sábado, 29 de outubro de 2011

Palácio de Cristal

Esta manhã diverti-me a fotografar nos jardins do Palácio de Cristal. Procurei temas que não fossem aqueles que toda a gente fotografa, treinando o olhar para o pormenor e o que fica despercebido, mas por vezes não há maneira de fugir a temas comuns: entretive-me a fotografar pavões, já que alguns deles aquiesceram em posar para mim. 
Infelizmente, não consegui persuadir nenhum deles a abrir o espantoso leque de penas: vou ter de estudar estes animais para descobrir quando é a época do namoro...
Depois andei pela Casa Tait e pela Rua de Entre Quintas. Há algo que me choca neste património histórico: o seu abandono. Não compreendo por que motivo estes espaços estão tão desleixados: eles são vestígios de uma das épocas de apogeu da minha cidade, testemunhos de uma prosperidade que já não existe. Em lugar de serem vigiados e conservados, têm as paredes cobertas de graffiti (posto que alguns sejam bem interessantes). Trocava de bom grado o WTCC por obras de conservação do património histórico da minha cidade. Mesmo na zona considerada património mundial, a ruína e o desmazelo são evidentes, com as casas abandonadas e o lixo que se acumula nas ruas. Os jardins da cidade, esses, parecem ter sido deixados à mercê da falta evidente de brio profissional dos funcionários camarários, que recebem o mesmo (pouco) se trabalharem ou não fizerem nada. É raro o jardim ou parque que tenha flores em bom estado.
Uma cidade que elege autarcas como estes patetas que ocupam a Câmara Municipal talvez não mereça mais, mas os que amam a cidade não conseguem deixar de se sentir revoltados. Valha-nos a beleza que ainda vai sobrevivendo aqui e ali.
Mais fotos da sessão de hoje no meu Flickr

domingo, 23 de outubro de 2011

Preto e branco

Sou um incondicional da fotografia a preto e branco. Sempre que faço fotografia de rua, faço-o a preto e branco - e, mesmo quando não fotografo na rua, há sempre motivos que resultam melhor a preto e branco que a cores.
Com efeito, o preto e branco tem atributos que, em determinadas circunstâncias, servem melhor a fotografia artística que a cor. Desde logo, porque quando se fotografa a cores, estas tornam-se no elemento visual preponderante da imagem; ora, quando o elemento cor é eliminado, a atenção crítica concentra-se nas formas, texturas, tonalidades e contrastes. O preto e branco tem o potencial de gerar fotografias que apelam mais ao intelecto que aos sentidos, favorecendo uma fotografia mais conceitual - ao passo que a fotografia a cores se dirige a uma percepção mais imediata.
Há, contudo, um pressuposto que me parece essencial referir: hoje é muito fácil fotografar a cores e converter a imagem em preto e branco na pós-produção. Há até quem faça esta conversão por não ter ficado satisfeito com a cor da imagem. Isto é um erro. A fotografia deve ser pensada a preto e branco antes de se premir o botão de disparo. Nem todas as fotografias têm condições para resultar bem a preto e branco: a título de exemplo, as fotografias de paisagens, bem como as de motivos da natureza, nas quais a cor é um elemento essencial, raramente são interessantes quando tiradas (ou convertidas) em preto e branco. A fotografia a preto e branco exige contrastes acentuados, texturas nítidas e linhas fortes.
Uma vez que a fotografia deve ser pensada a preto e branco desde o início, penso que o ideal é seleccionar o modo preto e branco na própria câmara antes de fotografar - o que implica, naturalmente, planear a sessão fotográfica para que se use apenas o preto e branco. Isto é preferível à conversão na pós-produção, uma vez que predispõe e prepara o cérebro para fotografar motivos que resultam melhor em preto e branco (claro que há sempre a opção de reverter para a configuração a cores se surgir um motivo em que a cor seja um elemento fundamental).
O fotógrafo deve resistir à tentação de rejeitar o preto e branco por ser um modo de fotografia anacrónico. Esta ideia é falsa. A fotografia a preto e branco é tão válida hoje como antes do advento do Kodachrome, e é usada por milhares de fotógrafos. Acima de tudo, o preto e branco ajuda a conferir mais expressão à fotografia, ao revelar aspectos da imagem que a cor dissimula e favorecendo linhas que, na fotografia a cores, se tornariam secundárias. Está para a fotografia como o desenho a carvão para as artes plásticas: revela a forma, as sombras e os contrastes de uma forma que é impossível reproduzir quando se usa a cor.

sábado, 22 de outubro de 2011

Que se passa com a Olympus? (nova actualização e uma adenda a despropósito...)


Começo a sentir-me embaraçado por ter uma Olympus. E não é só a câmara: é o adaptador, são as lentes... até as tampas das lentes transportam a marca da vergonha, lembrando-me em permanência a asneira de ter dado dinheiro a ganhar àqueles yakuzas
Mas a verdade é que as fotos que este material produz são tão boas que o Olympusgate fica facilmente esquecido diante da beleza das imagens que capto. Hoje estive nos jardins da Bonjóia, exercitando a profundidade de campo com a OM 50mm/f1.4. Os resultados obtidos com esta lente chegam a ser maravilhosos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Que se passa com a Olympus? (actualização)

A desvalorização das acções da Olympus Corp. já vai em 40%. Desde Sexta-feira, data do despedimento de Michael C. Woodford, que o valor não pára de cair. Não sei o que pode acontecer se isto continuar; o mais provável é que as acções vão parar às mãos de especuladores sem escrúpulos e que a Olympus acabe nas mãos de um grupo económico que não nutra qualquer respeito pela história da marca. O capitalismo é isto mesmo: a única coisa sagrada é o dinheiro. 
Não é apenas pela probabilidade forte de desaparecer uma das marcas de material fotográfico mais estimadas em todo o mundo que a notícia tem corrido desta maneira, a ponto de encher páginas no Financial Times e no Bloomberg. De acordo com os analistas, este escândalo está a abalar a credibilidade das corporações japonesas, que já tinham a reputação de opacas e fechadas. Mais ainda, é a própria reputação do Japão que sai prejudicada.
Eu não sei quem tem razão. Continuo a não saber, e provavelmente só daqui a muitos anos se saberá a verdade sobre o que está a acontecer. O que é seguro, no momento em que escrevo, é o seguinte (*):
a) A Olympus Corp. pagou 36% do valor do negócio a duas empresas de consultoria - uma delas com sede nas Ilhas Caimão, que desapareceu logo de seguida - antes da aquisição da Gyrus;
b) A Olympus Corp. adquiriu três pequenas empresas - uma delas fabrica recipientes do género dos Tupperware! - por 773.000.000 USD, que sofreram uma desvalorização (impairment charge) de 586.000.000 USD logo após o último pagamento. Estas empresas são inúteis para as actividades da Olympus;
c) Três dias antes de ser despedido, Michael C. Woodford escrevera uma carta ao actual presidente executivo, Tsuyoshi Kikukawa, na qual expunha estes negócios e exigia a destituição de Kikukawa e de um vice-presidente do conselho de administração de apelido Mori;
d) Kikukawa-san mentiu quanto aos honorários pagos às consultoras aquando do negócio da Gyrus, tendo admitido o pagamento de apenas cerca de metade do valor realmente pago.
Certamente mais factos vão ser descobertos, especialmente se o Serious Fraud Office descobrir movimentações ilícitas de dinheiro. Para mim tudo isto é um choque: não que imaginasse que os executivos da Olympus fossem amantes da fotografia que se dedicassem ao negócio para dar a possibilidade aos fotógrafos de adquirir excelente material, mas por mais esta prova da enorme desonestidade e corrupção que existe nos meios financeiros - sejam eles norte-americanos, portugueses ou japoneses. O mundo atingiu um grau de amoralidade tal na prossecução do lucro que já não subsiste qualquer espécie de ética ou escrúpulo na mente de certos administradores.
Outro pensamento chocante é a possibilidade de a Olympus, uma das marcas de equipamento fotográfico com maior factor de estima junto dos seus consumidores, poder estar a despoletar uma crise financeira de consequências imprevisíveis. Não é bem aquele lugar-comum do bater de asas da borboleta na China - é mais o disparo de um obturador no Japão que pode provocar uma catástrofe financeira no mundo todo. Como se o mundo precisasse de mais uma crise financeira!
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(*) Fonte: Financial Times

A distância focal equivalente

Todas as lentes, sem excepção, têm uma distância focal, que é a distância que os raios de luz que entram na lente percorrem até a imagem focar. Fala-se em lentes de 35mm, 50mm, 18-55, 14-150, mas estes valores podem não traduzir a distância focal real quando a lente é montada numa câmara.
Com efeito, todos os fabricantes de lentes indicam a distância focal com base no padrão mais comum na era analógica: a do fotograma de 35mm, correspondente a uma área de 36 × 24 mm. É esta a referência utilizada para medir a distância focal das lentes.
Simplesmente, os sensores das câmaras digitais são, por regra, mais pequenos que o fotograma de 35mm. Como se pode ver no diagrama acima, existem diversos sensores cuja área é consideravelmente menor que a do filme de 35mm (a castanho). Isto significa que a distância focal de uma dada lente varia conforme o sensor da câmara na qual é montada. A esta variação chama-se distância focal equivalente, também denominada EFL (equivalent focal length) ou crop factor. Como importa conhecer qual é a distância focal real da lente, utiliza-se uma fórmula matemática na qual se multiplica a distância focal por um determinado factor. Apenas para referir as mais comuns, direi que, num sensor APS-C - de longe o mais utilizado nas câmaras DSLR (a vermelho no diagrama) - esse factor é de 1,5 (Nikon, Pentax, Sony) ou 1,58 (Canon). Pelo que, se montarmos uma lente com uma distância focal nominal de 50mm numa DSLR da Canon com sensor APS-C, a distância focal equivalente é de 79mm (50 X 1,58 = 79); numa Nikon, Sony ou Pentax, essa distância focal será de 75mm.
Numa câmara micro quatro terços, que usa um sensor 4/3 (a púrpura no diagrama), este coeficiente de multiplicação é 2, pelo que a mesma lente de 50mm equivale a uma lente de 100mm. Uma lente standard, ou normal, comporta-se, quando montada numa destas câmaras, como uma teleobjectiva. Nas novas Nikon 1, cujo sensor tem cerca de metade da área do padrão 4/3, esse factor é ainda maior: 2,7. A mesma lente de 50mm tem uma distância focal efectiva de 135mm. Está bom de ver que isto comporta uma vantagem - a possibilidade de fabricar lentes mais pequenas do que seria necessário no padrão 35mm. 
Na verdade, as lentes apenas funcionam de acordo com a distância focal nominal nas câmaras com sensor full frame (correspondente a 35mm ou 36 × 24 mm). Exemplos destas câmaras são as Nikon D3, as Leica M8 e M9 e as novíssimas Canon EOS 1D x. Esta equivalência é um factor que deverá ser levado em conta pelo adquirente de lentes, uma vez que a falta de correspondência entre as distâncias focais nominal e efectiva pode alterar por completo as características da lente quando montada numa determinada câmara: uma lente que, atenta a sua distância focal, pode ser considerada uma grande-angular, comportar-se-á como uma lente standard em certas câmaras, e uma lente standard pode tornar-se numa teleobjectiva. O que pode baralhar os cálculos do aspirante a fotógrafo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Que se passa com a Olympus? (Continuação)

Naquela altura era tudo sorrisos...
O folhetim Olympus Corporation promete desenvolver-se. Agora descobriu-se que a companhia pagou qualquer coisa como quinhentos milhões de euros em honorários a consultores antes da aquisição da Gyrus ACMI, empresa britânica que agora pertence ao grupo Olympus. Esta quantia é cerca do dobro do que o actual presidente executivo, Kikukawa-san, admitiu apenas há alguns dias. Tudo leva a crer, deste modo, que Michael C. Woodford tinha razão ao advertir o conselho de administração e pedir a exoneração de Kikukawa e de outro vice-presidente, e parece agora plausível que Woodford tenha sido afastado por saber demais. O conselho de administração invoca, para consubstanciar os conflitos culturais a que aludira, o facto de Michael Woodford ter o hábito de tomar decisões sem ouvir o conselho de administração e de comunicar directamente com os empregados, ignorando a cadeia hierárquica. Ainda bem que o fazia, pois de outro modo seria impossível tomar decisões.
Por outro lado, o modo como Woodford foi tratado depois do afastamento foi humilhante: minutos depois da deliberação de despedi-lo, informaram-no que já não tinha direito a automóvel da empresa, pelo que deveria tomar um autocarro para o aeroporto, obrigaram-no a entregar o apartamento e exigiram-lhe o cartão de crédito. Aviltante. Não sabia que a mentalidade empresarial japonesa era assim. Corrijo: espero que este tipo de atitude não seja característico das empresas japonesas.
Entretanto, Michael C. Woodford entregou os elementos que tinha em seu poder ao Serious Fraud Office, no Reino Unido, para que as transacções da Olympus fossem investigadas. Este expediente é de eficácia duvidosa, uma vez que me parece improvável que o SFO tenha poderes de acção contra os membros do conselho de administração da Olympus Corporation, cuja sede é em Tóquio, mas sempre poderemos ficar a saber melhor o que se está a passar.
Diante de tudo isto, quase sinto vergonha de ter uma Olympus. Pensar que parte do que gastei com material fotográfico da marca pode ter sido usado em negócios escuros! Claro que os cérebros que conceberam a E-P1 não têm culpa nenhuma, e, na verdade, a Olympus Imaging Corporation pesa apenas 16% no volume de negócios da Olympus Corporation - mas, mesmo assim, custa-me ver este escândalo a acontecer. Até à semana passada, esperava que a Olympus não vendesse a divisão de imagem; agora parece-me que essa venda era o melhor que podia acontecer à marca Olympus.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Que se passa com a Olympus?

É muito raro ver uma empresa de fotografia ser notícia e, quando tal acontece, raramente é pelos produtos que lança. Na Sexta-feira, 14 de Outubro, Michael C. Woodford, CEO (presidente executivo) da Olympus Corporation - o primeiro não japonês a desempenhar essas funções - foi despedido. Os membros do Conselho de Administração deliberaram destituí-lo sem sequer o ouvir. Disseram-lhe para apanhar um autocarro para o aeroporto, segundo o próprio. Para o seu lugar foi designado Tsuyoshi Kikukawa, que acumulará o cargo com o de presidente do conselho de administração.
A história por trás do despedimento de Woodford é confusa e de contornos obscuros. Aparentemente, Michael C. Woodford escrevera uma carta a Kikukawa na qual denunciava algumas aquisições potencialmente ruinosas e totalmente desnecessárias, o que terá feito o conselho de administração reagir despedindo Woodford. Contudo, o conselho de administração publicou uma nota invocando um conflito de culturas entre Woodford e o conselho, sugerindo que os seus métodos eram incompatíveis com a política da empresa. A verdade é que, nos oito meses em que Michael C. Woodford exerceu o cargo, os resultados líquidos da Olympus Europa GmbH se tornaram positivos, mas alguns especularam que a referência à diferença de culturas significava que Woodford se preparava para enveredar por uma política, tipicamente ocidental, de downsizing e despedimentos colectivos, à qual os membros do conselho de administração - todos eles japoneses - se opunham. Esta tese não tem fundamento em qualquer publicação ou declaração entretanto patenteada, embora seja plausível: afinal de contas, a Olympus alienara, ainda há pouco tempo - embora antes de Michael C. Woodford ter tomado o cargo de CEO - o importante negócio de imagiologia clínica.
Michael C. Woodford
Contudo, não é esta a versão de Woodford: segundo ele, a administração enveredara por uma política de aquisições incompreensível, e o despedimento foi a retaliação por ter exposto os negócios. Como se sugerisse que havia interesses ocultos por trás das referidas aquisições.
Não sei quem diz a verdade, uma vez que ambas as versões são plausíveis. Sei que as acções da Olympus Co. desceram 24% entre Sexta-feira e hoje, e que o escândalo tem recebido mais atenções na imprensa mundial do que o lançamento das novas PEN. O que significa que anda nas bocas do mundo pelos piores motivos possíveis, e isto não costuma ser prenúncio de coisas boas. Espero que esta história seja tirada a limpo: assim como as diferentes versões de Woodford e do conselho de administração parecem plausíveis (embora antagónicas), também não me custa admitir que Michael Woodford tenha resolvido vingar-se do despedimento através do lançamento de suspeitas infundadas (o que patentearia baixeza de carácter), tal como não me parece impossível aceitar que os membros do conselho de administração tenham despedido Michael C. Woodford por ter exposto negócios escuros (o que significaria que o conselho de administração pode ser um gang de delinquentes, quem sabe uma espécie de yakuza). Simplesmente, esta última hipótese seria demonstrativa de estupidez, uma vez que seria mais que previsível que Woodford denunciasse o que sabia quando fosse despedido. 
Francamente, não sei que pensar. Sei que a Olympus tem cometido inúmeros erros ao longo da sua história, e as aquisições desastrosas seriam apenas mais um acréscimo ao rol. Espero que isto não afecte a continuidade da subsidiária Olympus Imaging Corporation, porque seria uma pena que os erros dos administradores levassem ao fim de uma marca com quase cem anos. Seria também lamentável que a Olympus terminasse envolta em tamanha sordidez.
Mais sobre o olympusgate aqui:
http://video.ft.com/v/1223228352001/Ex-Olympus-boss-alerts-UK-authorities
http://www.bloomberg.com/quote/7733:JP
http://www.agenciafinanceira.iol.pt/mercados/olympus-accoes-bolsa-toquio-asia-mercado-accionista/1289881-1727.html
http://www.nytimes.com/2011/10/15/business/global/in-rare-move-olympus-fires-its-chief.html
http://graphics8.nytimes.com/packages/pdf/business/20111018/letter-text.pdf