Reflex da Canon ou da Nikon. Com efeito, a Olympus tem câmaras e lentes absolutamente notáveis. Das primeiras, a que mais me impressiona - a câmara que compraria se me dedicasse à fotografia analógica - é a Olympus OM-1. Em termos estéticos, porém, não tenho dúvidas: após a OM-1, a câmara da Olympus com a melhor estética é a Pen E-P1. A minha câmara. Sim, eu tenho uma das câmaras mais bonitas da história da fotografia. Fiz questão de trabalhar e poupar arduamente para adquiri-la. Nestes tempos de compactas, DSLRs e compactas com forma de DSLRs, a E-P1 sobressai. Bastou-me saber que era uma boa câmara, com funções tão avançadas quanto as DSLRs, para a querer de imediato.
O que me agrada, na Olympus, é o seu carácter, digamos, afectivo: é uma marca que cria vínculos fortes com quem teve as suas lentes e câmaras. Conheço algumas pessoas que se referem às suas velhas Olympus com genuína veneração; falam-me das suas OM e das Trip 35 com um sorriso enorme e olhos refulgentes de orgulho, o que não acontece com outras marcas. Neste aspecto lembra-me a Citroën dos anos 60 e 70, a propósito da qual os franceses diziam: On n'achéte pas une Citroën, on l'épouse. Quanto às lentes Zuiko, elas são referenciadas, pelos entendidos, entre as melhores do mundo - em especial as da série OM, das quais sou o vaidoso proprietário de um exemplar.
Hoje a Olympus está a pagar o preço de tentar seguir o seu próprio caminho. Cometeu, pelo menos, dois erros crassos: tardou demasiado a aderir à focagem automática (talvez por não querer abandonar a produção das lentes OM), o que a fez ser superada por praticamente todas as concorrentes, e, mais recentemente, construiu duas gamas de câmaras com base numa tecnologia cujas vantagens não chegam para superar os problemas técnicos que, neste tempo em que as aquisições são determinadas pelo marketing, a deixaram a marcar passo. Lançaram o formato 4/3, apesar de o sensor em torno do qual as câmaras e as lentes deste sistema são produzidas ter um handicap evidente quanto à sensibilidade ISO, o que prejudica a qualidade da imagem em fotografia nocturna e de motivos em movimento rápido. Basta, a qualquer das outras marcas, invocar a existência de um sensor enorme no interior das suas câmaras para que os consumidores virem as costas às E-5, E-30 ou E-620. Por outro lado, a incerteza quanto à continuidade da sua linha de câmaras DSLR está a deixar nervosos todos aqueles que construíram um sistema fotográfico em torno das lentes para 4/3, e são muitos os que põem de lado a lealdade para seguir o caminho Canon/Nikon. Até a Sony e a Samsung se estão a aproveitar da miopia dos administradores da Olympus.
Com o Micro 4/3 a história não difere muito. Apesar de compreender o que a Olympus está a fazer - câmaras pequenas com uma qualidade de imagem superior são uma dádiva para quem quer fazer fotografias de qualidade sem o volume e o peso de uma DSLR -, o mercado entende as câmaras deste formato como simples compactas com o gadget das lentes intermutáveis, o que a Panasonic parece estar a aproveitar melhor do que a Olympus. Este ano foram lançadas três câmaras idênticas em especificações e com pouca variação no tamanho: a E-P3, a Pen Lite e a Pen Mini. As duas últimas são produtos que concorrem entre si, sem que se veja muito bem por que alguém há-de comprar um modelo em detrimento de outro. Mais um erro. E a aventura Micro 4/3 pode tornar-se desastrosa para a Olympus, que aceitou ficar com as sobras dos sensores da Panasonic para as suas câmaras em troca da cedência do seu imenso know-how.
Tudo isto leva os analistas a questionar o futuro da Olympus. Há rumores - embora não muito consistentes - de que a Panasonic pode adquirir a Olympus. Se isto acontecer, é possível que a Panasonic faça o que a Sony fez à Minolta. O que seria um fim lamentável: uma companhia especialista em óptica com quase cem anos comprada por uma marca de aspiradores! 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Fotografar na rua (continuação)

Uma vez conhecidos os requisitos técnicos, é altura de dar a conhecer os pontos de vista de um neófito (embora familiarizado com a obra dos melhores fotógrafos) quanto ao objecto da fotografia de rua. Há duas linhas de força essenciais nesta fotografia: o interesse intrínseco das imagens e a espontaneidade dos motivos.
A fotografia de rua é sinónimo de pessoas. Quer estas sejam o motivo directo, quer sejam figurantes na imagem da rua, a fotografia de rua caracteriza-se pela presença de pessoas. O que lhe garante, desde logo, algum interesse: as fotografias de pessoas, ou a sua presença na imagem, tendem a atrair mais o olhar de quem vê fotografia do que simples paisagens ou monumentos. Importa que se captem pessoas de modo original, quer pelas suas expressões, quer por gestos, pela peculiaridade da indumentária ou qualquer motivo que as faça sobressair. Mesmo uma fotografia de um motivo aparentemente banal, como duas pessoas a caminhar, pode resultar bem se houver um determinado enquadramento, ou outras circunstâncias que tornem a fotografia mais interessante. Por vezes não são as pessoas em si que conferem interesse à imagem, mas outros objectos, ou determinados ângulos e enquadramentos. Tudo depende da percepção do fotógrafo e da sua capacidade de traduzir o que viu numa imagem. Por vezes o uso de motivos implícitos produz resultados espantosos na fotografia de rua: a simples sugestão da presença de uma pessoa (por ex. uma sombra, ou umas pernas) confere um interesse acrescido à fotografia, sugerindo mais do que aquilo que se vê.
 A outra característica essencial da fotografia de rua é a espontaneidade. A fotografia de rua tem o objectivo de capturar instantes mais ou menos significativos (i. e. importantes) da vida das grandes cidades tal como eles acontecem e os vemos. é muito importante que as pessoas não se apercebam da presença do fotógrafo; não por voyeurismo, nem por agir como um paparazzo, mas para que as cenas não percam a espontaneidade. O fotógrafo deve permitir que a cena que quer captar se desenrole com normalidade; quando os intervenientes da cena se apercebem da presença de uma câmara, podem reagir mal ou, quando não se importam com o facto de serem fotografados, modificar o seu comportamento por pensarem que isso beneficia a fotografia. Nestas circunstâncias, o fotografado vai tender a posar para o fotógrafo a partir do momento em que vê a câmara. Quando isto acontece, existe o risco de a fotografia perder imediatamente a espontaneidade e, como tal, o interesse artístico. Há, naturalmente, excepções - penso que a fotografia ao lado é uma delas, porque há, apesar do olhar dirigido para a câmara, uma dose elevada de espontaneidade -, mas a regra é a fotografia de rua transformar-se em fotografia de retrato quando o sujeito posa deliberadamente para a câmara.
Uma última palavra quanto ao local mais apropriado para a fotografia de rua. Esta deve ser tomada em locais públicos, de maneira a não colidir com o direito à imagem das pessoas fotografadas (cf. o texto sobre aspectos legais da fotografia). Estes lugares devem ter gente neles, obviamente, ficando ao critério do fotógrafo decidir se quer fotografar em ruas muito povoadas - o que multiplicará as suas possibilidades de obter fotografias interessantes - ou pouco povoadas. Podem obter-se fotografias extremamente interessantes apenas com uma pessoa, mas a multiplicidade significa que existem centenas de pequenas histórias com valor fotográfico a acontecer debaixo dos nossos olhos.

Fotografar na rua

A maior parte das opiniões que encontro sobre fotografia de rua diverge consideravelmente daquilo que a experiência me ensinou, especialmente quanto ao material a utilizar e às configurações da câmara. A fotografia de rua é uma modalidade extremamente exigente: requer um nível elevadíssimo de concentração e atenção e, acima de tudo, muita perspicácia e rapidez. Neste tipo de fotografia, câmara e fotógrafo têm de ser um só, com a primeira sempre pronta a disparar. Os instantes que vale a pena capturar são, por regra, extremamente fugidios e o fotógrafo tem de estar sempre preparado para captar súbitas mudanças de expressão e de posição e movimentos repentinos; na rua, o que nos surge como uma boa composição num segundo pode desaparecer no seguinte. Este é um tipo de fotografia que não se presta a alterações na configuração da câmara, muito menos a mudanças de lentes.
Quais são, então, os requisitos técnicos da fotografia de rua - dando por garantido que o fotógrafo tem a perspicácia e atenção necessárias para captar as pequenas histórias que se passam a cada segundo numa rua povoada?
Em primeiro lugar, coloca-se o problema da escolha da lente. O tipo de lente indicado é uma prime grande-angular. Não há grandes divergências quanto a isto. A dissensão acontece quando se aborda a distância focal mais indicada. Muitos, porventura demasiado apegados à tradição dos grandes mestres da fotografia de rua, entendem que o ideal é 35mm - ou equivalente -, tal como as lentes das Leicas de Cartier-Bresson ou Winogrand. As minhas experiências de fotografia de rua não me permitem subscrever esta opinião. Tenho uma lente de 17mm que, no formato Micro Quatro Terços, equivale a 34mm numa câmara de filme ou full frame. Com esta lente, tenho de me aproximar excessivamente do objecto a fotografar, caso contrário este surge minúsculo na imagem. E recortar a imagem na pós-produção pode não ser o mais indicado, uma vez que se reduz a resolução. O ideal é uma lente à volta dos 50mm - 25mm nos sistemas Micro Quatro Terços e algures entre os 30/40mm nas DSLR. Aproximarmo-nos demais de uma pessoa que queremos fotografar pode ser incómodo, e o fotógrafo de rua deve ter consciência de que há uma linha que separa a liberdade de fotografar em espaços públicos e a privacidade do fotografado, pelo que o ideal é usar uma lente com uma distância focal que dê alguma ampliação à imagem, de modo a podermos guardar alguma distância (embora se possa argumentar que a distância traz a sensação de se ser um voyeur). Essa lente deve, como disse, ser de distância focal fixa - uma prime. Porquê? Por um só motivo: enquanto rodamos o anel de zoom, podemos estar a perder uma oportunidade de fotografia irrepetível. E as prime são mais rápidas que as teleobjectivas.
Quanto à câmara, ela deve ser discreta e focar rapidamente. A fotografia digital foi uma bênção para os fotógrafos de rua ao trazer a focagem automática. Está completamente excluída a focagem manual, a menos que se tenha uma perícia tremenda na regulação do anel de focagem. A discrição, por seu turno, é importante: muitas pessoas não gostam de ser fotografadas, e ter uma DSLR apontada a elas provoca algum desconforto. Somos fotógrafos amadores, e não paparazzi! Câmaras como as Pen, as Leica M8/9 ou a Fuji X100 são preferíveis para fotografar na rua. São menos intimidantes para os transeuntes.
As configurações da câmara podem ser resumidas a uma simples letra: P. Apesar da minha preferência pelo modo de exposição manual, quando vou para a rua uso sempre o modo P. Não há tempo para fazer escolhas quanto à abertura ou a velocidade do disparo. Deve ser tudo automático, apenas deixando a compensação de exposição ao alcance do polegar e seleccionando uma sensibilidade ISO baixa. O equilíbrio dos brancos deve ser deixado ao critério da câmara, salvo em condições anómalas como um céu muito nublado ou abundância de sombras. A câmara deve ser configurada para entrar em stand by no tempo mais longo possível, já que o motivo que queríamos fotografar pode desaparecer enquanto a despertamos do letargo (já me aconteceu inúmeras vezes...) Deve também ter-se algum cuidado com a escolha do cartão de memória: este deve ser rápido a gravar as imagens, com um bom coeficiente de refrescamento - o tempo que decorre entre dois disparos deve ser o mais curto possível, pois pode aparecer-nos uma cena interessante imediatamente após a última fotografia tirada. E rapidez é tudo na fotografia de rua.
A fotografia digital criou condições excelentes para um género de fotografia que remonta à época pré-SLR e que caiu um pouco em desuso. Com ela podemos fotografar com muito maior rapidez e com a segurança de que, se uma fotografia de uma cena não nos saiu assim tão bem, podemos sempre tirar outra. E podemos tirar centenas de fotografias sem a maçada de trocar rolos.

domingo, 4 de setembro de 2011

As minhas outras lentes

Hoje resolvi fazer um teste para verificar, na prática, se a minha intuição estava correcta quando comprei a lente de 28mm. Já referi que tinha um intervalo entre a distância focal de 17mm da Pancake e os 40mm da lente zoom, pelo que precisava de algo que se colocasse no meio desse hiato. Como 40-17=23, a distância focal seria 17+(23:2)=x, ou 40-(23:2)=x. O resultado é de 28,5, pelo que a G.Zuiko encaixa, na teoria, no meio das duas outras lentes. Corresponderia isto, na prática, a um tamanho da imagem que se situasse no meio de ambas?
Com a M.Zuiko 17mm
Com a G.Zuiko 28mm
Com a M.Zuiko 40-150mm (na distância focal mínima)
Estas fotos do local de onde escrevo estas linhas, tiradas sem preocupações estéticas, com um tripé e todas à mesma distância, com aberturas e velocidades de disparo equivalentes, mostram que os meus cálculos estavam correctos. E mostram também que, apesar de ser mais entusiasmante e divertido fotografar com uma lente de focagem manual, as lentes da era digital não são exactamente inferiores (aliás, pelas fotos não se consegue aferir da diferença de concepção entre as lentes). Depois de tanto ter escrito sobre a 28mm, é tempo de fazer justiça às outras lentes.
A Pancake é uma maravilha. O facto de ser minúscula significa que é também leve, o que permite suprimir um dos grandes defeitos do corpo que uso actualmente - a sua falta de ergonomia. Em termos fotográficos, é uma lente rápida, cuja luminosidade - a abertura máxima é f2.8 - permite usá-la em condições de luz escassa com velocidades de disparo relativamente altas. A focagem automática, com esta lente, é muito rápida, sendo notório que o obstáculo a uma maior rapidez é a câmara, e não a lente. A nitidez mantém-se consistente ao longo da imagem, embora, como todas as grande-angulares, seja notório um ligeiro escurecimento dos cantos da fotografia - o que até pode ser aproveitado como efeito estético. A sensibilidade à luz significa que devem ser tomados alguns cuidados quando se fotografa a contra-luz, e existem algumas aberrações cromáticas, vistas sob a forma de franjas violeta e vermelhas nos objectos - mas também é verdade que estas aberrações apenas estorvam em grandes ampliações.
Por ser uma grande-angular, esta lente cria uma diagonalização muito acentuada das linhas verticais, o que confere à imagem uma extraordinária impressão de profundidade que, juntamente com a consistência da focagem, a torna ideal para fotografar paisagens e confere tensão dinâmica às fotografias de objectos estáticos como edifícios.
A 40-150 é outro tipo de animal. Com ela temos a impressão de ter uma lente a sério entre as mãos, o que pode ser intimidante para um caloiro como eu: é como se sentássemos um piloto da Fórmula Renault 2.0 ao volante de um Fórmula 1 (a menos que esse piloto se chamasse Kimi Räikkönen...). Antes de mais, convém dizer que esta lente, apesar do tamanho avantajado, que confere ao conjunto lente-corpo um ar de proboscídeo (embora resulte mais bem proporcionado que as grotescas Sony NEX), é muito mais pequena do que seria uma lente de distância focal equivalente concebida para sensores baseados no formato 35mm. As lentes para o formato micro 4/3 são especificamente concebidas e optimizadas para funcionar com um sensor 4/3, que é menor em área que os sensores APS-C, APS-H e full-frame, pelo que é uma lente pequena comparada com a concorrência, mas ainda assim bastante grande. Se me refiro ao tamanho é porque este tem implicações importantes no manuseamento: é uma lente que se torna difícil de estabilizar sem recurso a um tripé, uma vez que é fácil obter imagens desfocadas pelo tremor das mãos do fotógrafo. O facto de compor a imagem através do ecrã, e não de um visor, também não ajuda.
O outro problema da 40-150 é ser lenta. A abertura mínima é de f4.0 a 40mm e f5.6 a 150mm, o que significa que, para ter uma luminosidade equivalente à da Pancake, tenho de reduzir a velocidade do disparo - o que traz de novo o problema da dificuldade de focar correctamente, uma vez que velocidades de disparo diminutas aumentam o tempo de exposição e, consequentemente, o risco de imagens tremidas.
A 40-150 é uma teleobjectiva que, como todos os membros desta família, apresenta as características de compressão da perspectiva nos planos da largura e da profundidade, profundidade de campo reduzida e impossibilidade de obter focagens consistentes em toda a fotografia (o que é uma consequência da escassa profundidade de campo e do valor elevado da abertura). É, por estes motivos, uma lente muito mais especializada que as primes, já que serve, antes de mais, para obter planos ampliados de motivos distantes.
À parte estes problemas, a 40-150 é espectacular. Quando usada correctamente e dentro das suas especificidades, é capaz de uma resolução extraordinária, com cores muito saturadas e vivas (embora não tanto como as da 28mm) e tem um alcance fenomenal. Afinal de contas, tem uma distância focal máxima equivalente a 300mm, o que não é coisa pouca! Além disso, dada a sua profundidade de campo reduzida, é muito fácil obter um bom bokeh com ela. Embora não me dedique a esse tipo de fotografia, deve ser uma lente excepcional para retratos. E, apesar das dificuldades ergonómicas, é uma lente com um funcionamento mecânico irrepreensível: os anéis de zoom e de focagem respondem bem e são extremamente precisos.
Neste momento tenho todas as necessidades preenchidas no que respeita a distâncias focais. Só se me dedicar à fotografia ornitológica é que poderei sentir vontade de adquirir uma superzoom, mas duvido que isso venha a acontecer - a despeito da riqueza da fauna avícola do estuário do Douro...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Aspectos técnicos da focagem (continuação)

A profundidade de campo é a distância até à qual o objecto se mantém nítido, que vai desde algumas dezenas de centímetros até ao infinito. Depende da abertura e do plano focal, i. e. da distância da lente em relação ao objecto. A profundidade de campo pode variar conforme a intenção do fotógrafo, o que a torna num instrumento criativo utilizado com enorme frequência.
De uma maneira geral, a profundidade de campo pode ser longa ou curta. A profundidade longa é obtida seleccionando aberturas pequenas (a que correspondem números f elevados) e um plano focal distante do objecto. Esta configuração é a adequada para que a imagem se mantenha nítida desde o plano mais próximo ao mais distante, como acontece na fotografia de paisagem, na qual se requer que toda a imagem surja nítida, i. e. focada.
Inversamente, pode ser intenção do fotógrafo conseguir um primeiro plano completamente nítido e um fundo desfocado. Este efeito é desejável em retratos e fotografia da natureza, nos quais é importante concentrar o olhar de quem vê a imagem na figura retratada, usando a desfocagem para diluir o fundo de modo a que este não compita com o objecto para atrair a atenção de quem vê. Neste caso usa-se um valor f reduzido e uma distância curta entre o objecto e a lente. Esta forma de fotografar tem particular interesse no modo macro, em que se pretende ampliar um pormenor e impedir que outros elementos da imagem desviem a atenção.
No fundo, quando rodamos o anel de focagem (ou quando a câmara acciona o motor da lente depois de escolhermos o ponto de focagem), estamos a seleccionar a profundidade de campo: estamos a escolher um plano em que a nitidez incida sobre o objecto que pretendemos. Contudo, há que ter sempre presente que a focagem depende também da abertura, e que ambos funcionam numa relação de interdependência para obter a focagem desejada.
As lentes com zoom introduzem um novo elemento na focagem: a distância focal variável. Contudo, os princípios referidos também são válidos com estas lentes, cuja diferença em relação às prime consiste na possibilidade de alterar o plano focal sem que o fotógrafo e a câmara se desloquem. Também há que ter em atenção, quanto às teleobjectivas, que a focagem pode tornar-se problemática pela dificuldade em segurar com firmeza uma câmara equipada com uma destas lentes, dado o seu peso e tamanho - mesmo quando se usa a focagem automática -, e que estas lentes têm, em regra, aberturas mínimas mais elevadas que as de distância focal fixa. Além do mais, as teleobjectivas tendem a ter profundidades de campo diminutas, obrigando, quando se pretende focar motivos longínquos, ao uso de aberturas estreitas que terão de ser compensadas com velocidades de disparo lentas. E obter uma focagem precisa torna-se extremamente difícil nestas condições, uma vez que as velocidades de disparo menores aumentam o risco de se obter imagens tremidas.
Há outras possibilidades de focagem para além das duas referidas inicialmente: com o recurso a uma teleobjectiva, podemos obter uma focagem selectiva em que um objecto a meio da distância entre o plano focal e o infinito surja nítido, e os planos mais próximo e mais distante surjam desfocados. Tal como podemos, se aproximarmos a lente do objecto com uma abertura estreita, obter o efeito inverso do primeiro - um primeiro plano desfocado e um segundo plano nítido. Tudo depende da nossa imaginação - mas também da compreensão dos valores de que a focagem depende. Accionar um modo denominado «Macro» na câmara pode ser prático, mas não chega perto do que se pode obter quando se joga conscientemente com os valores da abertura e com a profundidade de campo, nem substitui o conhecimento, mesmo que elementar, das técnicas fotográficas.